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Especial Toca Raul! – Parte 2 – O que fez Raulzito…

Hoje volta ao Un Quimera o especial Toca Raul!
Como prometido na semana passada, hoje vou falar sobre alguns dos vários álbuns de Raulzito.
Fã que sou, já escutei todos é lógico, tenho preferência por alguns.
Antes de tudo, digo que foi muito difícil de escolher, pois Raul tem muita coisa boa (isso não é um clichê), mas acabei chegando nos 5 álbuns que considero os “Only Ones” de Raul Seixas.
Detalhe: todos são da década de 70, aí vai, na ordem do meu gosto:
1 – Krig-ha Bandolo! (1973)
Este é o primeiro disco solo de Raul e pra mim o melhor!
A música mais conhecida deste álbum é, com certeza, Metamorfose Ambulante.
Uma das melhores músicas e que tem história, na entrevista publicada na Parte 1 do especial Toca Raul!, Raulzito fala que ainda adolescente já escrevia nas paredes de sua casa: Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.
Eternizada na voz de Raul e regravada por vários outros contores como Zé Ramalho e Zélia Duncan, a música mostra um pouco do “múltiplo” Raul Seixas, que tem sua multiplicidade um pouco explicada nessa canção.
Mas além da metamorfose várias outras canções um pouco menos conhecidas fazem parte deste álbum.
Destaco How Could I Know, Rockixe, a irreverente Dentadura Postiça, a irônica Mosca na Sopa e a canção que fecha o disco: Ouro de Tolo.
Na música As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor (do álbum Gita, daqui a pouco falo dele) Raul diz: Quando eu compus, fiz Ouro de Tolo uns imbecis me chamaram de profeta do apocalipse, mas eles só vão entender o que eu falei no esperado dia do eclipse.
A música ganhou tanta força que até o próprio Raul chegou a citá-la.
Ouro de Tolo é um retrato de uma parcela da sociedade brasileira do início da década de 70.
Época do chamado “milagre econômico” brasileiro, com a ditadura no seu auge, Raul mostra que o povo como ele conseguia conquistar muita coisa sim: 4 mil cruzeiros por mês, Corcel 73, apartamento em Ipanema e por aí vai, mas foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto e daí? Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e eu não posso ficar aí parado.
Quer dizer, na verdade todas essas conquistas são algo pequeno perto do que se pode conquistar realmente, as “coisas grandes”, nem todos pensavam assim, se contentavam, mas Raul era diferente, era mesmo uma metamorfose ambulante.
2 – Gita (1974)

Gita é o segundo álbum solo de Raul, repito, a ordem é por gosto não cronológica, mas acabou coincidindo até agora.
Relembrando novamente a entrevista da Parte 1 do especial, Raul diz que foi convidado a se retirar do país pouco depois da gravação deste álbum, mas que logo depois retornou pois era “ídolo nacional”.
Também pudera, o disco divulgou de vez, pro mundo todo a chamada Sociedade Alternativa.
Sociedade utópica, criada por Raul Seixas e Paulo Coelho, embasada em suas ideias e na forte influência do bruxo inglês Alester Crowley.
A frase Viva a Sociedade Alternativa se transformou em sinônimo de raulseixismo, de inconformismo e, lógico, de alternativa.
No início do clip dessa música, Raul diz uma frase categórica: Se você não está dentro da Sociedade Alternativa, a Sociedade Alternativa sempre esteve dentro de você! (no fim do post tem o vídeo).
Além da Sociedade, O Trem das 7, S.O.S., a canção título do disco: Gita e também Moleque Maravilhoso são algumas das melhores músicas desse álbum, que conta também com a curtísssima, singela, porém bonita Prelúdio:

“Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só mas sonho que se sonha junto é realidade”
3 – Mata Virgem (1979)

