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Inclinação Literária #06 – A Filosofia Erótica

O sexto e último post do ano da série Inclinação Literária é especial. Pois pela primeira vez (e talvez também pela única vez) falará um pouco sobre um livro escrito por um autor anônimo.

Em pleno século XVIII surgiram na Europa alguns romances que insinuavam uma certa ligação da Filosofia com o erotismo e afins. Falando assim pode até parecer algo muito vago e estranho, mas vamos nos aprofundando aos poucos.

Falarei hoje de Teresa Filósofa.

A obra em questão foi um best-seller na Europa do século XVIII, como já disse é de um autor anônimo, mas muitos atribuem a autoria do livro à Jean Baptiste de Boyer, o marquês d’Argens.

A obra é dividida em três partes: a primeira fala das memórias de Teresa, onde a mulher que dá nome ao livro conta sobre o Padre Dirrag e suas perversões sexuais com a Srta. Eradice e sobre o relacionamento erótico-filosófico que teve com o Abade T. e a Sra. C.

Na segunda parte da obra Teresa nos conta sobre Bois-Laurier, uma prostituta que dá abrigo a Teresa depois que esta havia saído do convento. Novas perversões sexuais são retratadas e o amadurecimento de Teresa também se faz presente.

A terceira e última parte da obra é a continuação da história de Teresa, aqui são feitas reflexões sobre a felicidade e o “defloramento” (termo usado na primeira linha do livro). Teresa finalmente se entrega ao Conde (pra quem os relatos da obra foram dedicados) e fala sobre Deus e o agir humano.

A obra toda é dividida em micro-capítulos, que prendem a atenção do leitor.

Me ative primeiro a este aspecto mais formal da obra, falo agora mais propriamente daquela indagação colocada no início do post: Teresa Filósofa é Filosofia de fato?

Isso é algo que pode ser muito polêmico e controverso, é realmente uma faca de dois gumes. Por um lado podemos sim dizer que Teresa Filósofa é Filosofia, afinal o livro tem um arcabouço filosófico, utiliza-se em especial da filosofia de Thomas Hobbes e até pela ambientação clerical, não deixa de mostrar nuances da Escolástica e da Patrística medievais. Mas é lógico que são apenas pinceladas, a personagem do Abade T. é aquela que de certa forma “ensina” filosofia pra Teresa, e faz da protagonista do romance alguém melhor, mais aberta e mais preparada para o exercício do filosofar.

Por outro lado, têm-se sempre que tomar o cuidado de não banalizar e reduzir a Filosofia. Eu particularmente considero válido e interessante buscar em outras esferas, como a do romance, por exemplo, caminhos e “poros” para a Filosofia, mas isso enquanto aproximação, enquanto um atrativo para que se possa chegar de fato à Filosofia.

Essa questão é um dos principais ganchos do livro, outro, que possivelmente é mesmo o principal é a questão erótica. Além de Teresa Filósofa, outros livros do mesmo estilo ficaram muito famosos na época e chegaram à condição de best-seller, como por exemplo Fanny Hill, O Sofá, etc…

Tá aí outra coisa que eu considero muito válida. O erotismo muitas vezes é visto como algo “ilícito” pelo senso comum, desconstruir essa visão é uma tarefa bem complicada, mas aqueles que se dispõem a fazer isso parecem fazer de um jeito interessante.

As dificuldades citadas, contudo, são notórias: a questão do autor possivelmente ser um marquês e a obra ficar caracterizada como de autor anônimo mostra como naquele século XVIII o preconceito com esse tipo de literatura deveria ser ainda maior. Outro ponto é a própria questão da capa do livro (essa mesma que está no começo do post, a direita), é a mesma da versão que eu tenho e quando levava o livro pra ler na faculdade o espanto era geral. Quer dizer, sempre fica alguma coisa diferente no ar quando o assunto é literatura erótica. E afirmo também, em bom português, que uma coisa é literatura erótica e outra é putaria. Isso tem que ficar bem claro.

Enfim, esse é um panorama geral da obra, e quem sabe o início de duas discussões que podem ir longe: a Filosofia em diálogo com os romances eróticos e a maneira singular de aceitação destes pelo senso comum.

Termino aqui o último post do ano da série Inclinação Literária.