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Inclinação Literária #06 – A Filosofia Erótica

O sexto e último post do ano da série Inclinação Literária é especial. Pois pela primeira vez (e talvez também pela única vez) falará um pouco sobre um livro escrito por um autor anônimo.

Em pleno século XVIII surgiram na Europa alguns romances que insinuavam uma certa ligação da Filosofia com o erotismo e afins. Falando assim pode até parecer algo muito vago e estranho, mas vamos nos aprofundando aos poucos.

Falarei hoje de Teresa Filósofa.

A obra em questão foi um best-seller na Europa do século XVIII, como já disse é de um autor anônimo, mas muitos atribuem a autoria do livro à Jean Baptiste de Boyer, o marquês d’Argens.

A obra é dividida em três partes: a primeira fala das memórias de Teresa, onde a mulher que dá nome ao livro conta sobre o Padre Dirrag e suas perversões sexuais com a Srta. Eradice e sobre o relacionamento erótico-filosófico que teve com o Abade T. e a Sra. C.

Na segunda parte da obra Teresa nos conta sobre Bois-Laurier, uma prostituta que dá abrigo a Teresa depois que esta havia saído do convento. Novas perversões sexuais são retratadas e o amadurecimento de Teresa também se faz presente.

A terceira e última parte da obra é a continuação da história de Teresa, aqui são feitas reflexões sobre a felicidade e o “defloramento” (termo usado na primeira linha do livro). Teresa finalmente se entrega ao Conde (pra quem os relatos da obra foram dedicados) e fala sobre Deus e o agir humano.

A obra toda é dividida em micro-capítulos, que prendem a atenção do leitor.

Me ative primeiro a este aspecto mais formal da obra, falo agora mais propriamente daquela indagação colocada no início do post: Teresa Filósofa é Filosofia de fato?

Isso é algo que pode ser muito polêmico e controverso, é realmente uma faca de dois gumes. Por um lado podemos sim dizer que Teresa Filósofa é Filosofia, afinal o livro tem um arcabouço filosófico, utiliza-se em especial da filosofia de Thomas Hobbes e até pela ambientação clerical, não deixa de mostrar nuances da Escolástica e da Patrística medievais. Mas é lógico que são apenas pinceladas, a personagem do Abade T. é aquela que de certa forma “ensina” filosofia pra Teresa, e faz da protagonista do romance alguém melhor, mais aberta e mais preparada para o exercício do filosofar.

Por outro lado, têm-se sempre que tomar o cuidado de não banalizar e reduzir a Filosofia. Eu particularmente considero válido e interessante buscar em outras esferas, como a do romance, por exemplo, caminhos e “poros” para a Filosofia, mas isso enquanto aproximação, enquanto um atrativo para que se possa chegar de fato à Filosofia.

Essa questão é um dos principais ganchos do livro, outro, que possivelmente é mesmo o principal é a questão erótica. Além de Teresa Filósofa, outros livros do mesmo estilo ficaram muito famosos na época e chegaram à condição de best-seller, como por exemplo Fanny Hill, O Sofá, etc…

Tá aí outra coisa que eu considero muito válida. O erotismo muitas vezes é visto como algo “ilícito” pelo senso comum, desconstruir essa visão é uma tarefa bem complicada, mas aqueles que se dispõem a fazer isso parecem fazer de um jeito interessante.

As dificuldades citadas, contudo, são notórias: a questão do autor possivelmente ser um marquês e a obra ficar caracterizada como de autor anônimo mostra como naquele século XVIII o preconceito com esse tipo de literatura deveria ser ainda maior. Outro ponto é a própria questão da capa do livro (essa mesma que está no começo do post, a direita), é a mesma da versão que eu tenho e quando levava o livro pra ler na faculdade o espanto era geral. Quer dizer, sempre fica alguma coisa diferente no ar quando o assunto é literatura erótica. E afirmo também, em bom português, que uma coisa é literatura erótica e outra é putaria. Isso tem que ficar bem claro.

Enfim, esse é um panorama geral da obra, e quem sabe o início de duas discussões que podem ir longe: a Filosofia em diálogo com os romances eróticos e a maneira singular de aceitação destes pelo senso comum.

