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O irmão esquecido

O post de hoje é uma republicação do post que eu acabei de publicar lá no Sempre um Livro. Estamos lendo a obra O fazedor, de Jorge Luis Borges e um pequeno poema contido na obra citada me despertou várias ideias, que eu tentei articular no presente post. É apenas uma hipótese, uma interpretação minha que ainda está surgindo, mas que já fica registrada como motivadora de discussões acerca do tema:

Ver a ciência sob a ótica da arte e a arte sob a ótica da vida significa dizer que o problema da ciência não pode ser visto no interior de um campo contaminado pelas interpretações reativas e negativas; mas deve ser investigado a partir de um solo não científico: o da vontade de potência. Considerar a ciência sob a ótica da vida significa apreciá-la por sua força criadora”.1

Não conheço muito bem a biografia nem a bibliografia do escritor argentino Jorge Luis Borges. Até agora o único livro que li dele foi fazedor.No entanto, não sei bem porquê, Borges é um daqueles autores que, principalmente se você está envolvido num ambiente acadêmico, como é o meu caso, você sempre ouve falar e, querendo ou não, fica com aquela vontade de ler e conhecer.

Pois bem, com a leitura de fazedor enfim conheci a escrita de Borges. Nós vários poemas, contos e simples frases que compõem este livro, consegui perceber que, antes de mais nada, o escritor argentino possui uma sensibilidade ao lidar com as palavras que te jogam no texto e lhe fazem não querer sair dali tão cedo. É um texto que, segundo minha interpretação, é feito para ser degustado como um bom vinho, para ser prolongado como uma boa conversa num café com os amigos.

Dentre os vários textos que compõem fazedor, um em especial me atraiu demais e me fez pensar em um problema que, segundo minha leitura, é, por excelência, de ordem epistemológica.

Deixe-me explicar, para as coisas ficarem mais claras. O referido texto éarte poética, um poema composto por sete estrofes e que trata justamente do seu título, da arte poética, de como ela se dá, de como ela se mostra.

Ora, você leitor pode então me perguntar: o que a arte poética tem a ver com a epistemologia? É que no processo de ruminação do poema (pra se ler Borges a “ruminância” é qualidade indispensável), num lento e preguiçoso ônibus que cruzava as estradas de Minas Gerais, pensei em uma metáfora que acabou levando o poema para essa ordem epistemológica a qual aludi acima.

Comunicar-se via metáfora é sempre uma tarefa delicada e complicada, pois a metáfora aceita vários níveis de entendimento e nem sempre o “metaforador” consegue ser compreendido de uma maneira satisfatória. Mesmo assim vou me arriscar e espero conseguir atingir o meu telos.

Imagine dois irmãos, ambos na mais terna infância, que começam a brigar em virtude de um brinquedo, que ambos gostavam muito de brincar e que aparentemente sumiu. Um acusa o outro de ter se apoderado e escondido o brinquedo, no entanto, nem um nem outro de fato fez tal coisa e assim o que prevalece é essa disfonia ad infinitum.

Até que aparece um terceiro e desavisado irmão, que nem se importava tanto com o motivo da briga dos outros dois irmãos e, sem querer, encontra o tal brinquedo. Enquanto a briga entre os outros dois irmãos continua, o terceiro irmão fica ali, esquecido, com o brinquedo nas mãos, mas sem saber bem o que fazer com ele.

Essa foi a metáfora que construí após a leitura de arte poética. Inevitavelmente vou tocar em um assunto de uma relevância e de uma complexidade e multiplicidade de interpretações dentro das ciências, que, também inevitavelmente, não será esgotado nesse pequeno texto. Mas quero pelo menos tentar apontar caminhos nos parágrafos seguintes, com uma breve explicação da metáfora dos parágrafos anteriores, para discussões acerca do tema.

De maneira bem pragmática e pouco misteriosa (isso não é muito interessante em um texto, mas vá lá) digo que na metáfora acima os dois irmãos brigões são a Filosofia e a Ciência, amantes do brinquedo, que é o conhecimento. O irmão esquecido é a Poesia.

