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A festa de São Gonçalo do Jururu

Hoje, 10 de janeiro, é dia de São Gonçalo do Amarante. O referido santo é o padroeiro da minha cidade, São Gonçalo do Sapucaí-MG. Todos os anos do primeiro dia do ano ao dia 10 é comemorada a festa de São Gonçalo, com missas, quermesses e afins. Como vivo todo esse ambiente há vinte anos e penso que a história de São Gonçalo do Amarante é muito interessante, resolvi escrever um conto que de certa forma fala um pouco sobre tudo isso e sobre algumas outras coisas. É possivelmente o post mais longo da história do Un Quimera, então prepare-se para ler e sinta-se a vontade para comentar a história da festa de São Gonçalo do Jururu, a história do Zé da Vaca Preta:

A festa de São Gonçalo do Jururu*

“Enquanto isso Deus brinca de gangorra no playground

Do céu, com os santos que já foram homens de pecado.”

Zeca Baleiro

9 de janeiro.

É noite do dia 9 de janeiro em São Gonçalo do Jururu. Chove. Por entre os becos e vielas escuras dos recantos mais obscuros da cidade, encontra-se o Bar do Seu João. Seu João é um senhor de idade já avançada, natural de São Gonçalo do Jururu e que toca seu singelo bar há um bom tempo. Aberto quase que 24 horas por dia (como se fosse uma grande multinacional de fast food), o Bar do Seu João conta com a cerveja mais barata da cidade e com os salgados e petiscos mais gordurosos. Cadeiras e mesas plásticas, cedidas pelo distribuidor de cerveja algumas décadas atrás permanecem sendo a decoração do lugar. Uma mesa de sinuca bem antiga também fica por ali. Os tacos, curiosamente, se assemelham muito a cabos de vassoura. Além disso, a famosa dose de cachaça pelo surreal preço de vinte e cinco centavos não pode ser esquecida, é talvez a principal atração do bar.

Nessa noite o bar não está lá tão cheio, o que não é novidade. Dois ou três ébrios jogadores de sinuca ficam ali com seus copos de cerveja e seus “cabos de vassoura”. Além deles, uma dupla de intelectuais universitários, que julgam adquirir um status mais “cult” e “underground” por freqüentarem o Bar do Seu João, compartilham experiências do último período da faculdade. E pra fechar o público, não poderia faltar o dono do bar, o incansável Seu João e uma figura presente no folclore de São Gonçalo do Jururu: o inigualável Zé da Vaca Preta.

A origem do codinome Zé da Vaca Preta remonta aos tempos em que esse Zé ainda morava no ambiente rural de São Gonçalo do Jururu. Desde cedo ele foi um homem muito inclinado para o lado alcoólico da vida. Numa de suas bebedeiras escondidas no rancho da família Menezes (a família mais poderosa de São Gonçalo do Jururu), onde Zé era jardineiro, ele montou em uma vaca preta no meio do pasto e como a porteira estava aberta ele saiu descontrolado rancho a fora, parando só dentro da piscina, onde Roberto Menezes, o patriarca da família Menezes, fazia besteirinhas com sua mais nova amante. A história repercutiu por toda São Gonçalo do Jururu e além de risos e mais risos, comentários e mais comentários, também foi a causa da demissão de Zé, que daí em diante ficou conhecido como Zé da Vaca Preta, montou um barraco nas redondezas do Bar do Seu João e passou a ser o freqüentador mais assíduo do tal bar.

Nessa noite, pra variar, Zé da Vaca Preta contava histórias pra Seu João, já cansado de ouvi-las, e pedia suas doses de cachaça pelo surreal preço de vinte e cinco centavos. Até que surge uma nova figura no Bar do Seu João, equilibrando-se com uma mão em cima de uma bicicleta barra forte e segurando um guarda-chuva com a outra mão. Era Tião, o sacristão da Igreja Matriz de São Gonçalo do Jururu. Que chega e diz:

– Pai – Tião, filho de João, esqueci-me de dizer – tem muito serviço amanhã na Igreja, já é dia de São Gonçalo do Amarante de novo, nosso santo padroeiro. Vou tirar um cochilo e de manhãzinha já volto pra Igreja pra começar a arrumar as coisas.

