Arquivo da categoria: Paulo Tiefenthaler

Coruja de Minerva #02

Antes de mais anda já antecipo que este possivelmente será o post mais longo da história do Un Quimera, então é bom o leitor já ir se preparando.

O segundo post da filosófica série Coruja de Minerva, será um artigo escrito por mim em dezembro de 2010, relacionando duas coisas que fazem parte da minha vida: a Filosofia e o programa de TV Larica Total. Posso dizer que sou fã de ambos.

A Filosofia por si só e também por ser o curso superior que estou fazendo e o Larica Total por ser um programa de TV totalmente avesso à toda essa mediocridade televisiva existente hoje em dia, além de tudo a figura de Paulo de Oliveira (brilhantemente interpretado por Paulo Tiefenthaler) é ímpar, um de seus bordões, o XABLAU, acabou virando meu apelido aqui em Juiz de Fora.

Toda essa importância dessas duas coisas dentro da minha vida, me fez pensar em tentar, de alguma maneira, concilia-las, a tentativa se deu em forma de artigo, que se seguirá nas próximas linhas.

Antes de começar vale deixar aqui uma ressalva: estou no 3º período da faculdade, escrevi este artigo quando estava terminando o 2º período, com certeza (tenho consciência disso), este artigo deve estar repleto de elementos não aconselháveis para artigos científicos, alguém mais experiente e graduado possivelmente encontraria inúmeros defeitos aí, mas é por isso mesmo que escrevi e agora publico este artigo, é a partir das críticas e dos erros que se fazem bons artigos, e antes de mais nada é preciso começar, esse talvez tenha sido um começo.

O Estoicismo na TV brasileira do século XXI

Televisão e Filosofia, no cotidiano da população brasileira dos dias atuais, e em suas próprias origens, são duas coisas vistas com completa desarmonia, desencontro.

O presente texto tem o objetivo de buscar aspectos filosóficos dentro do programa de TV, do Canal Brasil, Larica Total e expor a tese de que a Filosofia, algo por origem questionador e de influência dentro da sociedade, para que volte a ter alguma influência dentro desta, precisa se “dessacralizar”, sem cair em banalizações ou relativismos, ter contato com meios mais próximos da grande maioria da população (no caso a TV e também a internet) para só então ser compreendida e captada e então ter influência e, de uma maneira ou de outra, modificar a sociedade. Embora esse mecanismo possa esbarrar em interesses particulares, principalmente no que diz respeito à mídia, a tentativa de algo novo é necessária.

A televisão brasileira de hoje em dia, em especial os canais abertos, não oferecem conteúdo de qualidade para os espectadores. Não entrando na questão se isso é culpa dos produtores em si, que se preocupam com os interesses dos anunciantes ou dos espectadores que aceitam e até pedem mais violência gratuita, sensacionalismo e coisas parecidas, a questão é que programas que incitem uma maior efervescência cultural parecem não estar em nenhuma pauta.

Porém, a TV, já a algum tempo, é um instrumento muito importante dentro da mídia brasileira. Sua influência sobre a opinião pública é enorme e por isso é mister que a TV ofereça algo mais à população.

É difícil localizar dentro de todos os canais oferecidos, algum bloco de programas mais preocupados com isso, existem esparsas produções em determinados canais e é justamente sobre uma delas que abordarei aqui.

Falo do Larica Total. “Uma sátira aos programas de culinária convencionais e a todas as ideias anteriores de se fazer um programa de televisão sobre isso.”

Partindo da sátira e da ironia, desde o nome até ao programa em si, o Larica Total dialoga de uma maneira clara e real com o público, frente a frente.

O programa é comandado por Paulo Tiefenthaler: ator, jornalista, cineasta, editor e fotógrafo. O suíço de alma carioca faz o papel de Paulo de Oliveira no programa, um solteirão que ensina novas e inesperadas receitas, mas que não para por aí.

Antes da culinária vem a necessidade, a essência do Larica Total é a realidade de boa parte da população brasileira: “Brasileiros guerrilheiros de todas as cores, lutadores do audiovisual, garimpeiros do sistema financeiro, explorados pelo magistério, mágicos do mercado popular, hipnóticos das lojas de peruca, sonhadores da faculdade distante,

solitários dos bares da esquina, feios da festa de lindos, puxadores do samba de tarde. Os homens e as mulheres da necessidade, da ausência, do improviso do Brasil.”

