Coruja de Minerva #07

O post de hoje da série Coruja de Minerva é uma espécie de resenha que fiz – nos moldes acadêmicos, mas sem qualquer obrigação – sobre um livro que foi, literalmente, um achado. O livro em questão é Introdução ao filosofar: o pensamento filosófico em bases existenciais, do autor gaúcho Gerd Bornheim.

O ato de filosofar

Resenha de: BORNHEIM, Gerd A.. Introdução ao filosofar: o pensamento filosófico em bases existenciais. 6ª ed. Rio de Janeiro: Globo, 1983.

Gerd Bornheim, neste ensaio que originalmente serviu como tese para concurso à livre-docência[1], nos coloca um problema que muitas vezes passa despercebido, ou nem chega a ser colocado como um problema: quais são os caminhos, as inquietações existenciais e as motivações que levam o filósofo a filosofar?

No capítulo inicial deste ensaio que se tornou o livro sobre o qual nos debruçamos, o autor coloca o problema supracitado no parágrafo anterior e nos mostra a importância de questionar esse problema, por um viés existencial, não se importando se o pensamento do filósofo não leve em conta esse aspecto. É por isso que Bornheim cita o exemplo de Descartes: o filósofo francês em momento algum dentro de sua filosofia formulou um pensamento que possa ser chamado de existencial, no entanto, teve um impulso inicial existencial para construir sua filosofia.

Partindo desse exemplo, o próprio autor especifica, de uma maneira bastante profícua a tarefa que se propõe na presente obra:

O estudo da consciência filosófica, desde a sua etapa ingênua e pré-filosófica até o despertar para o problema do sentido da realidade, acompanhando as etapas básicas e necessárias de seu desenvolvimento, é o que se propõe, mais especificamente, o autor dessas páginas.[2]

Ainda no primeiro capítulo, o autor apresenta, de maneira mais ampla, o movimento dialético que ele percorre durante o livro, especificando cada momento deste movimento: a admiração ingênua (gênese do filosofar), seguida de um comportamento dogmático, a ruptura desse primeiro momento, através da experiência negativa, que pode se manifestar de várias maneiras e é marcada pela dúvida e pela crítica e, por fim, a chamada “conversão filosófica”, síntese do movimento dialético, que seria, de fato, o ato de filosofar.

Durante o livro, cada um desses momentos é exemplificado e detalhado, será este também o mesmo percurso da presente resenha. Refazendo o caminho do autor pretendemos mostrar a importância dessa “conversão filosófica” para qualquer filósofo.

Ainda no primeiro capítulo, Gerd Bornheim nos fala um pouco, remontando-se às filosofias de Platão e Aristóteles, do principal tema dos dois capítulos seguintes, aquele que ele considera uma atitude fundamental para o filosofar: a admiração. Com o seu caráter de abertura ao mundo, a admiração constitui um movimento positivo do homem, movimento que dá sentido à realidade e coloca no homem o gérmen filosófico.

No entanto, dentro da admiração, o autor percebe problemas, que não fazem dela, unicamente, a resposta para o problema aqui colocado. A admiração “pura” é ingênua, ou seja, quando se está admirado com alguma coisa, a princípio, também se está num gesto ingênuo, isso gera no homem que está admirado um comportamento dogmático, pré-crítico e, assim, ainda não o faz capaz de filosofar.

A análise desse comportamento dogmático do homem é o tema central do terceiro capítulo. Com a admiração o homem consegue enxergar sentido no mundo. Porém, permanecer numa visão extremamente confiante e otimista nesse sentido, paralisa o homem, diminui o seu horizonte, que fica como que aprisionado em um único e irrevogável sentido, em uma visão de mundo pronta e fechada. A postura dogmática, acima de tudo, tende a propiciar sempre uma perspectiva pragmática e, porque não, utilitarista, acomodando-se sempre em uma segurança fundamental, em um sentido que garanta todo o resto.

Não é sem propósito que o autor conclui que: “o homem só abandona a postura dogmática a partir do momento em que julgar, por razões suficientemente radicais, que a realidade, basicamente, deixou vacilar ou perdeu o seu sentido[3]”.

Para chegar a esse ponto e, posteriormente, conseguir transcendê-lo, o homem necessita de uma experiência de ruptura, que pode se expressar de várias formas e é notadamente marcada pela crítica e pela negatividade.

É a chamada experiência negativa, segundo momento do grande movimento dialético proposto na obra, tema principal dos capítulos quatro, cinco e seis.