Termino aqui o último post do ano da série Inclinação Literária.

Inclinação Literária #05 – O Diário da Fome

O quinto post da série Inclinação Literária seguirá a linha do último post dessa mesma série e falará de uma obra de uma escritora brasileira, só que dessa vez a temática e ambientação são bem diferentes, isso por si só já é uma pequena amostra da multiplicidade da literatura brasileira.

A obra do dia é Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. 

Antes de falar da obra propriamente dita, falo sobre como cheguei até ela. Durante as férias de julho tive contato com alguns artigos acadêmicos e inclusive alguns vídeos no YouTube de um professor universitário de Literatura da UFRJ, João Cézar de Castro Rocha, me interessei muito e posteriormente até falarei mais sobre as teses e as ideias dele (a “dialética da marginalidade”, por exemplo) aqui no Un Quimera, por enquanto fica só a dica. E foi através desse contato que de certa forma “descobri” o Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, também conhecido como Diário de uma favelada.

Publicada pela primeira vez na década de 1960, a obra foi lida por mim com certa rapidez, entre um ônibus e outro, e aos poucos fui me interessando cada vez mais por aquelas linhas cheias de erros ortográficos (Audálio Dantas, jornalista que descobriu Carolina e editou seus livros fez questão de não mexer na ortografia), descontinuidades, mas também cheia de experiência da vida real, cheia de uma ironia digna dos grandes nomes da literatura, cheia de fome e marginalidade.

Esses são os dois principais pontos da obra. A cada novo dia de sua jornada, Carolina vai relatando as dificuldades de uma favelada e mãe solteira: filhos pra criar, lixo pra catar, conversas e brigas dos vizinhos e vizinhas pra aturar e a fome sempre presente. As narrativas podem até parecer muito rebuscadas (insistir no tema da fome e da miséria…), mas Carolina ali conta a sua vida real, escreve em cadernos que catou no lixo nos poucos momentos em que parava no seu barraco.

O título da obra nos remete a um trecho da mesma. Numa de suas idas à cidade Carolina diz:

“Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludo, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo”

As reflexões da autodidata Carolina, recheadas de uma fina ironia, retratam a situação de miséria e possuem uma forte consciência política e social; são um símbolo da literatura marginal brasileira.

Literatura essa que como o próprio nome já diz é olhada com certo preconceito e menosprezo, mas que na minha singela opinião é riquíssima e merece um pouco mais de atenção seja dentro do meio acadêmico, seja fora dele.

Como já aludi no início do post acima, o Brasil possui sim uma vasta e rica literatura, que muitas vezes é deixada de lado nas estantes da vida. Relatos do povo, expondo problemas sociais e a visão de alguém que está inserido diretamente nesses problemas são material no mínimo interessante para qualquer conversa a respeito de mudanças e melhoras no país.

Além desse aspecto mais imediatista e em busca de um resultado mais palpável, também existe o aspecto literário e porque não poético, que na maioria das vezes é deixado de lado pelo senso comum, mas que também possui um valor importantíssimo. Narrativas como a de Carolina Maria de Jesus tornam-se a base de uma nova cultura legitimamente brasileira que vai se construindo a cada dia, século XXI afora…

Outro ponto que é digno de revolta é o de conseguir visualizar as situações de fome e miséria vividas por Carolina em meados da década de 50 se repetindo até hoje.

Encerro o post com mais uma citação de Carolina Maria de Jesus, de um 7 de outubro qualquer:

“7 DE OUTUBRO Morreu um menino aqui na favela. Tinha dois meses. Se vivesse ia passar fome.”

Em novembro tem mais Inclinação Literária.

Inclinação Literária #04 – Ratos, ausências e presenças

Uma brasileira!

Sim, contrariando a linha que os posts da série Inclinação Literária vinham seguindo até aqui (escritores estrangeiros e masculinos: os americanos Jack Kerouac e John Fante e o francês Albert Camus), o post de hoje vai ser sobre um dos livros de uma grande escritora brasileira.

