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Reflexões de fim de ano

Suprassumo do lúdico, dentro da esfera do cotidiano: sentir o cheiro da chuva, dentro da casa onde você nasceu e foi criado, ouvindo sua priminha conjugar os infantis e inconfundíveis verbos “apeitar” e “peider”.

Dá um “apeito” no peito perceber que com o tempo a gente vai “peidendo” toda essa leveza.

Penso que o que dá pra fazer é pelo menos tentar plasticizar toda essa concretude cinza que insiste em nos dominar.

Ah não, melhor não…

… das coisas pequenas e simples nunca se tiram soluções válidas, pra quê ficar se iludindo…

Rogério Arantes

Quase Comentário

Ler é uma atividade muito prazerosa pra mim. Nos últimos anos (em especial nesse 2012), essa atividade foi tomando contornos cada vez mais exacerbados na minha vida. As leituras da faculdade, as leituras por conta própria, as leituras de artigos na internet, as leituras, leituras, leituras…

Dentre os vários “tipos” de leituras, uma para a qual eu tenho um carinho especial é aquela leitura recomendada por amigos. Quando o amigo que recomenda está distante, acho melhor ainda. Porém, como aludi acima, são tantas e tão importantes leituras, que acontece do amigo indicar a leitura, te emprestar o livro, e a leitura não ter tempo pra sair. O livro fica lá esperando, esperando e nada.

Foi mais ou menos isso que aconteceu com o livro Quase Memória, de Carlos Heitor Cony. Estava com ele há alguns meses e ainda não tinha conseguido fazer a leitura. Até que nessa semana resolvi deixar um pouco de lado as outras leituras e em uma semana e um dia, li a obra indicada com entusiasmo por um amigo.

Além de tudo, a leitura dessa obra me fez relembrar uma maneira de se ler que estava há muito esquecida por mim: a leitura sem lápis nem caneta na mão, a leitura deitado na cama, a leitura descompromissada (que não significa, de forma alguma, uma leitura desatenta ou menos criteriosa),  e que leitura boa é essa! E quando ela volta a tona com uma obra tão leve e tão curiosa como essa de Carlos Heitor Cony a coisa fica melhor ainda.

Quando acabei de ler pensei em escrever um breve comentário sobre, que se segue logo abaixo:

O romance Quase Memória, de Carlos Heitor Cony, é caracterizado pelo próprio autor, no subtítulo da obra, como um quase-romance. Talvez seja mesmo um romance que para no quase. A personagem central da obra é o pai do autor, Ernesto Cony Filho. E a indefinição se estamos lendo um romance ou uma biografia desse pai é uma das dicas para o quase-romance.

No entanto, o quase romance ou a quase memória de Cony filho não param em um quase que se mostra incapaz ou impossibilitado de levar ao leitor o todo que parece querer ser transmitido nessa obra.

Em cada um dos vinte e cinco capítulos que a compõem, um leitor mais desapercebido lê e encontra pequenas histórias e memórias de Carlos Heitor Cony, sobre sua própria vida e experiências, mas, em especial, sobre a vida, as peripécias, as particularidades, a incomum idiossincrasia, enfim, de seu pai, o também jornalista Ernesto Cony Filho.

O que o leitor mais desapercebido não deve conseguir captar é que todas essas histórias (desde as mais singelas, que versam sobre uma criação de galinhas de Ernesto Cony Filho, ou ao amigo deste, chamado Absalão, que costumava ir roubar mangas com ele no Cemitério do Caju, até histórias que envolviam todo o país, como a tentativa de articular uma candidatura à presidência, em 1930, do governador de Minas Gerais ou as mudanças em relação ao fazer jornalístico, causadas pela evolução tecnológica e publicitária) são na verdade fragmentos da memória de um jornalista que vê a sua vida repassar por sua mente em um dia.

Esse dia, por sua vez, com todas essas memórias, é contado em um livro. E é aí que se encontra toda a qualidade e leveza do quase-romance de Cony: para uma leitura mais atenta, o autor literalmente conta essas pequenas histórias e lembranças, e aí cada capítulo deixa de ser apenas mais um capítulo e transforma-se em um pequeno “causo”, um dedo de prosa – prática tão cara a um mineiro com eu – que se estende e não se pretende absoluto ou definitivo: quem disse que a memória consegue abarcar todos os acontecimentos de nossa vida? Estamos aqui situados em uma atmosfera de quase memória.

Dentre os vários, curiosos, engraçados e instigantes “causos” contados por Cony, muitos me chamaram a atenção, o principal deles talvez seja o do balão de São João, e de como se dava sua confecção (atividade que unia Cony pai e Cony filho e que despertou nesse uma profunda admiração e carinho por aquele), mas neste pequeno texto, que se pretende um breve comentário sobre a obra, a título de ilustração, quero destacar apenas um: a viagem (ou quase viagem) de Ernesto Cony Filho à Fiuggi, Itália.

Esse “causo” chega a ocupar até mais de um capítulo dentro da obra e fala de como Ernesto Cony Filho foi escolhido para ser o jornalista brasileiro a divulgar e conhecer in loco as milagrosas águas da desconhecida cidade de Fiuggi. O fato é que, na década de 30 do século passado onde o transporte e a tecnologia em geral eram bem diferentes das atuais, o jornalista teria que fazer uma viagem com várias escalas, saindo do Rio de Janeiro, indo à Piracicaba, Santos, Recife, Gênova, Roma e só depois chegar ao seu destino, Fiuggi.

Quando ele sai do Rio, todos a sua volta (família, colegas de trabalho, o Capitão Giordano, de Caporetto, figura especial dentro da obra) ficam meio que extasiados, com aquela admiração: nossa, ele vai mesmo à Itália! Porém, com uma engenhosidade e um humor finos, Carlos Heitor Cony mostra que toda essa animação acabaria dando com os burros n’água: seu pai não chegou sequer a sair do Brasil, no meio do traslado Santos-Recife, Mussolini toma o poder na Itália, várias pequenas tragédias acontecem e o cônsul que havia programado a ida de Ernesto Cony Filho à Fiuggi não manda mais em nada e resta para o jornalista voltar ao Rio de Janeiro.

Interessante é perceber que essa história em particular volta a ser mencionada no livro e com o detalhe de que Ernesto como que criou em sua mente e contou para várias pessoas uma real ida à Itália, o efeito cômico conseguido com isso é muito bacana.

Entre um “causo” e outro como esse a obra vai se desenrolando e passando ao leitor um pouco da trajetória de um dos grandes jornalistas brasileiros do século XX (assim como de tudo ao seu redor).

Uma lição de simplicidade e sagacidade. Injeção de ânimo pra quem, como Ernesto Cony Filho, pretende batalhar por e realizar as coisas grandes.

O poeta que esqueceu de transcender

Nas paredes da memória os quadros insistem em ficar tortos, não pode haver perfeccionismo se o critério não é perfeito. E por acaso existe algum critério perfeito?

Desgaste e gasto.

 O poeta que esqueceu de transcender

 “Vejo o poeta inspirado em coca-cola

Que poesia mais estranha ele iria expressar.”

Raul Seixas

Dizem que a atividade do poeta é loucura, desvairio.

Tem gente que o ridiculariza: “é abstração demais, viagem demais!” e tem outros que o exaltam: “é abstração! Demais! É viagem! Demais!”, entre uns e outros existe o “objeto” dos comentários alheios, o poeta sim senhor.

Mas aquele poeta em específico (aquele ali, do lado de lá da rua, andando de cabeça baixa, quase parando…) andava bastante desanimado da vida, da atividade poética, de toda e qualquer criação, abstração, abstração ou criação.

O sentido daquelas palavras postas ali no papel parecia não existir mais pra ele e cabisbaixo e triste ele andava pelas ruas, esbarrando em pessoas, que passavam cinzas e desinteressantes, desviando de carros, que corriam mecânicos e duros, e pensando em outros carnavais, quando a poesia ainda fazia todo o sentido para ele.