Seu João, preocupado com o cansaço do filho, mas também demonstrando toda sua fé em São Gonçalo logo responde:

– Meu filho, você tem que descansar, você tá trabalhando demais nesses dias da novena, sei que é preciso ajudar na festa do nosso santo padroeiro, mas desse jeito você não agüenta. Vai comer alguma coisa e dormir.

Devido às pequenas dimensões do Bar do Seu João todos os presentes escutam o diálogo entre pai e filho. As reações são das mais diversas. Os jogadores de sinuca logo lembram que amanhã precisam ir à missa de qualquer maneira, afinal, é dia de São Gonçalo e vão pensando em como conciliar a santa sinuquinha deles e a distante missa de São Gonçalo. Os intelectuais universitários, tão inteligentes e tão ignorantes ao mesmo tempo, logo se irritam com o papo católico e começam a falar de um pensador ateu qualquer, minto, começam a inventar e/ou reproduzir teorias nietzscheanas de cunho totalmente ateu, sem nem saber ao certo o que disse o pensador alemão sobre as religiões, o ateísmo e etc.

Já Zé da Vaca Preta logo se intromete na conversa familiar dizendo:

– Eita porra! Nos meus tempos de coroinha as coisas aqui em São Gonçalo do Jururu eram bem diferentes! A cidade parava no dia de São Gonçalo, todos iam à procissão, as senhoras decoravam as ruas e a igreja, os coroinhas ajudavam o padre Cristóvão e cantavam junto com o coral o hino de São Gonçalo – nesse momento como que iluminado por não sei o quê, Zé da Vaca Preta interrompe sua fala e começa a cantar – São Gonçalo salvai este povo, de quem sois lá no céu protetor, dai-lhes fé, vida, amor, sangue novo, dai-lhes bênçãos de nosso Senhor! – volta a falar, com nostalgia no olhar – ah, hoje em dia isso não existe mais! O povo não quer mais saber de missa, de santo, de nada! Você tinha que dar um jeito nisso Tião, fala com esse padre novo aí!

A irritação de Tião foi notável, ele que praticamente vive dentro da Igreja, dando todo seu suor para organizar missas, procissões e afins se sentiu verdadeiramente humilhado por Zé da Vaca Preta, sempre que alguém falava que “na minha época”, “no meu tempo”, a Igreja aqui era mais forte e mais viva, Tião sentia uma profunda tristeza. Querendo ou não era um insulto direto ao seu trabalho. Mas o filho de Seu João, ao invés de partir pra ignorância, ou querer revidar de qualquer maneira o comentário de Zé da Vaca Preta, parou e pensou um pouco, canalizou toda a raiva e toda tristeza e então disse:

– Zé, você tá é certo. Só eu sei o duro que dou pra fazer essa novena ir pra frente, pra fazer as procissões prosseguirem, os violões ressoarem nos ouvidos das pessoas, enfim, pra fazer com que isso tudo não se acabe. – percebe-se a emoção de Tião, algumas lágrimas parecem escorrer em seu rosto – O padre Emanuel, nosso pároco, também faz de tudo, ele é um homem santo, mas agora ele tá com os queijos e vinhos dele, e eu aqui ouvindo você dizer tudo isso da nossa festa. É difícil Zé!

Seu João, percebendo a tristeza do filho pensa em expulsar Zé da Vaca Preta dali, por ter causado tudo isso, as outras pessoas do bar se assustam quando Seu João começa a dar socos e pontapés em Zé da Vaca Preta, que indefeso, já ia saindo do bar, mas Tião intercede e diz:

– Pai, não precisa disso! – e virando-se pra Zé da Vaca Preta, com certo receio no fundo, mas com muita coragem nas palavras propõe – Já que você está tão preocupado assim com a beleza da festa de São Gonçalo porque você não aparece lá na igreja amanhã, pra participar da procissão de entrada?

Zé da Vaca Preta parece não acreditar no que acabou de ouvir. Assim como todos os outros presentes. É que além da famosa história da vaca preta, o tal Zé da Vaca Preta também carregava consigo outra história muito famosa. Já depois de ter se tornado Zé da Vaca Preta, numa das missas da festa de São Gonçalo, num longínquo 10 de janeiro, ele, depois de várias cachaças entrou na Igreja Matriz praticamente pelado, bem no meio da missa, gritando como um louco, algumas pessoas o contiveram e tiraram dali, mas a missa, que contava com o bispo da paróquia e outros figurões do clero, ficou pra sempre marcada na história de São Gonçalo do Jururu, talvez a partir dali é que o fervor religioso de boa parte da população diminuiu e daquele dia em diante Zé da Vaca Preta nunca mais tinha entrado na Igreja Matriz.