Falo de Seminário dos Ratos, de Lygia Fagundes Telles.

Antes de começar acho válido falar sobre o meu primeiro contato com a referida escritora. Foi no longínquo ano de 2007, quando estava no 1º ano do Ensino Médio, através de um livro de contos chamado Gente em Conflito, onde vários autores brasileiros escreveram contos abordando o tema da violência, de Machado de Assis a Fernando Sabino, tinha muita coisa boa lá, mas o conto que mais me chamou atenção foi Venha ver o pôr-do-sol, de Lygia Fagundes Telles. Com maestria, eu diria, a autora criou um história com uma narrativa envolvente que envolve muito mistério e um crime passional.

Mesmo tendo gostado bastante, de lá pra cá não tinha lido mais nada dessa escritora paulistana, membro da Academia Brasileira de Letras, que completou 88 anos em 2011 e possui uma vasta de bibliografia de contos e romances. Suas principais obras são Ciranda de Pedra (que foi adaptada para a televisão em 1981 e, mais recentemente, em 2008) e As Meninas.

A obra sobre a qual falarei hoje, Seminário dos Ratos, está um pouco a margem, foi publicada pela primeira vez em 1977 (eu li a 8ª edição, de 1998) e é composta por 14 contos.

Não acho muito interessante falar sobre cada um deles separadamente: muito trabalho e possivelmente pouca clareza. Por isso pretendo falar dos contos como um todo e falar um pouco mais daqueles que me chamaram mais atenção.

É uma característica marcante em praticamente todos os contos a mistura de realidade e fantasia, o que de certa forma torna os textos de Lygia algo muito subjetivo, pois os limites e contatos entre realidade e fantasia não podem ser definidos de uma maneira exata. Em meio a essa ambientação “mista” os personagens, dos mais variados possíveis, vão desenvolvendo seus dramas, angústias e paixões e fazem isso de uma maneira humana e voraz.

Esse é outro ponto que me chamou muito a atenção, a penetração psicológica que Lygia Fagundes Telles realiza em seus personagens, isso, no meu ponto de vista, enriquece demais a obra, ainda mais quando se trata de contos. Este estilo literário geralmente conciso e sem muitos acontecimentos e histórias necessita que os personagens saiam do óbvio para que assim possam transformar pequenas coisas, que por vezes passam despercebidas, em algo realmente interessante de se ler.

Para exemplificar e adentrar um pouco mais na obra vou falar um pouco de alguns contos. Em Pomba Enamorada ou Um História de Amor, nos deparamos com uma mulher que ganhou o título de princesa do Baile da Primavera e no mesmo baile se apaixonou por um rapaz, ela que aparentemente era descrente em relação às paixões entra em uma paranóia atrás de seu “príncipe” e recorre a todas as crenças e simpatias que povoam o imaginário popular: o poder dos signos, sapo com boca costurada e por aí vai, tudo por uma paixão.

O x do problema é ambientado em uma favela e assim como o conto que dá título ao livro é uma astuta crítica social, (outra faceta de Lygia é essa crítica social sutil e precisa) que mostra uma família pobre, cheia de problemas, mas que possui também uma televisão, a partir daí o conto se desenrola e passando por Ary, Clorinda, Pelé, Zico a história chega a um desfecho bem sugestivo.

A consulta foi um dos mais divertidos. Quando doutor Ramazian sai de seu escritório e deixa o seu “assistente” Maximiliano no seu lugar, para anotar recados e coisas do tipo, só que nesse meio tempo chega ao escritório o senhor Samuel Fernandez, um paranóico que está com medo da morte, o conto se desenrola num diálogo entre os dois, o desfecho ótimo, não vale a pena contar aqui.

E por fim, falo do conto que dá título ao livro, Seminário dos Ratos sintetiza bem a aura dos contos de Lygia, temos ali a crítica social, a penetração psicológica, a mistura fantasia e realidade, enfim, temos mais um belo conto, onde ratos tomam conta de um seminário e provocam mudanças no país.

