O poeta que esqueceu de transcender

Nas paredes da memória os quadros insistem em ficar tortos, não pode haver perfeccionismo se o critério não é perfeito. E por acaso existe algum critério perfeito?

Desgaste e gasto.

 O poeta que esqueceu de transcender

 “Vejo o poeta inspirado em coca-cola

Que poesia mais estranha ele iria expressar.”

Raul Seixas

Dizem que a atividade do poeta é loucura, desvairio.

Tem gente que o ridiculariza: “é abstração demais, viagem demais!” e tem outros que o exaltam: “é abstração! Demais! É viagem! Demais!”, entre uns e outros existe o “objeto” dos comentários alheios, o poeta sim senhor.

Mas aquele poeta em específico (aquele ali, do lado de lá da rua, andando de cabeça baixa, quase parando…) andava bastante desanimado da vida, da atividade poética, de toda e qualquer criação, abstração, abstração ou criação.

O sentido daquelas palavras postas ali no papel parecia não existir mais pra ele e cabisbaixo e triste ele andava pelas ruas, esbarrando em pessoas, que passavam cinzas e desinteressantes, desviando de carros, que corriam mecânicos e duros, e pensando em outros carnavais, quando a poesia ainda fazia todo o sentido para ele.

Essa triste história, que vai ganhando forma nesta crônica tem cara daquelas intermináveis ladainhas meio cult, meio românticas que pululam o imaginário de muitos jovens e adolescentes que já tiveram contato com poemas e poesias, filmes e novelas, tidos como “sérios”. Como diria Tom Zé: “vá ser sério assim no inferno!”.

É muito fácil ser niilista através de experiências alheias ou de conceitos fechados e inexplorados. Assim como faz o poeta do outro lado da rua, que acredita nesse papo atraente e bonitinho de que “nada mais faz sentido”, ficar se preocupando a todo o momento com seriedade e dignidade é – por mais absurdo que isso possa parecer – um ato de comodismo.

O poeta que esqueceu de transcender é aquele cara que, do alto de suas possibilidades se fecha em apenas uma e esquece de todas as outras. Ele pensa que todo poema é igual. Ele quer uma exatidão na contingência e por mais paradoxal que isso seja, não chega a ser poético, muito menos possibilidade válida para um poeta.

A grande brincadeira do presente texto, desavisado leitor, é tentar se imaginar não como o poeta do outro lado da rua, mas sim transplantar essa alegoria e se imaginar como um ser humano que vive como o poeta do outro lado da rua.

Pode até parecer uma grande e desvairada besteira, mas será que não é nem um pouco significativo tanto para o poeta quanto para o homem repensar sempre e toda vez sua condição criadora e espontânea e não se fechar em herméticos caixotes de niilismo ou comodismo?

Atitude pode ser apenas uma simples palavra, perdida entre tantas outras no meio do papel. Todavia, também pode ser uma atitude de fato. E a atitude poética frente ao mundo talvez seja a mais visceral, a que mais transcende. O poeta e o homem que esquecem de transcender perdem, definham, se esvaem.

E é por isso que do lado de cá da rua comodismos, niilismos, perdas, tristezas, lamentações e afins são subvertidos e transformados em minúsculas pedrinhas, onde meus pés, cada vez mais firmes, pisam e buscam novos caminhos.

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