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Transporte Coletivo

“Enquanto eles se batem, dê um rolê…”

Moraes Moreira/Galvão

Quando era adolescente e viajava pra cidade grande, pegar ônibus sempre era uma das atividades mais preocupantes. Aquele medo bobo e juvenil de pegar o ônibus errado e ir parar em um lugar onde você nunca havia parado antes ou de se perder de algum colega no meio da multidão que espera no ponto.

Mas os medos estão aí para serem superados e a vida está aí para ser vivida. O tempo foi passando, a cidade grande virou lugar não de fazer visitas ou excursões, mas sim de viver, e os ônibus deixaram de passar aquela preocupação toda e viraram mais uma entre tantas outras tarefas cotidianas.

Mas o cotidiano está aí para ser repensado e visto com outros olhos. É a partir da mudança de ângulo que a vida vai se construir, que você se afirmará como alguém que sabe usar da faculdade da razão, mas que também se abre e desconstrói, que também erra, que também sofre, chora, desespera, mas que ainda assim afirma, afirma o quê? A vida é algo bom de ser afirmado, sem precisar de justificativa nenhuma, vida enquanto vida, construída de uma maneira singular – e porque não ao mesmo tempo múltipla – vida cotidiana no fim das contas.

E pode até parecer loucura ou bobagem, mas esses lampejos todos foram tomando conta da minha cabeça hoje, dentro um ônibus. O transporte coletivo tornou-se algo cotidiano, e esse tornar-se cotidiano fez com que eu repensasse esse cotidiano e tentasse buscar alguma coisa diferente ali. Não ficar reclamando da demora das viagens, do motorista, do cobrador, das pessoas. Mas sim de me recolher naquele banco e pensar um pouco.

Pensar em tudo isso que estou escrevendo aqui, coisas bem introspectivas até certo ponto, diga-se de passagem, mas também pensar pra fora, pensar essa cidade que a cada dia que passa me incorpora mais. É que da janela desse ônibus dá pra ver muita coisa.

O clima frio mesclado ao sol quente e as ruas e casas cinzentas são cenário para uma vasta gama de personagens que compõem esta grande encenação: as pessoas com as camisas de seus times, os senhores que caminham com dificuldade e olhar perdido, a família que espera no ponto e vê um amigo dentro de outro ônibus, o cara que busca um mato qualquer para urinar.

Todos esses personagens e muitos outros vão povoando o meu cotidiano. E o que eu vou fazer com tudo isso? Além de observar tudo atentamente com o som do Criolo tocando no fone de ouvido – “Cartola virá que eu vi, tão lindo, forte e belo como Muhammad Ali” – penso, escrevo e vou me convencendo de que o mundo não requer explicações mirabolantes, fugas escatológicas, nem nada disso. Pensar, acreditar e querer o lado de lá é plausível, aceitável e por vezes a melhor solução. Pensar, acreditar e viver o lado de cá, entretanto, é ainda mais plausível e aceitável e mesmo que não seja a melhor solução é, ainda assim, uma solução. Uma resolução.

A conversa sobre o churrasco de ontem das mulheres que sentam na minha frente confundem um pouco a minha mente, os pensamentos vão ficando difusos e logo eu acabo chegando ao ponto onde tinha que descer. Desço e continuo pensando em como o ônibus, que não passava de um sinônimo de medo e preocupação, tornou-se um refúgio para o exercício do pensar. Nas várias mudanças e viradas dessa vida, o transporte coletivo acabou metamorfoseando-se e a teleologia disso tudo talvez seja transportar a uma coletividade um pouco do que eu penso. Se isso tudo tem um preço? Tem sim, R$ 1,95.

O colecionador de palitos de dente

Sair à noite, andar pelas ruas e parar em bares, restaurantes, lanchonetes, pizzarias. Coisa bem cotidiana dentro do meio urbano, esses estabelecimentos nos remetem a comes, bebes e conversas, encontros informais, enfim, a um ambiente bem sociável e às vezes inusitado.

Dias atrás, numa pizzaria qualquer, sai com um grupo de amigos para botar o papo em dia, relembrar antigas histórias que muitas vezes são esquecidas por nossas memórias, mas que um bom amigo sempre lembra, a lembrança pode até não ser muito exata, mas aí vem outro amigo e coloca um novo detalhe, você se lembra de alguma outra coisa e uma nova velha história é contada.

O papo rolava tranqüilo. Além de lembranças, assuntos do cotidiano também eram abordados e como em todo grupo de amigos de infância o tempo passa e acabam surgindo alguns novos amigos, conhecidos na faculdade, no trabalho ou em qualquer outro lugar.