Essa triste história, que vai ganhando forma nesta crônica tem cara daquelas intermináveis ladainhas meio cult, meio românticas que pululam o imaginário de muitos jovens e adolescentes que já tiveram contato com poemas e poesias, filmes e novelas, tidos como “sérios”. Como diria Tom Zé: “vá ser sério assim no inferno!”.

É muito fácil ser niilista através de experiências alheias ou de conceitos fechados e inexplorados. Assim como faz o poeta do outro lado da rua, que acredita nesse papo atraente e bonitinho de que “nada mais faz sentido”, ficar se preocupando a todo o momento com seriedade e dignidade é – por mais absurdo que isso possa parecer – um ato de comodismo.

O poeta que esqueceu de transcender é aquele cara que, do alto de suas possibilidades se fecha em apenas uma e esquece de todas as outras. Ele pensa que todo poema é igual. Ele quer uma exatidão na contingência e por mais paradoxal que isso seja, não chega a ser poético, muito menos possibilidade válida para um poeta.

A grande brincadeira do presente texto, desavisado leitor, é tentar se imaginar não como o poeta do outro lado da rua, mas sim transplantar essa alegoria e se imaginar como um ser humano que vive como o poeta do outro lado da rua.

Pode até parecer uma grande e desvairada besteira, mas será que não é nem um pouco significativo tanto para o poeta quanto para o homem repensar sempre e toda vez sua condição criadora e espontânea e não se fechar em herméticos caixotes de niilismo ou comodismo?

Atitude pode ser apenas uma simples palavra, perdida entre tantas outras no meio do papel. Todavia, também pode ser uma atitude de fato. E a atitude poética frente ao mundo talvez seja a mais visceral, a que mais transcende. O poeta e o homem que esquecem de transcender perdem, definham, se esvaem.

E é por isso que do lado de cá da rua comodismos, niilismos, perdas, tristezas, lamentações e afins são subvertidos e transformados em minúsculas pedrinhas, onde meus pés, cada vez mais firmes, pisam e buscam novos caminhos.

O Dogmatismo Jururu

Hoje é dia de mais um conto que tem como cenário a fictícia cidade de São Gonçalo do Jururu.

Depois da história da redenção do Zé da Vaca Preta, hoje conto uma história não tão bonita e feliz assim, na verdade a história de hoje tem tons cinzas e requintes de crueldade, mas é uma espécie de alerta contra o comodismo e o dogmatismo.

Aí vai a história do Seu Zezé:

O Dogmatismo Jururu

“A gente não banca esperteza
não banca ser forte, ser nada;
tá tudo muito bem assim normal.
Pra gente já basta a clareza,
cerveja, filminho legal
e alguém pra gente, às vezes, falar mal.”

Rafael Castro

Apenas uma velha, suja e pequena televisão, com antena quebrada e imagem borrada. Era isso o que continha aquela estante. Nas paredes, assimetricamente colocados os quadros de Nossa Senhora Aparecida e a foto do último título do time de coração. O calendário do mês também marcava presença ali naquelas paredes envelhecidas, cheias de história. Um pequeno balcão e atrás dele muito trabalho a ser feito. Madeira, ferramentas e afins. Entre tudo isso e ora atrás, ora à frente do balcão sempre estava ali o Seu Zezé. O marceneiro mais antigo e saudoso de São Gonçalo do Jururu.

Há mais de quarenta anos Seu Zezé trabalhava diariamente ali naquele pequeno cômodo, próximo a sua casa, mas que acabou transformando-se, ele mesmo, em sua casa. Seu Zezé passava boa parte do seu tempo ali e quando não estava trabalhando sério estava conversando com algum cliente ou amigo que passava pela rua. A Marcenaria Jururu ficava numa esquina que marcava o ponto onde terminava a estrada de pedras e começava a estrada de asfalto de São Gonçalo do Jururu, isso não quer dizer lá muita coisa, mas para Seu Zezé, de certa forma, isso mantém a tradição e o saudosismo de sua querida cidade. Um homem vivido e nostálgico.

Entre as pedras e o asfalto Seu Zezé sempre comenta sobre praticamente todos os assuntos que surgem ali naquela pacata cidade. Os falecimentos, casamentos, esquecimentos, barracos, tragédias, festas e tudo mais. A velha, suja e pequena televisão está sempre sintonizada nos canais que colocam no ar programas que falam de coisas semelhantes a todas essas comentadas por Seu Zezé e pelos moradores que por ali passam.

Contudo, a televisão nem sempre é muito bem aceita por Seu Zezé. Sim, isso parece até estranho, mas eu explico: é que Seu Zezé, nascido, criado e crescido em São Gonçalo do Jururu, tem uma mentalidade, uma visão de mundo, bem arraigada nos valores e costumes locais, tradicionais e conservadoristas. Principalmente por isso muitas vezes Seu Zezé discorda plenamente de coisas que ele vê por aquela velha TV:

– Até parece que um bando de crianças que ficam o dia inteiro sem fazer nada, só cochichando e cochilando são grandes heróis – comentou Seu Zezé com um amigo sobre o famigerado programa de TV Big Brother Brasil – queria ver esses moleques trabalhando duro que nem eu, acordando cedo todo dia pra vim trabalhar, cortar madeira, suar a camisa! Isso sim tinha que ser uma coisa pra se ganhar um milhão e não a mixaria que eu ganho todo mês.

Seu Zezé mostrava toda a sua indignação com programas como o BBB, mas pra quem pensa que suas opiniões sempre muito fortes e exacerbadas paravam nos reality shows está muito enganado. Era só passar alguma coisa na TV num momento em que Seu Zezé não estivesse trabalhando ou conversando do lado de fora da Marcenaria Jururu que ele prestava muita atenção e logo em seguida saia comentando com o primeiro que passasse pela rua:

– Pensa bem Seu João – disse Seu Zezé para um compadre seu que passava por ali depois da hora do noticiário – esse povo agora deu de querer deixar vender droga pro povo como se fosse uma coisa normal! Tem filmezinho, campanha e o escambau. Tão dizendo que é preciso uma “descriminalização da maconha”. Onde que a gente vai parar? Maconha é droga, isso é coisa do capeta, esses bandidos tão ficando tão poderosos que agora até gente importante tá achando que quem usa droga não pode ser preso nem nada. Fico inconformado com isso…

Entre um pitaco e outro sobre os temas do momento noticiados pela televisão Seu Zezé já era uma figura carimbada da cidade de São Gonçalo do Jururu, uma daquelas peças raras que toda cidade do interior possui. Se você estivesse com vontade de ouvir uma opinião assídua sobre qualquer tipo de assunto que rolava na mídia era só dar uma passadinha na Marcenaria Jururu que Seu Zezé com muita satisfação destilava sua opinião conservadora e reacionária de sempre.

A coisa foi tomando proporções tão grandes que num belo dia Seu Zezé, ao ver suas opiniões sempre tão requisitadas e comentadas pela cidade a fora, decidiu afirmar em alto e bom som:

– Nada muda de verdade! As coisas sempre foram e sempre serão do mesmo jeito, por mais que tentem inventar maluquices nesse mundão de meu Deus e a televisão fique mostrando cada dia mais uma maluquice atrás da outra, a verdade é que o certo é deixar tudo como está! Não adianta querer se intrometer em assuntos que não são da nossa conta. Eu tenho experiência minhas crianças, eu já vi de tudo nesse mundo e depois de tudo só o que eu posso dizer é que as coisas não mudam, é que temos que nos conformar com a nossa vida, mas sempre, sempre ficar atentos ao que acontece, pra ver as barbaridades que jogam na nossa cara, pra ver como tentam nos mostrar que podemos ser diferentes e coisa e tal. Tudo isso é conversa fiada dessa tal de mídia.

