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Inclinação Cinematográfica #05 – Os múltiplos ângulos

Hoje é dia de Inclinação Cinematográfica e seguindo a linha dos últimos posts da série, falarei de um filme estadunidense que talvez também já tenha adquirido o status de “clássico”.

Falo de Elefante, de Gus Van Sant.

Van Sant é um cineasta de renome no meio underground, mas o blogueiro em especial conhece muito pouco de sua obra, o único filme que já vi dele foi mesmo Elefante, até por isso minhas impressões sobre o diretor vão se restringir a esse parágrafo, o que não me impede de elogiá-lo imensamente aqui.

Entrando no filme em questão, antes de mais nada acredito valer a pena dar uma explicação sobre o título, que já vai ir clareando muita coisa do filme em si.

Para tal, faço uso de um trecho do escritor romeno Mircea Eliade, onde na verdade o intuito dele é uma não redução do fenômeno religioso, o que não tem muito a ver com o filme em questão. Citarei o trecho inteiro e depois explicarei aonde quero chegar, repare bem no elefante do trecho:

“A ciência moderna reabilitou um princípio que certas confusões do século XIX comprometeram gravemente: é a escala que cria o fenômeno. Henri Poincaré perguntava a si próprio, com ironia: ‘um naturalista que só tivesse estudado um elefante ao microscópio acreditaria conhecer plenamente este animal?’ O microscópio revela a estrutura e o mecanismo das células, estrutura e mecanismo idênticos em todos os organismos pluricelulares. E não há dúvida de que o elefante é um animal pluricelular. Mas não será mais do que isso? (grifo meu) À escala microscópica podemos conhecer uma resposta hesitante. À escala visual humana, que tem pelo menos o mérito de nos apresentar o elefante como fenômeno zoológico, não há hesitação possível. Da mesma maneira, um fenômeno religioso somente se revelará como tal com a condição de ser apreendido dentro de sua própria modalidade, isto é, de ser estudado à escala religiosa. Querer delimitar este fenômeno pela fisiologia, pela psicologia, pela sociologia e pela ciência econômica, pela linguística e pela arte, etc… é traí-lo, é deixar escapar precisamente aquilo que nele existe de único e irredutível, ou seja, o seu caráter sagrado. É verdade que não há fenômenos religiosos puros, assim como não há fenômeno única e exclusivamente religioso”.

Deixando de lado este aspecto religioso (que por sinal também é muito interessante) e levando mais em a primeira parte desse trecho, a analogia feita com a religião pode ser feita da mesma maneira com o filme. Quer dizer, ao observar o elefante microscopicamente temos sim uma definição verdadeira dele (ele é, com certeza, um animal pluricelular), porém isso não é tudo, o gigante elefante não se esgota nessa definição, pode possuir infinitas outras a partir de diferentes ângulos, diferentes pontos de vista.

É isso o que busca Van Sant em seu filme: com uma câmera flutuante, bem ao estilo experimental, ele vai nos mostrando os diferentes pontos de vista de vários alunos de uma típica “high school” estadunidense. Um detalhe interessante é que o filme foi gravado em Oregon, numa escola de lá, e os atores que foram selecionados para atuar também eram estudantes dessa escola. De certa forma isso dá um ar realista a este filme experimental.

Mas além de apenas nos mostrar os diferentes pontos de vista de vários estudantes, ou até mesmo grupo deles, o filme tem também um grand finale. As ações se desenrolam em apenas um dia (daí um vai e vem, e algumas cenas repetidas, justamente por mostrar os diferentes ângulos) e esse dia é o dia em que dois estudantes invadem o colégio e promovem um verdadeiro massacre.

O massacre reproduzido na parte final do filme é baseado em fatos reais – em 1999, no colégio de Columbine, Colorado, EUA, algo parecido ocorreu. A ideia de Van Sant entretanto não é uma fiel reprodução deste massacre real, mas sim uma alusão que busca retratar não jornalisticamente o fato, uma reprodução que busca retratar por um outro ângulo o que foi esse massacre.

