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Sísifo Feliz

“Deixo Sísifo na base da montanha! As pessoas sempre reencontram seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que
nega os deuses e ergue as rochas. Também ele acha que está tudo bem. Esse universo, doravante sem dono, não lhe parece
estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada fragmento mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo.
A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz”.

(Albert Camus – O Mito de Sísifo)

Para ler, ouvir e sentir ao som de “Luz  Negra” de Nelson Cavaquinho.

Ó, Sísifo!

Meu amigo e meu irmão
Meu eu e meu outro.
Sentido existe, que não o absurdo?
Existência existe, que não essa?

Berram os animais
Cantam os rios
Assobiam as plantas
E o homem?

O homem chora.
Chora e silencia.

Sua pedra é seu fardo
e também seu combustível.

Seu suor é seu desgaste
e também sua recompensa.

Sua vida é condenada
e por isso mesmo flerta com a liberdade.

Ó, Sísifo, meu caro!

Diga como consegues
que eu também estou tentando.

Diga o que não se diz
que eu ouço e digo: sou feliz!

Rogério Arantes 

Inclinação Literária #03 – A Mitologia Revisitada

O terceiro post da série Inclinação Literária sai um pouco daquela linha “marginal-americana” que vinha seguindo (os dois primeiros posts haviam sido de On The Road, de Jack Kerouac e Pergunte ao Pó, de John Fante.) e passa para uma literatura mais filosófica, um autor de origem argelina e radicado na França.

Vou falar hoje de O Mito de Sísifo, de Albert Camus.

Ultimamente as leituras acadêmicas vem me tomando muito tempo, não só as obrigatórias, mas também outras que por consequência imediata da qualidade que encontro nas obrigatórias eu acabo me interessando, o Mito de Sísifo é um bom exemplo disso. Boa ou má, essa “invasão acadêmica” dentro das “leituras de lazer” me levou até este livro de Camus.

Ainda não estudei a fundo este escritor/filósofo, mas conheço o contexto histórico em que ele se insere. É bem ali onde o Existencialismo se mostrava mais vivo e atuante. O principal nome do citado movimento é com certeza Jean Paul Sartre, podemos citar também sua mulher, Simone de Beauvoir e se quisermos voltar um pouquinho Maurice Merleau-Ponty, todos franceses.

Albert Camus de certa forma segue essa linha, e embora ele mesmo não se considerasse um filósofo existencialista, há muito dessa escola em sua obra, Camus se considerava absurdista.

E é no Mito de Sísifo (publicado em 1942, quando Camus tinha apenas 29 anos) que será teorizada pela primeira vez essa noção de absurdismo. Nesta obra Camus questiona a guerra que estava vivendo, mas não se retém a este tema, na verdade faz releituras de importantes escritores e filósofos, que deram os primeiros passos para o que viria a ser esse movimento existencialista do século XX, e também, na parte final da obra, volta ao mito que dá título ao livro.

Antes de entrar de vez na obra, valem algumas curiosidades em relação ao autor, pra quem não o conhece muito bem. Camus era apaixonado por futebol – em uma visita que fez ao Brasil em 1949, o primeiro pedido de Camus em solo brasileiro foi o de ir assistir um jogo de futebol – embora essa curiosidade possa parecer sem nenhuma relevância, particularmente gosto de exaltar os filósofos e pensadores que vêem o futebol como algo sadio e interessante e não como algo alienante e retrógrado.

Outra curiosidade é em relação a morte de Camus. Foi em um acidente de carro, em Vileblevin, França, em 1960, quando Camus tinha apenas 46 anos. Esta fatalidade pode ter nos privado de poder ler grandes obras literárias e filosóficas, inclusive no local do acidente foi encontrado, na maleta de Camus, manuscritos de um romance autobiográfico, intitulado O Primeiro Homem.

Colocadas as curiosidades em relação ao autor e já introduzido o contexto histórico/filosófico em que a obra se insere, vamos passar para o obra em si agora.

O Mito de Sísifo é uma obra que busca encontrar novos valores, repensando os antigos e contemporâneos, é, antes de tudo, uma tentativa de mudança. A experiência de Camus com coisas reais, com os homens reais de sua época o fez pensar nessa condição literalmente absurda em que se vivia.

