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Reflexões de fim de ano

Suprassumo do lúdico, dentro da esfera do cotidiano: sentir o cheiro da chuva, dentro da casa onde você nasceu e foi criado, ouvindo sua priminha conjugar os infantis e inconfundíveis verbos “apeitar” e “peider”.

Dá um “apeito” no peito perceber que com o tempo a gente vai “peidendo” toda essa leveza.

Penso que o que dá pra fazer é pelo menos tentar plasticizar toda essa concretude cinza que insiste em nos dominar.

Ah não, melhor não…

… das coisas pequenas e simples nunca se tiram soluções válidas, pra quê ficar se iludindo…

Rogério Arantes

Toda Nudez Será Castigada

Nu.
De frente pro absurdo
e às voltas com a poesia
todo mundo é nu.

Nu.
Em pêlo, em casa, em vida
visceral e singularmente
todo mundo é nu.

Nu.
Duas letras: um som e um corpo
na hora da verdade
todo mundo é nu.

Nu.
Com medo e com malícia
na cachoeira da memória
todo mundo é nu.

Nu!

Rogério Arantes

Quase Comentário

Ler é uma atividade muito prazerosa pra mim. Nos últimos anos (em especial nesse 2012), essa atividade foi tomando contornos cada vez mais exacerbados na minha vida. As leituras da faculdade, as leituras por conta própria, as leituras de artigos na internet, as leituras, leituras, leituras…

Dentre os vários “tipos” de leituras, uma para a qual eu tenho um carinho especial é aquela leitura recomendada por amigos. Quando o amigo que recomenda está distante, acho melhor ainda. Porém, como aludi acima, são tantas e tão importantes leituras, que acontece do amigo indicar a leitura, te emprestar o livro, e a leitura não ter tempo pra sair. O livro fica lá esperando, esperando e nada.

Foi mais ou menos isso que aconteceu com o livro Quase Memória, de Carlos Heitor Cony. Estava com ele há alguns meses e ainda não tinha conseguido fazer a leitura. Até que nessa semana resolvi deixar um pouco de lado as outras leituras e em uma semana e um dia, li a obra indicada com entusiasmo por um amigo.

Além de tudo, a leitura dessa obra me fez relembrar uma maneira de se ler que estava há muito esquecida por mim: a leitura sem lápis nem caneta na mão, a leitura deitado na cama, a leitura descompromissada (que não significa, de forma alguma, uma leitura desatenta ou menos criteriosa),  e que leitura boa é essa! E quando ela volta a tona com uma obra tão leve e tão curiosa como essa de Carlos Heitor Cony a coisa fica melhor ainda.

Quando acabei de ler pensei em escrever um breve comentário sobre, que se segue logo abaixo:

O romance Quase Memória, de Carlos Heitor Cony, é caracterizado pelo próprio autor, no subtítulo da obra, como um quase-romance. Talvez seja mesmo um romance que para no quase. A personagem central da obra é o pai do autor, Ernesto Cony Filho. E a indefinição se estamos lendo um romance ou uma biografia desse pai é uma das dicas para o quase-romance.

No entanto, o quase romance ou a quase memória de Cony filho não param em um quase que se mostra incapaz ou impossibilitado de levar ao leitor o todo que parece querer ser transmitido nessa obra.

Em cada um dos vinte e cinco capítulos que a compõem, um leitor mais desapercebido lê e encontra pequenas histórias e memórias de Carlos Heitor Cony, sobre sua própria vida e experiências, mas, em especial, sobre a vida, as peripécias, as particularidades, a incomum idiossincrasia, enfim, de seu pai, o também jornalista Ernesto Cony Filho.

O que o leitor mais desapercebido não deve conseguir captar é que todas essas histórias (desde as mais singelas, que versam sobre uma criação de galinhas de Ernesto Cony Filho, ou ao amigo deste, chamado Absalão, que costumava ir roubar mangas com ele no Cemitério do Caju, até histórias que envolviam todo o país, como a tentativa de articular uma candidatura à presidência, em 1930, do governador de Minas Gerais ou as mudanças em relação ao fazer jornalístico, causadas pela evolução tecnológica e publicitária) são na verdade fragmentos da memória de um jornalista que vê a sua vida repassar por sua mente em um dia.