Seu João logo disparou contra seu filho:

– Tião, você tá ficando louco, meu filho? Até parece que não sabe a vergonha que esse rapaz fez a nossa cidade passar numa missa de São Gonçalo alguns anos atrás! Pensa bem, convidar ele pra participar da procissão de entrada ainda por cima? Só falta falar que é pra representar São Gonçalo, né?

De bate pronto o filho diz ao pai:

– É exatamente isso que eu pensei pai! Sei de tudo que ele já fez de ruim pra nossa cidade, principalmente pra nossa igreja, mas isso que ele falou aqui hoje é verdade, dói escutar, mas eu sei muito bem disso, e como sou eu, lá na sacristia que acabo resolvendo e fazendo muita coisa acontecer, resolvi fazer essa proposta também, é aí, Zé? Topa?

Zé da Vaca Preta ainda parece anestesiado com a proposta. Como ele mesmo disse, na sua infância havia sido coroinha e por mais alcoólica e pagã que tenha sido sua vida posteriormente ele sempre carregou consigo esse forte catolicismo. O episódio de sua “invasão” à Igreja foi extremamente doloroso pra ele também, que até hoje não se perdoa por ter feito aquilo. Ele respira fundo, arrota a cachaça de preço surreal e responde pra Tião:

– Tião, eu só posso dizer sim, eu quero me redimir perante o povo, perante nosso Senhor Jesus Cristo!

Da Igreja Matriz se escuta a primeira badalada do dia 10 de janeiro, zero hora. Aquele 10 de janeiro nunca mais seria esquecido em São Gonçalo do Jururu.

10 de janeiro. Dia de São Gonçalo do Amarante, padroeiro de São Gonçalo do Jururu.

O dia amanhece chuvoso e permanece assim durante um bom tempo. A chuva castiga São Gonçalo do Jururu e entre uma enchente e outra nos barracos mais periféricos da cidade, Zé da Vaca Preta no seu singelo e desgastado barraco começa a se preparar para o dia que marcaria a sua redenção perante o povo, perante Jesus Cristo.

Porém ele mal sabia que a missão mais complicada do dia estava nos ombros de Tião. O filho de Seu João ouviu muito de seu pai pra mudar de ideia e não levar Zé da Vaca Preta pra representar São Gonçalo na procissão de entrada da missa. Mas Tião não escutava seu pai, estava decidido a cumprir sua promessa e pensava em como iria fazer aquilo. Afinal, o padre Emanuel e todos os outros organizadores da missa, assim como Seu João, não aceitariam de maneira nenhuma a participação de Zé da Vaca Preta na missa de São Gonçalo, ainda mais como São Gonçalo.

Logo no seu primeiro encontro do dia com o padre Emanuel, pela manhã, Tião diz:

– Seu padre, deixa eu te falar, aquele negócio de arranjar alguém pra representar São Gonçalo na procissão de entrada da missa de hoje vai acontecer mesmo? É porque tá difícil de conseguir alguém, sabe, o povo hoje em dia não anda lá muito animado com as coisas da Igreja, o senhor sabe como é…

Padre Emanuel logo responde:

– Então Tião, tá complicado mesmo. Só que essa ideia da Dona Lourdes de colocar alguém com viola e túnica representando São Gonçalo na procissão de entrada foi muito interessante, acredito que isso engrandeceria ainda mais a nossa celebração, o bispo vai estar aí, sabe como é né? Sempre bom fazer algo mais bonito e vistoso.

Tião então joga a isca:

– Pois é padre, eu também achei muito bonita essa ideia da Dona Lourdes – Dona Lourdes era uma daquelas senhoras que ainda possuem todo o fervor católico dentro de si, reza três terços por dia e está sempre ajudando com as celebrações – a única pessoa que eu consegui falar até agora é um senhor que mora lá perto de casa, ele é um homem muito religioso e muito simples, quando falei sobre isso de alguém representar São Gonçalo na procissão de entrada ele ficou muito animado, só que ele é muito tímido também, aí eu pensei: será que se ele entrasse com uma túnica e com o rosto coberto por algum pano ou coisa do tipo ficaria muito fora do que o senhor e a Dona Lourdes tinham imaginado?