Durante a trama, dentre os variados pontos de vista retratados, alguns lugares comuns são mostrados, mas mostrados de uma maneira pela qual possa haver uma maior reflexão sobre eles: homossexualismo, bullying, bulimia, etc

Enfim, Elefante conta a história de uma tragédia de uma maneira totalmente diferenciada e autêntica. O filme parece não ter pretensões, ele simplesmente se mostra de vários modos (assim como o ser para Aristóteles) e essa não definição é o que faz dele um grande filme, de reflexão demorada e repetida e não de conclusão rápida e única.

Em dezembro volto com mais Inclinação Cinematográfica.

Inclinação Cinematográfica #04 – Porrada Intelectual

Dia de mais um post da série Inclinação Cinematográfica. E seguindo a linha das outras três inclinações cinematográficas, falarei de um filme que na verdade é adaptação de uma obra literária.

Clube da Luta, dirigido por David Fincher é a bola da vez.

Começando falando um pouco do livro e do autor que deram origem ao filme. Clube da Luta foi o primeiro romance do escritor estadunidense Chuck Palahniuk, lançado em 1996, e enquanto livro não teve uma recepção muito boa, só quando a obra foi adaptada para as telonas em 1999 é que despertou uma maior atenção e se tornou a obra mais conhecida de Palahniuk. Outro romance seu, O Sobrevivente é cotado para ser uma nova adaptação cinematográfica. Chuck Palahniuk retrata muitas vezes personagens marginalizados na sociedade e utiliza-se de um humor irônico. Considera seu estilo como uma ficção transgressional.

Dada essa pequena introdução do autor, falo agora mais especificamente de Clube da Luta. Não li o livro, conheço mesmo só o filme. Por isso a ideia é falar um pouco de David Fincher e depois já entrar no filme de vez.

Assim como não conheço o livro também conheço muito pouco o trabalho de David Fincher. Mas só pelos títulos de suas obras (algumas delas muito famosas e muito comentadas) já dá pra perceber sua qualidade cinematográfica. Se7en, O Curioso Caso de Benjamin Button e mais recentemente A Rede Social são seus principais filmes.

Em O Clube da Luta, o diálogo entre Fincher e Palahniuk parece ter sido intenso. O filme absorve muitas das características do autor do livro e é realmente uma porrada intelectual, como disse no título do post. O interessante é ver como através da luta, um tema a primeira vista totalmente anti-intelectual, se dá esse contato com várias mensagens altamente intelectuais, como a questão do desapego, da liberdade. Foca mesmo a existência humana em uma época esquizofrênica, em um tempo que muitas vezes as coisas (como os apartamentos, carros, etc…) te possuem e não o contrário.

Essa é basicamente a panorâmica de todo filme. O narrador (Edward Norton) é uma pessoa aparentemente comum, que tem seu emprego, seu apartamento, tudo certinho, mas que sofre de insônia. Começa então a frequentar um grupo de apoio para pessoas com cancro testicular e nessa experiência consegue um certa libertação da insônia e mais, da angústia que existia em sua vida. Isso acaba se tornando uma espécie de vício e aí então o narrador passa a frequentar outros grupos similares (para pessoas com AIDS, hepatite, etc…) e conhece Marla Singer (Helena Bonham Carter), personagem que também estará presente durante boa parte do filme. A presença de Marla nos grupos de apoio incomoda muito o narrador, que parece não conseguir mais se libertar com a presença dela, os dois então combinam de frequentar diferentes grupos.

Esse primeiro momento do filme de certa forma já retrata a doentia sociedade em que vive o narrador e a necessidade de refúgio, de extravasar, que sentia o narrador. Isso será retomado, obviamente, quando surgir o tal Clube da Luta.

Acontece que a vida “comum” do narrador sofrerá drásticas mudanças quando ocorre um incêndio em seu apartamento. Pouco antes deste acontecimento, numa viagem de avião, o narrador conhece Tyler Durden (Brad Pitt. Personagem essencial dentro da trama. Ele diz ser um fabricante de sabonetes e deixa seu telefone com o narrador. Quando acontece o incêncio o narrador resolve ligar para Tyler, os dois se encontram em um bar e aí as mudanças começam a surgir.

