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Impressões acerca da arte brasileira

“A arte deve antes de tudo e primeiramente embelezar a vida, portanto, fazer com que nós próprios nos tornemos suportáveis e, se possível, agradáveis uns aos outros: com essa tarefa em vista, ela nos modera e nos refreia, cria formas de trato, impõe aos indivíduos leis do decoro, do asseio, da cortesia, de falar e calar no momento oportuno. A arte deve, além disso, ocultar ou reinterpretar tudo o que é feio, aquele lado penoso, apavorante, repugnante que, a despeito de todo esforço, irrompe sempre de novo, de acordo com o que é próprio à natureza humana: deve proceder desse modo especialmente em vista das paixões e das dores e angústias da alma e, no inevitável e irremediavelmente feio, fazer transparecer o significativo. Depois dessa grande, e mesmo gigantesca tarefa da arte, a assim chamada arte propriamente, a das obras de arte, é um apêndice. Um homem que sente em si um excedente de tais forças para embelezar, esconder e reinterpretar procurará, por último, descarregar-se desse excedente também em obras de arte (…) – Mas, normalmente, começam a arte pelo fim, penduram-se à sua cauda e pensam que a arte das obras de arte é a arte propriamente dita, que a partir dela a vida deve ser melhorada e transformada – tolos de nós! Se começamos a refeição pela sobremesa e degustamos doces e mais doces, o que é de admirar, corrompemos o estômago e mesmo o apetite para a boa, forte, nutritiva refeição a que nos convida a arte!”

A longa citação que abre esse post é uma interessante reflexão de ninguém mais, ninguém menos que o hoje famoso pensador alemão Friedrich Nietzsche. Esse trecho do parágrafo 174 de Humano, demasiado humano, Miscelânea de Opiniões e Sentenças (1879) nos oferece uma concepção acerca da arte bem avessa àquelas concepções acerca da arte que possui o senso comum.

A arte para Nietzsche, nesse fragmento (quando falamos do filósofo de bigode imponente é crucial ressaltar que falamos daquele determinado momento, sua escrita fragmentada e em aforismos possui, por isso mesmo, vários momentos e de forma alguma pretendo analisar o pensamento nietzscheano como um todo nesse singelo post) é entendida como andando junto da existência do homem, de seu agir no mundo, ela, portanto, antes de qualquer coisa, transcende o nível das obras e produções artísticas, isso virá depois e só então as obras de arte deverão ser saboreadas, ou seja, aproveitando a alegoria utilizada por Nietzsche na própria citação, só depois da comida (que é fazer da existência uma espécie de arte) que virão as sobremesas (as obras de arte propriamente ditas).

Aí você lê essa citação e esses parágrafos, olha para o título do post e pergunta: e daí?

E daí que nos últimos dias 30 e 31 de agosto o blogueiro que vos escreve esteve presente em três concertos musicais (todos de música genuinamente brasileira) que lhe fizeram ter a sensação de que as mulheres e homens que propiciaram esses concertos, mesmo que sem saber, tomam a arte de uma maneira bem nietzscheana, não “penduram-se à sua cauda e pensam que a arte das obras de arte é a arte propriamente dita, que a partir dela a vida deve ser melhorada e transformada”, pelo contrário, fazem das suas obras de arte uma nutritiva e inventiva construção!

Na quinta, dia 30, aqui mesmo em Juiz de Fora, no Teatro Pró-Música, fui assistir o “Ao Que Vai Nascer: Clube da Esquina nº 1 – 40 anos”. O show, em homenagem ao aniversário de quarenta anos do disco “Clube da Esquina nº 1” foi realizado pelos alunos da primeira turma da Universidade Bituca de Música Popular, de Barbacena-MG.

Um Pró-Música lotado viu uma grande banda e oito cantores tocarem juntos, intercalarem-se, misturarem-se e irem apresentado o repertório de um dos maiores discos da história da música popular brasileira. Entre algumas canções, pequenas histórias acerca do próprio Clube da Esquina e de uma e outra canção em especial, como “San Vicente” por exemplo, foram contadas por um dos integrantes da banda.

Sentei-me ao lado de uma senhora, numa das primeira fileiras do teatro e durante o show não pude deixar de perceber as reações dela a cada nova canção executada. Visivelmente emocionada, ela cantava e vibrava e chegou a aplaudir de pé várias das canções. Quando “San Vicente” terminou de ser tocada ela virou-se pra mim e disse: “muito bonito o show, né? Todos eles cantam muito bem! E sabe, tem músicas aí que emocionam mesmo a gente…”.

