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Inclinação Cinematográfica #01 – Lirismo nas telonas nacionais

Hoje é dia de estrear mais uma nova série no Un Quimera, versão 2011.

Falo da série Inclinação Cinematográfica, que fará um revezamento com a série Inclinação Literária (que teve seu primeiro post publicado mês passado, falando sobre On The Road, de Jack Kerouac).

Ainda com um pé na literatura, vou falar hoje de um longa filmado em 2001, do diretor Luiz Fernando Carvalho, em cima da obra de Raduan Nassar, vou falar de Lavoura Arcaica.

Antes de mais nada vale ressaltar a obra literária, Raduan Nassar é um escritor brasileiro pouco conhecido, que tem em Lavoura Arcaica sua obra-prima. O livro é muito conciso e direto, mas ao mesmo tempo repleto de um lirismo digno dos melhores poemas.

Eu particularmente li em apenas dois dias, tamanha a categoria na narrativa e do enredo.

E no dia seguinte fui assistir ao longa, que será o assunto principal deste post.

Nem falo em adaptação, pois considero este longa como o mais próximo do livro de todos os longas que já assisti baseados em alguma obra literária.

Essa extrema fidelidade gerou até algumas críticas ao filme, por ter longos espaços de tempo sem diálogos e usar uma linguagem bem carregada de lirismo e expressões mais sofisticadas. Para o cinema isso realmente talvez possa atrapalhar, ainda mais na época do lançamento, ainda nas telonas, mas considero isso como um ponto positivo, pois é muito difícil conseguir extrair tudo da obra literária ao transpô-la para o cinema.

Não gosto de revelar muitas coisas sobre o enredo, então, assim como fiz no post de On The Road, vou falar bem por alto da história, buscando ressaltar mais os atores e o impacto externo do filme, além de algumas definições conceituais.

Uma narrativa clássica, que têm em recursos como os flashbacks e na manutenção dos diálogos originais do livro pontos que o diferenciam e  e diria até que flertam com o cinema experimental.

O filme se passa basicamente em três cenários: um quarto de hotel, um puteiro e uma fazenda.

André, personagem magistralmente interpretado por Selton Mello, é um dos filhos do pai, personagem de Raul Cortez. A história é focada em cima de André pois ele é o filho desgarrado, que resolve fugir de casa, no caso da fazenda, e ir viver sua vida sozinho.

Tudo começa no hotel, com André já um pouco mais velho, recebendo a visita de Pedro, o irmão primogênito, interpretado por Leonardo Medeiros, o irmão mais velho vai ao hotel para pedir a volta de André pra casa.

Aí a história passa por um flashback, que mostra, sob a ótica de André, sua infância e adolescência dentro da fazenda.

É interessante perceber a riqueza de detalhes do filme, que trás de maneira bem fiel ao livro, os cenários e as lembranças do personagem, uma ambientação muito bem feita nos momentos iniciais do filme.

Dentro desse flashback estão incluídas cenas fortes e importantes para o desenrolar da trama, como a festa em que André observa extasiado sua irmã Ana dançando, personagem de Simone Spoladore, que não tem sequer uma fala, mas que possui papel importantíssimo dentro da trama. Além da ida de André ao puteiro, os diálogos com sua mãe, personagem de Juliana Carneiro da Cunha.

Basicamente a história se desenvolve assim, existe o momento do retorno de André e as cenas impactantes e importantes são o denso diálogo de André com seu pai, dentro desse diálogo acho até que cabe uma citação de uma das falas de André, pra quem ainda não conhece já perceber o tom lírico da coisa:

“Toda ordem traz uma semente de desordem, a clareza, uma semente de obscuridade, não é por outro motivo que falo como falo. Eu poderia ser claro e dizer, por exemplo, que nunca, até o instante em que decidi o contrário, eu tinha pensado em deixar a casa; eu poderia ser claro e dizer ainda que nunca, nem antes e nem depois de ter partido, eu pensei que pudesse encontrar fora o que não me davam aqui dentro”.

Além do diálogo entre André e o Pai, a fuga de Lula, o irmão mais novo, interpretado por Caio Blat e o desfecho do filme, muito bem filmado, lembrando acontecimentos expostos ainda no início e afirmando mais uma vez a fidelidade ao livro.

Enfim, é isso. Creio não ser minha utilidade e nem minha pretensão adentrar em todas as particularidades do filme e do enredo, queria mesmo é expor por alto a história e ressaltar o aspecto lírico presente nela, além da fidelidade na hora de passar do livro pra tela.

Acho interessante também começar falando de cinema lembrando do cinema nacional, tão escrachado e desprestigiado por muitos, de alguns anos pra cá vem ressurgindo e lançando filmes de qualidade.

Em abril tem mais Inclinação Cinematográfica.