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QuimeraCast #05 – A perplexidade, a América e o Brasil

Caros leitores e ouvintes, o QuimeraCast está de volta!

Depois de três meses sem dar as caras por aqui, o podcast do Un Quimera enfim voltou. Como já disse desde o início a ideia do podcast sempre foi muito desejada por mim, mas por todo amadorismo e falta de condições mesmo, a ideia de soltar um por mês acabou ficando pra trás.

Com a periodicidade estourada, pelo menos por enquanto, vou ir lançando assim que der, espero poder voltar a ter uma periodicidade mais “garantida” em pouco tempo.

E hoje, o quinto QuimeraCast, a exemplo do primeiro, vai falar sobre futebol. Durante todo esse mês de julho e também agora na primeira semana de agosto, estou passando férias aqui em São Gonçalo do Sapucaí. Paralelamente a isso, também rolou a Copa América, aí conversando com o pessoal daqui resolvemos fazer um podcast falando essa Copa América e o papo acabou seguindo um pouco pros lados do Campeonato Brasileiro 2011.

Pra fechar de vez o assunto Copa América e já dar a deixa para um podcast de fim ano que falará mais especificamente sobre o Campeonato Brasileiro 2011, eu, Rogério Xablau, Mauro Boizão, Marcelo Cabeça, Guilherme Picolé, Lucas Moreno e João Otávio, Bota Fogo, falamos sobre um campeonato que colecionou zebras, frangos, pênaltis perdidos, perplexidade e cavadinhas além de pitacos sobre o início de outro campeonato com ótimas campanhas, algumas decepções, muitos gols e ainda um único invicto.

Duração: 59 min.

É só baixar e ouvir:

QuimeraCast #05 – A perplexidade, a América e o Brasil

América Celestial

“Em que o futebol se parece com Deus? Na devoção que desperta em muitos crentes e na desconfiança que desperta em muitos intelectuais” 

O post de hoje é uma dupla homenagem. Uma dupla comemoração. À Eduardo Galeano pelo dia do escritor e à Seleção Uruguaia de futebol pela conquista da 15ª Copa América de sua história. A edição de 2011 da maior competição de seleções da América Latina foi disputada em solo argentino e terminou ontem.

A citação que abre o post é do escritor e uruguaio Eduardo Galeano, um cara que possui 40 obras publicadas e mesmo sem conhecer boa parte delas, dá pra sentir que todas possuem uma forte contestação, uma visão diferenciada, crítica e sagaz. E tudo isso vem sempre salpicado de um temperinho futebolístico. Sim, Eduardo Galeano é um apaixonado por futebol e isso não faz de sua obra algo menos inteligente (eu, na verdade, penso o contrário) acho que Galeano é uma das provas, talvez a maior delas, de que o futebol pode sim ser visto de diversas maneiras, não só naquele lugar-comum de caras correndo atrás de uma bola, de circo pro povo, de retrocesso intelectual. É muito mais do que isso! E essa veia literária do futebol é uma das minhas “lutas” vamos dizer assim. Mas isso também é outra história, deixa pra depois.

Hoje o assunto principal é a Copa América. A ideia inicial desse post era falar da competição como um todo, mas para não me alongar muito vou falar mais mesmo da participação da Seleção Brasileira e do campeão Uruguai.

A Copa América começou no dia 1º de julho, no duelo entre a anfitriã Argentina e a fraca Bolívia. Todos, inclusive eu, esperavam talvez uma sonora goleada dos donos da casa, mas não foi bem isso o que aconteceu. Em um jogo bem fraco tecnicamente, a Bolívia surpreendeu e saiu na frente, com gol do brasileiro naturalizado boliviano Edivaldo. A Argentina buscou o empate com Agüero que saiu do banco para marcar, mas ficou nisso: 1 x 1. No dia parecia ser uma grande surpresa, mas na verdade o que todo mundo ia constatar depois e que isso acabou sendo uma tônica da competição. Jogos mais pegados do que jogados, muitos empates e muitas zebras! A Argentina continuou sofrendo, após novo empate contra a Colômbia, dessa vez por 0 x 0, só na última rodada da primeira fase, contra a equipe sub-23 de Costa Rica, que os hermanos conseguiram vencer: 3 x 0.

Os outros dois principais favoritos, assim como a Argentina, não empolgaram muito na primeira fase. O Brasil empatou com a Venezuela e o Paraguai e só no último jogo da primeira fase conseguiu vencer, 4 x 2 pra cima do Equador, com duas falhas de Júlio César nos gols equatorianos. O time de Mano Menezes que era muito badalado antes da competição, devido ao despojado esquema tático com Ganso, Neymar, Robinho e Pato no time titular acabou não correspondendo e só mesmo no jogo contra o Equador jogou um pouco melhor, nada de extraordinário contudo.

O Uruguai também não jogou aquilo tudo que se esperava na primeira fase. O bom atacante Cavani acabou lesionado e as principais esperanças celestes ficaram em Suárez e Forlán, o melhor jogador da última Copa do Mundo. Com duas vitórias e um empate a classificação veio sem maiores sustos, mas também sem maiores brilhos. Assim como Brasil e Argentina, dois empates (contra Peru e Chile) e uma vitória, sobre o sub-23 do México.

Essas inesperadas campanhas dos favoritos na primeira fase acabaram fazendo com que logo nas Quartas de Final acontecesse o confronto entre Argentina x Uruguai, o Brasil por sua vez também não pegou nenhum adversário mais fraco, novo encontro contra o Paraguai.

