Arquivo da categoria: Poesia

Reflexões de fim de ano

Suprassumo do lúdico, dentro da esfera do cotidiano: sentir o cheiro da chuva, dentro da casa onde você nasceu e foi criado, ouvindo sua priminha conjugar os infantis e inconfundíveis verbos “apeitar” e “peider”.

Dá um “apeito” no peito perceber que com o tempo a gente vai “peidendo” toda essa leveza.

Penso que o que dá pra fazer é pelo menos tentar plasticizar toda essa concretude cinza que insiste em nos dominar.

Ah não, melhor não…

… das coisas pequenas e simples nunca se tiram soluções válidas, pra quê ficar se iludindo…

Rogério Arantes

Toda Nudez Será Castigada

Nu.
De frente pro absurdo
e às voltas com a poesia
todo mundo é nu.

Nu.
Em pêlo, em casa, em vida
visceral e singularmente
todo mundo é nu.

Nu.
Duas letras: um som e um corpo
na hora da verdade
todo mundo é nu.

Nu.
Com medo e com malícia
na cachoeira da memória
todo mundo é nu.

Nu!

Rogério Arantes

Primavera na Mente

As influências que cada um tem, creio eu, podem configurar-se em várias e inesperadas criações. A canção “Primavera nos Dentes” sempre me inspirou muito, desde a primeira vez que a escutei. Por vezes tentei escrever algum poema ou qualquer outra coisa que fizesse alusão à essa canção e toda a inspiração que ela me proporciona. Só o que obtive foram fracassadas e inacabadas tentativas. Eis que num momento de criação, escrevendo um poema que a princípio não era pra ter nada a ver com a canção dos Secos e Molhados, encontrei a possibilidade de colocá-la ali. O resultado disso segue abaixo:

Primavera na Mente

Pra abalar um pensador estático
somente um instante extático.
Pra valorizar a estética
é bom não abrir mão da Estética.
O valor de cada pequena e singela história
não precisa do crivo da História.
Tão distintos, tão distantes
são herois e também errantes.
Conceitos e signos tantos
que aceitam concepções outras.
Concepções tantas que geram
frutos e espinhos
nas mais diversas plantas
do verborrágico jardim intelectual.
Há quem segure a primavera nos dentes
– e pra esses todo respeito e admiração –
nós seguramos a primavera na mente.
Na busca constante por uma
experiência nova, viva e estridente.

Rogério Arantes

Poética Quebrada

Esse é um poema que passou alguns meses de molho antes de ser tirado do forno. Sinceramente não sei mais quem são aqueles que dizem os versos finais…

Um poeta ataráxico e racional
não é, de fato, um poeta.
No entanto, as nuances da vida
– algumas mágicas, outras nem tanto –
podem fazer o poeta perceber
que em algum momento
até mesmo o mais passional
dos poemas de amor
precisa daquele instante único
de calma. Calma e nada mais.
Essa matéria bruta de amor e tesão
que parece querer explodir a caneta
e incendiar o papel, estilhaçando-o
e não deixando celulose nenhuma pra trás!
Ah, essa matéria bruta de tesão e amor
só ganha vida e forma
se devidamente moldada, esculpida.
A castração também pode ser poética.
A desilusão pode ser epifânica.
E o poeta que outrora falava de paixão
hoje só consegue enxergá-la com as lentes da distorção
E o poema que outrora era canção tola e desvairada
hoje é expressão de alguém que viveu
cresceu, andou, gozou e descobriu.
Descobriu que a caminhada não acaba tão cedo.
E essa descoberta significa andar.
Andemos pois, a um rumo incerto e obscuro.
Somos vontade e desapego
Desassossego e confusão
Somos SIM e não queremos ser NÃO.

Rogério Arantes

Molecagem

Eu percebo a novidade
que sempre esteve solta por aí
Eu convivo com a impossibilidade
que sempre esteve viva por aqui
Se eu sou poeta, estudante
ou apenas um cara qualquer
isso pouco importa.
Poemas são como bebês.
Eles choram querendo carinho,
se deliciam com as coisas simples
e desapegados de toda e qualquer burocracia, fluem.
Meus poemas brincam e se espantam
frente a algo sempre novo e misterioso
e um dia eles crescem e viram moleques.
Moleques de pé descalço, inventivos.
Moleques despreocupados, sonhadores.
Moleques simples e sem rodeios:
Lúdicos como a vida deveria ser
provocantes e inquietos.
Eita molecagem da boa!

Rogério Arantes

Sísifo Feliz

“Deixo Sísifo na base da montanha! As pessoas sempre reencontram seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que
nega os deuses e ergue as rochas. Também ele acha que está tudo bem. Esse universo, doravante sem dono, não lhe parece
estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada fragmento mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo.
A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz”.