Aí já podemos encontrar uma certa perspectiva filosófica e finalmente engendrar as sementes estoicas dentro do Larica Total.

O Estoicismo, filosofia helenística fundada por Zenão de Cítio, na Grécia Antiga, tem como principio, inclusive etimológico, a varanda, o pórtico (stoa). A doutrina filosófica estoica é voltada para o povo, seu fundador era um comerciante, seu principal fim a Ética.

Assim é também o Larica Total, voltado para todos esses tipos de brasileiros citados acima e buscando sempre o diálogo de uma maneira real e direta. Isso não faz do Larica Total uma filosofia, pelo contrário, e até bom esclarecer e frisar isso desde já, o presente texto não tem por objetivo fazer do Larica Total algo filosófico, mas sim encontrar pontos dentro do programa, que possam passar despercebidos, mas que dialoguem com a Filosofia (o Estoicismo no caso) e façam da TV algo mais filosófico e menos alienante, despertem no espectador a vontade de mudança e ação e não de comodismo e imobilismo frente aos fatos.

“Há no Estoicismo algo como um novo zarpar e não a continuação das agonizantes escolas socráticas.” Esta citação faz necessária uma abordagem, ainda que de maneira breve, do momento histórico da fundação do Estoicismo e do desenvolvimento doutrinário para que então voltemos a um diálogo com o Larica Total.

O Estoicismo se apoia em um tripé: Lógica, Física e Ética. As duas primeiras sendo prelúdios para o que, para os estoicos, era considerado o mais importante de sua filosofia, a Ética.

Muito mais do que fazer um simples uso, os estoicos aprimoram a Lógica, colocando dentro de sua filosofia a questão do juízo hipotético, a Lógica é o maior sustentáculo da teoria do conhecimento dos estoicos.

Bebendo na água (ou no fogo) de Heráclito, a Física Estoica admite, como elemento primordial, o fogo e admite também que todo o universo é regido por uma Razão Universal (Lógos), caracterizando assim a forte presença do monismo e do materialismo dentro de sua filosofia.

Já a Ética é o centro para o qual convergem todas as ideias estoicas. Notadamente na grande maioria dos livros dos filósofos estoicos, a preocupação com a Ética é exacerbada, muito disso se deve também ao momento histórico em que surgiu, numa Grécia e numa Alexandria que entravam em um novo tempo, vendo o fim do poderio ateniense dar lugar à ascensão de uma Alexandria que traria à cultura grega aspectos helenísticos; posteriormente teve outro grande uso na República Romana, principalmente na vida pública e ainda foi cristianizada mais tarde por Santo Agostinho.

Dentro dos pontos de destaque dessa Ética estão alguns conceitos chave como a Ataraxia, a interiorização, a dinâmica pragmática.

A dinâmica pragmática, inclusive, é um dos pontos interessantes de serem abordados. A questão do controle das paixões, presente nas origens da Filosofia Estoica, nada mais é do que um apelo ao bom senso, necessário a praticamente todo momento.

No Larica Total, em alguns episódios como o da Moqueca de Ovo, por exemplo (episódio 7, 1ª temporada), Paulo nos diz: “Sempre, sempre, sempre: bom senso!” No caso, para não exagerar no tempero, mas esse alerta pode e deve ser levado para outras camadas além da culinária e aí então, em uma frase solta, começar a relacionar a Filosofia com a TV.

Outro ponto a ser tocado está presente na primeira das três grandes divisões do Estoicismo, a Lógica.

A Lógica Estoica, aliás, é ponto de partida para várias análises modernas da Lógica em si, vide Karl Popper e Ferdinand de Saussure. E dentro da Lógica Estoica, destaco a questão da Prolepsis.

A Prolepsis trata-se da impressão sensível que fica gravada na nossa alma material. É a utilização das experiências em prol de um amadurecimento intelectual, é em si mesmo, reinventar, buscar algo novo com o que se tem, com o que se vive.

Dentro da culinária da guerrilha, a busca é sempre de aprendizado com novas e inesperadas receitas, e em como essas receitas podem verdadeiramente surgir, com a comida que se tem, com a cozinha que se tem, com o liquidificador que se tem.

