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Quase Comentário

Ler é uma atividade muito prazerosa pra mim. Nos últimos anos (em especial nesse 2012), essa atividade foi tomando contornos cada vez mais exacerbados na minha vida. As leituras da faculdade, as leituras por conta própria, as leituras de artigos na internet, as leituras, leituras, leituras…

Dentre os vários “tipos” de leituras, uma para a qual eu tenho um carinho especial é aquela leitura recomendada por amigos. Quando o amigo que recomenda está distante, acho melhor ainda. Porém, como aludi acima, são tantas e tão importantes leituras, que acontece do amigo indicar a leitura, te emprestar o livro, e a leitura não ter tempo pra sair. O livro fica lá esperando, esperando e nada.

Foi mais ou menos isso que aconteceu com o livro Quase Memória, de Carlos Heitor Cony. Estava com ele há alguns meses e ainda não tinha conseguido fazer a leitura. Até que nessa semana resolvi deixar um pouco de lado as outras leituras e em uma semana e um dia, li a obra indicada com entusiasmo por um amigo.

Além de tudo, a leitura dessa obra me fez relembrar uma maneira de se ler que estava há muito esquecida por mim: a leitura sem lápis nem caneta na mão, a leitura deitado na cama, a leitura descompromissada (que não significa, de forma alguma, uma leitura desatenta ou menos criteriosa),  e que leitura boa é essa! E quando ela volta a tona com uma obra tão leve e tão curiosa como essa de Carlos Heitor Cony a coisa fica melhor ainda.

Quando acabei de ler pensei em escrever um breve comentário sobre, que se segue logo abaixo:

O romance Quase Memória, de Carlos Heitor Cony, é caracterizado pelo próprio autor, no subtítulo da obra, como um quase-romance. Talvez seja mesmo um romance que para no quase. A personagem central da obra é o pai do autor, Ernesto Cony Filho. E a indefinição se estamos lendo um romance ou uma biografia desse pai é uma das dicas para o quase-romance.

No entanto, o quase romance ou a quase memória de Cony filho não param em um quase que se mostra incapaz ou impossibilitado de levar ao leitor o todo que parece querer ser transmitido nessa obra.

Em cada um dos vinte e cinco capítulos que a compõem, um leitor mais desapercebido lê e encontra pequenas histórias e memórias de Carlos Heitor Cony, sobre sua própria vida e experiências, mas, em especial, sobre a vida, as peripécias, as particularidades, a incomum idiossincrasia, enfim, de seu pai, o também jornalista Ernesto Cony Filho.

O que o leitor mais desapercebido não deve conseguir captar é que todas essas histórias (desde as mais singelas, que versam sobre uma criação de galinhas de Ernesto Cony Filho, ou ao amigo deste, chamado Absalão, que costumava ir roubar mangas com ele no Cemitério do Caju, até histórias que envolviam todo o país, como a tentativa de articular uma candidatura à presidência, em 1930, do governador de Minas Gerais ou as mudanças em relação ao fazer jornalístico, causadas pela evolução tecnológica e publicitária) são na verdade fragmentos da memória de um jornalista que vê a sua vida repassar por sua mente em um dia.

Esse dia, por sua vez, com todas essas memórias, é contado em um livro. E é aí que se encontra toda a qualidade e leveza do quase-romance de Cony: para uma leitura mais atenta, o autor literalmente conta essas pequenas histórias e lembranças, e aí cada capítulo deixa de ser apenas mais um capítulo e transforma-se em um pequeno “causo”, um dedo de prosa – prática tão cara a um mineiro com eu – que se estende e não se pretende absoluto ou definitivo: quem disse que a memória consegue abarcar todos os acontecimentos de nossa vida? Estamos aqui situados em uma atmosfera de quase memória.

Dentre os vários, curiosos, engraçados e instigantes “causos” contados por Cony, muitos me chamaram a atenção, o principal deles talvez seja o do balão de São João, e de como se dava sua confecção (atividade que unia Cony pai e Cony filho e que despertou nesse uma profunda admiração e carinho por aquele), mas neste pequeno texto, que se pretende um breve comentário sobre a obra, a título de ilustração, quero destacar apenas um: a viagem (ou quase viagem) de Ernesto Cony Filho à Fiuggi, Itália.

Esse “causo” chega a ocupar até mais de um capítulo dentro da obra e fala de como Ernesto Cony Filho foi escolhido para ser o jornalista brasileiro a divulgar e conhecer in loco as milagrosas águas da desconhecida cidade de Fiuggi. O fato é que, na década de 30 do século passado onde o transporte e a tecnologia em geral eram bem diferentes das atuais, o jornalista teria que fazer uma viagem com várias escalas, saindo do Rio de Janeiro, indo à Piracicaba, Santos, Recife, Gênova, Roma e só depois chegar ao seu destino, Fiuggi.

Quando ele sai do Rio, todos a sua volta (família, colegas de trabalho, o Capitão Giordano, de Caporetto, figura especial dentro da obra) ficam meio que extasiados, com aquela admiração: nossa, ele vai mesmo à Itália! Porém, com uma engenhosidade e um humor finos, Carlos Heitor Cony mostra que toda essa animação acabaria dando com os burros n’água: seu pai não chegou sequer a sair do Brasil, no meio do traslado Santos-Recife, Mussolini toma o poder na Itália, várias pequenas tragédias acontecem e o cônsul que havia programado a ida de Ernesto Cony Filho à Fiuggi não manda mais em nada e resta para o jornalista voltar ao Rio de Janeiro.

Interessante é perceber que essa história em particular volta a ser mencionada no livro e com o detalhe de que Ernesto como que criou em sua mente e contou para várias pessoas uma real ida à Itália, o efeito cômico conseguido com isso é muito bacana.

Entre um “causo” e outro como esse a obra vai se desenrolando e passando ao leitor um pouco da trajetória de um dos grandes jornalistas brasileiros do século XX (assim como de tudo ao seu redor).

Uma lição de simplicidade e sagacidade. Injeção de ânimo pra quem, como Ernesto Cony Filho, pretende batalhar por e realizar as coisas grandes.