Tropicália: a síntese tupiniquim

Acabo de chegar do cinema onde fui assistir ao documentário Tropicália, dirigido por Marcelo Machado. Ao sair da sala me deparo com uma chuvosa e apagada cidade. Vim pra casa no escuro. Postes sem luz, pessoas sem guarda-chuva.

Mas cheguei. E pouco depois a luz voltou. E agora estou aqui escrevendo este texto que na verdade nada tem a ver com essa minha trajetória de volta pra casa. Vamos ao que interessa então.

As contribuições do movimento tropicalista para a cultura e para a sociedade brasileira em todos os seus âmbitos são, diria eu, estratosféricas! Esse documentário, e o último disco de Tom Zé, Tropicália Lixo Lógico, são apenas algumas tentativas (muito bem sucedidas, creio eu) de tentar estudar, repensar e expor ao povo brasileiro, hoje, mais de 40 anos depois da eclosão do movimento, toda essa intensidade e subversão da Tropicália e do Tropicalismo (aqui vale uma breve distinção de conceitos, feita por Gilberto Gil no próprio documentário: a Tropicália não resume a um movimento, é uma expressão estética que surgiu no Brasil na década de 60 e que ainda hoje é viva e presente, já o Tropicalismo é um movimento, que vigorou nos anos de 1967 e 68 e terminou aí).

O documentário de Marcelo Machado começa com os exilados Caetano e Gil (“protagonistas” do filme), cantando num programa de TV em Lisboa, em 1969. O tom tristonho de Caetano afirmando veementemente que o movimento tropicalista naquele momento já havia acabado (como esclarecido acima) e que dali pra frente ele nada sabia, só sabia que teria de ir pra Londres, de certa forma já mostra um pouco do caráter fragmentário e aberto da Tropicália. Vejamos: o movimento tropicalista, à revelia de todas as suas qualidades, jamais se afirmou como um defensor strictu sensu das ideologias de esquerda, dos nacionalismos e afins, isso é abordado em algumas falas do filme e deixa claro que a aparente bagunça que foi a Tropicalismo na verdade era algo muito maior, que não se limitava a certas ideias prontas e fixas, mas buscava, por outro lado, uma maior aglutinação de vários elementos que julgava válidos serem abordados e mostrados.

Talvez por causa disso, durante o documentário momentos do movimento mostram os vários conflitos e rupturas deste: desde a fusão, na época totalmente vanguardista e inesperada, de uma orquestra com a guitarra elétrica num Brasil em plena ditadura (cena ocorrida num Festival da Record, na canção Domingo no Parque, de Gilberto Gil, acompanhado pelos Mutantes e pelo maestro Rogério Duprat), passando pelas polêmicas e desavenças de Caetano e Gil com os estudantes da USP, que julgavam que o movimento tropicalista teria se “rendido” à cultura pop e teria ido contra as lutas estudantis e afins (o ápice dessa polêmica é retratado no filme com a apresentação de É proibido proibir de Caetano Veloso, a letra dessa canção se auto explica) e chegando, enfim, até ao exílio de Caetano e Gil em Londres, onde ambos sentem “como se ter ido fosse necessário para voltar” e voltam para, no próprio filme, falar sobre suas impressões acerca daquele momento e se emocionarem bastante ao assistirem um vídeo com a “canção da volta”, Back in Bahia.

Outro ponto digno de ser destacado remete mais uma vez às polêmicas do Tropicalismo com os estudantes da esquerda uspiana. O movimento liderado por Caetano e Gil, nesse âmbito sócio-econômico, flutuava da esquerda para a direita e vice-versa. Existia o empresário Guilherme de Araújo, que no filme deixa claro que fez mesmo do Tropicalismo algo pop e comercial, televisivo e quiçá alienado, mas ao mesmo tempo aparece a figura de Rogério Duarte, que se considera um “desempresário” do movimento, por insuflar nos artistas ideais de contestação e rebeldia.

Como já foi dito acima, a Tropicália caracteriza-se, dentre outras coisas, pelo seu caráter fragmentário e isso faz dela algo maleável, sem uma ideologia e um engajamento propriamente ditos. Por outro lado, no entanto, o cancioneiro tropicalista está repleto de críticas e provocações ao Capitalismo, à cultura dominante e à várias outras estruturas da sociedade. O que acontece é que Caetano, Gil e cia. parecem nunca ter sentido a necessidade de uma criação estética que se importasse em primeiro lugar com os problemas sócio-econômicos da população, suas preocupações pareciam residir, em primeiro lugar, na própria criação artística, na liberdade e inventividade de tal coisa. Como dizem os versos de Tom Zé, interpretados pelos Mutantes no filme: “astronauta libertado, minha vida me ultrapassa em qualquer rota que eu faça!” E a rota do Tropicalismo não passava por nenhum dogmatismo ideológico.

Na última meia hora de filme, as principais “personagens” começam a aparecer como estão atualmente e não dá pra deixar de lado a “personagem” Tom Zé. Enquanto todos os outros grandes nomes da Tropicália falaram do movimento com certo saudosismo e lucidez, pois o tempo passou e tudo ficou mais claro de se analisar, Tom Zé, inquieto, destila todas as suas intensas e provocativas ideias sobre a Tropicália, o “braço cantado do pensamento que levou o Brasil da Idade Média para a segunda revolução industrial!”. Tom Zé fala ainda das influências que recebeu a Tropicália e de como ela lidou com isso.