Nesse nosso encontro na pizzaria surgiram algumas novas amizades e um cara em especial me chamou a atenção. Seu nome é Kleber e entre um gole e outro de qualquer coisa, conversamos sobre muita coisa.

Ele vestia a camiseta do Sampdoria, clube italiano de futebol. Como me interesso muito pelo assunto ludopédico logo puxei conversa. Além das conversas óbvias sobre as situações de nossos times, ele dizia que o futebol brasileiro, é hoje em dia algo totalmente deturpado. A tirania da CBF perdura e juntamente com ela clubes e empresários se enriquecem a custo do dinheiro de torcedores que compram camisas e artigos, mas às vezes não têm dinheiro nem pra comprar comida. Eu dizia que essa triste realidade parece ser impossível de ser modificada, mas necessita disso, e que apesar dessa situação toda, isso não poderia prejudicar a paixão do torcedor, pois a paixão não cobra ingresso nem vende camisa, ela simplesmente existe.

Enveredamos então para o campo da paixão. Kleber, um tanto acanhado, contava sobre sua última namorada, que o traiu com um atendente de Sex Shop. Ela ia ao Sex Shop comprar coisas para usar com Kleber, mas acabou conhecendo esse atendente, foi a uma festa com ele e deu no que deu. O lado cômico da coisa tinha de ser sublimado para evitar um maior constrangimento, mas disse a Kleber que independente de qualquer coisa, certas coisas acontecem e ele deveria procurar não se prender a ninguém, viver intensamente as paixões, deixar as pessoas com quem se relaciona livres, embora ciúme e insegurança sejam palavras muito vivas nesse vocabulário sentimental, por mais que se tente negar.

Chegavam mais algumas porções de batata-frita e a gente ia conversando, trocando idéias, compartilhando experiências, rindo de piadas alheias, pois tem sempre um piadista no grupo e a noite assim ia passando.

Quando os copos, bandejas e pratos ficaram vazios e o pessoal esperava o garçom trazer a conta, Kleber pegou disfarçadamente todos os palitos de dente utilizados ali e guardou no bolso. Meio sem querer eu notei isso e depois de todos pagarem a conta e já estarmos na porta da pizzaria para as despedidas, perguntei pra Kleber o porquê dele ter guardado os palitos de dente no bolso. Ele, envergonhado, me disse que coleciona palitos de dente.

Não cheguei a imaginar nenhuma resposta possível naquele meio tempo, mas com certeza não pensei em nada do estilo de uma coleção de palitos de dente. Kleber percebeu meu espanto e sem embaraço me clareou a mente:

– Rogério, praticamente tudo que a gente falou aqui hoje é de se espantar, não tem fundamento racional nenhum. A paixão por um clube de futebol, adultério, ciúmes e por aí vai… Possuir uma coleção de palitos de dente é só mais uma demonstração das imensas possibilidades e singularidades disso que nós chamamos de ser humano. Ainda que não com a intensidade e importância dessas outras coisas. Exótico sim, mas ainda sim possível.

Sorri e logo me lembrei de quando eu gostava de decorar todas as palavras novas das páginas 42 dos livros. Disse a Kleber que entendi muito bem o que ele falou e depois de me despedir voltei pra casa pensando muito nesse eterno repensar, nessa eterna ressignificação de valores dentro da qual estamos inseridos.

Hoje à noite devo sair pra um barzinho e quem sabe novas pessoas e novas conversas como a descrita acima possam surgir. Acredito que os palitos de dente nunca mais serão os mesmos.

Páginas de Convivência

Hoje, pela segunda vez na sua história (a primeira tá aqui) o Un Quimera tem a honra de publicar um texto de Ivan Bilheiro.

Apesar de não ter divulgado por aqui, no último mês de maio participei da publicação do segundo livro do Movimento Literário Saberes e Sabores – MLSS de São Gonçalo do Sapucaí-MG, minha cidade natal. O livro contém textos de vários autores que participam do Movimento Literário, inclusive dois poemas e um conto meu.

Meu amigo Ivan Bilheiro comprou um exemplar e gostou bastante do que viu, me elogiou, comentou comigo sobre o livro e o movimento e pra comprovar tudo isso também escreveu um texto sobre. É este o texto que publico aqui. Valeu, Ivan!

Páginas de Convivência

Escrevi certa vez enaltecendo os livros que aproximam pessoas. Acho fantástica a utilização da leitura para criar conexões entre as pessoas, diálogos, trocas… As leituras pessoais dos livros passam por releituras na criatividade dos diálogos sobre eles.