A eufórica afirmação de Seu Zezé não despertou muito espanto nos moradores de São Gonçalo do Jururu, pelo contrário. Alguns moradores até parabenizaram Seu Zezé por essa fala e concordaram de fato com ele. Uns e outros não pensavam tão igual a ele, mas também acharam válida a tal afirmação.

Seu Zezé de fato tem muita experiência, como ele mesmo disse. Muitas vezes os maiores intelectuais dizem que a experiência faz toda diferença, que teoria sem prática é furada e que é preciso viver e experenciar as coisas. Seu Zezé não fez isso durante toda essa sua vida de marceneiro? Seu Zezé não conviveu com inúmeras pessoas e situações e aprendeu muito durante toda sua vida? Parece-me que sim.

Então porque que para ouvidos não arraigados numa visão de mundo conservadora e reacionária a afirmação de Seu Zezé de que nada no mundo muda e nós devemos nos conformar com todas as coisas parece tão antiquada e retrógrada?

Iguais a Seu Zezé muitos outros senhores e senhoras vivem por aí, em São Gonçalo do Jururu e em outras tantas cidades pelo mundo afora. Com experiência, vivência e etc. Dentro do “mundo” deles seus pensamentos de fato são válidos e muitas das vezes se confirmam. Mas falta algo. Falta algo.

Falta perceber que não é só a experiência de vida que tem que ser levada em conta. É preciso perceber que qualquer pensamento e conduta levados totalmente a sério e pensados como único ou superior corre o sério risco de se dogmatizar e de parecer uma verdade absoluta, algo que realmente é comprovado no mundo real.

Porém isso quase sempre nada mais é do que uma ilusão reconfortante. Uma ilusão que nos coloca dentro de uma perspectiva cômoda e até certo ponto “digna e correta”. Mas que ainda assim é uma ilusão e, pior, uma ilusão tomada por realidade, uma ilusão que não se sabe ilusão.

Não é por tudo isso que Seu Zezé tem de ser apedrejado e/ou condenado. Ele tem de fato um conhecimento e uma sabedoria de mundo. Não é qualquer um que sabe ser marceneiro como ele, que sabe expressar suas opiniões, que sabe viver como ele. Quer dizer, a sabedoria do povo existe e está muito viva por aí, porém muitas das vezes o povo não percebe que essa sua sabedoria pode e quase sempre é dogmatizada e acaba se perdendo em meio a tantas outras teorias, visões de mundo e etc. O que poderia se transformar num trunfo do povo para conseguir coisas boas acaba virando senso comum conformista e dogmático.

Não é afirmando dogmaticamente que tudo sempre permanecerá igual que Seu Zezé chegará a todas as conclusões. Como já falei, isso muitas vezes se mostra real e interessante, mas é uma certeza tão frágil e delicada que a qualquer momento pode ser quebrada:

– Seu Zezé, não tem mais jeito, você precisa urgentemente digitalizar todo o sistema da sua marcenaria – disse um dos fiscais capitalistas tecnólogos que começavam a pipocar na pacata São Gonçalo do Jururu – os tempos são outros e se você não fizer o processo de digitalização das mercadorias e vendas você perderá o alvará da sua marcenaria e, infelizmente, ela vai ter de ser fechada!

A imposição do fiscal capitalista tecnólogo é tão absurda quanto a afirmação dogmática do Seu Zezé, porém, ela é a imposição dominante, ela desmorona, sem muito esforço, a afirmação do Seu Zezé de que nada muda e faz com que todo o conformismo dessa afirmação seja punido.

A sabedoria de anos e anos de experiência e vivência do Seu Zezé acaba caindo por terra, ele se desespera e não sabe o que fazer; o homem mal sabe o que é um computador, como ele vai digitalizar todo o sistema de sua marcenaria?

O tempo passou, a Marcenaria Jururu virou apenas uma sombra na história de São Gonçalo do Jururu e está prestes a ser demolida para a construção de uma moderníssima Casa de Construção. Seu Zezé, por sua vez, está prestes a falecer, com problemas cardíacos seríssimos ele agora vive somente na sua casa, com algumas economias da antiga marcenaria e com parte dos salários mínimos dos seus filhos. A velha, suja e pequena televisão que ficava na estante da Marcenaria Jururu agora fica na estante do quarto de Seu Zezé e a cada nova notícia desperta novos e calorosos comentários de Seu Zezé, que agora, no fim da vida, parece repensar muito sobre suas antigas afirmações.

Sempre um livro

O post de hoje é uma espécie de propaganda de um outro blog, blog este que está dando seus primeiros passos e conta também com contribuições minhas.

Deixa eu explicar melhor: em abril do ano passado, a convite do comentador mais ativo do Un Quimera, o grande Ivan Bilheiro, entrei em um grupo de leituras, que a princípio não tinha nome, nem nada.

O grupo surgiu e foi crescendo. Todos os primeiros sábados do mês eram data pra discutir a obra do mês, escolhida sempre no mês anterior. De Simone de Beauvoir a Clarice Lispector, passando por Lourenço Mutarelli, Italo Calvino, Dostoiévski, Voltaire, Cristóvão Tezza, Gilles Deleuze e Guimarães Rosa, muita coisa já foi lida, discutida, comentada e com o tempo o grupo adquiriu um nome – Sempre um livro – e também um blog.

A ideia do blog, entretanto, ficou por um tempo estacionada e agora, no começo de 2012, foi retomada.

Essa retomada se deu com um texto meu sobre o autor que estamos lendo no momento, Goethe. A obra em questão, Fausto, terá seu post no mês que vem, por enquanto deixei lá um pequeno texto sobre o autor, que reproduzo aqui pra colaborar ainda mais com o “post-propaganda”:

O multifacetado J. W. Goethe

“Quanto errei, quanto vivi,
Quanto aspirei e sofri,
Só flores num ramo — aí estão;
E a velhice e a juventude,
E o erro e a virtude
Ficam bem numa canção.”

(Aos Leitores Amigos – J. W. Goethe)

Caros amigos do Sempre um livro e demais leitores, inicio hoje, de fato, as atividades deste blog. Criado há quatro meses, devido a várias outras atividades desenvolvidas pelos membros do grupo (o sempre corrido fim de período talvez tenha sido a principal delas), ainda não teve muitos textos publicados. Agora em 2012 dou o pontapé inicial, falando um pouco do autor que estamos lendo no momento: Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832).

A obra dos meses de dezembro, janeiro e fevereiro é Fausto e terá comentários mais específicos sobre ela em breve, por enquanto o foco é no autor, Goethe. Nascido a 28 de agosto de 1749, em Frankfurt, Alemanha, Goethe é marcado por uma dupla precocidade e também por um caráter multifacetado, foi, além de poeta, um amante da filosofia e da ciência, fazendo incursões em ambos os campos.

A dupla precocidade se dá no campo literário e sentimental. Recebeu influências da literatura francesa, de escritores como Molière (1622-1673), Racine (1639-1699), Voltaire (1694-1778) e já aos dez anos começou a esboçar seus primeiros versos. O detalhe é que a literatura alemã de sua época de criança era muito pouco prestigiada em toda Europa, o que Goethe ainda não sabia era que ele e mais alguns autores contemporâneos a ele mudariam e muito essa fama, muito em virtude do movimento que ficou conhecido como Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), que se opunha ao Iluminismo, tão em voga na época e que acabou servindo de porta de entrada para o Romantismo. Também cedo Goethe teve suas primeiras paixões, seus encontros e desencontros amorosos influenciaram de maneira bem forte suas obras, em especial aquela que marcou definitivamente Goethe na literatura do século XVIII: Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774).

Pouco depois da publicação de Werther, em 1775, Goethe é convidado pelo Duque Carlos Augusto (1757-1828) para administrar o ducado de Weimar. Nesse posto Goethe passa boa parte de sua vida e as publicações de livros e poemas não param (assim como suas aventuras amorosas).