A poesia e a antropofagia de Oswald de Andrade e do Modernismo da década de 1920, o Concretismo de Augusto de Campos, Décio Pignatari e cia., o teatro de José Celso Martinez, o cinema de Glauber Rocha, a Bahia e São Paulo, a África e a Europa, a malandragem e a erudição, tudo isso recheou e impulsionou a Tropicália.

Dentre as estratosféricas contribuições que a Tropicália deixou para o Brasil, muitas talvez nem sequer foram abordadas aqui. A imensidão tropicalista sugere várias outras análises e interpretações, no entanto, para me ater a uma delas e fechar o texto, retorno ao título e afirmo que, segundo minha interpretação, a Tropicália é uma SÍNTESE de toda a efervescência cultural, de toda a inquietação existencial e política do Brasil dos fins da década de 60.

Como sugere o título do livro de Tom Zé que também fala sobre essa temática, Tropicalista Lenta Luta, e a canção de Caetano que fecha o documentário (It’s A Long Way), a Tropicália, apesar de toda a rapidez do movimento tropicalista, ainda se demora, lenta, e vê um longo horizonte pela frente: sua libertação criativa tem o potencial de continuar influenciando e reverberando na nossa cultura e, em última análise, prolongar as ideias daqueles jovens baianos que foram para São Paulo em meados da década de 60.

Antes que a luz apague de novo, posto aqui essa breve análise sobre o documentário, que já há algum tempo me despertava interesse e que, apesar de ter focado bem mais no Tropicalismo e não na Tropicália em si, constitui um belo documento para pesquisa e reflexão acerca deste marco na história brasileira.

QuimeraTube #68

E esse disco novo do Gui Amabis além de tudo (e esse tudo é muita coisa) ainda tem uma capa “carnívora” e magnífica:

O irmão esquecido

O post de hoje é uma republicação do post que eu acabei de publicar lá no Sempre um Livro. Estamos lendo a obra O fazedor, de Jorge Luis Borges e um pequeno poema contido na obra citada me despertou várias ideias, que eu tentei articular no presente post. É apenas uma hipótese, uma interpretação minha que ainda está surgindo, mas que já fica registrada como motivadora de discussões acerca do tema:

Ver a ciência sob a ótica da arte e a arte sob a ótica da vida significa dizer que o problema da ciência não pode ser visto no interior de um campo contaminado pelas interpretações reativas e negativas; mas deve ser investigado a partir de um solo não científico: o da vontade de potência. Considerar a ciência sob a ótica da vida significa apreciá-la por sua força criadora”.1

Não conheço muito bem a biografia nem a bibliografia do escritor argentino Jorge Luis Borges. Até agora o único livro que li dele foi fazedor.No entanto, não sei bem porquê, Borges é um daqueles autores que, principalmente se você está envolvido num ambiente acadêmico, como é o meu caso, você sempre ouve falar e, querendo ou não, fica com aquela vontade de ler e conhecer.

Pois bem, com a leitura de fazedor enfim conheci a escrita de Borges. Nós vários poemas, contos e simples frases que compõem este livro, consegui perceber que, antes de mais nada, o escritor argentino possui uma sensibilidade ao lidar com as palavras que te jogam no texto e lhe fazem não querer sair dali tão cedo. É um texto que, segundo minha interpretação, é feito para ser degustado como um bom vinho, para ser prolongado como uma boa conversa num café com os amigos.

Dentre os vários textos que compõem fazedor, um em especial me atraiu demais e me fez pensar em um problema que, segundo minha leitura, é, por excelência, de ordem epistemológica.

Deixe-me explicar, para as coisas ficarem mais claras. O referido texto éarte poética, um poema composto por sete estrofes e que trata justamente do seu título, da arte poética, de como ela se dá, de como ela se mostra.

Ora, você leitor pode então me perguntar: o que a arte poética tem a ver com a epistemologia? É que no processo de ruminação do poema (pra se ler Borges a “ruminância” é qualidade indispensável), num lento e preguiçoso ônibus que cruzava as estradas de Minas Gerais, pensei em uma metáfora que acabou levando o poema para essa ordem epistemológica a qual aludi acima.

Comunicar-se via metáfora é sempre uma tarefa delicada e complicada, pois a metáfora aceita vários níveis de entendimento e nem sempre o “metaforador” consegue ser compreendido de uma maneira satisfatória. Mesmo assim vou me arriscar e espero conseguir atingir o meu telos.

Imagine dois irmãos, ambos na mais terna infância, que começam a brigar em virtude de um brinquedo, que ambos gostavam muito de brincar e que aparentemente sumiu. Um acusa o outro de ter se apoderado e escondido o brinquedo, no entanto, nem um nem outro de fato fez tal coisa e assim o que prevalece é essa disfonia ad infinitum.