Mas há outra forma bastante louvável de agregar pessoas e gerar boas relações através das letras: a escrita. Símbolo disso é o livro que, felizmente, chegou até mim: Memórias Sapucaienses (Ottoni Editora, 2011, 303 páginas) organizado por Alitta Guimarães Costa Reis e Márcia Magalhães Pereira. A obra reúne frutos do trabalho do Movimento Literário Saberes e Sabores, da cidade mineira de São Gonçalo do Sapucaí.

São páginas que registram o que povoa a mente desta comunidade de praticantes da escrita, como bem dito na apresentação da obra. E o passeio por estas memórias sapucaienses oferece-nos muito: desde homenagens emocionadas a familiares, professores, à natureza e a Deus, textos que registram a admiração; até as singelas utopias de uma cidade do futuro nos sonhos escritos pelas crianças, como “São Gonçalo no Futuro” da jovem Alana de Souza Evangelista, que li como ao som de uma marchinha, sabe-se lá por força de qual encantamento…

Há também muita história, como não poderia deixar de ser: laços com o passado registrados em construções, “causos” de família, lembranças… Revolta pelo abandono patrimonial, sob a pena de Tadeu de Paula; as lembranças de Dagmar Pereira de Almeida sobre sua chegada a São Gonçalo do Sapucaí, ainda de trem, em 1931, que dizem muito sobre o caminhar da própria cidade; bem como a acolhida aos recém-chegados, escrita por Rosa Mattar Lorieri, que conjuga história e genealogia.

Reflexões e poesias, sonhos e revoltas, tradição e política, nostalgia e observações… De tudo um pouco nas letras do emelessianos (termo que designa os membros do Movimento Literário que ensejou a publicação), de forma a encantar novos leitores.

Destaco dois bons e jovens “escrevinhadores”, cujas palavras podem resumir minhas impressões: Maria Eugênia Arantes Gonçalves, que reflete sobre a leitura, e Rogério Arantes Luis, que trata da escrita. Em “Reflexos, reflexões”, pode-se ler: “É verdade que os livros são portais encantados que levam a cômodos secretos da própria mente de quem lê, é neles que se vêem pensamentos desconhecidos para quem os pensa, é neles que se encontram, colocados em palavras, os sentimentos mais profundos de quem sente.” Já em “Escrevivendo”, a passagem: “O que eu escrevo é que eu tenho/ O que eu escrevo é o que eu amo/ O que eu escrevo é o que eu sinto.” Assim concebo a aproximação da escrita: leituras em que nos reconhecemos, as quais nos levam a escritas de nossas vidas, que despertarão sentimentos em novos leitores, que poderão “escreviver”… Então segue-se nessa sequência, criativa e prazerosa.

Leituras de vida, diálogos de escritores, vida das letras nas páginas das Memórias Sapucaienses! Reproduzo Elza Arantes: “Escrever é uma arte que alimenta a imaginação e as palavras brotam do coração. Nesse movimento, boas leituras vão ouvir. E muitos textos, com carinho, construir.” É assim a singela aproximação das pessoas pela escrita.

Inclinação Literária #04 – Ratos, ausências e presenças

Uma brasileira!

Sim, contrariando a linha que os posts da série Inclinação Literária vinham seguindo até aqui (escritores estrangeiros e masculinos: os americanos Jack Kerouac e John Fante e o francês Albert Camus), o post de hoje vai ser sobre um dos livros de uma grande escritora brasileira.

Falo de Seminário dos Ratos, de Lygia Fagundes Telles.

Antes de começar acho válido falar sobre o meu primeiro contato com a referida escritora. Foi no longínquo ano de 2007, quando estava no 1º ano do Ensino Médio, através de um livro de contos chamado Gente em Conflito, onde vários autores brasileiros escreveram contos abordando o tema da violência, de Machado de Assis a Fernando Sabino, tinha muita coisa boa lá, mas o conto que mais me chamou atenção foi Venha ver o pôr-do-sol, de Lygia Fagundes Telles. Com maestria, eu diria, a autora criou um história com uma narrativa envolvente que envolve muito mistério e um crime passional.

Mesmo tendo gostado bastante, de lá pra cá não tinha lido mais nada dessa escritora paulistana, membro da Academia Brasileira de Letras, que completou 88 anos em 2011 e possui uma vasta de bibliografia de contos e romances. Suas principais obras são Ciranda de Pedra (que foi adaptada para a televisão em 1981 e, mais recentemente, em 2008) e As Meninas.

A obra sobre a qual falarei hoje, Seminário dos Ratos, está um pouco a margem, foi publicada pela primeira vez em 1977 (eu li a 8ª edição, de 1998) e é composta por 14 contos.