Como sempre friso, não é pretensão de nenhum post da série Inclinação Literária destrinchar e analisar a fundo a obra de ninguém, isso vale para qualquer tipo de literatura, quando se encontra num ambiente literário/filosófico então, essa missão passa a ser ainda mais árdua, e definitivamente não é pretensão do post, seriam necessárias muitas horas de estudo em cima da obra em questão para uma análise profunda dela, por isso, pretendo apenas passar por alguns conceitos, para apresentar a obra ao leitor do blog e focar um pouco mais no capítulo final, que fala diretamente do mito citado no título da obra.

Camus, na primeira parte da obra: O Raciocínio Absurdo, começa a fundamentar essa sua teoria da absurdidade, questiona o suícido como saída para alguém que não encontra sentido nenhum na vida e já volta a filósofos antigos e contemporâneos, isso acaba sendo uma tônica de toda a obra, mesmo propondo algo novo, Camus não esquece de contribuições que dialogam com sua ideia, por isso cita e relê Kierkegaard, Kafka, Proust, entre outros.

Na segunda parte da obra: O Homem Absurdo, em três partes, a saber o Donjuanismo, a Comédia e a Conquista, Camus traça o perfil do que seria o homem absurdo, todas suas angústias e vicissitudes, se ainda não havia sido percebido, agora fica evidente o forte contato entre Filosofia e Arte que Camus propõe.

Na terceira parte: A Criação Absurda, esse contato é ainda mais exaltado e exemplos da obra de Dostoiévski são citados a quase todo momento, Camus encontra na arte, na literatura, representações que de certa forma se adequam, ou pelo menos remetem, à noção de absurdidade.

Finalmente chega-se no capítulo final do livro, homônimo da obra em si. Antes de mais nada, vale ressaltar o jogo de palavras aí embutido, o original francês Le Mythe de Sisyphe, soa praticamente igual a outra frase em francês: Le Mythe Décisif, que traduzido seria “O Mito Decisivo”. Quer dizer, Camus vai buscar lá na Mitologia Grega, a decisão, o fecho final de sua obra e sua teoria.

Pra quem não conhece o mito em questão, vale uma rápida explicação: Sísifo era considerado o mais astuto de todos os humanos, senhor dos truques e da esperteza, um legítimo malandro, no melhor sentido da palavra, devido a mentiras e truques ele foi condenado a morte por Zeus, mas conseguiu enganar Tânatos, o deus da morte, duas vezes, a ira de Zeus para Sísifo ficou maior ainda e quando o bom malandro morreu de velhice, Zeus enviou Hermes para levá-lo até o inferno. Lá, Sísifo recebeu um castigo que é o centro de seu mito: foi obrigado a carregar uma pedra até o cume de uma montanha e toda vez que estava quase lá, a pedra caia e Sísifo tinha de refazer o trabalho ad infinitum.

Aí você pode se perguntar: o que esse mito tem a ver com uma literatura do século XX? Camus é quem responde nesse último capítulo. Essa ambientação absurda e melancólica se adequa perfeitamente ao homem absurdo camusiano, o autor considera Sísifo o “heroi absurdo”, exalta sua condição e busca compreender e enxergar de maneira diferente este mito, vale a citação:

“Se esse mito é trágico, é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo o sustentasse a esperança de ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa enquanto desce. A lucidez que devia produzir o seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo.”

A longa citação, além de já mostrar ao leitor como o Mito de Sísifo aqui é totalmente repensado, também já mostra como Camus pensa no atual e no passado, na Filosofia e na Literatura.

Depois desse capítulo final ainda existe um anexo: A Esperança e o Absurdo na obra de Franz Kafka. Confirmando o contato literário/filosófico, característica marcante da obra.

É isso, como já frisei, não pretendia aqui chafurdar todo o pensamento camusiano, mas apenas apresentá-lo com certo entusiasmo e recomendar a leitura, que, no meu caso, foi feita em apenas três dias. Em julho tem mais Inclinação Literária.