Até que aparece um terceiro e desavisado irmão, que nem se importava tanto com o motivo da briga dos outros dois irmãos e, sem querer, encontra o tal brinquedo. Enquanto a briga entre os outros dois irmãos continua, o terceiro irmão fica ali, esquecido, com o brinquedo nas mãos, mas sem saber bem o que fazer com ele.

Essa foi a metáfora que construí após a leitura de arte poética. Inevitavelmente vou tocar em um assunto de uma relevância e de uma complexidade e multiplicidade de interpretações dentro das ciências, que, também inevitavelmente, não será esgotado nesse pequeno texto. Mas quero pelo menos tentar apontar caminhos nos parágrafos seguintes, com uma breve explicação da metáfora dos parágrafos anteriores, para discussões acerca do tema.

De maneira bem pragmática e pouco misteriosa (isso não é muito interessante em um texto, mas vá lá) digo que na metáfora acima os dois irmãos brigões são a Filosofia e a Ciência, amantes do brinquedo, que é o conhecimento. O irmão esquecido é a Poesia.

Como disse acima, o texto de Borges foi o estopim para essa reflexão e a construção dessa metáfora, no entanto, essa ideia já vinha sendo cultivada dentro da minha cabeça há um tempo. Estudando Filosofia da Ciência e própria Filosofia em si, cada vez mais fui percebendo esse verdadeiro embate entre a Filosofia e a Ciência, e creio que dá até pra expandir essa briga (e aí a metáfora ganharia um novo irmão), para dentro da própria Filosofia, no embate entre as filosofias ditas sistemáticas e “fragmentárias”. Enfim, nos campos em que, por definição o conhecimento é o objeto e objetivo, por maiores que sejam os avanços e as conquistas, muita coisa parece não ser conseguida em virtude de desavenças e desencontros.

Aí surge a Poesia. A tarefa (se é que ela tem uma tarefa) dela não é a busca pelo conhecimento. A Poesia é arte e se ocupa com outras instâncias, não necessariamente, nem principalmente com o conhecimento, porém, isso não impede a Poesia de também se deparar com questões epistemológicas, e conseguir reinterpretar essas questões de modo a melhor resolvê-las, a apontar caminhos outros.

Estamos então, caro leitor, no cerne daquilo que falei um pouco mais acima: o despertar de um problema epistemológico através da leitura de um poema de Borges que fala sobre a arte poética.

Retornando à metáfora: parece que o mais interessante a se fazer, para todos os irmãos, é dar um fim à briga entre os dois primeiros e fazê-los perceber que o brinquedo está com o terceiro irmão. Este saberia melhor o que fazer com o brinquedo, afinal estaria em contato com os dois irmãos que já conheciam e gostavam de brincar com ele, e aqueles teriam de volta o tão desejado brinquedo.

Ou seja, longe de parecer uma solução simplista, ou que busque esgotar o assunto, penso que um contato mais forte da Poesia, e da arte poética, com as áreas que por excelência perseguem o conhecimento seriam de extrema validade para todos. Não quero com isso dizer que a solução de todos os problemas epistemológicos do universo está na Poesia, seria muita pretensão e ingenuidade da minha parte.

O conhecimento científico requer toda precisão e solidez e nisso, está claro, a Poesia não pode e nem deve interferir, porém, o conhecimento (e aqui esqueçamos as repartições que com o passar dos séculos foram feitas dentro do conhecimento. Não quero falar de um conhecimento estritamente científico, filosófico e/ou poético, mas sim de um conhecimento maior, que abarque todos esses) pode sim receber o auxílio luxuoso da Poesia.

A Poesia, entretanto, está esquecida, como o irmão da metáfora. E longe das discussões “sérias” sobre o conhecimento, ela, sem compromisso algum, consegue, livre de preconceitos e limitações, chegar até alguns pontos que os embates entre Ciência e Filosofia muitas vezes impedem essas duas áreas de chegar.

Não deve-se deificar a arte e a poesia, mas ao mesmo tempo não deve-se menosprezá-las e encará-las apenas como uma atividade entre outras, totalmente a margem de tudo o que é importante e necessário para o conhecimento.

As conquistas epistemológicas, se temperadas com a sensibilidade e a leveza da Poesia tendem a ser mais frutíferas e verdadeiras. Preconceitos, pressuposições e temeridades muitas repudiam essa tese. Por quê?

A pergunta fica e eu encerro o texto com um trecho do poema que foi o motivo e a razão do próprio texto:

Ver en el día en el año un símbolo

de los días del hombre de sus años,

convertir el ultraje de los años

en una música, un rumorr un símbolo,

ver en la muerte el sueño, el ocaso

un triste oro, tal es la poesía

que es inmortal pobre. La poesía

vuelve como la aurora el ocaso.2

REFERÊNCIAS BIBLOGRÁFICAS

BORGES, Jorge Luis. Ofazedor. Tradução: Josely Vianna Baptista. – São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Título original: El hacedor (1960).

DIAS, Rosa Maria. Nietzsche, vida como obra de arte. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

1 DIAS, 2011. p. 55.

2 BORGES, 2008, p. 148.

QuimeraTube #67

Pra começar o mês bem!