Não acho muito interessante falar sobre cada um deles separadamente: muito trabalho e possivelmente pouca clareza. Por isso pretendo falar dos contos como um todo e falar um pouco mais daqueles que me chamaram mais atenção.

É uma característica marcante em praticamente todos os contos a mistura de realidade e fantasia, o que de certa forma torna os textos de Lygia algo muito subjetivo, pois os limites e contatos entre realidade e fantasia não podem ser definidos de uma maneira exata. Em meio a essa ambientação “mista” os personagens, dos mais variados possíveis, vão desenvolvendo seus dramas, angústias e paixões e fazem isso de uma maneira humana e voraz.

Esse é outro ponto que me chamou muito a atenção, a penetração psicológica que Lygia Fagundes Telles realiza em seus personagens, isso, no meu ponto de vista, enriquece demais a obra, ainda mais quando se trata de contos. Este estilo literário geralmente conciso e sem muitos acontecimentos e histórias necessita que os personagens saiam do óbvio para que assim possam transformar pequenas coisas, que por vezes passam despercebidas, em algo realmente interessante de se ler.

Para exemplificar e adentrar um pouco mais na obra vou falar um pouco de alguns contos. Em Pomba Enamorada ou Um História de Amor, nos deparamos com uma mulher que ganhou o título de princesa do Baile da Primavera e no mesmo baile se apaixonou por um rapaz, ela que aparentemente era descrente em relação às paixões entra em uma paranóia atrás de seu “príncipe” e recorre a todas as crenças e simpatias que povoam o imaginário popular: o poder dos signos, sapo com boca costurada e por aí vai, tudo por uma paixão.

O x do problema é ambientado em uma favela e assim como o conto que dá título ao livro é uma astuta crítica social, (outra faceta de Lygia é essa crítica social sutil e precisa) que mostra uma família pobre, cheia de problemas, mas que possui também uma televisão, a partir daí o conto se desenrola e passando por Ary, Clorinda, Pelé, Zico a história chega a um desfecho bem sugestivo.

A consulta foi um dos mais divertidos. Quando doutor Ramazian sai de seu escritório e deixa o seu “assistente” Maximiliano no seu lugar, para anotar recados e coisas do tipo, só que nesse meio tempo chega ao escritório o senhor Samuel Fernandez, um paranóico que está com medo da morte, o conto se desenrola num diálogo entre os dois, o desfecho ótimo, não vale a pena contar aqui.

E por fim, falo do conto que dá título ao livro, Seminário dos Ratos sintetiza bem a aura dos contos de Lygia, temos ali a crítica social, a penetração psicológica, a mistura fantasia e realidade, enfim, temos mais um belo conto, onde ratos tomam conta de um seminário e provocam mudanças no país.

É mais ou menos nisso que essa obra gira, Lygia Fagundes Telles consegue falar de paixões e sentimentos de uma maneira muito interessante, ela é intensa e sabe explorar pequenas coisas cotidianas. Pra falar um pouco disso, nada melhor do que a própria, a seguir um trecho de um depoimento dela:

“Alguns dos meus textos nasceram de uma simples frase ou de alguma imagem que vi e retive. Outros, nasceram em algum sonho, enfim, a maior parte destas ficções talvez tenha sua origem lá nos emaranhados do inconsciente – zona vaga e obscura como um fundo de mar. O ato da criação é sempre um mistério. Anoiteço às vezes, como toda gente, mas tenho esperança na manhã, e o humor? Então, espero por essa manhã com o seu bíblico grão de loucura, de acaso e de imprevisto.”

Em setembro volto com mais Inclinação Literária.

Ervilha da Fantasia

Época de férias significa mais tempo. Mais tempo pra não fazer nada, pra rever os amigos e familiares, pra ler simplesmente por ler, pra fazer n coisas e inclusive dar uns giros na internet.

Ontem, num desses giros, encontrei uma pérola: a Ervilha da Fantasia.

Um documentário dirigido por Werner Schumann que mostra o poeta Paulo Leminski falando de muita coisa, em especial, da poesia e também outros caras falando de Leminski.

Conheço muito pouca coisa do poeta curitibano, mas após assistir esse curta me animei de conhecer mais e mais. O cara é muito transparente, fala coisas que em geral não se fala, e dá um valor muito interessante pra poesia em si. Se diz um puro poeta, mas na verdade acaba se embrenhando em outras áreas e com a poesia (essa grande inutilidade, segundo ele mesmo) consegue ressignificar muita coisa, consegue sair da normalidade.