Esse dia, por sua vez, com todas essas memórias, é contado em um livro. E é aí que se encontra toda a qualidade e leveza do quase-romance de Cony: para uma leitura mais atenta, o autor literalmente conta essas pequenas histórias e lembranças, e aí cada capítulo deixa de ser apenas mais um capítulo e transforma-se em um pequeno “causo”, um dedo de prosa – prática tão cara a um mineiro com eu – que se estende e não se pretende absoluto ou definitivo: quem disse que a memória consegue abarcar todos os acontecimentos de nossa vida? Estamos aqui situados em uma atmosfera de quase memória.

Dentre os vários, curiosos, engraçados e instigantes “causos” contados por Cony, muitos me chamaram a atenção, o principal deles talvez seja o do balão de São João, e de como se dava sua confecção (atividade que unia Cony pai e Cony filho e que despertou nesse uma profunda admiração e carinho por aquele), mas neste pequeno texto, que se pretende um breve comentário sobre a obra, a título de ilustração, quero destacar apenas um: a viagem (ou quase viagem) de Ernesto Cony Filho à Fiuggi, Itália.

Esse “causo” chega a ocupar até mais de um capítulo dentro da obra e fala de como Ernesto Cony Filho foi escolhido para ser o jornalista brasileiro a divulgar e conhecer in loco as milagrosas águas da desconhecida cidade de Fiuggi. O fato é que, na década de 30 do século passado onde o transporte e a tecnologia em geral eram bem diferentes das atuais, o jornalista teria que fazer uma viagem com várias escalas, saindo do Rio de Janeiro, indo à Piracicaba, Santos, Recife, Gênova, Roma e só depois chegar ao seu destino, Fiuggi.

Quando ele sai do Rio, todos a sua volta (família, colegas de trabalho, o Capitão Giordano, de Caporetto, figura especial dentro da obra) ficam meio que extasiados, com aquela admiração: nossa, ele vai mesmo à Itália! Porém, com uma engenhosidade e um humor finos, Carlos Heitor Cony mostra que toda essa animação acabaria dando com os burros n’água: seu pai não chegou sequer a sair do Brasil, no meio do traslado Santos-Recife, Mussolini toma o poder na Itália, várias pequenas tragédias acontecem e o cônsul que havia programado a ida de Ernesto Cony Filho à Fiuggi não manda mais em nada e resta para o jornalista voltar ao Rio de Janeiro.

Interessante é perceber que essa história em particular volta a ser mencionada no livro e com o detalhe de que Ernesto como que criou em sua mente e contou para várias pessoas uma real ida à Itália, o efeito cômico conseguido com isso é muito bacana.

Entre um “causo” e outro como esse a obra vai se desenrolando e passando ao leitor um pouco da trajetória de um dos grandes jornalistas brasileiros do século XX (assim como de tudo ao seu redor).

Uma lição de simplicidade e sagacidade. Injeção de ânimo pra quem, como Ernesto Cony Filho, pretende batalhar por e realizar as coisas grandes.

Primavera na Mente

As influências que cada um tem, creio eu, podem configurar-se em várias e inesperadas criações. A canção “Primavera nos Dentes” sempre me inspirou muito, desde a primeira vez que a escutei. Por vezes tentei escrever algum poema ou qualquer outra coisa que fizesse alusão à essa canção e toda a inspiração que ela me proporciona. Só o que obtive foram fracassadas e inacabadas tentativas. Eis que num momento de criação, escrevendo um poema que a princípio não era pra ter nada a ver com a canção dos Secos e Molhados, encontrei a possibilidade de colocá-la ali. O resultado disso segue abaixo:

Primavera na Mente

Pra abalar um pensador estático
somente um instante extático.
Pra valorizar a estética
é bom não abrir mão da Estética.
O valor de cada pequena e singela história
não precisa do crivo da História.
Tão distintos, tão distantes
são herois e também errantes.
Conceitos e signos tantos
que aceitam concepções outras.
Concepções tantas que geram
frutos e espinhos
nas mais diversas plantas
do verborrágico jardim intelectual.
Há quem segure a primavera nos dentes
– e pra esses todo respeito e admiração –
nós seguramos a primavera na mente.
Na busca constante por uma
experiência nova, viva e estridente.