Tyler Durden amplia a visão do narrador, mostra um outro lado da vida, foca mesmo na questão já pontuada: até que ponto é você que possui um apartamento? Será que não é o apartamento que está te possuindo? Essa inversão de valores é altamente, em última análise, filosófica. Essa mensagem anti-consumista vai ser uma constante nas ideias de Tyler Durden.

O narrador e Tyler tornam-se amigos e fundam o Clube da Luta. Que nada mais é do que um ambiente onde através da luta, as pessoas extravasam suas angústias. É como uma ampliação dos grupos de apoio que o narrador frequentava, após o surgimento do Clube da Luta ele até deixa de frequentá-los e outras pessoas que também frequentavam os grupos de apoio passam a integrar o Clube da Luta, como Bob por exemplo, personagem emblemático dessa história.

A partir desses momentos inicias a trama vai se desenvolvendo. Dando uma pequena parada do enredo, que já, já será retomada, falo um pouco também dos aspectos mais cinematográficos da obra. Além de ter concorrido ao Oscar de melhores efeitos sonoros, o filme conta com uma fotografia e efeitos especiais muito concisos, nada de extraordinário, mas nada também que não melhore ainda mais essa bela e questionadora história.

História essa que também questiona a História em si. Sim, outra faceta do filme é questionar a geração 90-00. Que se encontra em um mundo onde quase tudo é de certa forma já dado (crítica a um certo comodismo que se dá através da internet, do consumismo, etc…) e do qual as pessoas parecem não querer sair. Quer dizer, tudo que se quer é uma vida estável, sem grandes transgressões ou desafios, essa seria a marca dessa geração que passaria então a não ter nenhum grande valor histórico, aqui vale a citação de Tyler Durden:

“Somos uma geração sem peso na história. Sem propósito ou lugar. Nós não temos uma Guerra Mundial. Nós não temos uma Grande Depressão. Nossa Guerra é a espiritual. Nossa Depressão são as nossas vidas. Fomos criados através da TV para acreditar que um dia seríamos milionários, estrelas do cinema ou astros do rock, mas não somos.”

Através de várias metáforas (inclusive a cena final do filme pra mim é uma outra grande metáfora) o filme vai se construindo. Após o surgimento do Clube da Luta várias outras coisas acontecem durante a trama, algumas viradas e revelações e sempre essa mensagem intelectual mesclada a um ambiente marginal. A ideia de desconstrução, que requer esforço, mudança e vontade, é pra mim a chave de leitura desse filme.

Enfim, Clube da Luta é um filme subversivo sim e não fascista como muitos dizem, que amplia a nossa visão, nos faz lembrar de coisas talvez esquecidas e desperta a vontade de crescer, de transgredir. Desinteresse e conformismo são palavras estranhas demais pra esse filme.

Em outubro tem mais Inclinação Cinematográfica.

Inclinação Cinematográfica #03 – O clássico dos clássicos undergrounds

Hoje é dia de mais um post da série Inclinação Cinematográfica, o terceiro. Depois de falar de duas produções nacionais (Lavoura Arcaica e O Cheiro do Ralo) volto a atenção hoje para um dos grandes filmes da história do cinema. Como disse no título considero este o clássico dos clássicos undergrounds.

Falo hoje de Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick.

Confesso que demorei um tanto pra assistir o referido filme, fui fazer isso no fim do ano passado e achei algo realmente muito bom!

Até por ser um clássico e tudo mais, falar do filme talvez já esteja um pouco batido, mas seguindo a minha tradição de posts cinematográficos vou procurar não me prender muito ao enredo, vou buscar alguns aspectos marginais da obra e falar um pouco do Kubrick. Mas fica o aviso desde já, o post é pra quem já viu o filme, quem não viu e quiser ler fique à vontade, mas teremos spoilers.

Stanley Kubrick é um renomado diretor hollywoodiano, dirigiu filmes como Nascido Para Matar, O Iluminado (adapatação da obra de Stephen King), 2001: Uma Odisséia no Espaço e por aí vai. Sinceramente não conheço muito da obra do cara, mas o seu trabalho em Laranja Mecânica foi genial. A curiosidade que sempre aparece e que é de certa forma assustadora é em relação aos gastos com o filme: 2 milhões de dólares!