Nessa simples fala da Dona Cecília (fiz questão de me apresentar e também perguntar o nome dela) eu consegui perceber um pouquinho da força das canções do Clube da Esquina. Dava pra ver que tudo era muito verdadeiro e sincero, e aquela mistura da música, da arte e da religiosidade mineiras encontravam-se ali, unidas, abraçadas, comungadas. No meu caso em específico, “Paisagem na Janela” foi a música que mais me tocou.

Na sexta, dia 31, viajei para Ouro Preto. Fiquei nessa cidade linda, que sempre me traz ótimas recordações por volta de 24 horas e que dia foi esse! É que acaba hoje o MIMO (Mostra Internacional de Música de Olinda) lá em Ouro Preto. Pela primeira vez esse festival é sediado lá e de quinta até hoje inúmeras atrações tomam conta da cidade histórica.

Por vários motivos fiquei lá somente na sexta, e depois de por acaso ou por sorte me encontrar com Jards Macalé e dar muitas risadas junto com essa lenda da MPB, assisti mais dois shows sensacionais.

Primeiro, Egberto Gismonti e seu filho Alexandre Gismonti tocando na Casa da Ópera, aconchegante teatro de Ouro Preto. Grandes nomes da música instrumental brasileira, eles transparecem uma lucidez absurda! Sério mesmo, parece que se dependesse do violão deles pra solucionar todos os problemas do mundo, eles seriam solucionados com imensa tranquilidade.

Brincadeiras a parte, a dupla tocou várias canções, mostrando uma sintonia fantástica e interagindo bastante com o público. Foram algumas das falas de Gismonti pai que me inspiraram inicialmente a escrever esse post. Ele foi enfático ao afirmar a importância de Minas e de Ouro Preto para a música brasileira como um todo e também ao afirmar que essa, e todas as suas íntimas relações com o folclore tupiniquim constituem uma arte singular, forte, que reinterpreta e faz transparecer o significativo.

Por fim e pra coroar os dias repletos de arte e de pulsação brasileira um cara que dispensa apresentações: Tom Zé!

A noite fria e de lua linda da Praça Tiradentes foi totalmente resignificada com o show desse “senhor” de mais de 70 anos, que, em cima do palco, possui a alegria de uma criança e muito mais potência, pique e suingue que muito jovem por aí.

Tom Zé apresentou as músicas de seu mais recente trabalho, “Tropicália Lixo Lógico”, e também algumas de suas clássicas canções como Ogodô, Ano 2000, Cademar, Augusta, Angélica e Consolação e por fim, claro, a dançante Xique Xique. Se for falar de todas as minúcias de cada canção e cada entre-canção (porque além de tudo Tom Zé interage excepcionalmente bem com o público) ficaria aqui horas escrevendo e esse não é o intuito. A verdade é que as palavras parecem faltar pra descrever o que foi esse show do Tom Zé! Chamar de gênio parece pouco, chamar de doido parece redundante. A principal aparência contudo é aquela que faz você sair da Praça Tiradentes mais leve, mais cristalino. Sabendo que toda a inventividade e a potência da música brasileira estão em boas mãos, se essas mãos são as de um homem que botou rabo, calcinha e o escambau e fez um show, no mais amplo e melhor sentido da palavra.

Na viagem de volta pra Juiz de Fora ontem, vim pensando um pouco em tudo isso que rolou nesses dois dias. Resolvi escrever o post pra dar uma pincelada sobre tudo, até porque esgotar todas as impressões desses dois dias não é tarefa fácil, e acredito que as principais constatações que eu pude retirar, já no intuito de concluir o post, foram essas: a arte pode ser encarada de várias óticas, ser entendida de várias maneiras, no entanto, se pensarmos na arte como imbuída na existência, a exemplo do que pensa Nietzsche no fragmento citado, e por isso o fragmento ter sido citado, ela ganha uma importância maior e também passa a ser algo muito maior e mais válido, quer dizer, a arte não é apenas um refúgio do confuso e bagunçado mundo, a arte não é apenas um anexo ou um detalhe, a arte é antes de mais nada uma possibilidade de mudança existencial efetiva, uma transgressora!

A segunda grande constatação pode até parecer um clichê, mas faz cada vez mais sentido: por que não olha para o lado e tentar perceber a riqueza que se encontra ali? A música e a arte brasileiras, possuem uma fusão ritmos, elementos e visões de mundo extremamente criativas e bem trabalhadas, ver um Tom Zé no palco (em especial o Tom Zé) é seu corpo e sua mente que dançam, numa outra frequência, num outro batuque, que não o pragmático, fastidioso e chato do dia-a-dia, das canções prontas, da arte agarrada a lugares comuns, sem sal, sem gosto. E o que são Tom Zé, Egberto Gismonti, Clube da Esquina, Jards Macalé e tantos outros nomes senão recortes da grande e forte arte brasileira?