Voltando ao Estoicismo em si, após sua fundação por Zenão, outros filósofos gregos a continuaram, seu discípulo Cleanto, por exemplo, e posteriormente ainda ocorreu  a importante colaboração de Crisipo, que sistematizou a doutrina estoica e foi o principal nome dessa primeira fase do Estoicismo, o chamado Estoicismo Antigo.

Panécio e Posidônio são os dois principais nomes do Estoicismo Médio, que é uma fase de maior sistematização da doutrina e que fez a ponte para que o Estoicismo chegasse até Roma.

É sobre o Estoicismo Tardio ou Imperial, que teve sua “casa” na República Romana que falarei mais especificamente, citando seus principais nomes e fazendo comparações com o Larica Total.

Primeiramente, falo do pensamento do escravo romano Epiteto.

Para Epiteto o que nos torna felizes é a forma que encaramos aquilo que nos acontece. Vale a pena frisar mais uma vez que Epiteto era escravo, e encarava a vida dessa maneira, ou seja, de uma maneira completamente inesperada.

Inesperada é o adjetivo já utilizado mais de uma vez para qualificar as receitas de Paulo de Oliveira, que também encara a vida de uma maneira bem diferente. Paulo, ao mesmo tempo que incorpora várias características diferentes de diferentes tipos de pessoas, é particular e original, um personagem pouco comum na sociedade atual.

As receitas apresentadas no programa possuem, cada uma, sua particularidade e um fim comum: a felicidade. É recorrente em vários episódios isso, Paulo cozinha pra ser feliz, pra ter o gosto da comida na boca e o gosto da satisfação de ter feito aquilo com as próprias mãos na alma.

Ainda comparando filósofos estoicos com aspectos do Larica Total, passo do escravo romano Epiteto para o Imperador romano Marco Aurélio.

Essa passagem por si só mostra muito bem como o Estoicismo abria possibilidades reais para um diálogo, do escravo ao imperador, do açúcar ao sal.

Marco Aurélio, em suas Meditações, escrevinha sobre vários temas, todos de significação forte para os estoicos, como a Natureza, a Razão, e a relação do homem com eles e também consigo mesmo.

Um imperador preocupado com questões filosóficas e que se encontra no Estoicismo.

Citando um trecho do Livro VI das Meditações, num tom quase de conselho mesmo, o imperador nos diz: “Se uma coisa é difícil para ti, não concluas daí que ela está para além do poder dos mortais. Terás de admitir, pelo contrário, que, se uma coisa é possível, é própria para o homem fazer, tem de estar dentro das suas próprias capacidades.”

Esse trecho engloba talvez os três pilares do Estoicismo (Lógica, Física e Ética) e é totalmente convergente com outro trecho que diz respeito ao Larica Total: “Porque independente da expectativa e do padrão e da crítica, Paulo vai defender as receitas da única cozinha que conhece: a cozinha do possível, a cozinha da verdade, a cozinha da guerrilha.”

Paulo de Oliveira não é nenhum imperador, mas também se atenta para a questão do possível, ouso dizer que todos os outros programas de culinária exibidos na TV sequer chegam a pensar nessa questão, vão logo jogando ingredientes exóticos e caros, que dificilmente o espectador terá a oportunidade de comprar.

Mais uma vez insisto, é uma pequena diferença, sutil e aparentemente sem pretensão alguma, mas que lá na frente reflete em diferenças maiores, em pensamentos e experiências únicas. É filosofia.

Completando o ciclo romano do Estoicismo, falo de outro filósofo que teve contato com o mundo político de Roma, e muita influência em pensadores e filósofos que o sucederam, falo de Lúcio Aneu Sêneca.

Sêneca nos escreve algumas de suas melhores linhas no diálogo Da Tranquilidade da Alma, onde tenta acalmar e solucionar problemas de seu amigo Sereno.

Lembrando um pouco, apenas no estilo literário, diga-se de passagem, os diálogos de Platão, este diálogo de Sêneca mostra muito bem qual é a ótica da Filosofia Estoica e também é passível de comparações com o Larica Total.

Sêneca nos fala de um princípio de orgulho para os estoicos: “Não nos encerramos nas muralhas de uma cidade só, entramos em contato com o mundo inteiro e professamos que nossa pátria é o universo, a fim de oferecer à virtude o mais amplo campo de ação.”