(Albert Camus – O Mito de Sísifo)

Para ler, ouvir e sentir ao som de “Luz  Negra” de Nelson Cavaquinho.

Ó, Sísifo!

Meu amigo e meu irmão
Meu eu e meu outro.
Sentido existe, que não o absurdo?
Existência existe, que não essa?

Berram os animais
Cantam os rios
Assobiam as plantas
E o homem?

O homem chora.
Chora e silencia.

Sua pedra é seu fardo
e também seu combustível.

Seu suor é seu desgaste
e também sua recompensa.

Sua vida é condenada
e por isso mesmo flerta com a liberdade.

Ó, Sísifo, meu caro!

Diga como consegues
que eu também estou tentando.

Diga o que não se diz
que eu ouço e digo: sou feliz!

Rogério Arantes 

Pintura

Tem coisas na vida
que a gente só vê uma vez
e mais abstrato do que você possa imaginar
falo isso tanto para os olhos do mundo
quanto para os olhos da alma.

Tem coisas na vida
que a gente só vê uma vez
e mais concreto do que você possa imaginar
falo isso tanto para a percepção da alma
quanto para a percepção de mundo.

Num momento singular da vida
me deparei com uma visão ainda mais singular:

Uma linda borboleta voando
e como que se equilibrando
no brilho e na matéria de uma estrela.

E eu sei lá o significado disso!

Só sei que essa surreal visão me transformou.
Me transformou num novo homem.
Num homem que não quer saber o significado dessa imagem.
Num homem que só quer sentir e amar
cada detalhe e cada nuance
dessa romântica e atípica imagem.
Dessa imagem por vezes distante
e quase que inalcançável pra esse novo homem.
Dessa imagem tão bela e tão intensa
e por isso mesmo inesquecível pra esse novo homem.

E por saber que tem coisas na vida
que a gente só vê uma vez
o eu-poeta, o eu-lírico e o eu-homem
só pensam em capturar essa imagem,
fazer a distância e as complicações todas
desaparecerem de uma forma ou de outra
e poderem apreciar o máximo possível
essa borboleta, esse equilíbrio e essa estrela!

Essa imagem intensa e instigante
Esse real superior a qualquer ideal
Essa coisa doida e liberta,
esse último suspiro de sentido
na vida desse poeta!

Rogério Arantes

Palavras

Dia das mães? Poema de mãe, palavras de mãe…

PALAVRAS 

Tão difíceis de pronunciar
num adeus inevitável.
Tão bonitas e enriquecedoras
num agradecimento merecido.
Tão fortes e decisivas
num compromisso assumido
Tão supérfluas num ato de amor!

Palavras…
Tão frias e amargas
num julgamento falso.
Tão trêmulas e curtas
numa demissão repentina.

Palavras…
Tão exaltadas e ásperas
num momento inoportuno.
Tão calmas e educadas
num diálogo consciente.

Palavras…
Tão amigas
Num conselho carinhoso
Tão cheias de sabedoria
Na voz de um profeta!

Ana Cristina Arantes Luis

(In memorian)

De-longa

Um poema metalinguístico, subjetivo e preguiçoso:

De-longa

Para ler, ouvir e sentir ao som de “Efêmera” de Tulipa Ruiz

Sem mais delongas, vamos delongar.

…, …; ?

momentos (…)

“…”, pequenos.

Esse poema só pôde ganhar vida

após o desejo e realização

nem um pouco ambiciosos

de, sem mais delongas, delongar.

Esse poema é uma contradição.

Ele se auto-destroi no instante exato

em que é construído. Agora.

Rogério Arantes

Sempre um livro

O post de hoje é uma espécie de propaganda de um outro blog, blog este que está dando seus primeiros passos e conta também com contribuições minhas.

Deixa eu explicar melhor: em abril do ano passado, a convite do comentador mais ativo do Un Quimera, o grande Ivan Bilheiro, entrei em um grupo de leituras, que a princípio não tinha nome, nem nada.

O grupo surgiu e foi crescendo. Todos os primeiros sábados do mês eram data pra discutir a obra do mês, escolhida sempre no mês anterior. De Simone de Beauvoir a Clarice Lispector, passando por Lourenço Mutarelli, Italo Calvino, Dostoiévski, Voltaire, Cristóvão Tezza, Gilles Deleuze e Guimarães Rosa, muita coisa já foi lida, discutida, comentada e com o tempo o grupo adquiriu um nome – Sempre um livro – e também um blog.

