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Inclinação Cinematográfica #03 – O clássico dos clássicos undergrounds

Hoje é dia de mais um post da série Inclinação Cinematográfica, o terceiro. Depois de falar de duas produções nacionais (Lavoura Arcaica e O Cheiro do Ralo) volto a atenção hoje para um dos grandes filmes da história do cinema. Como disse no título considero este o clássico dos clássicos undergrounds.

Falo hoje de Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick.

Confesso que demorei um tanto pra assistir o referido filme, fui fazer isso no fim do ano passado e achei algo realmente muito bom!

Até por ser um clássico e tudo mais, falar do filme talvez já esteja um pouco batido, mas seguindo a minha tradição de posts cinematográficos vou procurar não me prender muito ao enredo, vou buscar alguns aspectos marginais da obra e falar um pouco do Kubrick. Mas fica o aviso desde já, o post é pra quem já viu o filme, quem não viu e quiser ler fique à vontade, mas teremos spoilers.

Stanley Kubrick é um renomado diretor hollywoodiano, dirigiu filmes como Nascido Para Matar, O Iluminado (adapatação da obra de Stephen King), 2001: Uma Odisséia no Espaço e por aí vai. Sinceramente não conheço muito da obra do cara, mas o seu trabalho em Laranja Mecânica foi genial. A curiosidade que sempre aparece e que é de certa forma assustadora é em relação aos gastos com o filme: 2 milhões de dólares!

Só de pensar nisso eu já dou mais méritos ainda pro Kubrick, tem tanto filme de orçamento acima dos 100 milhões, cheio de efeitos especiais e que não conseguem chegar nem perto da qualidade cinematográfica e intelectual do Laranja Mecânica.

A ambientação do filme como um todo (fotografia, cenário, figurinos) é outra marca característica, inovadora e que qualifica ainda mais o filme. Dentro da história original, o filme se passa em uma Inglaterra futurista, mas certos aspectos da ambientação me remetem a uma Inglaterra não tão futurista assim, a impressão que me dá é de uma trama que se passa fora da história, mas que ao mesmo tempo questiona valores de vários momentos dessa mesma história.

Se pensarmos em um esquema para o filme seriam duas partes (antes e depois da prisão de Alex) e a parte final (acidente de Alex e visita do ministro no hospital).

Na primeira parte nos deparamos com o Alex “puro”. Ultraviolência, sexo, drogas (deve ter muita coisa naquele “leite”) e pouca ou quase nenhuma preocupação com mais nada. A cena em que Alex e seu bando invadem a casa de uma mulher e Alex pega um pênis gigante e depois mata a mulher é uma das mais chocantes e foi conduzida de maneira curiosa por Kubrick. Nessa primeira parte também é ressaltado muito o olhar e os trejeitos de Alex, marcas que fizeram dele uma espécie de ídolo pop do underground.

Na segunda parte, Alex é preso e passa por um tratamento horrível para deixar de ser o que é. Tratamento esse que recorre à leitura da bíblia, a psicoterapia, é um verdadeiro controle social. O detalhe é que durante o tratamento Alex é obrigado a assistir cenas de guerra com a trilha sonora de Beethoven. Este talvez tenha sido um dos piores castigos para ele, fã declarado da música de “Ludwig Van”.

Aproveitando essa passagem pela trilha sonora, além da 9ª sinfonia, o som ambiente do filme combinou demais com tudo e a sequência em que Alex mata  a mulher do escritor cantando Singin’ In The Rain também ficou sensacional.

Falando nisso, Alex DeLarge é de longe a personagem principal da história, o anti-heroi, mas a personagem do escritor, Frank Alexander também é emblemática, sua recepção à Alex na parte final do filme é uma das cenas mais interessantes do filme na minha opinião, seu estado físico e sua expressão em relação à Alex, depois de saber que foi ele (Alex) quem matou sua mulher são ímpares, pelo menos em mim essa cena criou uma expectativa muito grande em relação ao desfecho do filme.

Desfecho que pode ser interpretado de diversas formas. Quando o ministro responsável pela recuperação do delinquente Alex vai até o hospital falar com o nosso protagonista fica evidenciado pra mim que a mensagem que o filme tenta transmitir é de um aprisionamento social, onde valores, crenças e éticas estão muito deturpados, o ministro precisa de um Alex comportadinho, comendo sua comida, em silêncio, e Alex, ao mesmo tempo, não tem muito mais o que fazer, após ter vivido tudo o que viveu resigna-se, mesmo assim a mensagem mais marcante de Alex é a do jovem rebelde e transgressor.

Com a certeza de que além de tudo que eu falei podem ser encontrados ainda muitos outros questionamentos psicológicos, políticos e até mesmo filosóficos dentro do filme, encerro o post mais uma vez ressaltando o meu gosto por filmes deste estilo e a importância e influência que Laranja Mecânica, em particular, tem na mente minha e de muitos outros da minha geração.

Em agosto tem mais Inclinação Cinematográfica.