“And out spring some sparkling thoughts…”

Le Rouge et Le Noir #21

Ontem um grito entalado na garganta dos rubro-negros foi colocado pra fora. Naquela que talvez será a partida mais marcante e mais emblemática, ou pelo menos uma das, da temporada, o Flamengo, no reencontro com Ronaldinho após sua ida para o Atlético-MG, venceu o Galo por 2 x 1, num Engenhão com quase 40 mil pessoas em plena quarta-feira fria e chuvosa e sentiu de novo, o gosto doce da vitória, com um tempero de vingança pra cima do agora R49.

O jogo em si foi um capítulo a parte nessa temporada cheia de decepções e resultados ruins que o Flamengo vem passando. A torcida, como é de costume, compareceu em massa e carregou o time durante os 90 minutos. O time, por sua vez, respondeu positivamente a todo esse apoio: jogou de uma maneira mais lúcida e mais compacta do que vinha jogando; foi com certeza a melhor atuação no comando de Dorival, de toda a equipe e com os destaques individuais para a dupla de ataque, que fez o que atacantes devem fazer: gol! E também pra Wellington Silva, que com a passagem de Léo Moura para o meio campo assumiu de vez a lateral direita.

No entanto, creio ser válido relacionar esse jogo em particular com outros dois momentos maiores. O primeiro, já citado no primeiro parágrafo é toda a ambientação e significação que esse jogo recebeu, em virtude de ter marcado o reencontro de Ronaldinho com o Flamengo e sua torcida. Independente dos motivos que levaram o camisa 49 do Atlético sair do Flamengo, o que ficou, em relação à grande parte da torcida foi uma mágoa e uma vontade de vingança (no bom sentido, futebolisticamente falando). E ontem essa vingança foi consumada. O futebol não é e nunca foi parâmetro pra racionalidade, então quando momentos assim acontecem, ainda que efêmeros e fugidios, é uma sensação muito boa que toma conta dos corações e das mentes do torcedores.

Outro ponto que não dá pra ficar sem ressaltar é a leve guinada que o Flamengo deu ao vencer os dois Atléticos em sequência. Duas vitórias seguidas é um evento raro na atual temporada e nesse momento do campeonato tornaram-se ainda mais raras e importantes. De primeiro time acima da zona de rebaixamento até uma semana atrás, o Flamengo agora já ocupa a décima posição e apesar de sonhos mais altos (leia-se G4) serem bem difíceis de conquistar, uma nítida evolução aconteceu nessas últimas rodadas e jogando o que jogou o Flamengo não terá nenhum risco de rebaixamento em pouco tempo. O clássico contra o Fluminense na próxima rodada será um bom teste pra provar se toda a evolução desses últimos dois jogos é mesmo real ou não.

Enfim, a sensação boa de sair com a camisa rubro-negra na rua, mesmo nesse frio, é muito boa, mas não dá pra se esquecer de que no geral a atual temporada vem sendo bem abaixo das expectativas. Acredito que o melhor a se fazer é comemorar bastante vitórias como a de ontem e manter os pés no chão em relação ao futuro.

SRN

QuimeraTube #66

A resposta de Pedro Luis e a Parede pra uma pergunta muito frequente (temperada com muito batuque e muito suingue):

Poética Quebrada

Esse é um poema que passou alguns meses de molho antes de ser tirado do forno. Sinceramente não sei mais quem são aqueles que dizem os versos finais…

Um poeta ataráxico e racional
não é, de fato, um poeta.
No entanto, as nuances da vida
– algumas mágicas, outras nem tanto –
podem fazer o poeta perceber
que em algum momento
até mesmo o mais passional
dos poemas de amor
precisa daquele instante único
de calma. Calma e nada mais.
Essa matéria bruta de amor e tesão
que parece querer explodir a caneta
e incendiar o papel, estilhaçando-o
e não deixando celulose nenhuma pra trás!
Ah, essa matéria bruta de tesão e amor
só ganha vida e forma
se devidamente moldada, esculpida.
A castração também pode ser poética.
A desilusão pode ser epifânica.
E o poeta que outrora falava de paixão
hoje só consegue enxergá-la com as lentes da distorção
E o poema que outrora era canção tola e desvairada
hoje é expressão de alguém que viveu
cresceu, andou, gozou e descobriu.
Descobriu que a caminhada não acaba tão cedo.
E essa descoberta significa andar.
Andemos pois, a um rumo incerto e obscuro.
Somos vontade e desapego
Desassossego e confusão
Somos SIM e não queremos ser NÃO.

Rogério Arantes

QuimeraTube #65

“Efêmera” ou “Tudo Tanto”? A dúvida sobre qual dos dois discos da Tulipa é mais bacana está cada vez mais viva nos meus ouvidos!