Rogério Arantes

O irmão esquecido

O post de hoje é uma republicação do post que eu acabei de publicar lá no Sempre um Livro. Estamos lendo a obra O fazedor, de Jorge Luis Borges e um pequeno poema contido na obra citada me despertou várias ideias, que eu tentei articular no presente post. É apenas uma hipótese, uma interpretação minha que ainda está surgindo, mas que já fica registrada como motivadora de discussões acerca do tema:

Ver a ciência sob a ótica da arte e a arte sob a ótica da vida significa dizer que o problema da ciência não pode ser visto no interior de um campo contaminado pelas interpretações reativas e negativas; mas deve ser investigado a partir de um solo não científico: o da vontade de potência. Considerar a ciência sob a ótica da vida significa apreciá-la por sua força criadora”.1

Não conheço muito bem a biografia nem a bibliografia do escritor argentino Jorge Luis Borges. Até agora o único livro que li dele foi fazedor.No entanto, não sei bem porquê, Borges é um daqueles autores que, principalmente se você está envolvido num ambiente acadêmico, como é o meu caso, você sempre ouve falar e, querendo ou não, fica com aquela vontade de ler e conhecer.

Pois bem, com a leitura de fazedor enfim conheci a escrita de Borges. Nós vários poemas, contos e simples frases que compõem este livro, consegui perceber que, antes de mais nada, o escritor argentino possui uma sensibilidade ao lidar com as palavras que te jogam no texto e lhe fazem não querer sair dali tão cedo. É um texto que, segundo minha interpretação, é feito para ser degustado como um bom vinho, para ser prolongado como uma boa conversa num café com os amigos.

Dentre os vários textos que compõem fazedor, um em especial me atraiu demais e me fez pensar em um problema que, segundo minha leitura, é, por excelência, de ordem epistemológica.

Deixe-me explicar, para as coisas ficarem mais claras. O referido texto éarte poética, um poema composto por sete estrofes e que trata justamente do seu título, da arte poética, de como ela se dá, de como ela se mostra.

Ora, você leitor pode então me perguntar: o que a arte poética tem a ver com a epistemologia? É que no processo de ruminação do poema (pra se ler Borges a “ruminância” é qualidade indispensável), num lento e preguiçoso ônibus que cruzava as estradas de Minas Gerais, pensei em uma metáfora que acabou levando o poema para essa ordem epistemológica a qual aludi acima.

Comunicar-se via metáfora é sempre uma tarefa delicada e complicada, pois a metáfora aceita vários níveis de entendimento e nem sempre o “metaforador” consegue ser compreendido de uma maneira satisfatória. Mesmo assim vou me arriscar e espero conseguir atingir o meu telos.

Imagine dois irmãos, ambos na mais terna infância, que começam a brigar em virtude de um brinquedo, que ambos gostavam muito de brincar e que aparentemente sumiu. Um acusa o outro de ter se apoderado e escondido o brinquedo, no entanto, nem um nem outro de fato fez tal coisa e assim o que prevalece é essa disfonia ad infinitum.

Até que aparece um terceiro e desavisado irmão, que nem se importava tanto com o motivo da briga dos outros dois irmãos e, sem querer, encontra o tal brinquedo. Enquanto a briga entre os outros dois irmãos continua, o terceiro irmão fica ali, esquecido, com o brinquedo nas mãos, mas sem saber bem o que fazer com ele.

Essa foi a metáfora que construí após a leitura de arte poética. Inevitavelmente vou tocar em um assunto de uma relevância e de uma complexidade e multiplicidade de interpretações dentro das ciências, que, também inevitavelmente, não será esgotado nesse pequeno texto. Mas quero pelo menos tentar apontar caminhos nos parágrafos seguintes, com uma breve explicação da metáfora dos parágrafos anteriores, para discussões acerca do tema.

De maneira bem pragmática e pouco misteriosa (isso não é muito interessante em um texto, mas vá lá) digo que na metáfora acima os dois irmãos brigões são a Filosofia e a Ciência, amantes do brinquedo, que é o conhecimento. O irmão esquecido é a Poesia.

Como disse acima, o texto de Borges foi o estopim para essa reflexão e a construção dessa metáfora, no entanto, essa ideia já vinha sendo cultivada dentro da minha cabeça há um tempo. Estudando Filosofia da Ciência e própria Filosofia em si, cada vez mais fui percebendo esse verdadeiro embate entre a Filosofia e a Ciência, e creio que dá até pra expandir essa briga (e aí a metáfora ganharia um novo irmão), para dentro da própria Filosofia, no embate entre as filosofias ditas sistemáticas e “fragmentárias”. Enfim, nos campos em que, por definição o conhecimento é o objeto e objetivo, por maiores que sejam os avanços e as conquistas, muita coisa parece não ser conseguida em virtude de desavenças e desencontros.