No capítulo quatro, o autor nos situa no problema da experiência negativa. E através dela e, somente através dela, que o homem consegue transpor as amarras da dogmaticidade e chegar a um outro momento. Embora a experiência negativa tenha sido pensada e ponderada durante toda a história da filosofia, é no pensamento do século XX que ela terá de fato uma importância quase que central:

A valorização da experiência da negatividade invadiu o pensamento contemporâneo. A conseqüência [sic] são análises extremamente lúcidas e penetrantes, que põem [sic] à disposição do pesquisador um material imenso. Às vezes, contudo, o valor da experiência da negatividade é exacerbado, passando a valer, com maior ou menor intensidade, como um absoluto, advindo daí o problema do niilismo, uma das questões centrais da tão discutida crise contemporânea.[4]

Disso decorre que, a característica básica da experiência negativa, antes de tudo, é o seu caráter egocêntrico, pois, ao contrário da admiração, onde o homem vê no mundo algo que lhe dê sentido, a experiência da negatividade leva o homem para dentro de si mesmo.

O autor então divide, no capítulo cinco, sem a pretensão de nenhuma exatidão, mas de ilustração, quatro diferentes posturas assumidas dentro da experiência da negatividade, a saber: a postura de passividade intelectual, de atividade intelectual e, da mesma forma, de passividade existencial e atividade existencial.

A consciência da ignorância e a dúvida (seja ela cética ou metódica) configuram os dois tipos de experiência negativa intelectual, sendo aquela passiva e esta ativa. Para explicá-las melhor o autor utiliza exemplos como os de Husserl e Descartes.

Já as experiências negativas existenciais são ilustradas pela angústia e pela revolta. A primeira, passiva, é explicada através da personagem Antoine Roquentin, protagonista do romance A Náusea, de Jean-Paul Sartre. A segunda, ativa, é explicada através da revolta metafísica, de Albert Camus.

Esses tipos de experiências negativas citados possuem certas nuances e particularidades, que foram devidamente exploradas pelo autor no decorrer do texto. Como nosso objetivo na presente resenha é uma visão panorâmica da obra e foca no movimento dialético como um todo, que é o fio condutor do livro, não entraremos nas nuances e particularidades de cada experiência negativa.

O que se faz necessário para o nosso propósito é o seguinte: qual é a importância da experiência negativa para o ato de filosofar? Por que a experiência negativa se coloca como o passo seguinte, após a admiração ingênua e o comportamento dogmático do homem?

O autor nos dá indícios das respostas para essas questões no capítulo seis. A essência dessa chamada experiência negativa, em qualquer de seus âmbitos e categorias é a separação, a ruptura, a negação.

Posto isso, as experiências da negatividade se mostram como um passo necessário para se desenvolver o espírito crítico, os questionamentos e inquietações, momento crucial para o filosofar, afinal, sem essa tomada de postura de negação e crítica ao que é dado não se faz filosofia.

No entanto, a experiência negativa não é algo assim tão simples, muitas vezes – o autor nos alerta para isso – ela não se torna apenas um momento dialético na caminhada para a síntese, o ato de filosofar, ela se configura como uma quebra do movimento dialético. Isso se dá quando o homem mergulha de tal maneira nela, que se fecha aí, a consequência final disso não é outra que não o niilismo.

Porém, não é exatamente a saída niilista que é buscada aqui e sim a “conversão filosófica”, por isso o autor nos diz:

Se através da experiência negativa se verifica uma perda do mundo, esta mesma experiência possibilita a abertura do horizonte para uma reconquista do mundo. Tal reconquista, por sua vez, só é possível na medida em que se ultrapassar a experiência da negatividade, vencendo o egocentrismo que constitui a sua alma. Pois o característico da experiência da negatividade é tornar o homem prisioneiro de seu próprio inferno, limitando-o à sua particularidade. E o único caminho para vencer essa prisão radica num ato de conversão espiritual, numa autêntica metanóia [sic], no sentido de estabelecer-se uma abertura para a realidade, superadora de toda experiência negativa, descentralizadora do egocentrismo.[5]

Chegamos então, enfim, ao capítulo sete: A conversão filosófica. É neste capítulo final que Gerd Bornheim chega à conclusão de sua tese principal, é aqui que o movimento dialético se concretiza. Tanto a admiração quanto a experiência negativa possuem suas características filosóficas. Entretanto, ambas também possuem limitações que só devidamente repensadas podem ser eliminadas. Depois do filtro crítico da negatividade a admiração pode possuir estatuto filosófico, da mesma forma que, a experiência da negatividade, tocada por uma admiração que não seja ingênua pode ser superada, livrar o homem do egocentrismo e abri-lo novamente para o mistério do mundo.