Víbora é uma forte contribuição para o segundo:

Impressões acerca da arte brasileira

“A arte deve antes de tudo e primeiramente embelezar a vida, portanto, fazer com que nós próprios nos tornemos suportáveis e, se possível, agradáveis uns aos outros: com essa tarefa em vista, ela nos modera e nos refreia, cria formas de trato, impõe aos indivíduos leis do decoro, do asseio, da cortesia, de falar e calar no momento oportuno. A arte deve, além disso, ocultar ou reinterpretar tudo o que é feio, aquele lado penoso, apavorante, repugnante que, a despeito de todo esforço, irrompe sempre de novo, de acordo com o que é próprio à natureza humana: deve proceder desse modo especialmente em vista das paixões e das dores e angústias da alma e, no inevitável e irremediavelmente feio, fazer transparecer o significativo. Depois dessa grande, e mesmo gigantesca tarefa da arte, a assim chamada arte propriamente, a das obras de arte, é um apêndice. Um homem que sente em si um excedente de tais forças para embelezar, esconder e reinterpretar procurará, por último, descarregar-se desse excedente também em obras de arte (…) – Mas, normalmente, começam a arte pelo fim, penduram-se à sua cauda e pensam que a arte das obras de arte é a arte propriamente dita, que a partir dela a vida deve ser melhorada e transformada – tolos de nós! Se começamos a refeição pela sobremesa e degustamos doces e mais doces, o que é de admirar, corrompemos o estômago e mesmo o apetite para a boa, forte, nutritiva refeição a que nos convida a arte!”

A longa citação que abre esse post é uma interessante reflexão de ninguém mais, ninguém menos que o hoje famoso pensador alemão Friedrich Nietzsche. Esse trecho do parágrafo 174 de Humano, demasiado humano, Miscelânea de Opiniões e Sentenças (1879) nos oferece uma concepção acerca da arte bem avessa àquelas concepções acerca da arte que possui o senso comum.

A arte para Nietzsche, nesse fragmento (quando falamos do filósofo de bigode imponente é crucial ressaltar que falamos daquele determinado momento, sua escrita fragmentada e em aforismos possui, por isso mesmo, vários momentos e de forma alguma pretendo analisar o pensamento nietzscheano como um todo nesse singelo post) é entendida como andando junto da existência do homem, de seu agir no mundo, ela, portanto, antes de qualquer coisa, transcende o nível das obras e produções artísticas, isso virá depois e só então as obras de arte deverão ser saboreadas, ou seja, aproveitando a alegoria utilizada por Nietzsche na própria citação, só depois da comida (que é fazer da existência uma espécie de arte) que virão as sobremesas (as obras de arte propriamente ditas).

Aí você lê essa citação e esses parágrafos, olha para o título do post e pergunta: e daí?

E daí que nos últimos dias 30 e 31 de agosto o blogueiro que vos escreve esteve presente em três concertos musicais (todos de música genuinamente brasileira) que lhe fizeram ter a sensação de que as mulheres e homens que propiciaram esses concertos, mesmo que sem saber, tomam a arte de uma maneira bem nietzscheana, não “penduram-se à sua cauda e pensam que a arte das obras de arte é a arte propriamente dita, que a partir dela a vida deve ser melhorada e transformada”, pelo contrário, fazem das suas obras de arte uma nutritiva e inventiva construção!

Na quinta, dia 30, aqui mesmo em Juiz de Fora, no Teatro Pró-Música, fui assistir o “Ao Que Vai Nascer: Clube da Esquina nº 1 – 40 anos”. O show, em homenagem ao aniversário de quarenta anos do disco “Clube da Esquina nº 1” foi realizado pelos alunos da primeira turma da Universidade Bituca de Música Popular, de Barbacena-MG.

Um Pró-Música lotado viu uma grande banda e oito cantores tocarem juntos, intercalarem-se, misturarem-se e irem apresentado o repertório de um dos maiores discos da história da música popular brasileira. Entre algumas canções, pequenas histórias acerca do próprio Clube da Esquina e de uma e outra canção em especial, como “San Vicente” por exemplo, foram contadas por um dos integrantes da banda.

Sentei-me ao lado de uma senhora, numa das primeira fileiras do teatro e durante o show não pude deixar de perceber as reações dela a cada nova canção executada. Visivelmente emocionada, ela cantava e vibrava e chegou a aplaudir de pé várias das canções. Quando “San Vicente” terminou de ser tocada ela virou-se pra mim e disse: “muito bonito o show, né? Todos eles cantam muito bem! E sabe, tem músicas aí que emocionam mesmo a gente…”.

Nessa simples fala da Dona Cecília (fiz questão de me apresentar e também perguntar o nome dela) eu consegui perceber um pouquinho da força das canções do Clube da Esquina. Dava pra ver que tudo era muito verdadeiro e sincero, e aquela mistura da música, da arte e da religiosidade mineiras encontravam-se ali, unidas, abraçadas, comungadas. No meu caso em específico, “Paisagem na Janela” foi a música que mais me tocou.

Na sexta, dia 31, viajei para Ouro Preto. Fiquei nessa cidade linda, que sempre me traz ótimas recordações por volta de 24 horas e que dia foi esse! É que acaba hoje o MIMO (Mostra Internacional de Música de Olinda) lá em Ouro Preto. Pela primeira vez esse festival é sediado lá e de quinta até hoje inúmeras atrações tomam conta da cidade histórica.

Por vários motivos fiquei lá somente na sexta, e depois de por acaso ou por sorte me encontrar com Jards Macalé e dar muitas risadas junto com essa lenda da MPB, assisti mais dois shows sensacionais.