Na última década do século XVIII, Goethe tem boa parte de suas funções administrativas no ducado de Weimar retiradas, e começa a se ocupar com assuntos relacionados à Universidade de Iena. É aí que ele terá um contato mais direto com a filosofia da época, vários nomes podem ser citados, como os de Fichte (1762-1814), Herder (1744-1803), Schiller (1759-1805) e, em especial, Schelling (1775-1854), de quem foi tutor e admirador em Iena. O interesse de Goethe pela filosofia tinha fortes relações com a poesia, mas também versava sobre assuntos muito em voga na época, a questão do panteísmo, do ateísmo e os desdobramentos pós-kantianos que o chamado Idealismo Alemão iria tomar.

Esse período também foi de muito interesse pela ciência. Goethe fez inúmeros estudos de botânica e ciências naturais em geral e publicou, em 1805, sua Teoria das Cores.

É no período final de sua vida, entretanto, que Goethe escreve a obra que estamos lendo. O Fausto de Goethe tem duas partes, a primeira publicada em 1808 e a segunda em 1830. Os conhecimentos científicos e também de alquimia e ocultismo adquiridos durante sua vida, além da filosofia do Idealismo Alemão e toda sua poesia estão reunidos nesta que talvez seja sua principal obra. “Para o Dr. Fausto o homem pode saber mais, muito mais. Nem que para isso seja necessário aliar-se a um anjo das trevas, o terrível Mefistófeles”. (MEIRA, 1983).

Goethe encontra a morte dois anos depois da publicação do segundo Fausto, em 1832. O que não dá pra deixar de citar é aquela que a história diz ter sido a última frase pronunciada pelo poeta: “Abram a janela do quarto, para que entre mais luz”. Entre a luz e as sombras, Goethe se posicionou de maneira múltipla e intensa dentro da história da cultura ocidental.

O recado era esse. Então, você, leitor do Un Quimera, já sabe né? Leia também o Sempre um livro! E que continuemos assim, sempre com um livro, pra comentar, pensar, discutir…

A festa de São Gonçalo do Jururu

Hoje, 10 de janeiro, é dia de São Gonçalo do Amarante. O referido santo é o padroeiro da minha cidade, São Gonçalo do Sapucaí-MG. Todos os anos do primeiro dia do ano ao dia 10 é comemorada a festa de São Gonçalo, com missas, quermesses e afins. Como vivo todo esse ambiente há vinte anos e penso que a história de São Gonçalo do Amarante é muito interessante, resolvi escrever um conto que de certa forma fala um pouco sobre tudo isso e sobre algumas outras coisas. É possivelmente o post mais longo da história do Un Quimera, então prepare-se para ler e sinta-se a vontade para comentar a história da festa de São Gonçalo do Jururu, a história do Zé da Vaca Preta:

A festa de São Gonçalo do Jururu*

“Enquanto isso Deus brinca de gangorra no playground

Do céu, com os santos que já foram homens de pecado.”

Zeca Baleiro

9 de janeiro.

É noite do dia 9 de janeiro em São Gonçalo do Jururu. Chove. Por entre os becos e vielas escuras dos recantos mais obscuros da cidade, encontra-se o Bar do Seu João. Seu João é um senhor de idade já avançada, natural de São Gonçalo do Jururu e que toca seu singelo bar há um bom tempo. Aberto quase que 24 horas por dia (como se fosse uma grande multinacional de fast food), o Bar do Seu João conta com a cerveja mais barata da cidade e com os salgados e petiscos mais gordurosos. Cadeiras e mesas plásticas, cedidas pelo distribuidor de cerveja algumas décadas atrás permanecem sendo a decoração do lugar. Uma mesa de sinuca bem antiga também fica por ali. Os tacos, curiosamente, se assemelham muito a cabos de vassoura. Além disso, a famosa dose de cachaça pelo surreal preço de vinte e cinco centavos não pode ser esquecida, é talvez a principal atração do bar.

Nessa noite o bar não está lá tão cheio, o que não é novidade. Dois ou três ébrios jogadores de sinuca ficam ali com seus copos de cerveja e seus “cabos de vassoura”. Além deles, uma dupla de intelectuais universitários, que julgam adquirir um status mais “cult” e “underground” por freqüentarem o Bar do Seu João, compartilham experiências do último período da faculdade. E pra fechar o público, não poderia faltar o dono do bar, o incansável Seu João e uma figura presente no folclore de São Gonçalo do Jururu: o inigualável Zé da Vaca Preta.

A origem do codinome Zé da Vaca Preta remonta aos tempos em que esse Zé ainda morava no ambiente rural de São Gonçalo do Jururu. Desde cedo ele foi um homem muito inclinado para o lado alcoólico da vida. Numa de suas bebedeiras escondidas no rancho da família Menezes (a família mais poderosa de São Gonçalo do Jururu), onde Zé era jardineiro, ele montou em uma vaca preta no meio do pasto e como a porteira estava aberta ele saiu descontrolado rancho a fora, parando só dentro da piscina, onde Roberto Menezes, o patriarca da família Menezes, fazia besteirinhas com sua mais nova amante. A história repercutiu por toda São Gonçalo do Jururu e além de risos e mais risos, comentários e mais comentários, também foi a causa da demissão de Zé, que daí em diante ficou conhecido como Zé da Vaca Preta, montou um barraco nas redondezas do Bar do Seu João e passou a ser o freqüentador mais assíduo do tal bar.

Nessa noite, pra variar, Zé da Vaca Preta contava histórias pra Seu João, já cansado de ouvi-las, e pedia suas doses de cachaça pelo surreal preço de vinte e cinco centavos. Até que surge uma nova figura no Bar do Seu João, equilibrando-se com uma mão em cima de uma bicicleta barra forte e segurando um guarda-chuva com a outra mão. Era Tião, o sacristão da Igreja Matriz de São Gonçalo do Jururu. Que chega e diz:

– Pai – Tião, filho de João, esqueci-me de dizer – tem muito serviço amanhã na Igreja, já é dia de São Gonçalo do Amarante de novo, nosso santo padroeiro. Vou tirar um cochilo e de manhãzinha já volto pra Igreja pra começar a arrumar as coisas.

Seu João, preocupado com o cansaço do filho, mas também demonstrando toda sua fé em São Gonçalo logo responde:

– Meu filho, você tem que descansar, você tá trabalhando demais nesses dias da novena, sei que é preciso ajudar na festa do nosso santo padroeiro, mas desse jeito você não agüenta. Vai comer alguma coisa e dormir.

Devido às pequenas dimensões do Bar do Seu João todos os presentes escutam o diálogo entre pai e filho. As reações são das mais diversas. Os jogadores de sinuca logo lembram que amanhã precisam ir à missa de qualquer maneira, afinal, é dia de São Gonçalo e vão pensando em como conciliar a santa sinuquinha deles e a distante missa de São Gonçalo. Os intelectuais universitários, tão inteligentes e tão ignorantes ao mesmo tempo, logo se irritam com o papo católico e começam a falar de um pensador ateu qualquer, minto, começam a inventar e/ou reproduzir teorias nietzscheanas de cunho totalmente ateu, sem nem saber ao certo o que disse o pensador alemão sobre as religiões, o ateísmo e etc.

Já Zé da Vaca Preta logo se intromete na conversa familiar dizendo:

– Eita porra! Nos meus tempos de coroinha as coisas aqui em São Gonçalo do Jururu eram bem diferentes! A cidade parava no dia de São Gonçalo, todos iam à procissão, as senhoras decoravam as ruas e a igreja, os coroinhas ajudavam o padre Cristóvão e cantavam junto com o coral o hino de São Gonçalo – nesse momento como que iluminado por não sei o quê, Zé da Vaca Preta interrompe sua fala e começa a cantar – São Gonçalo salvai este povo, de quem sois lá no céu protetor, dai-lhes fé, vida, amor, sangue novo, dai-lhes bênçãos de nosso Senhor! – volta a falar, com nostalgia no olhar – ah, hoje em dia isso não existe mais! O povo não quer mais saber de missa, de santo, de nada! Você tinha que dar um jeito nisso Tião, fala com esse padre novo aí!