Como disse acima, o texto de Borges foi o estopim para essa reflexão e a construção dessa metáfora, no entanto, essa ideia já vinha sendo cultivada dentro da minha cabeça há um tempo. Estudando Filosofia da Ciência e própria Filosofia em si, cada vez mais fui percebendo esse verdadeiro embate entre a Filosofia e a Ciência, e creio que dá até pra expandir essa briga (e aí a metáfora ganharia um novo irmão), para dentro da própria Filosofia, no embate entre as filosofias ditas sistemáticas e “fragmentárias”. Enfim, nos campos em que, por definição o conhecimento é o objeto e objetivo, por maiores que sejam os avanços e as conquistas, muita coisa parece não ser conseguida em virtude de desavenças e desencontros.

Aí surge a Poesia. A tarefa (se é que ela tem uma tarefa) dela não é a busca pelo conhecimento. A Poesia é arte e se ocupa com outras instâncias, não necessariamente, nem principalmente com o conhecimento, porém, isso não impede a Poesia de também se deparar com questões epistemológicas, e conseguir reinterpretar essas questões de modo a melhor resolvê-las, a apontar caminhos outros.

Estamos então, caro leitor, no cerne daquilo que falei um pouco mais acima: o despertar de um problema epistemológico através da leitura de um poema de Borges que fala sobre a arte poética.

Retornando à metáfora: parece que o mais interessante a se fazer, para todos os irmãos, é dar um fim à briga entre os dois primeiros e fazê-los perceber que o brinquedo está com o terceiro irmão. Este saberia melhor o que fazer com o brinquedo, afinal estaria em contato com os dois irmãos que já conheciam e gostavam de brincar com ele, e aqueles teriam de volta o tão desejado brinquedo.

Ou seja, longe de parecer uma solução simplista, ou que busque esgotar o assunto, penso que um contato mais forte da Poesia, e da arte poética, com as áreas que por excelência perseguem o conhecimento seriam de extrema validade para todos. Não quero com isso dizer que a solução de todos os problemas epistemológicos do universo está na Poesia, seria muita pretensão e ingenuidade da minha parte.

O conhecimento científico requer toda precisão e solidez e nisso, está claro, a Poesia não pode e nem deve interferir, porém, o conhecimento (e aqui esqueçamos as repartições que com o passar dos séculos foram feitas dentro do conhecimento. Não quero falar de um conhecimento estritamente científico, filosófico e/ou poético, mas sim de um conhecimento maior, que abarque todos esses) pode sim receber o auxílio luxuoso da Poesia.

A Poesia, entretanto, está esquecida, como o irmão da metáfora. E longe das discussões “sérias” sobre o conhecimento, ela, sem compromisso algum, consegue, livre de preconceitos e limitações, chegar até alguns pontos que os embates entre Ciência e Filosofia muitas vezes impedem essas duas áreas de chegar.

Não deve-se deificar a arte e a poesia, mas ao mesmo tempo não deve-se menosprezá-las e encará-las apenas como uma atividade entre outras, totalmente a margem de tudo o que é importante e necessário para o conhecimento.

As conquistas epistemológicas, se temperadas com a sensibilidade e a leveza da Poesia tendem a ser mais frutíferas e verdadeiras. Preconceitos, pressuposições e temeridades muitas repudiam essa tese. Por quê?

A pergunta fica e eu encerro o texto com um trecho do poema que foi o motivo e a razão do próprio texto:

Ver en el día en el año un símbolo

de los días del hombre de sus años,

convertir el ultraje de los años

en una música, un rumorr un símbolo,

ver en la muerte el sueño, el ocaso

un triste oro, tal es la poesía

que es inmortal pobre. La poesía

vuelve como la aurora el ocaso.2

REFERÊNCIAS BIBLOGRÁFICAS

BORGES, Jorge Luis. Ofazedor. Tradução: Josely Vianna Baptista. – São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Título original: El hacedor (1960).

DIAS, Rosa Maria. Nietzsche, vida como obra de arte. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

1 DIAS, 2011. p. 55.

2 BORGES, 2008, p. 148.

Sargento Garcia: a marginalidade homoerótica e filosófica

Acabei de publicar no Sempre um livro, uma reflexão acerca de um conto de Caio Fernando Abreu, intitulado “Sargento Garcia”.