O Larica Total, ao longo de suas até agora duas temporadas, sempre se preocupou com a questão de ampliar o campo de ação, são episódios mostrando e ensinando pratos de diferentes regiões do globo, e sempre com a ideia de que o diálogo, a experimentação, o novo e singular se sobressaem em relação ao arcaico e asséptico estilo da culinária mais propagada na TV.

Outro ponto de convergência de Sêneca e de Paulo de Oliveira é a ironia. O filósofo estoico, utiliza-se muito da ironia em seus escritos, assim como Paulo em seus programas.

Todas essas comparações podem até não refletir muito bem a relação Larica Total/Estoicismo, porém, a ideia central talvez nem seja essa.

O Larica Total não foi pensado e produzido pra ser uma fonte de disseminação estoica, longe disso, o programa abarca até outras filosofias e em alguns momentos não se aproxima de nenhuma filosofia, é bem verdade.

Mas seu cerne é filosófico: “Paulo faz do programa sua vida (…) E já refletiu sobre o tema e nunca mais esqueceu. É filosofia aplicada. É a materialização do amadurecimento ali na hora.”

Esse ponto abre margem para uma abordagem estoica em cima do programa, como a feita aqui, e também coloca o Larica Total na categoria de programa que vai na contramão da maioria dos programas produzidos hoje em dia.

É o resgate de programas assim e o incentivo de produções de coisas parecidas que é a grande necessidade.

Não quero com isso, fazer da TV a salvadora da Filosofia na sociedade contemporânea, não, a Filosofia tem capacidade para ir muito mais além do que uma tela colorida.

Porém, a mensagem filosófica transmitida por essa “tela colorida” pode ser melhor compreendida e melhor aceita.

Já é hora de quebrar preconceitos do tipo: filósofo não assiste TV. A Filosofia precisa se abrir ao diálogo com essas novas e influentes mídias como a TV, o uso do Larica Total serve pra mostrar como isso não só é possível, mas também como já é feito.

Não é necessário lutar por um espaço estritamente filosófico dentro da grade de programação, mas sim saber abstrair a Filosofia dali, e sutilmente ir refazendo conceitos e estraçalhando preconceitos.

Volto a tocar no ponto de que a Filosofia, nos dias de hoje, precisa se “prolepsiar”. Uma Filosofia analítica sem um escopo mais universalizante é algo vago e sem sentido. É querer bater sempre na mesma tecla e só digitar coisas que não levarão a nada.

Isso não é uma tentativa de banalização da Filosofia, esse ponto é importante de ser destacado, a Filosofia precisa mudar sua atuação no mundo, não deixar de ser o que é.

Uma queda no senso comum seria desastrosa e possivelmente pioraria ainda mais a situação.

O estudo da Filosofia dentro das Universidades, abordando questões mais teóricas e que não têm porque serem abordadas em mídias como a TV não pode acabar, deve sim é ser valorizado, só escrevo este artigo pois faço uma faculdade de Filosofia.

A questão é que todo esse estudo, tudo o que é feito para a Filosofia permanecer sendo algo diferenciado e inovador precisa, de alguma maneira, ser aplicado mais diretamente, por isso o apelo e a sugestão para que a Filosofia desça do trono e dialogue com os meros mortais.

Só assim ela poderá ser melhor captada e aí então verdadeiramente modificar a sociedade. É um anseio de quem acredita no possível, de quem acredita na força da Filosofia. Fazendo-se presente frente a sociedade, posteriormente, a Filosofia acabará voltando para um trono muito mais verdadeiro e merecido.

Ampliar, crescer, mudar. Tudo isso é válido e necessário, mas só pode e deve ser feito com muito cuidado e muita vontade.

Referências:

BRUN, Jean. O Estoicismo. Lisboa: Edições 70, 1986

Marco Aurélio. Meditações. Tradução de Alex Marins. São Paulo: Editora Martin Claret, 2002.

Os Pensadores. Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio – Vida e Obra. São Paulo: Abril Cultural S/A, 3ª edição, 1985.

ROCHA DE OLIVEIRA, Pedro. A Filosofia e o problema da Alienação Social. Juiz de Fora: UFJF, 2010

http://www.laricatotal.com.br