Só de pensar nisso eu já dou mais méritos ainda pro Kubrick, tem tanto filme de orçamento acima dos 100 milhões, cheio de efeitos especiais e que não conseguem chegar nem perto da qualidade cinematográfica e intelectual do Laranja Mecânica.

A ambientação do filme como um todo (fotografia, cenário, figurinos) é outra marca característica, inovadora e que qualifica ainda mais o filme. Dentro da história original, o filme se passa em uma Inglaterra futurista, mas certos aspectos da ambientação me remetem a uma Inglaterra não tão futurista assim, a impressão que me dá é de uma trama que se passa fora da história, mas que ao mesmo tempo questiona valores de vários momentos dessa mesma história.

Se pensarmos em um esquema para o filme seriam duas partes (antes e depois da prisão de Alex) e a parte final (acidente de Alex e visita do ministro no hospital).

Na primeira parte nos deparamos com o Alex “puro”. Ultraviolência, sexo, drogas (deve ter muita coisa naquele “leite”) e pouca ou quase nenhuma preocupação com mais nada. A cena em que Alex e seu bando invadem a casa de uma mulher e Alex pega um pênis gigante e depois mata a mulher é uma das mais chocantes e foi conduzida de maneira curiosa por Kubrick. Nessa primeira parte também é ressaltado muito o olhar e os trejeitos de Alex, marcas que fizeram dele uma espécie de ídolo pop do underground.

Na segunda parte, Alex é preso e passa por um tratamento horrível para deixar de ser o que é. Tratamento esse que recorre à leitura da bíblia, a psicoterapia, é um verdadeiro controle social. O detalhe é que durante o tratamento Alex é obrigado a assistir cenas de guerra com a trilha sonora de Beethoven. Este talvez tenha sido um dos piores castigos para ele, fã declarado da música de “Ludwig Van”.

Aproveitando essa passagem pela trilha sonora, além da 9ª sinfonia, o som ambiente do filme combinou demais com tudo e a sequência em que Alex mata  a mulher do escritor cantando Singin’ In The Rain também ficou sensacional.

Falando nisso, Alex DeLarge é de longe a personagem principal da história, o anti-heroi, mas a personagem do escritor, Frank Alexander também é emblemática, sua recepção à Alex na parte final do filme é uma das cenas mais interessantes do filme na minha opinião, seu estado físico e sua expressão em relação à Alex, depois de saber que foi ele (Alex) quem matou sua mulher são ímpares, pelo menos em mim essa cena criou uma expectativa muito grande em relação ao desfecho do filme.

Desfecho que pode ser interpretado de diversas formas. Quando o ministro responsável pela recuperação do delinquente Alex vai até o hospital falar com o nosso protagonista fica evidenciado pra mim que a mensagem que o filme tenta transmitir é de um aprisionamento social, onde valores, crenças e éticas estão muito deturpados, o ministro precisa de um Alex comportadinho, comendo sua comida, em silêncio, e Alex, ao mesmo tempo, não tem muito mais o que fazer, após ter vivido tudo o que viveu resigna-se, mesmo assim a mensagem mais marcante de Alex é a do jovem rebelde e transgressor.

Com a certeza de que além de tudo que eu falei podem ser encontrados ainda muitos outros questionamentos psicológicos, políticos e até mesmo filosóficos dentro do filme, encerro o post mais uma vez ressaltando o meu gosto por filmes deste estilo e a importância e influência que Laranja Mecânica, em particular, tem na mente minha e de muitos outros da minha geração.

Em agosto tem mais Inclinação Cinematográfica.

Inclinação Cinematográfica #02 – Cheirando subversão

Hoje é dia de mais uma Inclinação Cinematográfica. Pode até parecer uma acomodação ou repetição, mas assim como fiz no primeiro post dessa série, quando falei sobre Lavoura Arcaica, vou falar de uma produção nacional, adaptada de um livro, que tem como protagonista Selton Mello.

Só que dessa vez o ambiente lírico e rural de Lavoura Arcaica será susbtituído por um duro e cinzento ambiente urbano, onde uma história muito incomum será vivida por Lourenço, interpretado por Selton Mello, o personagem é homônimo do autor do livro que dá origem ao filme.