Primeiro, Egberto Gismonti e seu filho Alexandre Gismonti tocando na Casa da Ópera, aconchegante teatro de Ouro Preto. Grandes nomes da música instrumental brasileira, eles transparecem uma lucidez absurda! Sério mesmo, parece que se dependesse do violão deles pra solucionar todos os problemas do mundo, eles seriam solucionados com imensa tranquilidade.

Brincadeiras a parte, a dupla tocou várias canções, mostrando uma sintonia fantástica e interagindo bastante com o público. Foram algumas das falas de Gismonti pai que me inspiraram inicialmente a escrever esse post. Ele foi enfático ao afirmar a importância de Minas e de Ouro Preto para a música brasileira como um todo e também ao afirmar que essa, e todas as suas íntimas relações com o folclore tupiniquim constituem uma arte singular, forte, que reinterpreta e faz transparecer o significativo.

Por fim e pra coroar os dias repletos de arte e de pulsação brasileira um cara que dispensa apresentações: Tom Zé!

A noite fria e de lua linda da Praça Tiradentes foi totalmente resignificada com o show desse “senhor” de mais de 70 anos, que, em cima do palco, possui a alegria de uma criança e muito mais potência, pique e suingue que muito jovem por aí.

Tom Zé apresentou as músicas de seu mais recente trabalho, “Tropicália Lixo Lógico”, e também algumas de suas clássicas canções como Ogodô, Ano 2000, Cademar, Augusta, Angélica e Consolação e por fim, claro, a dançante Xique Xique. Se for falar de todas as minúcias de cada canção e cada entre-canção (porque além de tudo Tom Zé interage excepcionalmente bem com o público) ficaria aqui horas escrevendo e esse não é o intuito. A verdade é que as palavras parecem faltar pra descrever o que foi esse show do Tom Zé! Chamar de gênio parece pouco, chamar de doido parece redundante. A principal aparência contudo é aquela que faz você sair da Praça Tiradentes mais leve, mais cristalino. Sabendo que toda a inventividade e a potência da música brasileira estão em boas mãos, se essas mãos são as de um homem que botou rabo, calcinha e o escambau e fez um show, no mais amplo e melhor sentido da palavra.

Na viagem de volta pra Juiz de Fora ontem, vim pensando um pouco em tudo isso que rolou nesses dois dias. Resolvi escrever o post pra dar uma pincelada sobre tudo, até porque esgotar todas as impressões desses dois dias não é tarefa fácil, e acredito que as principais constatações que eu pude retirar, já no intuito de concluir o post, foram essas: a arte pode ser encarada de várias óticas, ser entendida de várias maneiras, no entanto, se pensarmos na arte como imbuída na existência, a exemplo do que pensa Nietzsche no fragmento citado, e por isso o fragmento ter sido citado, ela ganha uma importância maior e também passa a ser algo muito maior e mais válido, quer dizer, a arte não é apenas um refúgio do confuso e bagunçado mundo, a arte não é apenas um anexo ou um detalhe, a arte é antes de mais nada uma possibilidade de mudança existencial efetiva, uma transgressora!

A segunda grande constatação pode até parecer um clichê, mas faz cada vez mais sentido: por que não olha para o lado e tentar perceber a riqueza que se encontra ali? A música e a arte brasileiras, possuem uma fusão ritmos, elementos e visões de mundo extremamente criativas e bem trabalhadas, ver um Tom Zé no palco (em especial o Tom Zé) é seu corpo e sua mente que dançam, numa outra frequência, num outro batuque, que não o pragmático, fastidioso e chato do dia-a-dia, das canções prontas, da arte agarrada a lugares comuns, sem sal, sem gosto. E o que são Tom Zé, Egberto Gismonti, Clube da Esquina, Jards Macalé e tantos outros nomes senão recortes da grande e forte arte brasileira?

Coruja de Minerva #07

O post de hoje da série Coruja de Minerva é uma espécie de resenha que fiz – nos moldes acadêmicos, mas sem qualquer obrigação – sobre um livro que foi, literalmente, um achado. O livro em questão é Introdução ao filosofar: o pensamento filosófico em bases existenciais, do autor gaúcho Gerd Bornheim.

O ato de filosofar

Resenha de: BORNHEIM, Gerd A.. Introdução ao filosofar: o pensamento filosófico em bases existenciais. 6ª ed. Rio de Janeiro: Globo, 1983.

Gerd Bornheim, neste ensaio que originalmente serviu como tese para concurso à livre-docência[1], nos coloca um problema que muitas vezes passa despercebido, ou nem chega a ser colocado como um problema: quais são os caminhos, as inquietações existenciais e as motivações que levam o filósofo a filosofar?

No capítulo inicial deste ensaio que se tornou o livro sobre o qual nos debruçamos, o autor coloca o problema supracitado no parágrafo anterior e nos mostra a importância de questionar esse problema, por um viés existencial, não se importando se o pensamento do filósofo não leve em conta esse aspecto. É por isso que Bornheim cita o exemplo de Descartes: o filósofo francês em momento algum dentro de sua filosofia formulou um pensamento que possa ser chamado de existencial, no entanto, teve um impulso inicial existencial para construir sua filosofia.

