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Inclinação Cinematográfica #04 – Porrada Intelectual

Dia de mais um post da série Inclinação Cinematográfica. E seguindo a linha das outras três inclinações cinematográficas, falarei de um filme que na verdade é adaptação de uma obra literária.

Clube da Luta, dirigido por David Fincher é a bola da vez.

Começando falando um pouco do livro e do autor que deram origem ao filme. Clube da Luta foi o primeiro romance do escritor estadunidense Chuck Palahniuk, lançado em 1996, e enquanto livro não teve uma recepção muito boa, só quando a obra foi adaptada para as telonas em 1999 é que despertou uma maior atenção e se tornou a obra mais conhecida de Palahniuk. Outro romance seu, O Sobrevivente é cotado para ser uma nova adaptação cinematográfica. Chuck Palahniuk retrata muitas vezes personagens marginalizados na sociedade e utiliza-se de um humor irônico. Considera seu estilo como uma ficção transgressional.

Dada essa pequena introdução do autor, falo agora mais especificamente de Clube da Luta. Não li o livro, conheço mesmo só o filme. Por isso a ideia é falar um pouco de David Fincher e depois já entrar no filme de vez.

Assim como não conheço o livro também conheço muito pouco o trabalho de David Fincher. Mas só pelos títulos de suas obras (algumas delas muito famosas e muito comentadas) já dá pra perceber sua qualidade cinematográfica. Se7en, O Curioso Caso de Benjamin Button e mais recentemente A Rede Social são seus principais filmes.

Em O Clube da Luta, o diálogo entre Fincher e Palahniuk parece ter sido intenso. O filme absorve muitas das características do autor do livro e é realmente uma porrada intelectual, como disse no título do post. O interessante é ver como através da luta, um tema a primeira vista totalmente anti-intelectual, se dá esse contato com várias mensagens altamente intelectuais, como a questão do desapego, da liberdade. Foca mesmo a existência humana em uma época esquizofrênica, em um tempo que muitas vezes as coisas (como os apartamentos, carros, etc…) te possuem e não o contrário.

Essa é basicamente a panorâmica de todo filme. O narrador (Edward Norton) é uma pessoa aparentemente comum, que tem seu emprego, seu apartamento, tudo certinho, mas que sofre de insônia. Começa então a frequentar um grupo de apoio para pessoas com cancro testicular e nessa experiência consegue um certa libertação da insônia e mais, da angústia que existia em sua vida. Isso acaba se tornando uma espécie de vício e aí então o narrador passa a frequentar outros grupos similares (para pessoas com AIDS, hepatite, etc…) e conhece Marla Singer (Helena Bonham Carter), personagem que também estará presente durante boa parte do filme. A presença de Marla nos grupos de apoio incomoda muito o narrador, que parece não conseguir mais se libertar com a presença dela, os dois então combinam de frequentar diferentes grupos.

Esse primeiro momento do filme de certa forma já retrata a doentia sociedade em que vive o narrador e a necessidade de refúgio, de extravasar, que sentia o narrador. Isso será retomado, obviamente, quando surgir o tal Clube da Luta.

Acontece que a vida “comum” do narrador sofrerá drásticas mudanças quando ocorre um incêndio em seu apartamento. Pouco antes deste acontecimento, numa viagem de avião, o narrador conhece Tyler Durden (Brad Pitt. Personagem essencial dentro da trama. Ele diz ser um fabricante de sabonetes e deixa seu telefone com o narrador. Quando acontece o incêncio o narrador resolve ligar para Tyler, os dois se encontram em um bar e aí as mudanças começam a surgir.

Tyler Durden amplia a visão do narrador, mostra um outro lado da vida, foca mesmo na questão já pontuada: até que ponto é você que possui um apartamento? Será que não é o apartamento que está te possuindo? Essa inversão de valores é altamente, em última análise, filosófica. Essa mensagem anti-consumista vai ser uma constante nas ideias de Tyler Durden.

O narrador e Tyler tornam-se amigos e fundam o Clube da Luta. Que nada mais é do que um ambiente onde através da luta, as pessoas extravasam suas angústias. É como uma ampliação dos grupos de apoio que o narrador frequentava, após o surgimento do Clube da Luta ele até deixa de frequentá-los e outras pessoas que também frequentavam os grupos de apoio passam a integrar o Clube da Luta, como Bob por exemplo, personagem emblemático dessa história.

A partir desses momentos inicias a trama vai se desenvolvendo. Dando uma pequena parada do enredo, que já, já será retomada, falo um pouco também dos aspectos mais cinematográficos da obra. Além de ter concorrido ao Oscar de melhores efeitos sonoros, o filme conta com uma fotografia e efeitos especiais muito concisos, nada de extraordinário, mas nada também que não melhore ainda mais essa bela e questionadora história.

História essa que também questiona a História em si. Sim, outra faceta do filme é questionar a geração 90-00. Que se encontra em um mundo onde quase tudo é de certa forma já dado (crítica a um certo comodismo que se dá através da internet, do consumismo, etc…) e do qual as pessoas parecem não querer sair. Quer dizer, tudo que se quer é uma vida estável, sem grandes transgressões ou desafios, essa seria a marca dessa geração que passaria então a não ter nenhum grande valor histórico, aqui vale a citação de Tyler Durden:

“Somos uma geração sem peso na história. Sem propósito ou lugar. Nós não temos uma Guerra Mundial. Nós não temos uma Grande Depressão. Nossa Guerra é a espiritual. Nossa Depressão são as nossas vidas. Fomos criados através da TV para acreditar que um dia seríamos milionários, estrelas do cinema ou astros do rock, mas não somos.”

Através de várias metáforas (inclusive a cena final do filme pra mim é uma outra grande metáfora) o filme vai se construindo. Após o surgimento do Clube da Luta várias outras coisas acontecem durante a trama, algumas viradas e revelações e sempre essa mensagem intelectual mesclada a um ambiente marginal. A ideia de desconstrução, que requer esforço, mudança e vontade, é pra mim a chave de leitura desse filme.

Enfim, Clube da Luta é um filme subversivo sim e não fascista como muitos dizem, que amplia a nossa visão, nos faz lembrar de coisas talvez esquecidas e desperta a vontade de crescer, de transgredir. Desinteresse e conformismo são palavras estranhas demais pra esse filme.

Em outubro tem mais Inclinação Cinematográfica.