Padre Emanuel acha a ideia de Tião bem estranha, pensa um pouco e diz:

– Olha Tião, isso seria meio estranho né? Até porque todos sabem que uma das características da imagem de São Gonçalo é a imponente careca dele, porém existem algumas imagens em que São Gonçalo está com um chapéu e a viola, apesar de serem pouco conhecidas essas imagens também são muito bonitas, se de todo caso você não conseguir achar mais ninguém traga esse rapaz mesmo, com o rosto encoberto. Vem cá agora pra eu te mostrar de perto essa imagem de São Gonçalo com chapéu e viola e depois vamos arrumar as coisas, temos muito trabalho hoje ainda até na hora da missa.

Tião sorri, acreditando que seu plano agora tem tudo pra dar certo, vai ver a imagem junto com o padre e arrumar as outras coisas. Pouco antes da missa volta pra casa pra comer alguma coisa e ir falar com Zé da Vaca Preta sobre a procissão de entrada, sobre como seria tudo. Nem precisou ir muito longe, Zé da Vaca Preta já estava no balcão do Bar do Seu João, tomando mais uma dose de cachaça de preço surreal.

Tião vai logo explicando pra Zé da Vaca Preta:

– Zé, não foi fácil fazer com que você representasse São Gonçalo na missa de hoje, se as pessoas soubessem que seria você ninguém permitiria, mas eu fiz de tudo pra ser você. Falei com o padre Emanuel que conseguiria levar um senhor aqui do bairro pra ser São Gonçalo, mas que esse senhor é muito tímido e por isso ele entraria com algo cobrindo o rosto, assim você pode representar São Gonçalo e mostrar pra mim e pra todo mundo que se redimiu, mas os outros não podem ficar sabendo disso, porque senão eu tô ferrado! Entendeu bem?

Zé da Vaca Preta bebeu outra dose de cachaça em um trago só e respondeu pra Tião:

– Entendi muito bem, Tião. Muito obrigado por me dar esse chance, não vou te decepcionar! Ah, olha aqui que bonita! – Zé da Vaca Preta mostra pra Tião uma velha viola, que estava encostada ali do lado do balcão – essa viola tem muita história, é uma das poucas coisas que eu tenho lá no meu barraco e eu queria levar ela pra ser a viola de São Gonçalo, posso?

Apesar do estado da viola não ser dos melhores, Tião mais uma vez se surpreende com a devoção de Zé da Vaca Preta e consente. Tião pega sua barra forte e vai direto pra Igreja, combina com Zé da Vaca Preta pra eles se encontrarem nos fundos da igreja, atrás da sacristia, ali Tião vestiria Zé da Vaca Preta com a túnica de São Gonçalo e usaria um pano pra esconder seu rosto.

A chuva parou. O bispo chegou a São Gonçalo do Jururu. O povo foi enchendo a Igreja Matriz e a procissão de entrada ia tomando forma. À frente, três coroinhas, com uma grande cruz ao centro e duas velas nos lados. Depois mais dois coroinhas, com turíbulo e naveta, este jogando incenso e fazendo as senhoras tossirem, aquela servindo de combustível para o primeiro, pedrinhas de incenso importadas da Grécia eram o combustível. Logo atrás viria uma pequena representação, com duas crianças representando anjos do Senhor e ele, o santo padroeiro de São Gonçalo do Jururu, São Gonçalo do Amarante, com sua viola e um estranho pano cobrindo o rosto. Logo atrás leitores, ministros extraordinários da sagrada eucaristia, mais alguns coroinhas, padre Emanuel, padre Josenir e por fim o digníssimo bispo da paróquia jurururense, Dom Marco Pólo.

A Igreja lotou, cantores e músicos começaram a entoar o belo hino de São Gonçalo, entoado na noite anterior por Zé da Vaca Preta, e a procissão de entrada começou a andar. No canto do altar, Tião observava com atenção e preocupação, qualquer besteira de Zé da Vaca Preta e ele estaria pra sempre condenado perante a população de São Gonçalo do Jururu, assim como aconteceu com o próprio Zé da Vaca Preta algum tempo atrás.