Aí surge a Poesia. A tarefa (se é que ela tem uma tarefa) dela não é a busca pelo conhecimento. A Poesia é arte e se ocupa com outras instâncias, não necessariamente, nem principalmente com o conhecimento, porém, isso não impede a Poesia de também se deparar com questões epistemológicas, e conseguir reinterpretar essas questões de modo a melhor resolvê-las, a apontar caminhos outros.

Estamos então, caro leitor, no cerne daquilo que falei um pouco mais acima: o despertar de um problema epistemológico através da leitura de um poema de Borges que fala sobre a arte poética.

Retornando à metáfora: parece que o mais interessante a se fazer, para todos os irmãos, é dar um fim à briga entre os dois primeiros e fazê-los perceber que o brinquedo está com o terceiro irmão. Este saberia melhor o que fazer com o brinquedo, afinal estaria em contato com os dois irmãos que já conheciam e gostavam de brincar com ele, e aqueles teriam de volta o tão desejado brinquedo.

Ou seja, longe de parecer uma solução simplista, ou que busque esgotar o assunto, penso que um contato mais forte da Poesia, e da arte poética, com as áreas que por excelência perseguem o conhecimento seriam de extrema validade para todos. Não quero com isso dizer que a solução de todos os problemas epistemológicos do universo está na Poesia, seria muita pretensão e ingenuidade da minha parte.

O conhecimento científico requer toda precisão e solidez e nisso, está claro, a Poesia não pode e nem deve interferir, porém, o conhecimento (e aqui esqueçamos as repartições que com o passar dos séculos foram feitas dentro do conhecimento. Não quero falar de um conhecimento estritamente científico, filosófico e/ou poético, mas sim de um conhecimento maior, que abarque todos esses) pode sim receber o auxílio luxuoso da Poesia.

A Poesia, entretanto, está esquecida, como o irmão da metáfora. E longe das discussões “sérias” sobre o conhecimento, ela, sem compromisso algum, consegue, livre de preconceitos e limitações, chegar até alguns pontos que os embates entre Ciência e Filosofia muitas vezes impedem essas duas áreas de chegar.

Não deve-se deificar a arte e a poesia, mas ao mesmo tempo não deve-se menosprezá-las e encará-las apenas como uma atividade entre outras, totalmente a margem de tudo o que é importante e necessário para o conhecimento.

As conquistas epistemológicas, se temperadas com a sensibilidade e a leveza da Poesia tendem a ser mais frutíferas e verdadeiras. Preconceitos, pressuposições e temeridades muitas repudiam essa tese. Por quê?

A pergunta fica e eu encerro o texto com um trecho do poema que foi o motivo e a razão do próprio texto:

Ver en el día en el año un símbolo

de los días del hombre de sus años,

convertir el ultraje de los años

en una música, un rumorr un símbolo,

ver en la muerte el sueño, el ocaso

un triste oro, tal es la poesía

que es inmortal pobre. La poesía

vuelve como la aurora el ocaso.2

REFERÊNCIAS BIBLOGRÁFICAS

BORGES, Jorge Luis. Ofazedor. Tradução: Josely Vianna Baptista. – São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Título original: El hacedor (1960).

DIAS, Rosa Maria. Nietzsche, vida como obra de arte. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

1 DIAS, 2011. p. 55.

2 BORGES, 2008, p. 148.

Poética Quebrada

Esse é um poema que passou alguns meses de molho antes de ser tirado do forno. Sinceramente não sei mais quem são aqueles que dizem os versos finais…

Um poeta ataráxico e racional
não é, de fato, um poeta.
No entanto, as nuances da vida
– algumas mágicas, outras nem tanto –
podem fazer o poeta perceber
que em algum momento
até mesmo o mais passional
dos poemas de amor
precisa daquele instante único
de calma. Calma e nada mais.
Essa matéria bruta de amor e tesão
que parece querer explodir a caneta
e incendiar o papel, estilhaçando-o
e não deixando celulose nenhuma pra trás!
Ah, essa matéria bruta de tesão e amor
só ganha vida e forma
se devidamente moldada, esculpida.
A castração também pode ser poética.
A desilusão pode ser epifânica.
E o poeta que outrora falava de paixão
hoje só consegue enxergá-la com as lentes da distorção
E o poema que outrora era canção tola e desvairada
hoje é expressão de alguém que viveu
cresceu, andou, gozou e descobriu.
Descobriu que a caminhada não acaba tão cedo.
E essa descoberta significa andar.
Andemos pois, a um rumo incerto e obscuro.
Somos vontade e desapego
Desassossego e confusão
Somos SIM e não queremos ser NÃO.