É mais ou menos nisso que essa obra gira, Lygia Fagundes Telles consegue falar de paixões e sentimentos de uma maneira muito interessante, ela é intensa e sabe explorar pequenas coisas cotidianas. Pra falar um pouco disso, nada melhor do que a própria, a seguir um trecho de um depoimento dela:

“Alguns dos meus textos nasceram de uma simples frase ou de alguma imagem que vi e retive. Outros, nasceram em algum sonho, enfim, a maior parte destas ficções talvez tenha sua origem lá nos emaranhados do inconsciente – zona vaga e obscura como um fundo de mar. O ato da criação é sempre um mistério. Anoiteço às vezes, como toda gente, mas tenho esperança na manhã, e o humor? Então, espero por essa manhã com o seu bíblico grão de loucura, de acaso e de imprevisto.”

Em setembro volto com mais Inclinação Literária.

Inclinação Literária #03 – A Mitologia Revisitada

O terceiro post da série Inclinação Literária sai um pouco daquela linha “marginal-americana” que vinha seguindo (os dois primeiros posts haviam sido de On The Road, de Jack Kerouac e Pergunte ao Pó, de John Fante.) e passa para uma literatura mais filosófica, um autor de origem argelina e radicado na França.

Vou falar hoje de O Mito de Sísifo, de Albert Camus.

Ultimamente as leituras acadêmicas vem me tomando muito tempo, não só as obrigatórias, mas também outras que por consequência imediata da qualidade que encontro nas obrigatórias eu acabo me interessando, o Mito de Sísifo é um bom exemplo disso. Boa ou má, essa “invasão acadêmica” dentro das “leituras de lazer” me levou até este livro de Camus.

Ainda não estudei a fundo este escritor/filósofo, mas conheço o contexto histórico em que ele se insere. É bem ali onde o Existencialismo se mostrava mais vivo e atuante. O principal nome do citado movimento é com certeza Jean Paul Sartre, podemos citar também sua mulher, Simone de Beauvoir e se quisermos voltar um pouquinho Maurice Merleau-Ponty, todos franceses.

Albert Camus de certa forma segue essa linha, e embora ele mesmo não se considerasse um filósofo existencialista, há muito dessa escola em sua obra, Camus se considerava absurdista.

E é no Mito de Sísifo (publicado em 1942, quando Camus tinha apenas 29 anos) que será teorizada pela primeira vez essa noção de absurdismo. Nesta obra Camus questiona a guerra que estava vivendo, mas não se retém a este tema, na verdade faz releituras de importantes escritores e filósofos, que deram os primeiros passos para o que viria a ser esse movimento existencialista do século XX, e também, na parte final da obra, volta ao mito que dá título ao livro.

Antes de entrar de vez na obra, valem algumas curiosidades em relação ao autor, pra quem não o conhece muito bem. Camus era apaixonado por futebol – em uma visita que fez ao Brasil em 1949, o primeiro pedido de Camus em solo brasileiro foi o de ir assistir um jogo de futebol – embora essa curiosidade possa parecer sem nenhuma relevância, particularmente gosto de exaltar os filósofos e pensadores que vêem o futebol como algo sadio e interessante e não como algo alienante e retrógrado.

Outra curiosidade é em relação a morte de Camus. Foi em um acidente de carro, em Vileblevin, França, em 1960, quando Camus tinha apenas 46 anos. Esta fatalidade pode ter nos privado de poder ler grandes obras literárias e filosóficas, inclusive no local do acidente foi encontrado, na maleta de Camus, manuscritos de um romance autobiográfico, intitulado O Primeiro Homem.

Colocadas as curiosidades em relação ao autor e já introduzido o contexto histórico/filosófico em que a obra se insere, vamos passar para o obra em si agora.

O Mito de Sísifo é uma obra que busca encontrar novos valores, repensando os antigos e contemporâneos, é, antes de tudo, uma tentativa de mudança. A experiência de Camus com coisas reais, com os homens reais de sua época o fez pensar nessa condição literalmente absurda em que se vivia.

