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Inclinação Cinematográfica #02 – Cheirando subversão

Hoje é dia de mais uma Inclinação Cinematográfica. Pode até parecer uma acomodação ou repetição, mas assim como fiz no primeiro post dessa série, quando falei sobre Lavoura Arcaica, vou falar de uma produção nacional, adaptada de um livro, que tem como protagonista Selton Mello.

Só que dessa vez o ambiente lírico e rural de Lavoura Arcaica será susbtituído por um duro e cinzento ambiente urbano, onde uma história muito incomum será vivida por Lourenço, interpretado por Selton Mello, o personagem é homônimo do autor do livro que dá origem ao filme.

Lourenço Mutarelli por sua vez, também participa do filme, só que num papel secundário, ele é uma espécie de escudeiro de Lourenço.

Entrando na trama de uma vez, a história acontece em São Paulo. Onde Lourenço, noivo e quase pronto pra casar, acaba rompendo com sua noiva, em meio a um almoço que tinha como personagem principal o strogonoff. As razões desse rompimento não são clichês de casais, é bem diferente disso, Lourenço apenas desiste, Lourenço parece não acreditar nem querer relações usuais. Depois disso, Lourenço, em meio a sua rotina, se apaixona por uma bunda. É isso mesmo, ele não se apaixona por uma outra mulher, mas sim por uma bunda.

Como falei, tudo isso parece ser muito incomum. E realmente é. Mas dentro dessa trama, existem explicações para essa paixão. Lourenço trabalha em um escritório que compra objetos usados. Isso faz do personagem principal alguém que pouco se importa com os outros, ele tenta sempre manipular seus clientes afim de conseguir comprar os objetos pelos menores valores possíveis.

Lourenço, sem quase nenhum caráter, é um personagem único. Muito influenciado por essa situação em seu trabalho ele passa a ver tudo e todos como objetos, e pensa nas relações de maneira sempre direta e mecânica. As situações que acontecem no desenrolar do filme, justamente por esse tempero incomum, acabam ganhando um toque de humor bem diferenciado, um humor sutil e bem feito.

Outro ponto importante do personagem é a questão que dá nome ao filme. Dentro de seu escritório, Lourenço tem um banheiro, e o cheiro do ralo desse banheiro é sempre horrível, e deixa Lourenço sempre envergonhado e alterado por causa disso, quando Lourenço percebe que o cheiro do ralo, na verdade sai dele mesmo, o filme ganha novos contornos e o personagem de Lourenço vai ficando ainda mais interessante.

Girando basicamente em torno disso: o trabalho, a bunda e o ralo, o filme se desenvolve até chegar em um fim que pra mim é sensacional. As duas cenas finais são fora de série, não vale a pena nem adiantar nenhuma delas, elas têm que ser vistas.

Saindo do enredo e falando um pouco de aspectos exteriores ao filme. É interessante lembrar da concepção original d’O Cheiro do Ralo. O livro foi o primeiro romance de Lourenço Mutarelli, que até então produzia revistas de quadrinhos, o livro foi escrito em torno de apenas cinco dias, depois de publicado, chegou até as mãos de Selton Mello, e o ator depois de ler com muita curiosidade e vontade, decidiu ir até o diretor Heitor Dhalia e pedir o papel principal, o pedido foi aceito e Selton Mello considera sua atuação neste filme como a melhor de sua carreira.

Inúmeros simbolismos e metáforas podem ser extraídas das atitudes de Lourenço. Daria pra falar muito mais sobre as particularidades d’O Cheiro do Ralo, mas acho que o que foi dito até agora já dá pra deixar os leitores com certa curiosidade e embasamento para assistirem o filme.

Ainda não li o livro, talvez seja até melhor ler antes de assistir o filme, mas assistir direto como eu fiz também é uma opção válida.

Enfim,  O Cheiro do Ralo é mais uma das boas produções nacionais, e não é patriotada ou coisa do tipo essas escolhas por filmes nacionais, realmente existe muita coisa boa no nosso cinema, que muitas vezes são esquecidas ou desvalorizadas.