Arquivo mensal: outubro 2012

Le Rouge et Le Noir #22

O dono do restaurante do bairro é torcedor do Fluminense e ontem, na hora que eu fui pagar o almoço pra ele, ele logo me falou:

“-Amanhã vamos ganhar, hein!”

Acredito que esse caso particular pode ser universalizado com certa tranquilidade e ilustra bem o clima do jogo de hoje a noite, entre Flamengo x Atlético/MG. A partida, que fechará a 33ª rodada do Campeonato Brasileiro, envolve muita coisa e pode literalmente definir o campeonato.

No último post da série Le Rouge et Le Noir, falei justamente sobre a primeira partida entre Flamengo x Atlético/MG nesse campeonato, que foi adiada disputada um mês atrás. Naquela ocasião, jogando em um Engenhão lotado e inflamado o Flamengo conseguiu vencer o Galo por 2 x 1, e além de ter colocado em si mesmo uma injeção de moral, serviu de ajuda também para o Fluminense, foi nesse momento que o Tricolor carioca abriu a vantagem que tem hoje, e o Atlético/MG ficou para trás na briga pelo título.

Passa-se um mês, e depois do eletrizante duelo entre os líderes, com vitória do Galo por 3 x 2, Flamengo e Atlético/MG voltam a se enfrentar, dessa vez no caldeirão do Independência, e mais uma vez, em caso de vitória rubro-negra, além de um ânimo para o próprio Flamengo (que praticamente se veria livre de uma vez por todas do rebaixamento) o título do Fluminense ficaria incrivelmente próximo.

Portanto, o jogo de hoje a noite mobilizará não só as duas torcidas que verão seus times em campo, mas todas as torcidas do campeonato. Isso dá maior visibilidade para a partida e maior responsabilidade para ambas as equipes.

A tímida, irregular e desinteressante campanha do Flamengo nesse Brasileirão poderia ficar marcada de forma positiva em caso de vitória hoje a noite. O Flamengo ficaria com a fama (e que fama boa seria essa) de ter “tirado”, pelo menos moralmente, o título do Atlético/MG de Ronaldinho Gaúcho. A fila do Galo sem títulos brasileiros chegaria aos 41 anos. Em caso de derrota, o campeonato continuaria aberto, e o Flamengo só confirmaria essa campanha tímida, irregular e desinteressante.

Longe de aceitar isso passivamente, e longe de pensar que esse tipo de campanha condiz com a história do Flamengo, penso que a realidade é essa, a equipe de fato não se acertou em momento algum na competição (no ano, pra ser mais preciso). Esses jogos finais, penso eu, devem ser encarados como testes para jogadores que não foram muito bem aproveitados, as chances de rebaixamento são mínimas, mais duas vitórias, ou até mesmo uma vitória e um empate já devem excluir qualquer possibilidade de queda para a segunda divisão, então agora é experimentar mesmo e já mirar uma reformulação geral, que PRECISA acontecer em 2013.

A última partida verdadeiramente interessante (tem os clássicos nas duas rodadas finais, mas ainda assim…) é a de hoje. A rivalidade com o Galo está cada vez mais acirrada e os rumos do campeonato podem ser alterados dependendo do resultado de hoje. Então pra alegria minha, do dono do restaurante do bairro e de muitos outros torcedores, vai pra cima deles, Mengo!

SRN

Tropicália: a síntese tupiniquim

Acabo de chegar do cinema onde fui assistir ao documentário Tropicália, dirigido por Marcelo Machado. Ao sair da sala me deparo com uma chuvosa e apagada cidade. Vim pra casa no escuro. Postes sem luz, pessoas sem guarda-chuva.

Mas cheguei. E pouco depois a luz voltou. E agora estou aqui escrevendo este texto que na verdade nada tem a ver com essa minha trajetória de volta pra casa. Vamos ao que interessa então.

As contribuições do movimento tropicalista para a cultura e para a sociedade brasileira em todos os seus âmbitos são, diria eu, estratosféricas! Esse documentário, e o último disco de Tom Zé, Tropicália Lixo Lógico, são apenas algumas tentativas (muito bem sucedidas, creio eu) de tentar estudar, repensar e expor ao povo brasileiro, hoje, mais de 40 anos depois da eclosão do movimento, toda essa intensidade e subversão da Tropicália e do Tropicalismo (aqui vale uma breve distinção de conceitos, feita por Gilberto Gil no próprio documentário: a Tropicália não resume a um movimento, é uma expressão estética que surgiu no Brasil na década de 60 e que ainda hoje é viva e presente, já o Tropicalismo é um movimento, que vigorou nos anos de 1967 e 68 e terminou aí).