Rogério Arantes

O poeta que esqueceu de transcender

Nas paredes da memória os quadros insistem em ficar tortos, não pode haver perfeccionismo se o critério não é perfeito. E por acaso existe algum critério perfeito?

Desgaste e gasto.

 O poeta que esqueceu de transcender

 “Vejo o poeta inspirado em coca-cola

Que poesia mais estranha ele iria expressar.”

Raul Seixas

Dizem que a atividade do poeta é loucura, desvairio.

Tem gente que o ridiculariza: “é abstração demais, viagem demais!” e tem outros que o exaltam: “é abstração! Demais! É viagem! Demais!”, entre uns e outros existe o “objeto” dos comentários alheios, o poeta sim senhor.

Mas aquele poeta em específico (aquele ali, do lado de lá da rua, andando de cabeça baixa, quase parando…) andava bastante desanimado da vida, da atividade poética, de toda e qualquer criação, abstração, abstração ou criação.

O sentido daquelas palavras postas ali no papel parecia não existir mais pra ele e cabisbaixo e triste ele andava pelas ruas, esbarrando em pessoas, que passavam cinzas e desinteressantes, desviando de carros, que corriam mecânicos e duros, e pensando em outros carnavais, quando a poesia ainda fazia todo o sentido para ele.

Essa triste história, que vai ganhando forma nesta crônica tem cara daquelas intermináveis ladainhas meio cult, meio românticas que pululam o imaginário de muitos jovens e adolescentes que já tiveram contato com poemas e poesias, filmes e novelas, tidos como “sérios”. Como diria Tom Zé: “vá ser sério assim no inferno!”.

É muito fácil ser niilista através de experiências alheias ou de conceitos fechados e inexplorados. Assim como faz o poeta do outro lado da rua, que acredita nesse papo atraente e bonitinho de que “nada mais faz sentido”, ficar se preocupando a todo o momento com seriedade e dignidade é – por mais absurdo que isso possa parecer – um ato de comodismo.

O poeta que esqueceu de transcender é aquele cara que, do alto de suas possibilidades se fecha em apenas uma e esquece de todas as outras. Ele pensa que todo poema é igual. Ele quer uma exatidão na contingência e por mais paradoxal que isso seja, não chega a ser poético, muito menos possibilidade válida para um poeta.

A grande brincadeira do presente texto, desavisado leitor, é tentar se imaginar não como o poeta do outro lado da rua, mas sim transplantar essa alegoria e se imaginar como um ser humano que vive como o poeta do outro lado da rua.

Pode até parecer uma grande e desvairada besteira, mas será que não é nem um pouco significativo tanto para o poeta quanto para o homem repensar sempre e toda vez sua condição criadora e espontânea e não se fechar em herméticos caixotes de niilismo ou comodismo?

Atitude pode ser apenas uma simples palavra, perdida entre tantas outras no meio do papel. Todavia, também pode ser uma atitude de fato. E a atitude poética frente ao mundo talvez seja a mais visceral, a que mais transcende. O poeta e o homem que esquecem de transcender perdem, definham, se esvaem.

E é por isso que do lado de cá da rua comodismos, niilismos, perdas, tristezas, lamentações e afins são subvertidos e transformados em minúsculas pedrinhas, onde meus pés, cada vez mais firmes, pisam e buscam novos caminhos.

Molecagem

Eu percebo a novidade
que sempre esteve solta por aí
Eu convivo com a impossibilidade
que sempre esteve viva por aqui
Se eu sou poeta, estudante
ou apenas um cara qualquer
isso pouco importa.
Poemas são como bebês.
Eles choram querendo carinho,
se deliciam com as coisas simples
e desapegados de toda e qualquer burocracia, fluem.
Meus poemas brincam e se espantam
frente a algo sempre novo e misterioso
e um dia eles crescem e viram moleques.
Moleques de pé descalço, inventivos.
Moleques despreocupados, sonhadores.
Moleques simples e sem rodeios:
Lúdicos como a vida deveria ser
provocantes e inquietos.
Eita molecagem da boa!