Partindo desse exemplo, o próprio autor especifica, de uma maneira bastante profícua a tarefa que se propõe na presente obra:

O estudo da consciência filosófica, desde a sua etapa ingênua e pré-filosófica até o despertar para o problema do sentido da realidade, acompanhando as etapas básicas e necessárias de seu desenvolvimento, é o que se propõe, mais especificamente, o autor dessas páginas.[2]

Ainda no primeiro capítulo, o autor apresenta, de maneira mais ampla, o movimento dialético que ele percorre durante o livro, especificando cada momento deste movimento: a admiração ingênua (gênese do filosofar), seguida de um comportamento dogmático, a ruptura desse primeiro momento, através da experiência negativa, que pode se manifestar de várias maneiras e é marcada pela dúvida e pela crítica e, por fim, a chamada “conversão filosófica”, síntese do movimento dialético, que seria, de fato, o ato de filosofar.

Durante o livro, cada um desses momentos é exemplificado e detalhado, será este também o mesmo percurso da presente resenha. Refazendo o caminho do autor pretendemos mostrar a importância dessa “conversão filosófica” para qualquer filósofo.

Ainda no primeiro capítulo, Gerd Bornheim nos fala um pouco, remontando-se às filosofias de Platão e Aristóteles, do principal tema dos dois capítulos seguintes, aquele que ele considera uma atitude fundamental para o filosofar: a admiração. Com o seu caráter de abertura ao mundo, a admiração constitui um movimento positivo do homem, movimento que dá sentido à realidade e coloca no homem o gérmen filosófico.

No entanto, dentro da admiração, o autor percebe problemas, que não fazem dela, unicamente, a resposta para o problema aqui colocado. A admiração “pura” é ingênua, ou seja, quando se está admirado com alguma coisa, a princípio, também se está num gesto ingênuo, isso gera no homem que está admirado um comportamento dogmático, pré-crítico e, assim, ainda não o faz capaz de filosofar.

A análise desse comportamento dogmático do homem é o tema central do terceiro capítulo. Com a admiração o homem consegue enxergar sentido no mundo. Porém, permanecer numa visão extremamente confiante e otimista nesse sentido, paralisa o homem, diminui o seu horizonte, que fica como que aprisionado em um único e irrevogável sentido, em uma visão de mundo pronta e fechada. A postura dogmática, acima de tudo, tende a propiciar sempre uma perspectiva pragmática e, porque não, utilitarista, acomodando-se sempre em uma segurança fundamental, em um sentido que garanta todo o resto.

Não é sem propósito que o autor conclui que: “o homem só abandona a postura dogmática a partir do momento em que julgar, por razões suficientemente radicais, que a realidade, basicamente, deixou vacilar ou perdeu o seu sentido[3]”.

Para chegar a esse ponto e, posteriormente, conseguir transcendê-lo, o homem necessita de uma experiência de ruptura, que pode se expressar de várias formas e é notadamente marcada pela crítica e pela negatividade.

É a chamada experiência negativa, segundo momento do grande movimento dialético proposto na obra, tema principal dos capítulos quatro, cinco e seis.

No capítulo quatro, o autor nos situa no problema da experiência negativa. E através dela e, somente através dela, que o homem consegue transpor as amarras da dogmaticidade e chegar a um outro momento. Embora a experiência negativa tenha sido pensada e ponderada durante toda a história da filosofia, é no pensamento do século XX que ela terá de fato uma importância quase que central:

A valorização da experiência da negatividade invadiu o pensamento contemporâneo. A conseqüência [sic] são análises extremamente lúcidas e penetrantes, que põem [sic] à disposição do pesquisador um material imenso. Às vezes, contudo, o valor da experiência da negatividade é exacerbado, passando a valer, com maior ou menor intensidade, como um absoluto, advindo daí o problema do niilismo, uma das questões centrais da tão discutida crise contemporânea.[4]

Disso decorre que, a característica básica da experiência negativa, antes de tudo, é o seu caráter egocêntrico, pois, ao contrário da admiração, onde o homem vê no mundo algo que lhe dê sentido, a experiência da negatividade leva o homem para dentro de si mesmo.

O autor então divide, no capítulo cinco, sem a pretensão de nenhuma exatidão, mas de ilustração, quatro diferentes posturas assumidas dentro da experiência da negatividade, a saber: a postura de passividade intelectual, de atividade intelectual e, da mesma forma, de passividade existencial e atividade existencial.

A consciência da ignorância e a dúvida (seja ela cética ou metódica) configuram os dois tipos de experiência negativa intelectual, sendo aquela passiva e esta ativa. Para explicá-las melhor o autor utiliza exemplos como os de Husserl e Descartes.

Já as experiências negativas existenciais são ilustradas pela angústia e pela revolta. A primeira, passiva, é explicada através da personagem Antoine Roquentin, protagonista do romance A Náusea, de Jean-Paul Sartre. A segunda, ativa, é explicada através da revolta metafísica, de Albert Camus.

Esses tipos de experiências negativas citados possuem certas nuances e particularidades, que foram devidamente exploradas pelo autor no decorrer do texto. Como nosso objetivo na presente resenha é uma visão panorâmica da obra e foca no movimento dialético como um todo, que é o fio condutor do livro, não entraremos nas nuances e particularidades de cada experiência negativa.