Poetas, escritores, filósofos contemporâneos merecem ser melhor estudados e compreendidos, não é que eu queira desvalorizar os grandes clássicos de séculos atrás, jamais, possuem seu enorme valor e importância; porém os contemporâneos também possuem e isso as vezes é esquecido, ainda mais em terras tupiniquins.

Sem mais conversa, fica aí o vídeo:

O Pluralismo Universitário

“Poesia não tem dono, alegria não tem grife”

Zeca Baleiro

Vento frio soprando devagar, restos da outra noite perdidos entre as ruas; roupas, pastas, jovens salas, cantinas, bibliotecas, um ônibus que sobe e dá voltas, gente, muita gente e uma inércia imensa, preguiça, desinteresse, conformismo. Sol quente queimando devagar, anotações da outra aula perdidas entre os cadernos; roupas, pastas, jovens, salas, cantinas, bibliotecas, um ônibus que já não sobe mais, gente, muita gente e uma vontade imensa de ir além, questionar, pensar, experimentar. O que é que faz essa rotina por vezes entediante e cinzenta ser pensada de diferentes maneiras e da onde vem essa vontade toda de deixar tudo como está e essa vontade louca de agir e fazer o novo acontecer?

No meio de badaladas festas regadas a muita cerveja, vodka, refrigerante, energético e “sertanejo universitário” (esse último não é nenhum novo tipo de bebida, é o gênero musical mesmo), João, estudante de um curso superior qualquer, se diverte muito e faz a farra com seus amigos. As provas e trabalhos não são tão importantes, tem sempre aquele resumo na internet, aquele colega estudioso, aquele jeitinho com o professor. A vivência verdadeiramente universitária também não é tão atraente. Grupos de estudo, congressos, simpósios, são todos chatos e entediantes, no máximo uma assinatura ou outra para conseguir novos certificados. Mas as festinhas são essenciais. Sem elas não haveria aquele gostoso ambiente de bebedeiras e pegação, de menininhas pegando carona no carro sport de João, menininhas que estudam no ensino médio e sonham um dia chegar a faculdade para poderem curtir mais e mais festas como aquelas que João sempre as convida para ir. Menininhas que estudam na faculdade, colegas de João, que se enfeitam, dançam, riem, conjugam vários verbos e às vezes esquecem-se de conjugar o verbo estudar. Sem as festas João não teria o sorriso estampado na cara, não seria feliz. Afinal, a vida universitária é isso, não? É passar aulas e mais aulas dormindo ou conversando e nos finais de semana ir a festas, se divertir, ser feliz, beber e foder!

Na mesma universidade de João, estuda também José. Estudante de um outro curso superior qualquer, José de vez em quando freqüenta as mesmas festas que João, mas não se liga tanto nas baladas sertanejas de João. De vez em quando José bebe um pouco: cachaça, ou então misturas mais alternativas de Martini com conhaque, vinho, uísque e por aí vai. De vez em quando José também estuda um pouco: vai buscar livros na biblioteca, lê obras a fundo e consulta um ou outro artigo na internet. De vez em quando José também pega menininhas: aquelas que não se impressionam tanto com os carros e roupas de João, mas entendem um pouco melhor das coisas do que as lindas menininhas das baladas sertanejas. E a vida de José é boa e feliz, seja nas festas universitárias, nos grupos de estudo, nas conversas com amigos e professores. Afinal, a vida universitária é isso, não? É estudar e aprender bastante a todo momento e também ir a festas, se divertir, ser feliz, beber e foder!

A essa altura o querido leitor já deve estar pensando: entendi tudo o que esse rapaz está querendo me dizer, que tem gente diferente dentro de cada universidade, de cada curso, e que é melhor se dedicar aos estudos do que cair na farra. Tudo não passa de uma besta liçãozinha de moral vinda de alguém que pensa ser melhor do que todo mundo. Se você pensou isso ou coisa parecida, parabéns! É uma chave de leitura sua que pode sim ser utilizada, mas na verdade não é nada disso!

Não é lição de moral nem julgamento de valor. A questão é bem mais profunda: é a existência humana que está em jogo, seja a de João, seja a de José, seja a minha, seja a sua. Se um dia você pudesse conversar com João tudo o que ele lhe diria seria o calendário das festas que ele tem pra ir e as meninas que ele tem pra pegar, João não pensaria em mais nada além disso. Se um dia você pudesse conversar com José ele teria infinitas possibilidades de compartilhar idéias e conhecimentos, falaria de festas e meninas, coisas que todos gostamos, mas falaria também de outras coisas, pensaria além.