O documentário de Marcelo Machado começa com os exilados Caetano e Gil (“protagonistas” do filme), cantando num programa de TV em Lisboa, em 1969. O tom tristonho de Caetano afirmando veementemente que o movimento tropicalista naquele momento já havia acabado (como esclarecido acima) e que dali pra frente ele nada sabia, só sabia que teria de ir pra Londres, de certa forma já mostra um pouco do caráter fragmentário e aberto da Tropicália. Vejamos: o movimento tropicalista, à revelia de todas as suas qualidades, jamais se afirmou como um defensor strictu sensu das ideologias de esquerda, dos nacionalismos e afins, isso é abordado em algumas falas do filme e deixa claro que a aparente bagunça que foi a Tropicalismo na verdade era algo muito maior, que não se limitava a certas ideias prontas e fixas, mas buscava, por outro lado, uma maior aglutinação de vários elementos que julgava válidos serem abordados e mostrados.

Talvez por causa disso, durante o documentário momentos do movimento mostram os vários conflitos e rupturas deste: desde a fusão, na época totalmente vanguardista e inesperada, de uma orquestra com a guitarra elétrica num Brasil em plena ditadura (cena ocorrida num Festival da Record, na canção Domingo no Parque, de Gilberto Gil, acompanhado pelos Mutantes e pelo maestro Rogério Duprat), passando pelas polêmicas e desavenças de Caetano e Gil com os estudantes da USP, que julgavam que o movimento tropicalista teria se “rendido” à cultura pop e teria ido contra as lutas estudantis e afins (o ápice dessa polêmica é retratado no filme com a apresentação de É proibido proibir de Caetano Veloso, a letra dessa canção se auto explica) e chegando, enfim, até ao exílio de Caetano e Gil em Londres, onde ambos sentem “como se ter ido fosse necessário para voltar” e voltam para, no próprio filme, falar sobre suas impressões acerca daquele momento e se emocionarem bastante ao assistirem um vídeo com a “canção da volta”, Back in Bahia.

Outro ponto digno de ser destacado remete mais uma vez às polêmicas do Tropicalismo com os estudantes da esquerda uspiana. O movimento liderado por Caetano e Gil, nesse âmbito sócio-econômico, flutuava da esquerda para a direita e vice-versa. Existia o empresário Guilherme de Araújo, que no filme deixa claro que fez mesmo do Tropicalismo algo pop e comercial, televisivo e quiçá alienado, mas ao mesmo tempo aparece a figura de Rogério Duarte, que se considera um “desempresário” do movimento, por insuflar nos artistas ideais de contestação e rebeldia.

Como já foi dito acima, a Tropicália caracteriza-se, dentre outras coisas, pelo seu caráter fragmentário e isso faz dela algo maleável, sem uma ideologia e um engajamento propriamente ditos. Por outro lado, no entanto, o cancioneiro tropicalista está repleto de críticas e provocações ao Capitalismo, à cultura dominante e à várias outras estruturas da sociedade. O que acontece é que Caetano, Gil e cia. parecem nunca ter sentido a necessidade de uma criação estética que se importasse em primeiro lugar com os problemas sócio-econômicos da população, suas preocupações pareciam residir, em primeiro lugar, na própria criação artística, na liberdade e inventividade de tal coisa. Como dizem os versos de Tom Zé, interpretados pelos Mutantes no filme: “astronauta libertado, minha vida me ultrapassa em qualquer rota que eu faça!” E a rota do Tropicalismo não passava por nenhum dogmatismo ideológico.

Na última meia hora de filme, as principais “personagens” começam a aparecer como estão atualmente e não dá pra deixar de lado a “personagem” Tom Zé. Enquanto todos os outros grandes nomes da Tropicália falaram do movimento com certo saudosismo e lucidez, pois o tempo passou e tudo ficou mais claro de se analisar, Tom Zé, inquieto, destila todas as suas intensas e provocativas ideias sobre a Tropicália, o “braço cantado do pensamento que levou o Brasil da Idade Média para a segunda revolução industrial!”. Tom Zé fala ainda das influências que recebeu a Tropicália e de como ela lidou com isso.

A poesia e a antropofagia de Oswald de Andrade e do Modernismo da década de 1920, o Concretismo de Augusto de Campos, Décio Pignatari e cia., o teatro de José Celso Martinez, o cinema de Glauber Rocha, a Bahia e São Paulo, a África e a Europa, a malandragem e a erudição, tudo isso recheou e impulsionou a Tropicália.

Dentre as estratosféricas contribuições que a Tropicália deixou para o Brasil, muitas talvez nem sequer foram abordadas aqui. A imensidão tropicalista sugere várias outras análises e interpretações, no entanto, para me ater a uma delas e fechar o texto, retorno ao título e afirmo que, segundo minha interpretação, a Tropicália é uma SÍNTESE de toda a efervescência cultural, de toda a inquietação existencial e política do Brasil dos fins da década de 60.