O que se faz necessário para o nosso propósito é o seguinte: qual é a importância da experiência negativa para o ato de filosofar? Por que a experiência negativa se coloca como o passo seguinte, após a admiração ingênua e o comportamento dogmático do homem?

O autor nos dá indícios das respostas para essas questões no capítulo seis. A essência dessa chamada experiência negativa, em qualquer de seus âmbitos e categorias é a separação, a ruptura, a negação.

Posto isso, as experiências da negatividade se mostram como um passo necessário para se desenvolver o espírito crítico, os questionamentos e inquietações, momento crucial para o filosofar, afinal, sem essa tomada de postura de negação e crítica ao que é dado não se faz filosofia.

No entanto, a experiência negativa não é algo assim tão simples, muitas vezes – o autor nos alerta para isso – ela não se torna apenas um momento dialético na caminhada para a síntese, o ato de filosofar, ela se configura como uma quebra do movimento dialético. Isso se dá quando o homem mergulha de tal maneira nela, que se fecha aí, a consequência final disso não é outra que não o niilismo.

Porém, não é exatamente a saída niilista que é buscada aqui e sim a “conversão filosófica”, por isso o autor nos diz:

Se através da experiência negativa se verifica uma perda do mundo, esta mesma experiência possibilita a abertura do horizonte para uma reconquista do mundo. Tal reconquista, por sua vez, só é possível na medida em que se ultrapassar a experiência da negatividade, vencendo o egocentrismo que constitui a sua alma. Pois o característico da experiência da negatividade é tornar o homem prisioneiro de seu próprio inferno, limitando-o à sua particularidade. E o único caminho para vencer essa prisão radica num ato de conversão espiritual, numa autêntica metanóia [sic], no sentido de estabelecer-se uma abertura para a realidade, superadora de toda experiência negativa, descentralizadora do egocentrismo.[5]

Chegamos então, enfim, ao capítulo sete: A conversão filosófica. É neste capítulo final que Gerd Bornheim chega à conclusão de sua tese principal, é aqui que o movimento dialético se concretiza. Tanto a admiração quanto a experiência negativa possuem suas características filosóficas. Entretanto, ambas também possuem limitações que só devidamente repensadas podem ser eliminadas. Depois do filtro crítico da negatividade a admiração pode possuir estatuto filosófico, da mesma forma que, a experiência da negatividade, tocada por uma admiração que não seja ingênua pode ser superada, livrar o homem do egocentrismo e abri-lo novamente para o mistério do mundo.

Após esses movimentos se dá a conversão filosófica. O homem então pratica um ato que, justamente por ter sido existencialmente assumido e vivido, requer responsabilidade, decisão. Assumir a filosofia como tarefa, intensamente.

Podemos, assim, afirmar que o espírito crítico traz em seus lábios tanto o fel da negatividade quanto o sabor do desvelamento do real. Se, de um ponto de vista genético, mergulha na experiência negativa, o que lhe dá dimensão filosófica, porém, é o permanecer disponível ao mistério do real. Neste sentido, pode-se compreender a passagem da indiferença ontológica para a problemática da diferença ontológica, isto é, todo o comportamento que faz o homem transcender a sua dogmaticidade relativa ao fundamental.[6]

O autor termina sua obra mostrando, de maneira bastante clara, como o movimento dialético proposto e defendido por ele durante a mesma é completado e como é esse movimento dialético que mostra a ascensão do homem à filosofia. Esse processo é, de fato, existencial, passa pelas vivências e inquietações do homem que filosofa, independente de qual seja a filosofia que saia daí.

Outro ponto válido a ser ressaltado é que em nenhum momento da obra, Gerd Bornheim propõe que a tese defendida por ele seja tomada como uma espécie de guia ou manual para se filosofar. Não! As possibilidades de o homem permanecer no comportamento dogmático ou se fechar na experiência da negatividade existem e podem levar a outros caminhos que não a filosofia e até mesmo a conversão filosófica pode gerar pensamentos completamente díspares. O essencial e indispensável é conseguir perceber que o ato de filosofar só é transparente quando transcende. A obra e a nossa resenha terminam assim:

A Filosofia é uma ocupação do homem, que encontra nele o seu ponto de partida como também o seu ponto de chegada. Contudo, o homem não pode ser compreendido como uma realidade reduzida ou fechada sobre os seus próprios limites. Neste sentido, podemos dizer que o homem não é a medida do homem, pois a fidelidade à sua própria essência só é compatível com um comportamento cujas raízes se encontram no sentido da abertura, de disponibilidade, de consentimento admirativo ao ser. Consentindo ao ser, realiza-se o homem como liberdade e como inteligência. O ser é, pois, a medida do homem e do filosofar.[7]


[1] Cf. Advertência In.: BORNHEIM, Gerd A.. Introdução ao filosofar: o pensamento filosófico em bases existenciais. 6ª ed. Rio de Janeiro: Globo, 1983.

[2] BORNHEIM, 1983, p. 4.

[3] BORNHEIM, 1983, p. 39.

[4] BORNHEIM, 1983, p. 54.

[5] BORNHEIM, 1983, p. 78-9

[6] BORNHEIM, 1983, p. 94.

[7] BORNHEIM, 1983, p. 100.