Falar de Caio Fernando Abreu hoje é em dia é sinônimo de modinha coisa do tipo, como um dia falar de Nietzsche já foi sinônimo de modinha ou coisa tipo. O que quero deixar claro é que, pelo menos na minha singela opinião, a obra de Caio Fernando Abreu é riquíssima e merece muitas leituras, estudos e afins, não é apenas pra virar frase bonitinha de facebook.

Um possível estudo, uma possível reflexão sobre essa obra eu acabei de fazer e publico aqui também. Tento encontrar pontos de contato entre o homoerótico e o estudante de Filosofia. O que? Tá assustado? Dá uma lida aí, sem muito preconceito e vê se concorda, discorda, curte ou descurte o meu texto:

Sargento Garcia: a marginalidade homoerótica e filosófica

O conto “Sargento Garcia”, parte integrante do livro “Morangos Mofados” de Caio Fernando Abreu é tido por muitos como uma bandeira do homoerotismo. Ele por si só, adapatações cinematográficas e vários estudos denunciam essa característica do conto. No entanto, o que muitas vezes é esquecido é a possibilidade de contato dessa marginalidade do homoerotismo, enquanto necessidade de se afirmar frente os preconceitos da sociedade, com a marginalidade da Filosofia, em especial do estudante de Filosofia, frente a essa mesma sociedade. O que pretendo aqui é tentar explicitar esse contato, e mostrar como ao mesmo tempo distantes e sem uma conexão, o homoerotismo e a Filosofia também podem ser, em alguns aspectos, muito próximos.

O conto, a exemplo de vários outros contos do mesmo autor, tem uma escrita bem clara e direta, ainda que ocorram divagações durante as falas das personagens e do próprio narrador, Caio F. diz muito bem o que quer dizer sem muitos preconceitos ou ”não me toques”.

Tudo começa com uma apresentação ao Exército – experiência comum e necessária a todos os homens de dezoito anos – onde a personagem que dá nome ao conto, Sargento Garcia, demonstrando-se alguém rude e severo chama pelo nome de Hermes, a outra personagem de destaque no conto. Durante um longo diálogo entre ambos, a atmosfera do lugar também vai sendo descrita pelo autor. A ênfase é no mau cheiro dos corpos dos homens nus, misturados a bosta de cavalo e à severidade de Sargento Garcia.

Um momento importante do diálogo que pretendo destacar é aquele que está relacionado com a Filosofia:

– Trabalha?

– Sim, meu sargento – menti outra vez.

– Onde?

– Num escritório, meu sargento.

– Estuda?

– Sim, meu sargento.

– O quê?

– Pré-vestibular, meu sargento.

– E vai fazer o quê? Engenharia, direito, medicina?

– Não, meu sargento.

– Odontologia? Agronomia? Veterinária?

– Filosofia, meu sargento. (ABREU, 1995, p. 61).

A reação de Sargento Garcia diante da escolha do curso de Hermes é singular e sintomática, logo em seguida ele diz:

– Pois, seu filósofo, o senhor está dispensado de servir à pátria. Seu certificado fica pronto daqui a três meses. Pode se vestir. – Olhou em volta o alemão, o crioulo, os outros machos. – E vocês, seus analfabetos, deviam era criar vergonha nessa cara porca e se mirar no exemplo aí do moço. Como se não bastasse ser arrimo de família, um dia ainda vai sair filosofando por aí, enquanto vocês vão continuar pastando que nem gado até a morte. (ABREU, 1995, p. 61-62).

Após a dispensa, Hermes vai caminhando de volta pra casa, mas no meio do caminho vê um Chevrolet antigo parar na sua frente. Era o Sargento Garcia. Agora sem a mesma severidade que demonstrava no quartel, o bigodudo e másculo sargento oferece uma carona a Hermes, este, meio sem jeito, entra no carro.

Dentro do carro a relação entre os dois, que até então era hierárquica e respeitosa, vai começando a se suavizar e no momento em que Sargento Garcia começa a passar a mão na coxa de Hermes o caráter homoerótico do conto é explicitado de vez.