Já Zé da Vaca Preta, por sua vez, embaixo da túnica de São Gonçalo e daquele pano por sobre o rosto, lembrava-se do dia em que, completamente bêbado, entrou naquela mesma Igreja, quase nu, gritando coisas que ele nem se lembra – relatos dizem que eram trechos de canções da extinta banda “É o Tchan” – até hoje ele não se perdoara por aquele dia, e o fato dele nunca mais ter pisado naquela igreja era, além de uma reprovação da população, também uma espécie de autopunição que ele próprio se deu. Quando ele ouviu a proposta de Tião pra representar São Gonçalo percebeu que Tião tinha um coração puro, que estava fazendo aquilo por pura compaixão, sabendo que ele poderia sim se redimir, o fato dele ter que entrar com aquele pano cobrindo o rosto pouco importava, ele sabia que ali, naquele momento, a cada passo que ele dava em direção ao altar, com sua querida viola em punho, sua redenção particular e interior ia se consumando. Zé era um pagão, Zé era o bêbado taxado de louco por toda população de São Gonçalo do Jururu, Zé era um zero a esquerda, como diz o ditado popular, mas Zé agora também era São Gonçalo de Amarante, o santo que se vestia de mulher pra converter as prostitutas, o santo que cantava, dançava, bebia e que em “mil duzentos e pouco” (como diz de maneira linda o seu próprio hino) recebeu da Virgem Maria uma revelação, que lhe dizia o dia de sua morte, daí em diante ele doou tudo o que tinha e viveu em completa reclusão, “só com Jesus ele quis viver”, e com Jesus ele foi viver, a 10 de janeiro de 1262.

Enquanto isso, no atual 10 de janeiro, Zé da Vaca Preta ia chegando cada vez mais perto do altar e por baixo do pano que escondia seu rosto, mas não seu olhar, Roberto Menezes, Dona Lourdes e todas as outras grandes figuras da “high-society” de São Gonçalo do Jururu iam percebendo, naquele olhar, que quem estava ali, representando o seu santo padroeiro, parecia ser um antigo conhecido. A procissão de entrada acabou. A missa começaria e duraria um bom tempo: saudação inicial, ato penitencial, hino de louvor. Leituras, evangelho, homilia, profissão de fé, preces, oração eucarística. Comunhão, sorteio de imagem de São Gonçalo, agradecimentos, agradecimentos e mais agradecimentos e por fim a bênção final. Esse é mais ou menos o esquema de uma missa festiva em São Gonçalo do Jururu. Durante praticamente todo esse tempo, porém, Tião e Zé da Vaca Preta ficaram do lado de fora da sacristia, num cantinho conhecido mesmo só por Tião e um ou outro coroinha e dali exultavam de alegria, o plano fora concluído com sucesso e ambos se sentiam realizados!

Tião disse:

– Muito obrigado, Zé! As suas palavras ontem a noite no bar do meu pai fizeram com que eu percebesse que muito do que você falou é mesmo verdade e tomasse essa decisão de te chamar pra viver, ainda que por apenas alguns segundos, o nosso santo padroeiro, São Gonçalo de Amarante!

Zé da Vaca Preta, emocionado, disse a Tião:

– Ô, Tião, eu é que te agradeço. Você não tem noção do que significou esse momento pra mim. Foi lindo! Eu entendi que não poderia expor meu rosto pra todo mundo, senão você teria muitos problemas e eu sei que amanhã tudo vai continuar como está. Dificilmente esse povo vai voltar a ser de fato um povo de Deus, com uma fé fervorosa, eu sei que amanhã o Roberto Menezes vai tá atrás de uma cocotinha nova, eu sei que amanhã a Dona Lourdes vai tá aqui na igreja cedinho, rezando pra não sei que santo, que o padre Emanuel vai tá comendo seus queijos e bebendo seus vinhos, sei de tudo isso, mas sei também que hoje eu me redimi, hoje eu pisei de novo nessa Igreja, hoje eu fui São Gonçalo!

A conversa emocionada dos dois continuou por um tempo, até que Tião, pra não perder o costume, teve que ir resolver algum pepino no meio da missa, Zé da Vaca Preta tirou a túnica de São Gonçalo e ficou no fundo da Igreja, ouvindo tudo o que diziam o padre Emanuel e o bispo Dom Marco Pólo, até a missa acabar. Assim que a missa acabou e a multidão foi se dispersando para a praça, pras quermesses, bingos e similares do último dia da festa de São Gonçalo do Jururu, ao som dos fogos de artifício e dos congados, Zé da Vaca Preta, devagar, bem devagarzinho foi carregando sua viola, rumando para o Bar do Seu João.