A irritação de Tião foi notável, ele que praticamente vive dentro da Igreja, dando todo seu suor para organizar missas, procissões e afins se sentiu verdadeiramente humilhado por Zé da Vaca Preta, sempre que alguém falava que “na minha época”, “no meu tempo”, a Igreja aqui era mais forte e mais viva, Tião sentia uma profunda tristeza. Querendo ou não era um insulto direto ao seu trabalho. Mas o filho de Seu João, ao invés de partir pra ignorância, ou querer revidar de qualquer maneira o comentário de Zé da Vaca Preta, parou e pensou um pouco, canalizou toda a raiva e toda tristeza e então disse:

– Zé, você tá é certo. Só eu sei o duro que dou pra fazer essa novena ir pra frente, pra fazer as procissões prosseguirem, os violões ressoarem nos ouvidos das pessoas, enfim, pra fazer com que isso tudo não se acabe. – percebe-se a emoção de Tião, algumas lágrimas parecem escorrer em seu rosto – O padre Emanuel, nosso pároco, também faz de tudo, ele é um homem santo, mas agora ele tá com os queijos e vinhos dele, e eu aqui ouvindo você dizer tudo isso da nossa festa. É difícil Zé!

Seu João, percebendo a tristeza do filho pensa em expulsar Zé da Vaca Preta dali, por ter causado tudo isso, as outras pessoas do bar se assustam quando Seu João começa a dar socos e pontapés em Zé da Vaca Preta, que indefeso, já ia saindo do bar, mas Tião intercede e diz:

– Pai, não precisa disso! – e virando-se pra Zé da Vaca Preta, com certo receio no fundo, mas com muita coragem nas palavras propõe – Já que você está tão preocupado assim com a beleza da festa de São Gonçalo porque você não aparece lá na igreja amanhã, pra participar da procissão de entrada?

Zé da Vaca Preta parece não acreditar no que acabou de ouvir. Assim como todos os outros presentes. É que além da famosa história da vaca preta, o tal Zé da Vaca Preta também carregava consigo outra história muito famosa. Já depois de ter se tornado Zé da Vaca Preta, numa das missas da festa de São Gonçalo, num longínquo 10 de janeiro, ele, depois de várias cachaças entrou na Igreja Matriz praticamente pelado, bem no meio da missa, gritando como um louco, algumas pessoas o contiveram e tiraram dali, mas a missa, que contava com o bispo da paróquia e outros figurões do clero, ficou pra sempre marcada na história de São Gonçalo do Jururu, talvez a partir dali é que o fervor religioso de boa parte da população diminuiu e daquele dia em diante Zé da Vaca Preta nunca mais tinha entrado na Igreja Matriz.

Seu João logo disparou contra seu filho:

– Tião, você tá ficando louco, meu filho? Até parece que não sabe a vergonha que esse rapaz fez a nossa cidade passar numa missa de São Gonçalo alguns anos atrás! Pensa bem, convidar ele pra participar da procissão de entrada ainda por cima? Só falta falar que é pra representar São Gonçalo, né?

De bate pronto o filho diz ao pai:

– É exatamente isso que eu pensei pai! Sei de tudo que ele já fez de ruim pra nossa cidade, principalmente pra nossa igreja, mas isso que ele falou aqui hoje é verdade, dói escutar, mas eu sei muito bem disso, e como sou eu, lá na sacristia que acabo resolvendo e fazendo muita coisa acontecer, resolvi fazer essa proposta também, é aí, Zé? Topa?

Zé da Vaca Preta ainda parece anestesiado com a proposta. Como ele mesmo disse, na sua infância havia sido coroinha e por mais alcoólica e pagã que tenha sido sua vida posteriormente ele sempre carregou consigo esse forte catolicismo. O episódio de sua “invasão” à Igreja foi extremamente doloroso pra ele também, que até hoje não se perdoa por ter feito aquilo. Ele respira fundo, arrota a cachaça de preço surreal e responde pra Tião:

– Tião, eu só posso dizer sim, eu quero me redimir perante o povo, perante nosso Senhor Jesus Cristo!

Da Igreja Matriz se escuta a primeira badalada do dia 10 de janeiro, zero hora. Aquele 10 de janeiro nunca mais seria esquecido em São Gonçalo do Jururu.

10 de janeiro. Dia de São Gonçalo do Amarante, padroeiro de São Gonçalo do Jururu.

O dia amanhece chuvoso e permanece assim durante um bom tempo. A chuva castiga São Gonçalo do Jururu e entre uma enchente e outra nos barracos mais periféricos da cidade, Zé da Vaca Preta no seu singelo e desgastado barraco começa a se preparar para o dia que marcaria a sua redenção perante o povo, perante Jesus Cristo.

Porém ele mal sabia que a missão mais complicada do dia estava nos ombros de Tião. O filho de Seu João ouviu muito de seu pai pra mudar de ideia e não levar Zé da Vaca Preta pra representar São Gonçalo na procissão de entrada da missa. Mas Tião não escutava seu pai, estava decidido a cumprir sua promessa e pensava em como iria fazer aquilo. Afinal, o padre Emanuel e todos os outros organizadores da missa, assim como Seu João, não aceitariam de maneira nenhuma a participação de Zé da Vaca Preta na missa de São Gonçalo, ainda mais como São Gonçalo.

Logo no seu primeiro encontro do dia com o padre Emanuel, pela manhã, Tião diz:

– Seu padre, deixa eu te falar, aquele negócio de arranjar alguém pra representar São Gonçalo na procissão de entrada da missa de hoje vai acontecer mesmo? É porque tá difícil de conseguir alguém, sabe, o povo hoje em dia não anda lá muito animado com as coisas da Igreja, o senhor sabe como é…

Padre Emanuel logo responde:

– Então Tião, tá complicado mesmo. Só que essa ideia da Dona Lourdes de colocar alguém com viola e túnica representando São Gonçalo na procissão de entrada foi muito interessante, acredito que isso engrandeceria ainda mais a nossa celebração, o bispo vai estar aí, sabe como é né? Sempre bom fazer algo mais bonito e vistoso.

Tião então joga a isca:

– Pois é padre, eu também achei muito bonita essa ideia da Dona Lourdes – Dona Lourdes era uma daquelas senhoras que ainda possuem todo o fervor católico dentro de si, reza três terços por dia e está sempre ajudando com as celebrações – a única pessoa que eu consegui falar até agora é um senhor que mora lá perto de casa, ele é um homem muito religioso e muito simples, quando falei sobre isso de alguém representar São Gonçalo na procissão de entrada ele ficou muito animado, só que ele é muito tímido também, aí eu pensei: será que se ele entrasse com uma túnica e com o rosto coberto por algum pano ou coisa do tipo ficaria muito fora do que o senhor e a Dona Lourdes tinham imaginado?

Padre Emanuel acha a ideia de Tião bem estranha, pensa um pouco e diz:

– Olha Tião, isso seria meio estranho né? Até porque todos sabem que uma das características da imagem de São Gonçalo é a imponente careca dele, porém existem algumas imagens em que São Gonçalo está com um chapéu e a viola, apesar de serem pouco conhecidas essas imagens também são muito bonitas, se de todo caso você não conseguir achar mais ninguém traga esse rapaz mesmo, com o rosto encoberto. Vem cá agora pra eu te mostrar de perto essa imagem de São Gonçalo com chapéu e viola e depois vamos arrumar as coisas, temos muito trabalho hoje ainda até na hora da missa.

Tião sorri, acreditando que seu plano agora tem tudo pra dar certo, vai ver a imagem junto com o padre e arrumar as outras coisas. Pouco antes da missa volta pra casa pra comer alguma coisa e ir falar com Zé da Vaca Preta sobre a procissão de entrada, sobre como seria tudo. Nem precisou ir muito longe, Zé da Vaca Preta já estava no balcão do Bar do Seu João, tomando mais uma dose de cachaça de preço surreal.