Em meio às passadas de mão e afins, a conversa de ambos gira em torno do fato de Hermes ter escolhido a Filosofia como curso. Sargento Garcia se mostra interessado nisso e diz que apesar de ter de ser durão no quartel, enquanto pessoa ele gosta da tal Filosofia.

Hermes então fala sobre Leibniz, filósofo racionalista que desenvolveu a teoria das mônadas, com certa empolgação. Sargento Garcia até se interessa, mas meio que voltando à sua realidade – que é o quartel, a vida dura e cinza – diz que lá não tem nada desse negócio de “mônicas” (sic) não. A troca de mônadas por mônicas parece ser intencional, o autor tenta deflagrar ainda mais, de maneira sutil, a estranheza que a Filosofia e certos conceitos filosóficos causam naqueles que vivem à margem dela.

O contato dos dois dentro do carro vai esquentando e Sargento Garcia sugere que eles vão a um lugar mais reservado e confortável. É aí que entramos no ápice do conto. Sargento Garcia leva Hermes a nada mais, nada menos do que uma “casa de quartos”, comandada pela travesti Isadora.

Ela mostra-se muito conhecida do Sargento Garcia, o que indica que o sargento é um cliente assíduo do lugar. Isadora conduz o casal até o quarto nº 7 e então é descrito o ato sexual dos dois, sem muito pudor. Como disse acima, Caio Fernando Abreu não parece querer se enquadrar em uma escrita politicamente correta, asséptica e isenta de termos aparentemente horrorizantes.

Hermes tem então a sua primeira vez. No fim do conto, é descrita a volta pra casa do jovem e ao deparar-se com uma estátua grega no meio da rua ele vai lembrando nomes de deuses gregos, até que lembra o seu:

Zeus, Zeus ou Júpiter, repeti. Enumerei: Palas Atena ou Minerva, Posêidon ou Netuno, Hades ou Plutão, Afrodite ou Vênus, Hermes ou Mercúrio. Hermes, repeti, o mensageiro dos deuses, ladrão e andrógino. Nada doía. Eu não sentia nada. Tocando o pulso com os dedos podia perceber as batidas do coração. (ABREU, 1995, p. 70).

Nesse momento se dá a epifania completa de Hermes. Ele, que nunca havia transado, se descobriu de vez homossexual. E ao lembrar que Hermes era ladrão e andrógino se identifica de vez com seu próprio nome. A trajetória de Hermes do quartel ao quarto de hotel é a trajetória de alguém que se descobre e se revela, no jargão do senso comum, Hermes literalmente “saiu do armário”. E a importância disso para o conto é fundamental. Tanto que na última frase do conto Hermes nos diz: “O bonde guinchou na curva. Amanhã, decidi, amanhã sem falta começo a fumar.” (ABREU, 1995, p. 70).

Hermes começar a fumar é uma metáfora para dizer que Hermes agora assumirá de vez sua condição sexual. O jovem estudante de Filosofia experimentou e gostou da coisa.

Essas reflexões acerca do homoerotismo dentro do conto são geralmente as mais exploradas, afinal, o ponto central do conto é mesmo este. No entanto, abusando da marginalidade e sendo marginal dentro do marginal, proponho uma leitura que relacione essa dificuldade de aceitação perante a sociedade em relação ao homoerotismo, com a mesma dificuldade em relação ao estudante de Filosofia (que, no caso, pode ser representado por este que vos fala).

Ao escolher Filosofia como futuro curso da personagem Hermes, Caio Fernando Abreu poderia ter feito várias outras escolhas, como, por exemplo, Letras, o curso que talvez tivesse mais proximidade com o próprio autor. No entanto, a escolha da Filosofia, segundo minha leitura, não foi feita sem propósito. Eu e qualquer outro estudante de Filosofia podemos dizer melhor do que ninguém como são únicas e diferentes as reações do senso comum ao escutarem de nós que fazemos Filosofia.

Nos dias de hoje, parece existir um preconceito velado a esta resposta. As pessoas estão esperando inúmeras respostas, mas Filosofia não. A reação mais comum e imediata das pessoas é soltar um “legal” desinteressado ou coisa que o valha e logo mudar de assunto, desconversar.

Pensemos um pouco: estas reações, guardadas as devidas proporções, não são bem semelhantes com as reações das pessoas frente aqueles que se dizem gays, lésbicas, bissexuais ou transsexuais?