Como sempre friso, não é pretensão de nenhum post da série Inclinação Literária destrinchar e analisar a fundo a obra de ninguém, isso vale para qualquer tipo de literatura, quando se encontra num ambiente literário/filosófico então, essa missão passa a ser ainda mais árdua, e definitivamente não é pretensão do post, seriam necessárias muitas horas de estudo em cima da obra em questão para uma análise profunda dela, por isso, pretendo apenas passar por alguns conceitos, para apresentar a obra ao leitor do blog e focar um pouco mais no capítulo final, que fala diretamente do mito citado no título da obra.

Camus, na primeira parte da obra: O Raciocínio Absurdo, começa a fundamentar essa sua teoria da absurdidade, questiona o suícido como saída para alguém que não encontra sentido nenhum na vida e já volta a filósofos antigos e contemporâneos, isso acaba sendo uma tônica de toda a obra, mesmo propondo algo novo, Camus não esquece de contribuições que dialogam com sua ideia, por isso cita e relê Kierkegaard, Kafka, Proust, entre outros.

Na segunda parte da obra: O Homem Absurdo, em três partes, a saber o Donjuanismo, a Comédia e a Conquista, Camus traça o perfil do que seria o homem absurdo, todas suas angústias e vicissitudes, se ainda não havia sido percebido, agora fica evidente o forte contato entre Filosofia e Arte que Camus propõe.

Na terceira parte: A Criação Absurda, esse contato é ainda mais exaltado e exemplos da obra de Dostoiévski são citados a quase todo momento, Camus encontra na arte, na literatura, representações que de certa forma se adequam, ou pelo menos remetem, à noção de absurdidade.

Finalmente chega-se no capítulo final do livro, homônimo da obra em si. Antes de mais nada, vale ressaltar o jogo de palavras aí embutido, o original francês Le Mythe de Sisyphe, soa praticamente igual a outra frase em francês: Le Mythe Décisif, que traduzido seria “O Mito Decisivo”. Quer dizer, Camus vai buscar lá na Mitologia Grega, a decisão, o fecho final de sua obra e sua teoria.

Pra quem não conhece o mito em questão, vale uma rápida explicação: Sísifo era considerado o mais astuto de todos os humanos, senhor dos truques e da esperteza, um legítimo malandro, no melhor sentido da palavra, devido a mentiras e truques ele foi condenado a morte por Zeus, mas conseguiu enganar Tânatos, o deus da morte, duas vezes, a ira de Zeus para Sísifo ficou maior ainda e quando o bom malandro morreu de velhice, Zeus enviou Hermes para levá-lo até o inferno. Lá, Sísifo recebeu um castigo que é o centro de seu mito: foi obrigado a carregar uma pedra até o cume de uma montanha e toda vez que estava quase lá, a pedra caia e Sísifo tinha de refazer o trabalho ad infinitum.

Aí você pode se perguntar: o que esse mito tem a ver com uma literatura do século XX? Camus é quem responde nesse último capítulo. Essa ambientação absurda e melancólica se adequa perfeitamente ao homem absurdo camusiano, o autor considera Sísifo o “heroi absurdo”, exalta sua condição e busca compreender e enxergar de maneira diferente este mito, vale a citação:

“Se esse mito é trágico, é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo o sustentasse a esperança de ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa enquanto desce. A lucidez que devia produzir o seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo.”

A longa citação, além de já mostrar ao leitor como o Mito de Sísifo aqui é totalmente repensado, também já mostra como Camus pensa no atual e no passado, na Filosofia e na Literatura.

Depois desse capítulo final ainda existe um anexo: A Esperança e o Absurdo na obra de Franz Kafka. Confirmando o contato literário/filosófico, característica marcante da obra.

É isso, como já frisei, não pretendia aqui chafurdar todo o pensamento camusiano, mas apenas apresentá-lo com certo entusiasmo e recomendar a leitura, que, no meu caso, foi feita em apenas três dias. Em julho tem mais Inclinação Literária.

Inclinação Literária #02 – Um romance latino-ítalo-americano

A Inclinação Literária de número dois continuará num ritmo parecido – narrativa, ideológica e socialmente falando – da Inclinação Literária de número, na qual falei sobre On the Road, de Jack Kerouac.