Tião vai logo explicando pra Zé da Vaca Preta:

– Zé, não foi fácil fazer com que você representasse São Gonçalo na missa de hoje, se as pessoas soubessem que seria você ninguém permitiria, mas eu fiz de tudo pra ser você. Falei com o padre Emanuel que conseguiria levar um senhor aqui do bairro pra ser São Gonçalo, mas que esse senhor é muito tímido e por isso ele entraria com algo cobrindo o rosto, assim você pode representar São Gonçalo e mostrar pra mim e pra todo mundo que se redimiu, mas os outros não podem ficar sabendo disso, porque senão eu tô ferrado! Entendeu bem?

Zé da Vaca Preta bebeu outra dose de cachaça em um trago só e respondeu pra Tião:

– Entendi muito bem, Tião. Muito obrigado por me dar esse chance, não vou te decepcionar! Ah, olha aqui que bonita! – Zé da Vaca Preta mostra pra Tião uma velha viola, que estava encostada ali do lado do balcão – essa viola tem muita história, é uma das poucas coisas que eu tenho lá no meu barraco e eu queria levar ela pra ser a viola de São Gonçalo, posso?

Apesar do estado da viola não ser dos melhores, Tião mais uma vez se surpreende com a devoção de Zé da Vaca Preta e consente. Tião pega sua barra forte e vai direto pra Igreja, combina com Zé da Vaca Preta pra eles se encontrarem nos fundos da igreja, atrás da sacristia, ali Tião vestiria Zé da Vaca Preta com a túnica de São Gonçalo e usaria um pano pra esconder seu rosto.

A chuva parou. O bispo chegou a São Gonçalo do Jururu. O povo foi enchendo a Igreja Matriz e a procissão de entrada ia tomando forma. À frente, três coroinhas, com uma grande cruz ao centro e duas velas nos lados. Depois mais dois coroinhas, com turíbulo e naveta, este jogando incenso e fazendo as senhoras tossirem, aquela servindo de combustível para o primeiro, pedrinhas de incenso importadas da Grécia eram o combustível. Logo atrás viria uma pequena representação, com duas crianças representando anjos do Senhor e ele, o santo padroeiro de São Gonçalo do Jururu, São Gonçalo do Amarante, com sua viola e um estranho pano cobrindo o rosto. Logo atrás leitores, ministros extraordinários da sagrada eucaristia, mais alguns coroinhas, padre Emanuel, padre Josenir e por fim o digníssimo bispo da paróquia jurururense, Dom Marco Pólo.

A Igreja lotou, cantores e músicos começaram a entoar o belo hino de São Gonçalo, entoado na noite anterior por Zé da Vaca Preta, e a procissão de entrada começou a andar. No canto do altar, Tião observava com atenção e preocupação, qualquer besteira de Zé da Vaca Preta e ele estaria pra sempre condenado perante a população de São Gonçalo do Jururu, assim como aconteceu com o próprio Zé da Vaca Preta algum tempo atrás.

Já Zé da Vaca Preta, por sua vez, embaixo da túnica de São Gonçalo e daquele pano por sobre o rosto, lembrava-se do dia em que, completamente bêbado, entrou naquela mesma Igreja, quase nu, gritando coisas que ele nem se lembra – relatos dizem que eram trechos de canções da extinta banda “É o Tchan” – até hoje ele não se perdoara por aquele dia, e o fato dele nunca mais ter pisado naquela igreja era, além de uma reprovação da população, também uma espécie de autopunição que ele próprio se deu. Quando ele ouviu a proposta de Tião pra representar São Gonçalo percebeu que Tião tinha um coração puro, que estava fazendo aquilo por pura compaixão, sabendo que ele poderia sim se redimir, o fato dele ter que entrar com aquele pano cobrindo o rosto pouco importava, ele sabia que ali, naquele momento, a cada passo que ele dava em direção ao altar, com sua querida viola em punho, sua redenção particular e interior ia se consumando. Zé era um pagão, Zé era o bêbado taxado de louco por toda população de São Gonçalo do Jururu, Zé era um zero a esquerda, como diz o ditado popular, mas Zé agora também era São Gonçalo de Amarante, o santo que se vestia de mulher pra converter as prostitutas, o santo que cantava, dançava, bebia e que em “mil duzentos e pouco” (como diz de maneira linda o seu próprio hino) recebeu da Virgem Maria uma revelação, que lhe dizia o dia de sua morte, daí em diante ele doou tudo o que tinha e viveu em completa reclusão, “só com Jesus ele quis viver”, e com Jesus ele foi viver, a 10 de janeiro de 1262.

Enquanto isso, no atual 10 de janeiro, Zé da Vaca Preta ia chegando cada vez mais perto do altar e por baixo do pano que escondia seu rosto, mas não seu olhar, Roberto Menezes, Dona Lourdes e todas as outras grandes figuras da “high-society” de São Gonçalo do Jururu iam percebendo, naquele olhar, que quem estava ali, representando o seu santo padroeiro, parecia ser um antigo conhecido. A procissão de entrada acabou. A missa começaria e duraria um bom tempo: saudação inicial, ato penitencial, hino de louvor. Leituras, evangelho, homilia, profissão de fé, preces, oração eucarística. Comunhão, sorteio de imagem de São Gonçalo, agradecimentos, agradecimentos e mais agradecimentos e por fim a bênção final. Esse é mais ou menos o esquema de uma missa festiva em São Gonçalo do Jururu. Durante praticamente todo esse tempo, porém, Tião e Zé da Vaca Preta ficaram do lado de fora da sacristia, num cantinho conhecido mesmo só por Tião e um ou outro coroinha e dali exultavam de alegria, o plano fora concluído com sucesso e ambos se sentiam realizados!

Tião disse:

– Muito obrigado, Zé! As suas palavras ontem a noite no bar do meu pai fizeram com que eu percebesse que muito do que você falou é mesmo verdade e tomasse essa decisão de te chamar pra viver, ainda que por apenas alguns segundos, o nosso santo padroeiro, São Gonçalo de Amarante!

Zé da Vaca Preta, emocionado, disse a Tião:

– Ô, Tião, eu é que te agradeço. Você não tem noção do que significou esse momento pra mim. Foi lindo! Eu entendi que não poderia expor meu rosto pra todo mundo, senão você teria muitos problemas e eu sei que amanhã tudo vai continuar como está. Dificilmente esse povo vai voltar a ser de fato um povo de Deus, com uma fé fervorosa, eu sei que amanhã o Roberto Menezes vai tá atrás de uma cocotinha nova, eu sei que amanhã a Dona Lourdes vai tá aqui na igreja cedinho, rezando pra não sei que santo, que o padre Emanuel vai tá comendo seus queijos e bebendo seus vinhos, sei de tudo isso, mas sei também que hoje eu me redimi, hoje eu pisei de novo nessa Igreja, hoje eu fui São Gonçalo!

A conversa emocionada dos dois continuou por um tempo, até que Tião, pra não perder o costume, teve que ir resolver algum pepino no meio da missa, Zé da Vaca Preta tirou a túnica de São Gonçalo e ficou no fundo da Igreja, ouvindo tudo o que diziam o padre Emanuel e o bispo Dom Marco Pólo, até a missa acabar. Assim que a missa acabou e a multidão foi se dispersando para a praça, pras quermesses, bingos e similares do último dia da festa de São Gonçalo do Jururu, ao som dos fogos de artifício e dos congados, Zé da Vaca Preta, devagar, bem devagarzinho foi carregando sua viola, rumando para o Bar do Seu João.

No meio do caminho, encontrou dois rapazes, que depois de terem ido à missa por pura obrigação, agora iam buscar o que eles consideravam ser a verdadeira felicidade: bebidas caras, carros descolados, meninas vazias e músicas descartáveis, além é claro das roupas e tênis de marca, tudo isso junto e misturado. Ao avistarem Zé da Vaca Preta camuflaram a risada e perguntaram pra ele, em tom de deboche:

– E aí Seu Zé, por que você não invadiu a igreja esse ano de novo?