Lourenço Mutarelli por sua vez, também participa do filme, só que num papel secundário, ele é uma espécie de escudeiro de Lourenço.

Entrando na trama de uma vez, a história acontece em São Paulo. Onde Lourenço, noivo e quase pronto pra casar, acaba rompendo com sua noiva, em meio a um almoço que tinha como personagem principal o strogonoff. As razões desse rompimento não são clichês de casais, é bem diferente disso, Lourenço apenas desiste, Lourenço parece não acreditar nem querer relações usuais. Depois disso, Lourenço, em meio a sua rotina, se apaixona por uma bunda. É isso mesmo, ele não se apaixona por uma outra mulher, mas sim por uma bunda.

Como falei, tudo isso parece ser muito incomum. E realmente é. Mas dentro dessa trama, existem explicações para essa paixão. Lourenço trabalha em um escritório que compra objetos usados. Isso faz do personagem principal alguém que pouco se importa com os outros, ele tenta sempre manipular seus clientes afim de conseguir comprar os objetos pelos menores valores possíveis.

Lourenço, sem quase nenhum caráter, é um personagem único. Muito influenciado por essa situação em seu trabalho ele passa a ver tudo e todos como objetos, e pensa nas relações de maneira sempre direta e mecânica. As situações que acontecem no desenrolar do filme, justamente por esse tempero incomum, acabam ganhando um toque de humor bem diferenciado, um humor sutil e bem feito.

Outro ponto importante do personagem é a questão que dá nome ao filme. Dentro de seu escritório, Lourenço tem um banheiro, e o cheiro do ralo desse banheiro é sempre horrível, e deixa Lourenço sempre envergonhado e alterado por causa disso, quando Lourenço percebe que o cheiro do ralo, na verdade sai dele mesmo, o filme ganha novos contornos e o personagem de Lourenço vai ficando ainda mais interessante.

Girando basicamente em torno disso: o trabalho, a bunda e o ralo, o filme se desenvolve até chegar em um fim que pra mim é sensacional. As duas cenas finais são fora de série, não vale a pena nem adiantar nenhuma delas, elas têm que ser vistas.

Saindo do enredo e falando um pouco de aspectos exteriores ao filme. É interessante lembrar da concepção original d’O Cheiro do Ralo. O livro foi o primeiro romance de Lourenço Mutarelli, que até então produzia revistas de quadrinhos, o livro foi escrito em torno de apenas cinco dias, depois de publicado, chegou até as mãos de Selton Mello, e o ator depois de ler com muita curiosidade e vontade, decidiu ir até o diretor Heitor Dhalia e pedir o papel principal, o pedido foi aceito e Selton Mello considera sua atuação neste filme como a melhor de sua carreira.

Inúmeros simbolismos e metáforas podem ser extraídas das atitudes de Lourenço. Daria pra falar muito mais sobre as particularidades d’O Cheiro do Ralo, mas acho que o que foi dito até agora já dá pra deixar os leitores com certa curiosidade e embasamento para assistirem o filme.

Ainda não li o livro, talvez seja até melhor ler antes de assistir o filme, mas assistir direto como eu fiz também é uma opção válida.

Enfim,  O Cheiro do Ralo é mais uma das boas produções nacionais, e não é patriotada ou coisa do tipo essas escolhas por filmes nacionais, realmente existe muita coisa boa no nosso cinema, que muitas vezes são esquecidas ou desvalorizadas.

Inclinação Cinematográfica #01 – Lirismo nas telonas nacionais

Hoje é dia de estrear mais uma nova série no Un Quimera, versão 2011.

Falo da série Inclinação Cinematográfica, que fará um revezamento com a série Inclinação Literária (que teve seu primeiro post publicado mês passado, falando sobre On The Road, de Jack Kerouac).

Ainda com um pé na literatura, vou falar hoje de um longa filmado em 2001, do diretor Luiz Fernando Carvalho, em cima da obra de Raduan Nassar, vou falar de Lavoura Arcaica.