Após esses movimentos se dá a conversão filosófica. O homem então pratica um ato que, justamente por ter sido existencialmente assumido e vivido, requer responsabilidade, decisão. Assumir a filosofia como tarefa, intensamente.

Podemos, assim, afirmar que o espírito crítico traz em seus lábios tanto o fel da negatividade quanto o sabor do desvelamento do real. Se, de um ponto de vista genético, mergulha na experiência negativa, o que lhe dá dimensão filosófica, porém, é o permanecer disponível ao mistério do real. Neste sentido, pode-se compreender a passagem da indiferença ontológica para a problemática da diferença ontológica, isto é, todo o comportamento que faz o homem transcender a sua dogmaticidade relativa ao fundamental.[6]

O autor termina sua obra mostrando, de maneira bastante clara, como o movimento dialético proposto e defendido por ele durante a mesma é completado e como é esse movimento dialético que mostra a ascensão do homem à filosofia. Esse processo é, de fato, existencial, passa pelas vivências e inquietações do homem que filosofa, independente de qual seja a filosofia que saia daí.

Outro ponto válido a ser ressaltado é que em nenhum momento da obra, Gerd Bornheim propõe que a tese defendida por ele seja tomada como uma espécie de guia ou manual para se filosofar. Não! As possibilidades de o homem permanecer no comportamento dogmático ou se fechar na experiência da negatividade existem e podem levar a outros caminhos que não a filosofia e até mesmo a conversão filosófica pode gerar pensamentos completamente díspares. O essencial e indispensável é conseguir perceber que o ato de filosofar só é transparente quando transcende. A obra e a nossa resenha terminam assim:

A Filosofia é uma ocupação do homem, que encontra nele o seu ponto de partida como também o seu ponto de chegada. Contudo, o homem não pode ser compreendido como uma realidade reduzida ou fechada sobre os seus próprios limites. Neste sentido, podemos dizer que o homem não é a medida do homem, pois a fidelidade à sua própria essência só é compatível com um comportamento cujas raízes se encontram no sentido da abertura, de disponibilidade, de consentimento admirativo ao ser. Consentindo ao ser, realiza-se o homem como liberdade e como inteligência. O ser é, pois, a medida do homem e do filosofar.[7]


[1] Cf. Advertência In.: BORNHEIM, Gerd A.. Introdução ao filosofar: o pensamento filosófico em bases existenciais. 6ª ed. Rio de Janeiro: Globo, 1983.

[2] BORNHEIM, 1983, p. 4.

[3] BORNHEIM, 1983, p. 39.

[4] BORNHEIM, 1983, p. 54.

[5] BORNHEIM, 1983, p. 78-9

[6] BORNHEIM, 1983, p. 94.

[7] BORNHEIM, 1983, p. 100.

3 pensamentos sobre “Coruja de Minerva #07

  1. Ivan Bilheiro disse:

    MUITO bem escrita a resenha, meu caro. Fico ainda mais instigado à leitura da obra trabalhada. Temo, contudo, que discordarei dos caminhos apontados para a “saída” do estado de negatividade. Parece-me que houve certa diminuição do potencial filosófico próprio a esta etapa, especialmente naqueles pensadores que nela se fixam, como é o caso do posicionamento niilista, bem colocado. Veremos. Mais discussão filosófica (e café) vem por aí! Abraço!

  2. Grande Ivan! Muito obrigado pelo comentário.
    Até concordo contigo quando você diz que parece que houve uma certa diminuição do potencial filosófico da etapa da negatividade. Colocando esse etapa como apenas um momento do movimento dialético desenvolvido na obra realmente é essa impressão de diminuição a que fica. Sim, existem posicionamentos niilistas muito densos e interessantes de se explorar, no entanto, o que Gerd Bornheim parece querer afirmar com a tese proposta na obra resenhada é mostrar que, por mais intrigante que seja esse posicionamento niilista (e realmente é!), fixar-se nele, assim como fixar-se no posicionamento dogmático, ainda não é, de fato, filosofar.
    Enfim, pode preparar o café que o papo vai ser bom! haha

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