Zé da Vaca Preta olhou pra aqueles dois rapazes e apenas sorriu. Foi um dos sorrisos mais edificantes e puros de sua vida, um sorriso que devolvia todo o deboche jogado pra cima dele, e deixava os dois rapazes com uma cara de quem não entendeu nada. Depois de ter conseguido dar essa sorriso com toda sinceridade e espontaneidade possível, Zé da Vaca Preta se convenceu de vez que tinha se redimido e até apressou o passo pra chegar logo no Bar do Seu João, comemorar o lindo dia que começava a se despedir, contando as moedas de vinte e cinco centavos perdidas no bolso.

*Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. É tudo ficção. A única realidade é em relação à história de São Gonçalo de Amarante.

Inclinação Literária #06 – A Filosofia Erótica

O sexto e último post do ano da série Inclinação Literária é especial. Pois pela primeira vez (e talvez também pela única vez) falará um pouco sobre um livro escrito por um autor anônimo.

Em pleno século XVIII surgiram na Europa alguns romances que insinuavam uma certa ligação da Filosofia com o erotismo e afins. Falando assim pode até parecer algo muito vago e estranho, mas vamos nos aprofundando aos poucos.

Falarei hoje de Teresa Filósofa.

A obra em questão foi um best-seller na Europa do século XVIII, como já disse é de um autor anônimo, mas muitos atribuem a autoria do livro à Jean Baptiste de Boyer, o marquês d’Argens.

A obra é dividida em três partes: a primeira fala das memórias de Teresa, onde a mulher que dá nome ao livro conta sobre o Padre Dirrag e suas perversões sexuais com a Srta. Eradice e sobre o relacionamento erótico-filosófico que teve com o Abade T. e a Sra. C.

Na segunda parte da obra Teresa nos conta sobre Bois-Laurier, uma prostituta que dá abrigo a Teresa depois que esta havia saído do convento. Novas perversões sexuais são retratadas e o amadurecimento de Teresa também se faz presente.

A terceira e última parte da obra é a continuação da história de Teresa, aqui são feitas reflexões sobre a felicidade e o “defloramento” (termo usado na primeira linha do livro). Teresa finalmente se entrega ao Conde (pra quem os relatos da obra foram dedicados) e fala sobre Deus e o agir humano.

A obra toda é dividida em micro-capítulos, que prendem a atenção do leitor.

Me ative primeiro a este aspecto mais formal da obra, falo agora mais propriamente daquela indagação colocada no início do post: Teresa Filósofa é Filosofia de fato?

Isso é algo que pode ser muito polêmico e controverso, é realmente uma faca de dois gumes. Por um lado podemos sim dizer que Teresa Filósofa é Filosofia, afinal o livro tem um arcabouço filosófico, utiliza-se em especial da filosofia de Thomas Hobbes e até pela ambientação clerical, não deixa de mostrar nuances da Escolástica e da Patrística medievais. Mas é lógico que são apenas pinceladas, a personagem do Abade T. é aquela que de certa forma “ensina” filosofia pra Teresa, e faz da protagonista do romance alguém melhor, mais aberta e mais preparada para o exercício do filosofar.

Por outro lado, têm-se sempre que tomar o cuidado de não banalizar e reduzir a Filosofia. Eu particularmente considero válido e interessante buscar em outras esferas, como a do romance, por exemplo, caminhos e “poros” para a Filosofia, mas isso enquanto aproximação, enquanto um atrativo para que se possa chegar de fato à Filosofia.

Essa questão é um dos principais ganchos do livro, outro, que possivelmente é mesmo o principal é a questão erótica. Além de Teresa Filósofa, outros livros do mesmo estilo ficaram muito famosos na época e chegaram à condição de best-seller, como por exemplo Fanny Hill, O Sofá, etc…

Tá aí outra coisa que eu considero muito válida. O erotismo muitas vezes é visto como algo “ilícito” pelo senso comum, desconstruir essa visão é uma tarefa bem complicada, mas aqueles que se dispõem a fazer isso parecem fazer de um jeito interessante.

As dificuldades citadas, contudo, são notórias: a questão do autor possivelmente ser um marquês e a obra ficar caracterizada como de autor anônimo mostra como naquele século XVIII o preconceito com esse tipo de literatura deveria ser ainda maior. Outro ponto é a própria questão da capa do livro (essa mesma que está no começo do post, a direita), é a mesma da versão que eu tenho e quando levava o livro pra ler na faculdade o espanto era geral. Quer dizer, sempre fica alguma coisa diferente no ar quando o assunto é literatura erótica. E afirmo também, em bom português, que uma coisa é literatura erótica e outra é putaria. Isso tem que ficar bem claro.

Enfim, esse é um panorama geral da obra, e quem sabe o início de duas discussões que podem ir longe: a Filosofia em diálogo com os romances eróticos e a maneira singular de aceitação destes pelo senso comum.

Termino aqui o último post do ano da série Inclinação Literária.

O puro do cotidiano

“Lindo e leve vou levando,

Com a cabeça fria e o pé quente

E o coração bombando, bombando…”

Curumin

Cada detalhezinho desse cotidiano, até o vira-lata vagabundo que vai atrás de comida na esquina de cima, tudo passa por mim, tudo deixa sua marca, direta ou indiretamente. E como eu reajo a tudo isso?

Às vezes penso em como inúmeras fatalidades que acontecem cotidianamente, sem maiores cerimônias, são deixadas de lado, esquecidas. Porque se a todo o momento estamos vivendo, sendo cobrados de um jeito ou de outro, o puro do cotidiano (se é que existe algo assim) torna-se mero acessório, mais um entre tantos outros detalhes e a “grandeza” de nossas vidas logo se esquece disso.

O puro do cotidiano. Que definição é essa? Que pureza pode conter o ônibus, a privada e as sacolas de lixo que a gente deixa pro caminhão de lixo pegar? Pode tudo isso ser apenas cotidiano e nada mais, pode tudo isso não ter um puro, não ter nada! Só que, com toda sinceridade, essas possibilidades me parecem tão sem graça.

Não é que o cotidiano tenha que ter alguma graça, mas é que essas repetições, chateações e necessidades são tão vivas e presentes que pelo menos pra este que vos fala não tem sentido elas apenas serem.

Elas são mais, elas te impulsionam a buscar o que se quer. Podem ser encaradas como obstáculos, como limites talvez, apenas constituintes da mundanidade, mas também podem ser vistas de outras maneiras, podem até possuírem um puro, não?

O puro do cotidiano. Vão dizer que é viagem, vão dizer que é loucura. Vão dizer o que quiserem dizer, mas essa chuva que cai diz mais alto, essa chuva que banha e purifica as ruas batidas do cotidiano me dá vontade de escrever tudo isso.

Tudo isso que é solitário e cotidiano. Experiências e mais experiências que vão me moldando. Essas pequenas nuances cotidianas fazem de mim o que eu sou, o contato com outras esferas talvez mais importantes e grandiloqüentes do que o simples cotidiano também existe e é muito válido para a minha auto-construção, mas eu ainda insisto no tal puro do cotidiano.

O que se escolheu é o que se tem. O que eu faço da minha vida é a minha invenção diária de significações, relações, escolhas, é, em última instância, solidão.