No meio do caminho, encontrou dois rapazes, que depois de terem ido à missa por pura obrigação, agora iam buscar o que eles consideravam ser a verdadeira felicidade: bebidas caras, carros descolados, meninas vazias e músicas descartáveis, além é claro das roupas e tênis de marca, tudo isso junto e misturado. Ao avistarem Zé da Vaca Preta camuflaram a risada e perguntaram pra ele, em tom de deboche:

– E aí Seu Zé, por que você não invadiu a igreja esse ano de novo?

Zé da Vaca Preta olhou pra aqueles dois rapazes e apenas sorriu. Foi um dos sorrisos mais edificantes e puros de sua vida, um sorriso que devolvia todo o deboche jogado pra cima dele, e deixava os dois rapazes com uma cara de quem não entendeu nada. Depois de ter conseguido dar essa sorriso com toda sinceridade e espontaneidade possível, Zé da Vaca Preta se convenceu de vez que tinha se redimido e até apressou o passo pra chegar logo no Bar do Seu João, comemorar o lindo dia que começava a se despedir, contando as moedas de vinte e cinco centavos perdidas no bolso.

*Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. É tudo ficção. A única realidade é em relação à história de São Gonçalo de Amarante.

O boi que mugiu alto…

“Anima igitur vegetabilis, quae primo inest, cum embryo vivit vita plantae, corrumpitur, et succedit anima perfectior, quae est nutritiva et sensitiva simul, et tunc embryo vivit vita animalis; hac autem corrupta, succedit anima rationalis ab extrinseco immissa (…) cum anima uniatur corpori ut forma, non unitur nisi corpori cuius est proprie actus. Est autem anima actus corporis organici.”
“Assim falou Santo Tomás de Aquino.”

Eia, pois, advogada nossa…

Um texto onde, em síntese, eu falo da fé, da fé que eu enxergo nos olhos de pessoas simples no dia de Nossa Senhora Aparecida (baseado em fatos reais):
Existem pequenos gestos e fatos que podem mudar, ou pelo menos ajudar a mudar, grandes coisas.
São gestos que saem fora do script, que ultrapassam a barreira do comum ou do lógico.
E não há lugar melhor para presenciar tais situações do que numa missa seguida de procissão numa cidade do interior de Minas Gerais.
O roteiro comum da missa, com seus ritos e liturgias, o roteiro comum da procissão, com seus fiéis e suas bandeiras, tudo isso pode ser modificado por uma pessoa.
A missa mal tinha começado e surge um senhor na frente do altar: sorriso no rosto, camisa meio desabotoada, calça batida, sapato velho, mas ainda assim, sorriso no rosto, aparência ruim, dando a impressão de que o resto do dia tinha sido vivido dentro de um bar ou coisa parecida, mas ainda assim, sorriso no rosto.
O “povo de Deus” misturava sua perplexidade e suas risadas durante toda a missa, o senhor continuava defronte ao altar, ora abafava as leituras com sua voz potente, ora aumentava o coro na hora das cantigas; ele estava ali, com sorriso no rosto e, sem saber, modificando toda aquela missa, que com certeza ficará marcada por muitos, como a este que vos escreve, por exemplo.
Finda a missa, sai a procissão, afinal é dia de Nossa Senhora Aparecida, protetora do Brasil, santa que tem a devoção de milhões de pessoas e sempre aglutina grande parte dessas pessoas na hora das procissões.
E dessa vez não foi diferente, cruz e velas guiavam a procissão rumo a uma outra igreja, longa procissão, marcada pelo terço, pelas cantigas e por mais…
Depois de muito andar a procissão enfim chegou a seu destino, o andor com a imagem de Nossa Senhora é carregado por vários fiéis, alguns mais fanáticos, que fazem promessa inclusive, mas quando o andor chegou um de seus quatro carregadores era ele: o senhor do sorriso nos lábios participou de toda missa e seguiu a procissão até seu destino final.
Poucos devem ter percebido esse detalhe, mas era ele, ele que sorria sempre, um sorriso que todos sabiam que não era de felicidade, nem de conforto, dava pra ver sua baixa condição social, mas então por que tanto sorria aquele senhor?
A resposta pode até ficar no ar para alguns, mas pra mim, romântica e ingenuamente eu acredito e digo: o nome disso é devoção!
Este senhor é apenas um de vários embriagados, degredados, sofridos que esquecem de todos os problemas e no dia de Nossa Senhora vão a missa, este em particular demonstrou toda sua devoção de uma maneira peculiar e incomum, apenas reforçando o batalhão dos devotos.
Mas além dele muitos outros semelhantes estavam presentes nessa mesma procissão; é algo que não requer muita explicação, só pode ser o que chamam de fé, é olhar nos olhos de senhores e senhoras e sentir a emoção, e ver esboços de lágrimas, e poder acreditar que esse sentimento é real.
Independente da crença de cada um, o dia 12 de outubro sempre será marcado por algo mágico, místico, e ouso dizer até que não é à toa que esse dia é o dia de Nossa Senhora e o dia das Crianças: existem senhores sorridentes que voltam a ter a pureza e a inocência de uma criança quando estão de frente para a Senhora Aparecida.
Rogério Arantes