Falo hoje de Pergunte ao Pó, de John Fante.

Li ambos os livros no fim do ano passado e no começo desse ano, isso tem uma explicação, durante boa parte do ano passado li por alto alguns textos falando sobre esses livros de conotação vamos dizer “underground” e muito me interessaram, imaginava uma literatura intensa e sagaz, foi exatamente isso que eu encontrei quando li e por isso escolhi essas obras pra falar nesses primeiros posts da série.

Pra falar do autor, já vou entrar um pouco na obra em si, o personagem principal, Arturo Bandini é o alter-ago do próprio autor, John Fante, características comuns a ambos: escritores, ítalo-americanos, apaixonados e com uma estranha tristeza presente em suas ideias, em sua conduta.

Posto isso, passo ao prefácio da edição que eu li. Feito por ninguém mais, ninguém menos que Charles Bukowski, outro ícone dessa literatura underground, e diga-se de passagem, é um dos melhores prefácios que eu já li, introduz muito bem o livro e pede até uma pequena citação aqui nesse post, propaganda melhor não há:

“Eu tinha um cartão da biblioteca. Tomei o livro emprestado, levei-o ao meu quarto, subi à minha cama e o li, e sabia, muito antes de terminar, que aqui estava um homem que havia desenvolvido uma maneira peculiar de escrever. O livro era Pergunte ao Pó e o autor era John Fante. Ele se tornaria uma influência no meu modo de escrever para a vida toda.”

O livro trata basicamente de um momento da vida de Arturo Bandini e de sua paixão pela mexicana Camilla Lopez. Esta brevíssima sinopse já justifica esse meu título. Um dos vários aspectos interessantes dessa obra, a meu ver, é essa relação entre o mundo americano e os imigrantes italianos e latinos. Duas raças muito fortes dentro da América. A trama do livro mostra muito bem as relações entre essas diferentes etnias, dialogando com o cotidiano estadunidense.

Sociológica e historicamente falando também, outro aspecto importante do livro e a época em que se passa e como isso se reflete dentro da trama. É um Estados Unidos dos anos 30, a Crise de 29, de maneira muito sutil é abordada, mostrando as consequências dela dentro da sociedade.

Outro ponto importantíssimo é a questão da abordagem psicológica do personagem principal, Arturo Bandini. Sendo seu alter-ego, John Fante soube como ninguém como colocar de maneira correta e instigante, as angústias, pensamentos e desilusões do personagem. As cartas do editor, as conversas e momentos com Camilla Lopez, a trama como um todo que se desenvolve a partir de Bandini.

Mais uma vez volto a dizer, que fazer um resumo dos acontecimentos do enredo, ir citando pequenos detalhes e outros personagens secundários não é muito a minha praia. A ideia era essa mesmo, falar mais especificamente do personagem principal do livro e dos aspectos exteriores a trama, mas de extrema importância para o significado do livro.

Hoje já vou ficando por aqui, em maio tem mais Inclinação Literária.

Inclinação Literária #01 – Benzedrina, café e a estrada…

Hoje é dia de começar mais uma nova série no Un Quimera.

Inclinação Literária é uma tentativa de colocar com uma frequência maior, análises próprias de livros que eu estiver lendo, já fiz algumas poucas resenhas aqui no Un Quimera, mas foram muito esparsas e se perderam, destaque pra resenha de O Que É Isso Companheiro?, de Fernando Gabeira, um dos posts mais acessados do blog.

Já adiantando, Inclinação Literária fará uma parceria com uma outra nova série: Inclinação Cinematográfica, o esquema vai ser o seguinte: mês ímpar é mês de Inclinação Literária e mês par é mês de Inclinação Cinematográfica.

Pra começar, falo de On The Road de Jack Kerouac.

Li este livro, que eu já tinha ouvido falar muito, em dezembro de 2010. Foi o primeiro das férias de 2010/11.

O livro tem uma influência muito grande em toda cultura e contra-cultura estadunidense e de também de outras partes do mundo, tem a alcunha de “Bíblia da Geração Beat” e um estilo de narrativa bem característico.