Solitário (dentro do meu cotidiano) e apaixonado (por ele, por sua pureza). Solitário e apaixonado. Todo santo dia é dia. “Meio-dia. Meia-tarde. Meia-noite.” Como diria a menina lá de cima. Lava prato, escreve post. Limpa quarto e tira um xerox. Até amanhã…

A Saudade Não Pode Acabar

No dia 1º de janeiro de 2009 eu estava inaugurando esse blog. Se perguntassem pra mim naquele dia qual era o intuito disso eu acho que hoje nem saberia dizer mais qual seria a minha resposta naquela época. De lá pra cá eu vivi muita coisa, aprendi várias outras, mas o fundamental e que eu acho que sempre diria em relação ao blog, seja em janeiro de 2009 seja nesse outubro de 2011 é que esse Un Quimera é um lugar pra pessoas que estão afim de ler e de pensar um pouco mais, a princípio é só um lugar pra eu descarregar minhas ideias e opiniões em forma de poemas, contos, artigos e etc, mas esse ponto de despertar o gosto da leitura e da reflexão nos leitores é também essencial.

Você leitor deve estar se perguntando o porquê de eu estar falando tudo isso, o motivo é o seguinte: o post de hoje é um texto de um grande amigo dos tempos de São Gonçalo, amigo que quase sempre encontro quando vou pra lá e que principalmente nas férias é uma das pessoas com quem eu mais converso e compartilho experiências.

Falo de Marcelo Borges Pinto, o “Marcelo Cabeça” dos QuimeraCasts. Ontem ele me passou um e-mail com esse texto e eu fiquei realmente emocionado ao ver que o meu blog devagarinho, devagarinho vai despertando a leitura e a escrita em outras pessoas, quando essas pessoas são amigos parece ser mais gratificante ainda.

O aspirante à faculdade de Medicina fala sobre a saudade (tema comum em rapazes e garotas como nós que saem das pequeninas e singelas cidades e vão para os grandes centros) e da vida como um todo, citando orgulhosamente tanto a Marta quanto o Mauro. Sem mais conversas vamos ao texto:

A Saudade Não Pode Acabar

Cá estou nesta noite quente de São Paulo e me vem à mente visitar o Blog do meu grande amigo Rogério Arantes. Após a leitura de alguns textos postados, alguns posts me chamaram muito a atenção: Transporte Coletivo e “Quimera Tube #40”.

Depois de refletir sobre estes posts, percebi o quanto se assemelham no aspecto da saudade (um sentimento que tem vindo muito à tona neste momento da minha vida), e com base nisso gostaria de expor alguns pensamentos e reflexões.

Há quase dois anos deixei uma cidade pacata do interior de Minas Gerias – São Gonçalo do Sapucaí – e vim morar em São Paulo em virtude do estudo.  E desde esse momento comecei a perceber o quanto a vida pode se tornar difícil a partir do momento em que não se tem esforço para ter aquilo que se quer. Como diz minha querida mãe: “onde tem ferro, tem ferrugem”, e aos poucos a saudade da vida “monótona” que levava aparece mais, junto com a dificuldade de se viver longe dos pais, assumir os seus compromissos, viver momentos de solidão, sem a presença daqueles que desde pequeno aprendi a amar. E isto pode se tornar um medo, uma frustração para homens que não tenham “ninguém” com quem possam se abrir.

A saudade cada vez mais se torna evidente, chegando a um ponto de ser um martírio em certos momentos do dia, podendo fazer mal a mim próprio. Diga-se de passagem, me fez mal em certo momento e pensei em desistir da cidade grande. Mas a saudade se tornou um mal necessário, é só com ela que vou poder conquistar o meu desejo de ser médico. E hoje entendo este sentimento doloroso pelo qual alguns passam. Do que vale este mal se a vida é feita de fases?  Passa-se por isso, é inevitável. Preciso deste momento para conseguir aquilo que almejo.

Existem vários por aí que não se encontram com a saudade para conquistar um sonho. Ou por uma vontade, ou por já estarem em um grande centro urbano e perto daqueles que amam ou por já terem nascido do “lado” do tão almejado desejo construído durante a sua infância e adolescência. Mas, principalmente cidadãos do interior, convivem com este mal, pelo fato de irem buscar na cidade grande o que tem em mente.  Mas deve-se ter um objetivo bem moldado na cabeça para não se deixar levar pela saudade e acabar voltando para a sua terra natal ou suas proximidades.

Agora, Como deixar a saudade de lado? Como citado anteriormente, apenas homens com objetivos na vida conseguem seguir em frente e deixar de lado. Vale a pena citar uma frase em que meu grande pai diz: “Um homem na vida sem objetivos não é nada”.

Para muitos a saudade sempre estará vinculada com a conquista dos sonhos. E para outros apenas um sentimento no qual se pode rotular como tolice. Mas basta estar distante das pessoas das quais sempre gostou e enxergar o quanto este sentimento está entrelaçado.

Marcelo Borges Pinto

Inclinação Literária #05 – O Diário da Fome

O quinto post da série Inclinação Literária seguirá a linha do último post dessa mesma série e falará de uma obra de uma escritora brasileira, só que dessa vez a temática e ambientação são bem diferentes, isso por si só já é uma pequena amostra da multiplicidade da literatura brasileira.

A obra do dia é Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. 

Antes de falar da obra propriamente dita, falo sobre como cheguei até ela. Durante as férias de julho tive contato com alguns artigos acadêmicos e inclusive alguns vídeos no YouTube de um professor universitário de Literatura da UFRJ, João Cézar de Castro Rocha, me interessei muito e posteriormente até falarei mais sobre as teses e as ideias dele (a “dialética da marginalidade”, por exemplo) aqui no Un Quimera, por enquanto fica só a dica. E foi através desse contato que de certa forma “descobri” o Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, também conhecido como Diário de uma favelada.

Publicada pela primeira vez na década de 1960, a obra foi lida por mim com certa rapidez, entre um ônibus e outro, e aos poucos fui me interessando cada vez mais por aquelas linhas cheias de erros ortográficos (Audálio Dantas, jornalista que descobriu Carolina e editou seus livros fez questão de não mexer na ortografia), descontinuidades, mas também cheia de experiência da vida real, cheia de uma ironia digna dos grandes nomes da literatura, cheia de fome e marginalidade.

Esses são os dois principais pontos da obra. A cada novo dia de sua jornada, Carolina vai relatando as dificuldades de uma favelada e mãe solteira: filhos pra criar, lixo pra catar, conversas e brigas dos vizinhos e vizinhas pra aturar e a fome sempre presente. As narrativas podem até parecer muito rebuscadas (insistir no tema da fome e da miséria…), mas Carolina ali conta a sua vida real, escreve em cadernos que catou no lixo nos poucos momentos em que parava no seu barraco.

O título da obra nos remete a um trecho da mesma. Numa de suas idas à cidade Carolina diz:

“Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludo, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo”

As reflexões da autodidata Carolina, recheadas de uma fina ironia, retratam a situação de miséria e possuem uma forte consciência política e social; são um símbolo da literatura marginal brasileira.

Literatura essa que como o próprio nome já diz é olhada com certo preconceito e menosprezo, mas que na minha singela opinião é riquíssima e merece um pouco mais de atenção seja dentro do meio acadêmico, seja fora dele.

Como já aludi no início do post acima, o Brasil possui sim uma vasta e rica literatura, que muitas vezes é deixada de lado nas estantes da vida. Relatos do povo, expondo problemas sociais e a visão de alguém que está inserido diretamente nesses problemas são material no mínimo interessante para qualquer conversa a respeito de mudanças e melhoras no país.

Além desse aspecto mais imediatista e em busca de um resultado mais palpável, também existe o aspecto literário e porque não poético, que na maioria das vezes é deixado de lado pelo senso comum, mas que também possui um valor importantíssimo. Narrativas como a de Carolina Maria de Jesus tornam-se a base de uma nova cultura legitimamente brasileira que vai se construindo a cada dia, século XXI afora…

Outro ponto que é digno de revolta é o de conseguir visualizar as situações de fome e miséria vividas por Carolina em meados da década de 50 se repetindo até hoje.

Encerro o post com mais uma citação de Carolina Maria de Jesus, de um 7 de outubro qualquer:

“7 DE OUTUBRO Morreu um menino aqui na favela. Tinha dois meses. Se vivesse ia passar fome.”

Em novembro tem mais Inclinação Literária.