Qual dos dois seria melhor pra conversar? Não cabe a eu julgar. Só que chega um ponto em que não são mais as festas e farras que pertencem a João, é ele que pertence a elas. Se João se ver privado das festas ele entra em parafuso. Ele não conseguiria abandonar suas queridas baladas sertanejas por um final de semana sequer, sua existência reduzida a isso é uma existência pobre e vazia, sua alegria deixaria de existir. Já José conseguiria viver muito bem sem festas, pois ao mesmo tempo em que ele freqüenta e gosta de festas, ele também tem vários outros universos permeando sua existência: conversas, livros, sensibilidade. É uma existência rica e densa, e tão feliz quanto à de João.

Por tudo isso repito que não quis expor nenhum tipo de lição de moral aqui, quis apenas mostrar um retrato muito comum nas universidades brasileiras. Esse pluralismo universitário é algo muito real hoje em dia, é importante pensar se essa dualidade não terá reflexos maiores lá na frente, muito se diz do fato das universidades brasileiras estarem ampliando o número de vagas e crescendo mais e mais, mas dentro dessas universidades o que se vê são histórias muito semelhantes às de João e José, qual dos dois teria mais capacidade de contribuir para o futuro do país, qual existência seria mais digna e feliz? Esses questionamentos não parecem ser muito difíceis de responder e não é difícil também constatar que tem muito mais João do que José por aí.

Na Estrada

NÃO É OURO

MAIS É PRATA

As duas primeiras linhas desse texto foram vistas originalmente num pára-choque de caminhão com placa do interior de São Paulo, em uma rodovia das Minas Gerais.

Na estrada muita coisa acontece, talvez boa parte dessas coisas fiquem ocultas devido ao cansaço de uma longa viagem da Zona da Mata de Minas até o Sul deste mesmo estado. O som do Zeca Baleiro faz com que o sono vá embora, canções contemporâneas e inteligentes, que pra alguns fazem do Zeca um poser, compositor difícil ou coisa parecida. Pra essa galera vai um desafio: “quero ver você dizer rala, lara, loura, lisa”.

Mas não é só no som do Zeca que a viagem se desenrola. São longas paradas na estrada devido a obras em pontes e asfaltos, o vento que invade a janela e o vasto verde de pastos e árvores nas margens da estrada. Uma parada pra um pastelzinho de carne com suco de açaí também faz parte.

E em meio a toda essa atmosfera o que não falta são caminhões. Tem de todo tipo e tamanho, carregadíssimos e pesadíssimos, nem tão carregados assim, com um dos eixos arreados e um pouco mais leves. Vem e vão, vem e vão. Cortam as estradas do país a todo o momento, fazem parte da cultura do país – quem nunca ouviu uma pitoresca história de caminhoneiro? – e também atrasam um bocado a viagem de quem só quer voltar pra casa pra passar um final de semana.

E foi num pára-choque de um desses tantos caminhões que a minha mente enxergou as linhas que iniciam esse texto. Com certeza existem outros pára-choques mais bonitos e mais engraçados, mas esse particularmente, sem nenhuma razão em especial, me chamou muita atenção.

Primeiramente pelo crasso erro de português. As confusões com mas e mais me remontam a infância, a um tempo em que caminhão não passava de brinquedo, mas ao mesmo tempo me fazem pensar na escolaridade do motorista do caminhão. Sua mensagem para o mundo (penso que talvez seja essa a significação do pára-choque para o caminhoneiro) toda torta e ele possivelmente nem sequer saiba disso.

Não pense o leitor que quando toco nesse ponto estou sendo preconceituoso com o caminhoneiro, querendo dar uma de intelectual que encontra erros em pára-choque de caminhão, nada mais chato e fundamentalista do que ser alguém assim. Quero apenas mostrar que é nesses pequenos erros, que às vezes passam despercebidos por muitos, é aí que a sociedade vai se construindo e se mostrando, é aí que se instiga um estudante qualquer a escrever um texto qualquer, um pára-choque de pleno acordo com as mais novas mudanças da reforma ortográfica talvez não despertasse tanto a minha atenção.

Pensando mais especificamente no teor da frase, quem sabe uma prova de humildade, mas ao mesmo tempo uma afirmação do seu status, uma prova de carinho para com o seu instrumento de trabalho ou até mesmo uma lembrança das medalhas das Olimpíadas, sabe-se lá o que se passa na cabeça de um cara que viaja o tempo todo e encontra com gente dos mais variados tipos e se depara com as mais variadas situações, suas vivências são constantes e ímpares. Um simples erro de português pode não ser nada mais do que um simples erro de português, proveniente de uma mente fechada e rasa, mas ao mesmo tempo pode ser só uma carcaça para algo mais profundo, um caminhoneiro que dialoga com pessoas de vários lugares e conhece várias coisas novas pode não saber muito de português, mas talvez saiba muito sobre outros campos do conhecimento. Do conhecimento marginal e cotidiano, mundano e somente adquirido com a experiência de um caminhoneiro ou de um pedreiro qualquer.