O jogo entre Argentina x Uruguai foi o melhor dessa edição da Copa América, As apagadas campanhas da primeira fase foram esquecidas, e ambas as equipes entraram com muita raça e motivação, bem ao estilo do clássico platino mesmo, o resultado foi um jogo intenso, com muita emoção e que acabou sendo decidido nos pênaltis.

No tempo normal Diego Pérez abriu o placar pros uruguaios e pouco depois Gonzalo Higuaín, após cruzamento de Messi (sim, o melhor jogador do mundo jogou nessa Copa América) empatou a partida. Com uma expulsão para cada lado (Pérez e Mascherano) o jogo foi até a prorrogação e o empate foi mantido. É bom que se diga, sem a participação do goleiro uruguaio Muslera o empate talvez não fosse mantido, o arqueiro uruguaio fez talvez a melhor partida de sua carreira, literalmente fechando o gol.

Nos pênaltis, todos os batedores acertaram suas cobranças, com exceção de Tévez que viu sua cobrança parar nas mãos de Muslera. Se em 1950 ocorreu o Maracanazzo, em 2011 foi a vez do Elefantazzo (o jogo foi disputado no estádio Cemitério dos Elefantes), essa partida foi a mostra de que a fraca primeira fase poderia realmente ser esquecida, de que o bom time uruguaio da Copa do Mundo de 2010 ainda estava ali e que a Argentina continua com sérios problemas, muda o técnico, muda o esquema, mas os problemas persistem, Lionel Messi não conseguiu jogar o futebol que deu a ele o título de melhor do mundo e mais uma vez decepcionou os argentinos.

Já no duelo entre Brasil x Paraguai. Novo empate, nova prorrogação e nova disputa por pênaltis. No tempo normal o Brasil se impôs, jogou melhor, mas não conseguiu fazer o gol. O goleiro paraguaio Justo Villar, assim como Muslera no dia anterior, fechou o gol e o 0 x 0 persistiu até as cobranças de pênaltis. O que absolutamente ninguém esperava era que o 0 permanecesse ao fim da disputa de pênaltis também. E foi o que aconteceu com o Brasil. Elano, Thiago Silva, André Santos e Fred desperdiçaram suas cobranças enquanto que o Paraguai de três aproveitou duas e ficou com a vaga nas semi-finais. Não sou grande entendedor da história do futebol, mas pelo menos em competições do porte da Copa América, acredito que nunca antes na história alguma equipe desperdiçou todas as suas cobranças em uma disputa de pênaltis. É algo lamentável, pois como havia dito, a Seleção Brasileira jogou mais durante todo o tempo normal, porém só jogar mais não garante classificação e todos esses erros nos pênaltis não podem ser considerados apenas falta de sorte, faltou muito mais do que isso, a Seleção Brasileira, ainda em formação, precisa melhorar muito se quiser algo mais daqui pra frente.

Nos outros duelos das quartas de final, novas surpresas. A Colômbia de Falcao García, que tinha feito a melhor campanha da primeira fase foi parado pelo Peru. Com direito a pênalti perdido pelo astro do time e tudo mais. Vitória peruana por 2 x 0 na prorrogação. Chile e Venezuela protagonizaram mais uma zebra. Vitória venezuelana por 2 x 1 e o time com a segunda melhor campanha da primeira fase também ficava pelo caminho.

Nas semi-finais o Uruguai se impôs frente o Peru e com dois gols de Luis Suárez venceu por 2 x 0 e garantiu vaga na grande final. Do outro lado Paraguai e Venezuela ficaram no 0 x 0 durante todo tempo normal e prorrogação e mais uma vez na disputa de pênaltis os paraguaios conseguiram a classificação, a equipe de Justo Villar chegou a final da Copa América sem vencer um jogo sequer, foram 5 empates em 5 jogos.

Na disputa pelo terceiro lugar veio a maior goleada da competição. O Peru aplicou 4 x 1 na Venezuela, com 3 gols de Paolo Guerrero, que acabou sendo o artilheiro da competição com 5 gols.

E na final, disputada ontem no Monumental de Nuñez, deu a lógica. O ferrolho defensivo paraguaio dessa vez não conseguiu segurar o potente ataque uruguaio, Suárez abriu o placar no começo do primeiro tempo e depois com dois gols de Diego Forlán, um em cada tempo, o Uruguai confirmou o favoritismo e levou mais uma Copa América. Suárez foi eleito o melhor jogador da competição, merecidíssimo.

Depois de 16 anos, pra alegria de Eduardo Galeano, o Uruguai finalmente volta a conquistar um título. A equipe comandada por Óscar Tabárez já havia feito uma ótima Copa do Mundo no ano passado e agora, com muito merecimento consegue o título da Copa América, além do título, o Uruguai recupera também sua auto estima e sua posição de grande força do futebol latino-americano, há muito esquecida. O interessante é perceber também como as divisões de base uruguaias vêm crescendo no mesmo ritmo da equipe principal. Vice-campeão do Mundo no Mundial Sub-17 e vice campeão Sul-Americano no Sul-Americano Sub-20.

Atando os nós e voltando a falar da citação de Eduardo Galeano, me parece que no país do futebol a devoção dos crentes vai sendo a cada dia que passa enfraquecida, esquecida, não que isso seja algo benéfico, até porque essa devoção pelo futebol em si vai sendo substituída pela devoção aos cortes de cabelo e as chuteiras dos nossos “craques”, enquanto que no Uruguai a devoção volta a crescer fervorosamente, devido a raça e a superação de seus jogadores, que não são considerados craques, mas que jogam um futebol que, se não bonito e técnico, é pelo menos intenso e interessado.

Em tempo: ao que tudo indica no domingo próximo, pra fechar o mês de julho, deve tá no ar um QuimeraCast falando sobre essa Copa América!