Esse é o meu ponto. O preconceito velado frente a estudantes de Filosofia e homossexuais, apesar de tudo, ainda existe nos dias de hoje e a intenção de Caio Fernando Abreu, ao escolher a Filosofia como futuro curso de Hermes, talvez tenha sido nos mostrar também isso.

Antes que apareçam interpretações equivocadas sobre esta minha reflexão é bom esclarecer bem as coisas: não quis dizer em nenhum momento que o homoerotismo e a Filosofia têm de servir de condição de possibilidade um para o outro. Sei que isso seria uma interpretação absurda, mas o mundo atual tem suas absurdidades, é bom lembrar. Homoerotismo é uma coisa, Filosofia é outra. Os pontos de contato, segundo a minha leitura, são a marginalidade de ambos e o preconceito velado também sofrido por ambos.

A opção sugerida pelo autor no conto, para aqueles que sofrem preconceito por conta de suas escolhas sexuais é a de se entregar de fato a esta condição, assumir de vez isso e enfrentar de frente todo e qualquer preconceito que possa surgir. Mas e os estudantes de Filosofia, como devem encarar esse preconceito velado que sofrem?

A exemplo do que fez Hermes, chega uma hora que não dá mais pra ficar se escondendo dos outros e iludindo a si próprio, chega uma hora em que é necessário assumir efetivamente as suas escolhas e conviver com elas.

Ser estudante de Filosofia é sinônimo de desprestígio perante a sociedade, ao senso comum. Ser estudante de Filosofia é muitas vezes ser taxado de louco, lunático ou até mesmo (e aí quem sabe já entraríamos em uma nova discussão, em um novo preconceito) de maconheiro.

Frente a todos esses rótulos e preconceitos, o estudante de Filosofia, se realmente quer afirmar essa sua condição, deve ter a atitude de encarar tudo isso de frente, como se fossem apenas comentários sem nenhum sentido e fundamentação que não influem de fato na caminhada do estudante de Filosofia (como se fossem?).

Parafraseando Hermes e lembrando o dia que resolvi assumir de fato a Filosofia, encerro o texto dizendo que: amanhã, decidi, amanhã começo sem falta a ler.

REFERÊNCIAS

ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. 9. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

INTERNET

http://bibliotecadigital.unec.edu.br/ojs/index.php/unec02/article/viewFile/278/352

http://www.fileden.com/files/2009/4/27/2420624/Artigos/EROTISMO%20E%20EPIFANIA%20EM%20SARGENTO%20GARCIA%20DE%20CAIO%20FERNANDO%20ABREU_MARCELO%20BARBOSA%20PEIXOTO.pdf

FILMOGRAFIA

Sargento Garcia, curta-metragem. (35mm, cor, 15 min, 2000).

Sempre um livro

O post de hoje é uma espécie de propaganda de um outro blog, blog este que está dando seus primeiros passos e conta também com contribuições minhas.

Deixa eu explicar melhor: em abril do ano passado, a convite do comentador mais ativo do Un Quimera, o grande Ivan Bilheiro, entrei em um grupo de leituras, que a princípio não tinha nome, nem nada.

O grupo surgiu e foi crescendo. Todos os primeiros sábados do mês eram data pra discutir a obra do mês, escolhida sempre no mês anterior. De Simone de Beauvoir a Clarice Lispector, passando por Lourenço Mutarelli, Italo Calvino, Dostoiévski, Voltaire, Cristóvão Tezza, Gilles Deleuze e Guimarães Rosa, muita coisa já foi lida, discutida, comentada e com o tempo o grupo adquiriu um nome – Sempre um livro – e também um blog.

A ideia do blog, entretanto, ficou por um tempo estacionada e agora, no começo de 2012, foi retomada.

Essa retomada se deu com um texto meu sobre o autor que estamos lendo no momento, Goethe. A obra em questão, Fausto, terá seu post no mês que vem, por enquanto deixei lá um pequeno texto sobre o autor, que reproduzo aqui pra colaborar ainda mais com o “post-propaganda”:

O multifacetado J. W. Goethe

“Quanto errei, quanto vivi,
Quanto aspirei e sofri,
Só flores num ramo — aí estão;
E a velhice e a juventude,
E o erro e a virtude
Ficam bem numa canção.”