Quebrando a ordem cronológica, Mata Virgem aparece em 3º lugar.
Esse já é um disco bem diferente dos da “primeira fase” de Raulzito.
Paulo Coelho volta a acompanhar Raul nas composições, mas surge também a então mulher de Raulzito: Tânia Menna Barreto.
A canção que dá nome ao álbum foi composta junto com ela.
Além de Mata Virgem destaco também Judas, canção que conta inclusive com a participação de Paulo Coelho, logo no início, dizendo: Ei, quem é você? Ei, quem é você? Vamos, Responda!, Raulzito logo entra em alto estilo: Eu… eu sou Judas.
As outras canções pareceram para mim quando escutei uma espécie de testes de Raul Seixas, explico: enquanto os outros álbuns dele possuiam na sua maioria canções de rock and roll, fizeram mais sucesso, Mata Virgem é bem diferente, toda a mistura de estilos está nele, tem a lenta As Profecias, a rápida Conserve seu Medo, a interessantíssima e quase devota a Drácula Magia de Amor e a música que fecha o álbum retrata muito bem toda a ironia e irreverência de Raul: Todo Mundo Explica.
4 – Há Dez Mil Anos Atrás (1976)

Há Dez Mil Anos Atrás é um álbum que, a princípio nem gostei muito.
Mas depois fui escutando ele outras vezes e fui redescobrindo
suas canções, foi bem legal isso.
A canção título se enquadra nas mais escutadas e conhecidas de Raul Seixas.
Fora ela, as outras canções do disco não são tão conhecidas, com exceção de Eu Também Vou Reclamar, onde Raul destila sua crítica fina e irônica: Pare o mundo que eu quero descer!
Mas aí, como eu falei, fui redescobrindo o disco e encontrei Canto para Minha Morte, se existia devoção a Drácula em Magia de Amor o que dizer então da “devoção” a morte nesta canção?
Vale lembrar que neste álbum quase 100% das composições ainda são com Paulo Coelho, e uma das poucas canções que é de autoria exclusiva de Raul e que curto muito é Os Números.
Tem também Quando Você Crescer, uam batida suave, tranquila e com uma conclusão das mais românticas: Felicidade é uma casa pequenina, é amar uma menina e não ligar pro que se diz.
5 – O Dia Em Que a Terra Parou (1978)

Pode até ser de se estranhar que o álbum que contenha Maluco Beleza, talvez a obra-prima de Raul esteja apenas em 5º lugar, mas na verdade, esse álbum seguiu o mesmo caminho de Há Dez Mil Anos Atrás: num primeiro momento não curti muito, mas depois redescobri as canções e hoje talvez seja o álbum de Raul que eu mais escuto.
Como já disse, Maluco Beleza é a grande canção de Raul e está presente neste álbum, este é o primeiro álbum de Raul que não conta com nenhuma participação de Paulo Coelho nas composições, que voltaria a compor com Raul um ano depois no álbum Mata Virgem.
Todas as canções são parceira de Raul e Cláudio Roberto.
Canções como Sapato 36, crítica de Raul a seu pai?
Para muito sim, mas na verdade o pai é o governo brasileiro impositor, que “inventou” o Sapato 36 que poderia ser a censura, o filho é Raul e todo povo brasileiro, o “sapato que não vai mais me apertar” é a decisão de cantar e reivindicar. Meu pai, meu pai!
Tem também a música que dá nome ao disco: O Dia Em Que a Terra Parou.
Além dessas destaco No Fundo do Quintal da Escola e Eu Quero Mesmo. Nesta última, Raul mostra toda sua mutabilidade, cantando iê-iê-iê sem medo!
Bem, estes são os cinco melhores álbuns de Raul na minha opinião, volto a dizer que não foi fácil escolher. Deixar Por Quem os Sinos Dobram, Novo Aeon e o álbum homônimo de fora é algo controverso.
Mas fica assim mesmo e lembro que sexta-feira que vem é dia 21 de agosto, dia em que se completarão exatos 20 anos da morte de Raulzito e dia da Parte 3 do Especial Toca Raul! aqui no Un Quimera.
Pra fechar o post, um viva… viva a Sociedade Alternativa!