Antes de mais nada vale ressaltar a obra literária, Raduan Nassar é um escritor brasileiro pouco conhecido, que tem em Lavoura Arcaica sua obra-prima. O livro é muito conciso e direto, mas ao mesmo tempo repleto de um lirismo digno dos melhores poemas.

Eu particularmente li em apenas dois dias, tamanha a categoria na narrativa e do enredo.

E no dia seguinte fui assistir ao longa, que será o assunto principal deste post.

Nem falo em adaptação, pois considero este longa como o mais próximo do livro de todos os longas que já assisti baseados em alguma obra literária.

Essa extrema fidelidade gerou até algumas críticas ao filme, por ter longos espaços de tempo sem diálogos e usar uma linguagem bem carregada de lirismo e expressões mais sofisticadas. Para o cinema isso realmente talvez possa atrapalhar, ainda mais na época do lançamento, ainda nas telonas, mas considero isso como um ponto positivo, pois é muito difícil conseguir extrair tudo da obra literária ao transpô-la para o cinema.

Não gosto de revelar muitas coisas sobre o enredo, então, assim como fiz no post de On The Road, vou falar bem por alto da história, buscando ressaltar mais os atores e o impacto externo do filme, além de algumas definições conceituais.

Uma narrativa clássica, que têm em recursos como os flashbacks e na manutenção dos diálogos originais do livro pontos que o diferenciam e  e diria até que flertam com o cinema experimental.

O filme se passa basicamente em três cenários: um quarto de hotel, um puteiro e uma fazenda.

André, personagem magistralmente interpretado por Selton Mello, é um dos filhos do pai, personagem de Raul Cortez. A história é focada em cima de André pois ele é o filho desgarrado, que resolve fugir de casa, no caso da fazenda, e ir viver sua vida sozinho.

Tudo começa no hotel, com André já um pouco mais velho, recebendo a visita de Pedro, o irmão primogênito, interpretado por Leonardo Medeiros, o irmão mais velho vai ao hotel para pedir a volta de André pra casa.

Aí a história passa por um flashback, que mostra, sob a ótica de André, sua infância e adolescência dentro da fazenda.

É interessante perceber a riqueza de detalhes do filme, que trás de maneira bem fiel ao livro, os cenários e as lembranças do personagem, uma ambientação muito bem feita nos momentos iniciais do filme.

Dentro desse flashback estão incluídas cenas fortes e importantes para o desenrolar da trama, como a festa em que André observa extasiado sua irmã Ana dançando, personagem de Simone Spoladore, que não tem sequer uma fala, mas que possui papel importantíssimo dentro da trama. Além da ida de André ao puteiro, os diálogos com sua mãe, personagem de Juliana Carneiro da Cunha.

Basicamente a história se desenvolve assim, existe o momento do retorno de André e as cenas impactantes e importantes são o denso diálogo de André com seu pai, dentro desse diálogo acho até que cabe uma citação de uma das falas de André, pra quem ainda não conhece já perceber o tom lírico da coisa:

“Toda ordem traz uma semente de desordem, a clareza, uma semente de obscuridade, não é por outro motivo que falo como falo. Eu poderia ser claro e dizer, por exemplo, que nunca, até o instante em que decidi o contrário, eu tinha pensado em deixar a casa; eu poderia ser claro e dizer ainda que nunca, nem antes e nem depois de ter partido, eu pensei que pudesse encontrar fora o que não me davam aqui dentro”.

Além do diálogo entre André e o Pai, a fuga de Lula, o irmão mais novo, interpretado por Caio Blat e o desfecho do filme, muito bem filmado, lembrando acontecimentos expostos ainda no início e afirmando mais uma vez a fidelidade ao livro.

Enfim, é isso. Creio não ser minha utilidade e nem minha pretensão adentrar em todas as particularidades do filme e do enredo, queria mesmo é expor por alto a história e ressaltar o aspecto lírico presente nela, além da fidelidade na hora de passar do livro pra tela.

Acho interessante também começar falando de cinema lembrando do cinema nacional, tão escrachado e desprestigiado por muitos, de alguns anos pra cá vem ressurgindo e lançando filmes de qualidade.

Em abril tem mais Inclinação Cinematográfica.