(Aos Leitores Amigos – J. W. Goethe)

Caros amigos do Sempre um livro e demais leitores, inicio hoje, de fato, as atividades deste blog. Criado há quatro meses, devido a várias outras atividades desenvolvidas pelos membros do grupo (o sempre corrido fim de período talvez tenha sido a principal delas), ainda não teve muitos textos publicados. Agora em 2012 dou o pontapé inicial, falando um pouco do autor que estamos lendo no momento: Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832).

A obra dos meses de dezembro, janeiro e fevereiro é Fausto e terá comentários mais específicos sobre ela em breve, por enquanto o foco é no autor, Goethe. Nascido a 28 de agosto de 1749, em Frankfurt, Alemanha, Goethe é marcado por uma dupla precocidade e também por um caráter multifacetado, foi, além de poeta, um amante da filosofia e da ciência, fazendo incursões em ambos os campos.

A dupla precocidade se dá no campo literário e sentimental. Recebeu influências da literatura francesa, de escritores como Molière (1622-1673), Racine (1639-1699), Voltaire (1694-1778) e já aos dez anos começou a esboçar seus primeiros versos. O detalhe é que a literatura alemã de sua época de criança era muito pouco prestigiada em toda Europa, o que Goethe ainda não sabia era que ele e mais alguns autores contemporâneos a ele mudariam e muito essa fama, muito em virtude do movimento que ficou conhecido como Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), que se opunha ao Iluminismo, tão em voga na época e que acabou servindo de porta de entrada para o Romantismo. Também cedo Goethe teve suas primeiras paixões, seus encontros e desencontros amorosos influenciaram de maneira bem forte suas obras, em especial aquela que marcou definitivamente Goethe na literatura do século XVIII: Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774).

Pouco depois da publicação de Werther, em 1775, Goethe é convidado pelo Duque Carlos Augusto (1757-1828) para administrar o ducado de Weimar. Nesse posto Goethe passa boa parte de sua vida e as publicações de livros e poemas não param (assim como suas aventuras amorosas).

Na última década do século XVIII, Goethe tem boa parte de suas funções administrativas no ducado de Weimar retiradas, e começa a se ocupar com assuntos relacionados à Universidade de Iena. É aí que ele terá um contato mais direto com a filosofia da época, vários nomes podem ser citados, como os de Fichte (1762-1814), Herder (1744-1803), Schiller (1759-1805) e, em especial, Schelling (1775-1854), de quem foi tutor e admirador em Iena. O interesse de Goethe pela filosofia tinha fortes relações com a poesia, mas também versava sobre assuntos muito em voga na época, a questão do panteísmo, do ateísmo e os desdobramentos pós-kantianos que o chamado Idealismo Alemão iria tomar.

Esse período também foi de muito interesse pela ciência. Goethe fez inúmeros estudos de botânica e ciências naturais em geral e publicou, em 1805, sua Teoria das Cores.

É no período final de sua vida, entretanto, que Goethe escreve a obra que estamos lendo. O Fausto de Goethe tem duas partes, a primeira publicada em 1808 e a segunda em 1830. Os conhecimentos científicos e também de alquimia e ocultismo adquiridos durante sua vida, além da filosofia do Idealismo Alemão e toda sua poesia estão reunidos nesta que talvez seja sua principal obra. “Para o Dr. Fausto o homem pode saber mais, muito mais. Nem que para isso seja necessário aliar-se a um anjo das trevas, o terrível Mefistófeles”. (MEIRA, 1983).

Goethe encontra a morte dois anos depois da publicação do segundo Fausto, em 1832. O que não dá pra deixar de citar é aquela que a história diz ter sido a última frase pronunciada pelo poeta: “Abram a janela do quarto, para que entre mais luz”. Entre a luz e as sombras, Goethe se posicionou de maneira múltipla e intensa dentro da história da cultura ocidental.

O recado era esse. Então, você, leitor do Un Quimera, já sabe né? Leia também o Sempre um livro! E que continuemos assim, sempre com um livro, pra comentar, pensar, discutir…