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1968 – O Ano Que Não Terminou


“É muito bom o livro de Zuenir Ventura. A conversa sabida nos meios da elite jornalística era que Zu ia fazer um trabalho de carregação, com apenas dez meses de preparo. Picas. O texto é cuidadíssimo. Quem escreve sabe que aquilo que lá

está foi reescrito “n” vezes. É a melhor coisa que Zuenir já escreveu.”
E com essa citação do jornalista Paulo Francis que começo o post/resenha que fala do livro 1968 – O Ano Que Não Terminou do também jornalista Zuenir Ventura.
Todos sabem que o ano de 1968 é cercado por vários fatos históricos no Brasil e no mundo, foi um ano em que muita coisa mudou, seja ideologicamente, seja politicamente e o livro de Zuenir é uma reflexão e uma recordação daquele período, com ênfase no que viveu o autor, o 1968 brasileiro.
Tudo começa em um reveillon da virada de 67 para 68 na casa do casal Luís e Heloisa Buarque de Holanda, uma festa que
reuniu boa parte dos intelectuais brasileiros daquela época, começar o ano daquela maneira já mostrava como aquele seria um ano que ficaria marcado.
Depois, cronologicamente, Zuenir vai relembrando cada momento importante do ano de 1968, situando o leitor naquele momento, com depoimentos e citações de quem viveu aquele período, como por exemplo Luís Carlos Lacerda, o Bigode, que disse:
“Você não pode imaginar o que sofria uma pessoa como eu, que era comunista,homossexual e transava droga.”
Alguns episódios ocorridos no ano são essenciais para a história e para o livro, um deles é a morte do estudante Edson Luís Lima Souto, baleado no peito por um soldado da PM após um confronto no restaurante estudantil do Calabouço.
A repercussão do fato atingiu a todos naquele momento, a narrativa da missa de sétimo dia alguns capítulos adiante também é muito interessante.
Pouco tempo depois desse episódio veio outro muito importante, relatado no capítulo “E todos se sentaram”, foi a famosa passeata dos cem mil, comandada pelo líder Vladimir Palmeira, o líder que fez, literalmente, todos se sentarem no meio-fio antes de começar a passeata e depois discursou coisas assim:
“A ditadura mais descarada adora leis, deixa eles fazerem leis. Façam uma, duas, três constituições, instalem e depois amordacem um, dois, três congressos. A gente deixa, pessoal. Mas, a gente sabe que não hoje, mas até o fim desta luta a gente derruba uma, duas, três constituições e faz nova lei e nova assembléia, porque esta assembléia não resolve problema de ninguém. Mas, minha gente, não pense que aplaudir e gritar “abaixo a ditadura” é uma vitória. Hoje a repressão não veio porque não pôde. E a nossa vitória é esta: ter saído na raça porque achava que tinha que sair. Mas a gente vai voltar pra casa, o estudante pra aula, operário pra fábrica, repórter pro jornal, artistas pro teatro. E é em casa, no trabalho, que a gente vai continuar a luta. Eu quero botar isso em votação: a gente vai continuar esta luta?”
Sim tudo isso é muito bonito, ficou para a história e merece muito respeito, mas aos poucos o Movimento Estudantil e as camadas comunistas, principais “combatentes” na luta contra a Ditadura foram se equivocando, rachas e desentendimentos nesses grupos também são narrados, outro episódio importante é narrado no capítulo “Que Juventude é essa?”, quando Caetano Veloso, durante o III Festival Internacional da Canção escancarou e deixou claro pra juventude da plateia que muita coisa estava errada:
“Vocês tem coragem de aplaudir este ano uma música, um tipo de música, que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado; são a mesma juventude que vai sempre, semre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada!”
Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho é outra personagem importante do livro, foi o homem que impediu que um diabólico plano do brigadeiro João Paulo Burnier se concretizasse.
Também é narrado um confronto entre os estudantes de direita da Mackenzie contra os estudantes de esquerda do curso de Filosofia da USP, a perseguição à peça Roda Viva, de Chico Buarque, em Porto Alegre e o fracassado XXX Congresso da UNE, num sítio em Ibiúna, São Paulo.
Este episódio em especial expõe muito da desorganização e desunião que existia dentro do Movimento Estudantil.
E depois de tudo isso, na parte final do livro Zuenir conta com muitos detalhes os dias que antecederam o decreto do AI-5, o que acabou sendo o grande fato do ano.
Como a aparente vitória do deputado Márcio Moreira Alves, na véspera do decreto do AI-5 se transformou em uma enorme derrota, o próprio Costa e Silva, então presidente do Brasil, na reunião que colocou em voto o AI-5 disse:
“Eu confesso que é com verdadeira violência aos meus princípios e idéias que adoto uma atitude como esta.”
Mas mesmo assim o AI-5 se transformou em realidade e algumas de suas primeiras vítimas são lembradas no capítulo final do livro.
O livro termina, mas 1968 não, este ainda ressoa atualmente por tudo que aconteceu nele, e se tudo não aconteceu da melhor maneira possível lá, que os erros sirvam para a minha geração ou para gerações futuras como aprendizado.
E pra fechar o post vale lembrar a canção que se transformou em hino para a geração de 1968: