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Inclinação Literária #01 – Benzedrina, café e a estrada…

Hoje é dia de começar mais uma nova série no Un Quimera.

Inclinação Literária é uma tentativa de colocar com uma frequência maior, análises próprias de livros que eu estiver lendo, já fiz algumas poucas resenhas aqui no Un Quimera, mas foram muito esparsas e se perderam, destaque pra resenha de O Que É Isso Companheiro?, de Fernando Gabeira, um dos posts mais acessados do blog.

Já adiantando, Inclinação Literária fará uma parceria com uma outra nova série: Inclinação Cinematográfica, o esquema vai ser o seguinte: mês ímpar é mês de Inclinação Literária e mês par é mês de Inclinação Cinematográfica.

Pra começar, falo de On The Road de Jack Kerouac.

Li este livro, que eu já tinha ouvido falar muito, em dezembro de 2010. Foi o primeiro das férias de 2010/11.

O livro tem uma influência muito grande em toda cultura e contra-cultura estadunidense e de também de outras partes do mundo, tem a alcunha de “Bíblia da Geração Beat” e um estilo de narrativa bem característico.

Antes de mais nada, falo do autor Jack Kerouac. Um cara que também influenciou praticamente todos que vieram depois dele. Seja no “submundo” de hipsters e beats até dentro das salas de aula acadêmicas.

É interessante e intrigante ressaltar também a maneira e o tempo em que foi escrito. Jack Kerouac, movido por benzedrina e café em apenas três semanas escreveu o manuscrito original do que viria a ser o On The Road.

Eu sempre paro pra imaginar esses momentos de criação, a intensidade disso é de assustar e também me deixou muito curioso pra saber o que verdadeiramente era aquilo que marcou profundamente boa parte da juventude pós 1950.

O livro é repleto de referências indiretas a poetas e amigos de Kerouac, representantes assíduos do Movimento Beat, como por exemplo Allen Ginsberg (parceiro também de Bob Dylan) que no livro é Carlo Marx e William Burroughs que no livro é Old Bull Lee.

O enredo gira em torno de Sal Paradise e Dean Moriarty, confesso que vendo esses dois nomes, misturados a carros, estradas e EUA, não pude deixar de lembrar do seriado Supernatural, não tenho nenhuma informação concreta, mas não consigo tirar da cabeça que o seriado, filmado já no século XXI e com episódios novos ainda saindo, também recebeu essa forte influência do On The Road.

Influências a parte, Sal Paradise e Dean Moriarty estão a todo momento viajando pelos EUA, de canto a canto, reencontrando amigos, conhecendo gente nova, pegando carona, fazendo bicos, sempre regados por boas doses de bebidas, jazz e muito mais.

O mapa abaixo mostra os caminhos percorridos por eles durante a história:

Falando assim, de viagens para todos os cantos dos EUA, parece algo vago, mas o espírito contido dentro dessas viagens é algo maior. Como já falei, bebidas, músicas e gente, muita gente, fazem parte dessa história que tem um ambiente muito underground e alternativo, as inúmeras influências automaticamente foram chegando a vários grupos, principalmente os beats.

Um trecho desse livro que considero emblemático e representa muito bem o que ele é, é essa fala de Dean:

“Agora saca só esses pessoal aí na frente. Estão preocupados, contando os quilômetros, pensando em onde irão dormir essa noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira chegarão onde pretendem – e quando terminarem de pensar já terão chegado onde queriam, percebe? Mas parece que eles têm que se preocupar e trair suas horas, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas; ou então a desejos caprichosos puramente angustiados e angustiantes, suas almas realmente não terão paz a não ser que se agarrem a uma preocupação explícita e comprovada, e tendo encontrado uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa por eles e eles sabem disso, e isso também os preocupa num círculo vicioso que não tem fim.”

Acho que nem preciso comentar muito em cima do trecho citado. Outro ponto interessante de ser ressaltado é em relação as influências que teve Jack Kerouac, pois muito se fala das influências de On The Road no que veio depois. Quando se pensa o On The Road como o depois, retorna-se, literariamente falando, à técnica do Fluxo de Consciência, utilizada por James Joyce e Thomas Wolf, onde o pensamento da personagem meio que se desencadeia juntamente com a sua fala, isso é algo bem forte, que valoriza a narrativa e de uma maneira ou de outra a torna mais real. O próprio trecho citado acaba tendo um pouco disso.

Voltando a falar da história, após inúmeras viagens por praticamente todo os EUA e frustrado sonho de uma viagem à Itália, o final do livro conta como a dupla Dean e Sal foi parar no México e depois de se esbaldarem debaixo do sol caliente coroam suas aventuras pela estrada.

Contar os detalhes da história, falar de todos os outros personagens que vão surgindo serão algo cansativo e desnecessário, por isso paro por aqui, dando um panorama geral do que é o On The Road e querendo destacar principalmente a  dupla intensidade contida ali dentro: tanto em relação ao tempo e à maneira como foi escrito quando em relação à sua enorme influência em praticamente tudo do “mundo underground”.

Livro bom de se ler, acredito que todas as expectativas criadas por mim em cima desse livro foram correspondidas, coisa que nem sempre acontece.