A ideia do blog, entretanto, ficou por um tempo estacionada e agora, no começo de 2012, foi retomada.

Essa retomada se deu com um texto meu sobre o autor que estamos lendo no momento, Goethe. A obra em questão, Fausto, terá seu post no mês que vem, por enquanto deixei lá um pequeno texto sobre o autor, que reproduzo aqui pra colaborar ainda mais com o “post-propaganda”:

O multifacetado J. W. Goethe

“Quanto errei, quanto vivi,
Quanto aspirei e sofri,
Só flores num ramo — aí estão;
E a velhice e a juventude,
E o erro e a virtude
Ficam bem numa canção.”

(Aos Leitores Amigos – J. W. Goethe)

Caros amigos do Sempre um livro e demais leitores, inicio hoje, de fato, as atividades deste blog. Criado há quatro meses, devido a várias outras atividades desenvolvidas pelos membros do grupo (o sempre corrido fim de período talvez tenha sido a principal delas), ainda não teve muitos textos publicados. Agora em 2012 dou o pontapé inicial, falando um pouco do autor que estamos lendo no momento: Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832).

A obra dos meses de dezembro, janeiro e fevereiro é Fausto e terá comentários mais específicos sobre ela em breve, por enquanto o foco é no autor, Goethe. Nascido a 28 de agosto de 1749, em Frankfurt, Alemanha, Goethe é marcado por uma dupla precocidade e também por um caráter multifacetado, foi, além de poeta, um amante da filosofia e da ciência, fazendo incursões em ambos os campos.

A dupla precocidade se dá no campo literário e sentimental. Recebeu influências da literatura francesa, de escritores como Molière (1622-1673), Racine (1639-1699), Voltaire (1694-1778) e já aos dez anos começou a esboçar seus primeiros versos. O detalhe é que a literatura alemã de sua época de criança era muito pouco prestigiada em toda Europa, o que Goethe ainda não sabia era que ele e mais alguns autores contemporâneos a ele mudariam e muito essa fama, muito em virtude do movimento que ficou conhecido como Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), que se opunha ao Iluminismo, tão em voga na época e que acabou servindo de porta de entrada para o Romantismo. Também cedo Goethe teve suas primeiras paixões, seus encontros e desencontros amorosos influenciaram de maneira bem forte suas obras, em especial aquela que marcou definitivamente Goethe na literatura do século XVIII: Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774).

Pouco depois da publicação de Werther, em 1775, Goethe é convidado pelo Duque Carlos Augusto (1757-1828) para administrar o ducado de Weimar. Nesse posto Goethe passa boa parte de sua vida e as publicações de livros e poemas não param (assim como suas aventuras amorosas).

Na última década do século XVIII, Goethe tem boa parte de suas funções administrativas no ducado de Weimar retiradas, e começa a se ocupar com assuntos relacionados à Universidade de Iena. É aí que ele terá um contato mais direto com a filosofia da época, vários nomes podem ser citados, como os de Fichte (1762-1814), Herder (1744-1803), Schiller (1759-1805) e, em especial, Schelling (1775-1854), de quem foi tutor e admirador em Iena. O interesse de Goethe pela filosofia tinha fortes relações com a poesia, mas também versava sobre assuntos muito em voga na época, a questão do panteísmo, do ateísmo e os desdobramentos pós-kantianos que o chamado Idealismo Alemão iria tomar.

Esse período também foi de muito interesse pela ciência. Goethe fez inúmeros estudos de botânica e ciências naturais em geral e publicou, em 1805, sua Teoria das Cores.

É no período final de sua vida, entretanto, que Goethe escreve a obra que estamos lendo. O Fausto de Goethe tem duas partes, a primeira publicada em 1808 e a segunda em 1830. Os conhecimentos científicos e também de alquimia e ocultismo adquiridos durante sua vida, além da filosofia do Idealismo Alemão e toda sua poesia estão reunidos nesta que talvez seja sua principal obra. “Para o Dr. Fausto o homem pode saber mais, muito mais. Nem que para isso seja necessário aliar-se a um anjo das trevas, o terrível Mefistófeles”. (MEIRA, 1983).

Goethe encontra a morte dois anos depois da publicação do segundo Fausto, em 1832. O que não dá pra deixar de citar é aquela que a história diz ter sido a última frase pronunciada pelo poeta: “Abram a janela do quarto, para que entre mais luz”. Entre a luz e as sombras, Goethe se posicionou de maneira múltipla e intensa dentro da história da cultura ocidental.

O recado era esse. Então, você, leitor do Un Quimera, já sabe né? Leia também o Sempre um livro! E que continuemos assim, sempre com um livro, pra comentar, pensar, discutir…