Como sugere o título do livro de Tom Zé que também fala sobre essa temática, Tropicalista Lenta Luta, e a canção de Caetano que fecha o documentário (It’s A Long Way), a Tropicália, apesar de toda a rapidez do movimento tropicalista, ainda se demora, lenta, e vê um longo horizonte pela frente: sua libertação criativa tem o potencial de continuar influenciando e reverberando na nossa cultura e, em última análise, prolongar as ideias daqueles jovens baianos que foram para São Paulo em meados da década de 60.

Antes que a luz apague de novo, posto aqui essa breve análise sobre o documentário, que já há algum tempo me despertava interesse e que, apesar de ter focado bem mais no Tropicalismo e não na Tropicália em si, constitui um belo documento para pesquisa e reflexão acerca deste marco na história brasileira.

QuimeraTube #68

E esse disco novo do Gui Amabis além de tudo (e esse tudo é muita coisa) ainda tem uma capa “carnívora” e magnífica:

O irmão esquecido

O post de hoje é uma republicação do post que eu acabei de publicar lá no Sempre um Livro. Estamos lendo a obra O fazedor, de Jorge Luis Borges e um pequeno poema contido na obra citada me despertou várias ideias, que eu tentei articular no presente post. É apenas uma hipótese, uma interpretação minha que ainda está surgindo, mas que já fica registrada como motivadora de discussões acerca do tema:

Ver a ciência sob a ótica da arte e a arte sob a ótica da vida significa dizer que o problema da ciência não pode ser visto no interior de um campo contaminado pelas interpretações reativas e negativas; mas deve ser investigado a partir de um solo não científico: o da vontade de potência. Considerar a ciência sob a ótica da vida significa apreciá-la por sua força criadora”.1

Não conheço muito bem a biografia nem a bibliografia do escritor argentino Jorge Luis Borges. Até agora o único livro que li dele foi fazedor.No entanto, não sei bem porquê, Borges é um daqueles autores que, principalmente se você está envolvido num ambiente acadêmico, como é o meu caso, você sempre ouve falar e, querendo ou não, fica com aquela vontade de ler e conhecer.

Pois bem, com a leitura de fazedor enfim conheci a escrita de Borges. Nós vários poemas, contos e simples frases que compõem este livro, consegui perceber que, antes de mais nada, o escritor argentino possui uma sensibilidade ao lidar com as palavras que te jogam no texto e lhe fazem não querer sair dali tão cedo. É um texto que, segundo minha interpretação, é feito para ser degustado como um bom vinho, para ser prolongado como uma boa conversa num café com os amigos.

Dentre os vários textos que compõem fazedor, um em especial me atraiu demais e me fez pensar em um problema que, segundo minha leitura, é, por excelência, de ordem epistemológica.

Deixe-me explicar, para as coisas ficarem mais claras. O referido texto éarte poética, um poema composto por sete estrofes e que trata justamente do seu título, da arte poética, de como ela se dá, de como ela se mostra.

Ora, você leitor pode então me perguntar: o que a arte poética tem a ver com a epistemologia? É que no processo de ruminação do poema (pra se ler Borges a “ruminância” é qualidade indispensável), num lento e preguiçoso ônibus que cruzava as estradas de Minas Gerais, pensei em uma metáfora que acabou levando o poema para essa ordem epistemológica a qual aludi acima.

Comunicar-se via metáfora é sempre uma tarefa delicada e complicada, pois a metáfora aceita vários níveis de entendimento e nem sempre o “metaforador” consegue ser compreendido de uma maneira satisfatória. Mesmo assim vou me arriscar e espero conseguir atingir o meu telos.

Imagine dois irmãos, ambos na mais terna infância, que começam a brigar em virtude de um brinquedo, que ambos gostavam muito de brincar e que aparentemente sumiu. Um acusa o outro de ter se apoderado e escondido o brinquedo, no entanto, nem um nem outro de fato fez tal coisa e assim o que prevalece é essa disfonia ad infinitum.

Até que aparece um terceiro e desavisado irmão, que nem se importava tanto com o motivo da briga dos outros dois irmãos e, sem querer, encontra o tal brinquedo. Enquanto a briga entre os outros dois irmãos continua, o terceiro irmão fica ali, esquecido, com o brinquedo nas mãos, mas sem saber bem o que fazer com ele.