E em meio a todos esses pensamentos Zeca Baleiro diz que a felicidade não existe, só momentos felizes. O caminhão que não é ouro, mas é prata, tem que ser ultrapassado, quero chegar logo em casa e descansar um pouco. Quando o caminhão se perde na estrada e o que vejo passa a ser uma longa Rodovia Fernão Dias outros pensamentos vão surgindo e as reflexões sobre o pára-choque do caminhão também vão ficando pra trás, na poeira da estrada.

Na viagem de volta pra Juiz de Fora outros caminhões estarão no caminho, quem sabe não serão ouro, não me trarão inspiração nenhuma, mas quem sabe uma prata qualquer perdida no caminho pode ser motivo para novas e desajeitadas linhas.

Além da trave e do gol

– Bate, moleque! Bate!

Quando se está na frente do gol, com o zagueiro mordendo sua canela, a bola quicando com insegurança, a grama alta subindo sob seus pés e o goleiro olhando pra bola, o que se escuta é essa frase, as opções que se tem são poucas: ou você perde o momento exato de bater pro gol e escuta outras frases, não tão motivadoras quanto essa, ou você mete o gol e sai de cabeça erguida – seja em silêncio ou comemorando – com serenidade, com o dever cumprido.

Dá pra imaginar essa cena em vários ambientes. Seja nos pomposos gramados do milionário futebol europeu, nos por vezes entediantes gramados do estranho futebol brasileiro ou ainda num campinho qualquer, num bairro qualquer, sem nenhum profissional em campo e sem nenhum empresário fora dele. É só uma simples pelada de fim de semana, com os amigos, quem sabe um alívio da correria do dia-a-dia, quem sabe um mero passatempo.

Só que dentro das quatro linhas, tudo muda, tudo se transforma. Tem gente que diz que é só um jogo, tem gente que odeia, que ridiculariza. Enfim, tem gosto pra tudo, mas as coisas ali dentro, aquela bola velha, aquela grama mal cuidada, aquela rede de gol já arrebentada, tudo tem uma significação, tudo adquire valor e vida, não importa se o moleque que vai meter o gol é um senhor casado e com filhos, ou um adolescente que precisaria estar estudando para a prova de amanhã, o moleque é muito mais do que um moleque.

– Bate, moleque! Bate!

Ao mesmo tempo em que se é só mais um dentro da sociedade, pode-se ser o cara ali dentro. Isso não vale nada, depois da pelada só o que vai ficar vão ser os goles de cerveja no copo e de suor no corpo. Só o que vai ficar vão ser as lembranças daquele gol, daquele drible, daquela furada.

Como ser o herói dentro de campo, fazer o gol da vitória e tudo mais e ao mesmo tempo ser um canalha dentro de casa, esquecer-se da mulher e dos filhos e se embebedar no boteco mais próximo? Como ser o zagueiro perdido dentro de campo, que não ganha uma dividida e ao mesmo tempo ajudar sua vó com os problemas médicos, cuidar das pequenas coisas dela: os artesanatos, as receitas, o terço?

Tudo isso pode acontecer sem fantasia nenhuma, podemos deparar com situações assim em qualquer cidade deste país. Qual a identidade desses milhões de “jogadores” dessa “pátria de chuteiras”?

– Bate, moleque! Bate!

A identidade de qualquer um pode ser multifacetada. Mocinho e bandido? Conversa pra boi dormir. Isso não existe! Dentro do cotidiano das pessoas as múltiplas experiências vão engrandecendo todo mundo, tanto experiências boas quanto más podem ser válidas, eticamente condenáveis talvez, sim, porém válidas.

Seres plurais. Que conseguem se entregar de corpo e alma à batalha física chamada futebol e que com o mesmo corpo e alma também se entregam a experiências intelectuais.

Até quando se é mais um desses “moleques” dentro de campo pode-se aprender e alimentar suas experiências, sua subjetividade, sua hermenêutica.

Complicação do papo, saindo do território do futebol e indo para uma territoriedade acadêmica? Não, não é isso. É apenas uma simples tentativa de união entre coisas para muitos inconciliáveis.

Chega da bitolação, da especialização, do preconceito. Vamos ampliar nossos próprios horizontes, vamos encarar o goleiro de frente, deixar o zagueiro na saudade e meter o gol!

Baby on Friday

Era só mais um fim de tarde de segunda na quente e abafada Juiz de Fora.

