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Inclinação Literária #05 – O Diário da Fome

O quinto post da série Inclinação Literária seguirá a linha do último post dessa mesma série e falará de uma obra de uma escritora brasileira, só que dessa vez a temática e ambientação são bem diferentes, isso por si só já é uma pequena amostra da multiplicidade da literatura brasileira.

A obra do dia é Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. 

Antes de falar da obra propriamente dita, falo sobre como cheguei até ela. Durante as férias de julho tive contato com alguns artigos acadêmicos e inclusive alguns vídeos no YouTube de um professor universitário de Literatura da UFRJ, João Cézar de Castro Rocha, me interessei muito e posteriormente até falarei mais sobre as teses e as ideias dele (a “dialética da marginalidade”, por exemplo) aqui no Un Quimera, por enquanto fica só a dica. E foi através desse contato que de certa forma “descobri” o Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, também conhecido como Diário de uma favelada.

Publicada pela primeira vez na década de 1960, a obra foi lida por mim com certa rapidez, entre um ônibus e outro, e aos poucos fui me interessando cada vez mais por aquelas linhas cheias de erros ortográficos (Audálio Dantas, jornalista que descobriu Carolina e editou seus livros fez questão de não mexer na ortografia), descontinuidades, mas também cheia de experiência da vida real, cheia de uma ironia digna dos grandes nomes da literatura, cheia de fome e marginalidade.

Esses são os dois principais pontos da obra. A cada novo dia de sua jornada, Carolina vai relatando as dificuldades de uma favelada e mãe solteira: filhos pra criar, lixo pra catar, conversas e brigas dos vizinhos e vizinhas pra aturar e a fome sempre presente. As narrativas podem até parecer muito rebuscadas (insistir no tema da fome e da miséria…), mas Carolina ali conta a sua vida real, escreve em cadernos que catou no lixo nos poucos momentos em que parava no seu barraco.

O título da obra nos remete a um trecho da mesma. Numa de suas idas à cidade Carolina diz:

“Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludo, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo”

As reflexões da autodidata Carolina, recheadas de uma fina ironia, retratam a situação de miséria e possuem uma forte consciência política e social; são um símbolo da literatura marginal brasileira.

Literatura essa que como o próprio nome já diz é olhada com certo preconceito e menosprezo, mas que na minha singela opinião é riquíssima e merece um pouco mais de atenção seja dentro do meio acadêmico, seja fora dele.

Como já aludi no início do post acima, o Brasil possui sim uma vasta e rica literatura, que muitas vezes é deixada de lado nas estantes da vida. Relatos do povo, expondo problemas sociais e a visão de alguém que está inserido diretamente nesses problemas são material no mínimo interessante para qualquer conversa a respeito de mudanças e melhoras no país.

Além desse aspecto mais imediatista e em busca de um resultado mais palpável, também existe o aspecto literário e porque não poético, que na maioria das vezes é deixado de lado pelo senso comum, mas que também possui um valor importantíssimo. Narrativas como a de Carolina Maria de Jesus tornam-se a base de uma nova cultura legitimamente brasileira que vai se construindo a cada dia, século XXI afora…

Outro ponto que é digno de revolta é o de conseguir visualizar as situações de fome e miséria vividas por Carolina em meados da década de 50 se repetindo até hoje.

Encerro o post com mais uma citação de Carolina Maria de Jesus, de um 7 de outubro qualquer:

“7 DE OUTUBRO Morreu um menino aqui na favela. Tinha dois meses. Se vivesse ia passar fome.”

Em novembro tem mais Inclinação Literária.