Essa foi a metáfora que construí após a leitura de arte poética. Inevitavelmente vou tocar em um assunto de uma relevância e de uma complexidade e multiplicidade de interpretações dentro das ciências, que, também inevitavelmente, não será esgotado nesse pequeno texto. Mas quero pelo menos tentar apontar caminhos nos parágrafos seguintes, com uma breve explicação da metáfora dos parágrafos anteriores, para discussões acerca do tema.

De maneira bem pragmática e pouco misteriosa (isso não é muito interessante em um texto, mas vá lá) digo que na metáfora acima os dois irmãos brigões são a Filosofia e a Ciência, amantes do brinquedo, que é o conhecimento. O irmão esquecido é a Poesia.

Como disse acima, o texto de Borges foi o estopim para essa reflexão e a construção dessa metáfora, no entanto, essa ideia já vinha sendo cultivada dentro da minha cabeça há um tempo. Estudando Filosofia da Ciência e própria Filosofia em si, cada vez mais fui percebendo esse verdadeiro embate entre a Filosofia e a Ciência, e creio que dá até pra expandir essa briga (e aí a metáfora ganharia um novo irmão), para dentro da própria Filosofia, no embate entre as filosofias ditas sistemáticas e “fragmentárias”. Enfim, nos campos em que, por definição o conhecimento é o objeto e objetivo, por maiores que sejam os avanços e as conquistas, muita coisa parece não ser conseguida em virtude de desavenças e desencontros.

Aí surge a Poesia. A tarefa (se é que ela tem uma tarefa) dela não é a busca pelo conhecimento. A Poesia é arte e se ocupa com outras instâncias, não necessariamente, nem principalmente com o conhecimento, porém, isso não impede a Poesia de também se deparar com questões epistemológicas, e conseguir reinterpretar essas questões de modo a melhor resolvê-las, a apontar caminhos outros.

Estamos então, caro leitor, no cerne daquilo que falei um pouco mais acima: o despertar de um problema epistemológico através da leitura de um poema de Borges que fala sobre a arte poética.

Retornando à metáfora: parece que o mais interessante a se fazer, para todos os irmãos, é dar um fim à briga entre os dois primeiros e fazê-los perceber que o brinquedo está com o terceiro irmão. Este saberia melhor o que fazer com o brinquedo, afinal estaria em contato com os dois irmãos que já conheciam e gostavam de brincar com ele, e aqueles teriam de volta o tão desejado brinquedo.

Ou seja, longe de parecer uma solução simplista, ou que busque esgotar o assunto, penso que um contato mais forte da Poesia, e da arte poética, com as áreas que por excelência perseguem o conhecimento seriam de extrema validade para todos. Não quero com isso dizer que a solução de todos os problemas epistemológicos do universo está na Poesia, seria muita pretensão e ingenuidade da minha parte.

O conhecimento científico requer toda precisão e solidez e nisso, está claro, a Poesia não pode e nem deve interferir, porém, o conhecimento (e aqui esqueçamos as repartições que com o passar dos séculos foram feitas dentro do conhecimento. Não quero falar de um conhecimento estritamente científico, filosófico e/ou poético, mas sim de um conhecimento maior, que abarque todos esses) pode sim receber o auxílio luxuoso da Poesia.

A Poesia, entretanto, está esquecida, como o irmão da metáfora. E longe das discussões “sérias” sobre o conhecimento, ela, sem compromisso algum, consegue, livre de preconceitos e limitações, chegar até alguns pontos que os embates entre Ciência e Filosofia muitas vezes impedem essas duas áreas de chegar.

Não deve-se deificar a arte e a poesia, mas ao mesmo tempo não deve-se menosprezá-las e encará-las apenas como uma atividade entre outras, totalmente a margem de tudo o que é importante e necessário para o conhecimento.

As conquistas epistemológicas, se temperadas com a sensibilidade e a leveza da Poesia tendem a ser mais frutíferas e verdadeiras. Preconceitos, pressuposições e temeridades muitas repudiam essa tese. Por quê?

A pergunta fica e eu encerro o texto com um trecho do poema que foi o motivo e a razão do próprio texto:

Ver en el día en el año un símbolo

de los días del hombre de sus años,

convertir el ultraje de los años

en una música, un rumorr un símbolo,

ver en la muerte el sueño, el ocaso

un triste oro, tal es la poesía

que es inmortal pobre. La poesía

vuelve como la aurora el ocaso.2

REFERÊNCIAS BIBLOGRÁFICAS

BORGES, Jorge Luis. Ofazedor. Tradução: Josely Vianna Baptista. – São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Título original: El hacedor (1960).

DIAS, Rosa Maria. Nietzsche, vida como obra de arte. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

1 DIAS, 2011. p. 55.

2 BORGES, 2008, p. 148.

QuimeraTube #67

Pra começar o mês bem!

“And out spring some sparkling thoughts…”