Andava eu solitário e pensativo por entre os calçadões e ruas do Centro, até que me deparo com um grupinho de adolescentes. Apenas passei por eles e comecei a pensar em várias coisas.

As coisas que pensava com mais intensidade com certeza eram em relação ao que vi. Os mesmos nikes multicoloridos, as mesmas calças jeans estilizadas, as mesmas blusinhas e camisetas pré-fabricadas, os mesmos cabelos lisos e coloridos, com franjas e bonés.

Parece que isso é tudo que eles têm. Praticamente todos são ou pensam em ser assim, seja os do Jesuítas, Conexão, Academia e Equipe ou os da Central, Normal e Stella Matutina. Não que eu tenha o direito de julgar o estilo de qualquer pessoa, mas é que chega uma hora que cansa ver tudo tão normal nas ruas.

Acredito que é nessa mesmice tão vaga e preguiçosa que surgem os “Justins” e as “Rebeccas”, não duvido nada que a maioria dos adolescentes daquele grupinho que vi na São João queriam um dia ser e/ou ter um “baby on friday” e assim unir os hits do adolescente pop star de 2010 com o da adolescente já web pop star de 2011, ou seja, continuar não fazendo nada além do comum.

Continuava meu caminho rumo ao Granbery, já pensando em tudo isso que escrevi acima, até que um pouco a frente do cruzamento da Independência com a Batista ouço meu nome ser chamado timidamente. A princípio pensei que estava ouvindo coisas ou que o chamado era pra outra pessoa. Quem, nessa imensidão juizforana, iria me chamar assim no meio da rua? Até que ouço de novo e pra confirmar me viro.

Nesse momento me deparo com uma pessoa que já fez muito dentro da minha vida em um espaço de tempo relativamente pequeno, não, não encontrei uma criatura fantástica que eu nunca tinha visto antes e que em um segundo transformou minha vida, não, aqui é vida real, vida essa que às vezes proporciona alguns encontros casuais, sim, quem me chamava era uma grande amiga.

Amiga essa que com um sorriso no rosto me disse que não queria gritar e que já estava quase me cutucando para que eu a visse. Disse a ela o que realmente imaginei e já disse aqui dois parágrafos acima e aí então da Batista até a Sampaio o que rolou foi uma gostosa e reconfortante conversa.

O papo era casual e informal: bolsas da faculdade, contratos de aluguel, lembranças das férias e por fim, pra celebrar a amizade, um combinado de almoço na quarta, onde eu espero cozinhar algo bem gostoso e diferente, dentro das minhas limitações culinárias e financeiras, é claro.

Sobre como esse encontro me motivou e me deixou mais feliz até chegar à Rua Julieta de Andrade, é algo que fica pra outro texto qualquer, o importante é que ela faz a diferença e que diferente da molecada da São João tem seu próprio estilo, não se apega a ídolos descartáveis ou coisa do tipo, enfim, ela é pelo menos um pouquinho diferente dessa normalidade toda.

Não quero com isso dizer que se você não usar as roupas da moda você já é uma pessoa extraordinária e diferente, não, isso seria quase como querer ditar uma nova moda, a “moda do diferente”. E isso definitivamente não é a minha pretensão.

O que quero dizer é que em pequenas coisas, em encontros casuais como esse que citei acima, é no meio disso que estão escondidas coisas novas e realmente interessantes, por mais que talvez estejamos todos presos a uma grande teia social e tenhamos nossas ações muitas vezes coagidas por fatores externos à nossa vontade, um pouquinho de subjetividade e espírito crítico não faz mal pra ninguém.

A repetição de roupas e atitudes dos “deuses” da adolescência contemporânea é fastidiosa e preocupante, por isso escrevo tentando refletir em cima disso, e torcer pra que isso quem sabe um dia mude.

Por enquanto só sei que a minha convicção nessa noite de segunda, noite de lavar roupas e escrever coisas é que muito melhor do que qualquer “baby on friday” vai ser esse “lunch on wednesday”.

Postes, bares e igrejas (2)

Começo o mês de abril relembrando um antigo post do Un Quimera.

O Postes, bares e igrejas, publicado aqui em setembro do ano passado, foi publicado hoje na Revista Contemporartes.

O post na realidade é só pra falar isso, afinal o texto em si já havia sido publicado aqui antes.

Vale a pena dar uma olhada no post lá na Contemporartes também, que recebeu uma roupagem diferente, algumas imagens e tudo mais que combinaram bem. Além desse conto, também é válido dar uma olhada geral lá, a revista semanal de difusão cultural tem muita coisa interessante.

Durante a semana voltam os posts “inéditos” do Un Quimera.