A Diversidade Cultural

Muito se fala de globalização nos dias de hoje, a globalização vem para conectar de uma
maneira muito forte as culturas dos países, como quase todas as coisas tem seu lado
positivo mas também tem seu lado negativo.

Porém não quero entrar nessa discussão agora, este post, como o próprio título já diz,
vem tratar da diversidade cultural existente em nosso planeta.

Como?

Bem, hoje é dia 6 de janeiro, o chamado Dia de Reis, a data recorda a visita dos três “reis”
magos ao menino Jesus.

Antes de mais nada, já se encontra forte evidência católica na data, afinal estamos
falando de Jesus, mas pra quem prestou atenção outras influências também aparecem nessa
visita.

Reis? Magos?

Vamos combinar que magos não tem muito a ver com o catolicismo, tem mais a ver com
lendas e histórias.

Mas seguindo com a história, os três magos (Melchior, Gaspar e Baltazar) levaram presentes
ao menino Jesus.

Melchior levava ouro, simbolizando a sua realeza, Gaspar levava incenso, simbolizando
a divindade e Baltazar levava mirra simbolizando a humanidade.

Pesquisando um pouco mais sobre os magos e seus presentes descubro que Melchior veio da
Caldéia, lugar situado à beira do Rio Eufrates, ou seja, Mesopotâmia, deu de presente
o ouro que é originário da Suméria.

Sobre Gaspar diz-se que veio de uma região próxima ao Mar Cáspio, extremo leste europeu e
o incenso que levava tem origem arábica e africana.

Já Baltazar era mouro (isso mesmo), tinha partido do Golfo Pérsico e a mirra tem origem no
Oriente Médio.

Bem, só até aqui já dá pra perceber essa diversidade cultural, elementos da cultura
oriental e africana dialogando com a européia.

Só que essa diversidade aumenta ainda mais quando se lembra da data de hoje.

Depois de tanta história talvez o leitor nem se lembre mais, mas hoje, dia 6 de janeiro é
o dia dos Santos Reis, uma alusão a estes reis magos só que outra manifestação cultural
ganhou espaço nos últimos séculos, é a chamada Folia de Reis.

De origem portuguesa, a Folia de Reis recebe fortes influências africanas, é
caracterizada por grupos de pessoas, em geral músicos, que tocam tambores, reco-reco,
flauta, rabeca viola caipira e acordeon, esses grupos visitam casas desde o final do mês
de dezembro até o dia 6 de janeiro.

Por serem muito comuns aqui na minha cidade (São Gonçalo do Sapucaí) e em todo o interior
de Minas Gerais acabei lembrando desses grupos e dessa data, depois fiz uma busca
sobre as origens (no caso os famosos Três Reis Magos) e relacionei tudo isso numa coisa só.

Como disse no começo, tudo isso, desde o nascimento do menino Jesus até as manifestações
culturais de hoje em dia são, pra mim, exemplos da diversidade e contato das culturas
existentes, algo muito interessante, que mostra como é importante conhecer e aceitar novas
idéias, mas, ao mesmo tempo, não deixar de expor as suas.