Rogério Arantes

Le Rouge et Le Noir #19

“Há um parentesco óbvio entre o Fluminense e o Flamengo.

E como este se gerou no ressentimento, eu diria que os dois são os irmãos Karamazov do futebol brasileiro”

Nelson Rodrigues 

O post de hoje, mais um da série Le Rouge et Le Noir, não poderia falar de outra coisa senão do centenário daquele que é considerado o clássico mais charmoso do Brasil, o inesgotável Fla x Flu.

Dois dos principais responsáveis para a ascensão do clássico dentro do ideário de qualquer torcedor de futebol, são os irmãos Mario Filho e Nelson Rodrigues. O primeiro, flamenguista tímido, inflamou nas duas torcidas a paixão pelo futebol, e transformou o esporte até então (falamos aqui das décadas de 40, 50 do século passado) elitista em uma verdadeira paixão nacional.

Já o segundo, tricolor apaixonado e dono de uma das escritas mais provocantes de toda literatura brasileira, tinha no futebol um tema central, suas consagradas crônicas esportivas transcendiam a previsível e chata crônica esportiva da época. Dá pra dizer, com tranquilidade, que suas transcendem inclusive as atuais crônicas esportivas.

Mas enfim. Além dessas importantes figuras históricas dentro da história do clássico, o que também fez dele esse clássico tão charmoso e interessante foram os grandes jogadores que passaram por ele. As finais entre as duas equipes e até mesmo jogos sem tanta importância assim, como por exemplo a despedida de Zico, num Fla x Flu, aqui em Juiz de Fora.

De todos os Fla x Flus que eu já assisti aquele que mais me emocionou e aquele que trago as recordações mais vivas foi o 5 x 3 no Campeonato Carioca de 2010. Depois de entrar no segundo tempo perdendo de 3 x 1, o Flamengo, que na época tinha Adriano e Vagner Love comandando o ataque, chegou a uma virada impressionante!

Ontem, no Engenhão, foi disputado o Fla x Flu que homenageava o centenário do clássico. Partida válida pela oitava rodada do Campeonato Brasileiro de 2012. Digo sinceramente, não só pela derrota rubro-negra, que o clássico de ontem esteve muito aquém do nome, da história e de todo o charme do Fla x Flu. Fred, logo no início do jogo, após cruzamento de Thiago Neves e desatenção da zaga rubro-negra, anotou o único gol do jogo.

Fora isso, foi um jogo feio, sem qualquer charme. Ambas as equipes não conseguiram mostrar um bom futebol. O Fluminense, em alguns contra-ataques, principalmente com lampejos de Wellington Nem, tentava assustar o Flamengo, mas não conseguia. O Flamengo, por sua vez, repleto de volantes, não conseguia criar, praticamente não levou perigo ao gol de Diego Cavalieri e terminou a partida buscando um milagre, com a jovem dupla Adryan e Matheus. Ambos tem tudo pra se firmarem como grandes jogadores do futebol brasileiro no futuro, mas agora, com 17 e 18 anos, não vão salvar um time que vive se defendendo e não consegue se defender direito.

Apesar de toda garra do Flamengo na partida, o fraco futebol que vem sendo apresentado já há um bom tempo foi o que mais sobressaiu aos olhos ontem. Joel Santana permanece no comando técnico, mesmo muito pressionado. Depois dessa derrota, restam ainda trinta rodadas no Brasileirão e muita coisa precisa ser mudada.

Em relação aos “irmãos Karamazov” do futebol brasileiro, como diz Nelson Rodrigues, esperamos melhores Fla x Flus, tão charmosos quanto os de outrora. Não é saudosismo, é vontade de ver bom futebol e nada mais.

Palavras

Dia das mães? Poema de mãe, palavras de mãe…

PALAVRAS 

Tão difíceis de pronunciar
num adeus inevitável.
Tão bonitas e enriquecedoras
num agradecimento merecido.
Tão fortes e decisivas
num compromisso assumido
Tão supérfluas num ato de amor!

Palavras…
Tão frias e amargas
num julgamento falso.
Tão trêmulas e curtas
numa demissão repentina.

Palavras…
Tão exaltadas e ásperas
num momento inoportuno.
Tão calmas e educadas
num diálogo consciente.

Palavras…
Tão amigas
Num conselho carinhoso
Tão cheias de sabedoria
Na voz de um profeta!

Ana Cristina Arantes Luis

(In memorian)