Antes de mais nada, falo do autor Jack Kerouac. Um cara que também influenciou praticamente todos que vieram depois dele. Seja no “submundo” de hipsters e beats até dentro das salas de aula acadêmicas.

É interessante e intrigante ressaltar também a maneira e o tempo em que foi escrito. Jack Kerouac, movido por benzedrina e café em apenas três semanas escreveu o manuscrito original do que viria a ser o On The Road.

Eu sempre paro pra imaginar esses momentos de criação, a intensidade disso é de assustar e também me deixou muito curioso pra saber o que verdadeiramente era aquilo que marcou profundamente boa parte da juventude pós 1950.

O livro é repleto de referências indiretas a poetas e amigos de Kerouac, representantes assíduos do Movimento Beat, como por exemplo Allen Ginsberg (parceiro também de Bob Dylan) que no livro é Carlo Marx e William Burroughs que no livro é Old Bull Lee.

O enredo gira em torno de Sal Paradise e Dean Moriarty, confesso que vendo esses dois nomes, misturados a carros, estradas e EUA, não pude deixar de lembrar do seriado Supernatural, não tenho nenhuma informação concreta, mas não consigo tirar da cabeça que o seriado, filmado já no século XXI e com episódios novos ainda saindo, também recebeu essa forte influência do On The Road.

Influências a parte, Sal Paradise e Dean Moriarty estão a todo momento viajando pelos EUA, de canto a canto, reencontrando amigos, conhecendo gente nova, pegando carona, fazendo bicos, sempre regados por boas doses de bebidas, jazz e muito mais.

O mapa abaixo mostra os caminhos percorridos por eles durante a história:

Falando assim, de viagens para todos os cantos dos EUA, parece algo vago, mas o espírito contido dentro dessas viagens é algo maior. Como já falei, bebidas, músicas e gente, muita gente, fazem parte dessa história que tem um ambiente muito underground e alternativo, as inúmeras influências automaticamente foram chegando a vários grupos, principalmente os beats.

Um trecho desse livro que considero emblemático e representa muito bem o que ele é, é essa fala de Dean:

“Agora saca só esses pessoal aí na frente. Estão preocupados, contando os quilômetros, pensando em onde irão dormir essa noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira chegarão onde pretendem – e quando terminarem de pensar já terão chegado onde queriam, percebe? Mas parece que eles têm que se preocupar e trair suas horas, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas; ou então a desejos caprichosos puramente angustiados e angustiantes, suas almas realmente não terão paz a não ser que se agarrem a uma preocupação explícita e comprovada, e tendo encontrado uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa por eles e eles sabem disso, e isso também os preocupa num círculo vicioso que não tem fim.”

Acho que nem preciso comentar muito em cima do trecho citado. Outro ponto interessante de ser ressaltado é em relação as influências que teve Jack Kerouac, pois muito se fala das influências de On The Road no que veio depois. Quando se pensa o On The Road como o depois, retorna-se, literariamente falando, à técnica do Fluxo de Consciência, utilizada por James Joyce e Thomas Wolf, onde o pensamento da personagem meio que se desencadeia juntamente com a sua fala, isso é algo bem forte, que valoriza a narrativa e de uma maneira ou de outra a torna mais real. O próprio trecho citado acaba tendo um pouco disso.

Voltando a falar da história, após inúmeras viagens por praticamente todo os EUA e frustrado sonho de uma viagem à Itália, o final do livro conta como a dupla Dean e Sal foi parar no México e depois de se esbaldarem debaixo do sol caliente coroam suas aventuras pela estrada.

Contar os detalhes da história, falar de todos os outros personagens que vão surgindo serão algo cansativo e desnecessário, por isso paro por aqui, dando um panorama geral do que é o On The Road e querendo destacar principalmente a  dupla intensidade contida ali dentro: tanto em relação ao tempo e à maneira como foi escrito quando em relação à sua enorme influência em praticamente tudo do “mundo underground”.

Livro bom de se ler, acredito que todas as expectativas criadas por mim em cima desse livro foram correspondidas, coisa que nem sempre acontece.