Coruja de Minerva #06

Dia de post da filosófica série Coruja de Minerva.

Hoje vou fazer quase que uma “brincadeira” aqui.

Olhando meus textos antigos, do início da faculdade (na época tinha 17 anos!) me deparei com um que falo sobre a Apologia de Sócrates – texto clássico em qualquer curso de Filosofia – e literalmente me diverti com as coisas que escrevi na ocasião. O que resolvi fazer então? Publicá-lo aqui no Un Quimera, no post de hoje, como exercício de olhar para trás e ver como, inclusive textualmente, nós mudamos e mudamos bastante!

Citando Raul Seixas e bastante empolgado com a Filosofia Antiga, escrevi esse texto e agora, três anos depois, publico aqui:

O Mártir da Filosofia 

“Vida: alguma coisa acontece. Morte: alguma coisa pode acontecer”.

Sócrates foi um grande filósofo, um dos pioneiros dessa área e ensinou muito a seus discípulos assim como continua ensinando a todos que buscam aquilo que está sob a luz, a verdade em sua plenitude.

Porém Sócrates, durante seus aproximadamente 71 anos de vida,  não deixou nada escrito e por isso todos os seus ensinamentos estão contidos em obras dos seus discípulos.

Trato de uma dessas obras em especial no presente texto: Apologia.

Escrita por um dos seus mais famosos discípulos, Aristócles (vulgo Platão), Apologia é uma obra que nos mostra a defesa de Sócrates contra as acusações que sofreu da tríade Meleto, Ânito e Lícon; passando por um diálogo entre Sócrates e Meleto, chegando até a pena que recebeu Sócrates e terminando com os momentos pós-condenação. Dali pra frente poucos foram os momentos que separaram o venerado filósofo de sua taça de cicuta.

Segundo o doxógrafo Diógenes Laércio, a acusação sofrida por Sócrates foi a seguinte:

“A seguinte acusação escreve e jura Meleto, filho de Meleto, do povoado de Piteo, contra Sócrates, filho de Sofronisco, do povoado de Alópece. Sócrates é culpado de não aceitar os deuses que são reconhecidos pelo Estado, de introduzir novos cultos, e, também, é culpado de corromper a juventude. Pena: a morte”.

Partindo disso, Platão expõe detalhadamente a auto-defesa de Sócrates perante seus acusadores e todo povo ateniense.

Sócrates fundamenta muito bem sua defesa utilizando-se de argumentos sólidos, mas não de uma maneira prolixa ou com o intuito de enganar, ele mesmo antecipa como será seu discurso: “serão expressões espontâneas, nos termos que me ocorrerem, porque deposito confiança na justiça do que digo; nem espere outra coisa qualquer um de vós”.

Primeiramente Sócrates expõe ao povo que existiam antigos e novos acusadores e diz que os primeiros são os mais perigosos pois proferiram muitas calúnias a seu respeito. Até citar seu grande amigo Querefonte, e dizer que uma atitude deste gerou uma grande pesquisa feita pelo próprio Sócrates.

Em meio a todas as acusações que Sócrates vinha sofrendo, Querefonte resolve ir ao oráculo de Delfos perguntar se existia alguém mais sábio que seu amigo Sócrates, a resposta foi negativa e como o oráculo jamais mente Sócrates resolve buscar nos sábios de sua época (políticos, poetas, artesãos) alguém mais sábio do que ele.

O simples fato de ter essa crença ferrenha na palavra do óraculo já pode ser considerado um dos álibis de Sócrates, afinal, se ele realmente não acreditasse nos deuses por que cargas d’água acreditaria no oráculo?

Enfim, Sócrates relata sobre sua pesquisa, sobre as inimizades que construiu no curso dela e aí surge talvez a mais célebre de todas as frases deixadas por ele: “Só sei que nada sei”.

A grande descoberta de Sócrates nessa pesquisa foi a de que o verdadeiro saber consiste em saber que não se sabe, e com essa certeza Sócrates se mostra tranquilo, e enfim consegue se convencer de que sim, ele era mais sábio do que todos os outros, pois só ele conseguiu enxergar que a certeza do não saber é mais sábia do que qualquer “achismo” de saber.

Isto posto é iniciado um diálogo entre Sócrates e Meleto. Nesse diálogo Sócrates mostra que apesar de não ter sido sofista também era um mestre da retórica, Meleto se contradiz várias e várias vezes, sempre virando presa fácil para os astutos questionamentos de Sócrates, um verdadeiro baile.

Aí então Sócrates começa a falar diretamente sobre a questão da morte:

“Algum de vós poderia talvez altercar-me: ‘Sócrates, não te envergonhas de haveres exercido tal atividade, que agora coloca em risco tua vida?’ Eu responderia a este: ‘Não falas bem se pensas que alguém, tendo a capacidade de fazer algum bem, mesmo sendo pequeno, deva calcular os riscos de vida ou de morte e não deva olhar o injusto e se pratica as ações de homem honesto e corajoso ou de infame e mau’”.

Além de saber que não sabe o outro grande trunfo, a outra grande revolução do pensamento socrático é esta “falta de medo” da morte, ainda nos dias de hoje esse pensamento em relação a morte é considerado por muitos como estranho, são pessoas que tem verdadeira aversão à morte; Sócrates nos mostra que a morte nada mais é do que um caminho pelo qual todos nós um dia vamos passar, e que a justiça e a virtude devem sempre ser seguidas, o medo da morte não pode ser um obstáculo para tal.

Sócrates continua seu discurso cada vez mais seguro, valorizando a alma e mostrando sua abstenção em relação a política comum.

Por fim Sócrates, seguro de que disse tudo da maneira mais sincera possível e que com isso demonstrou sua sabedoria e ao mesmo a estupidez de seus acusadores, chega a conclusão de que não quer misericórdia, deixa tudo nas mãos dos deuses (sim, Sócrates acredita neles) e dos juízes.

A pena então é decretada, Sócrates é condenado a morte e sem nenhum alarde acata essa decisão.

Dirige-se aos que votaram contra ele de uma maneira superior:

“Talvez imagineis, senhores, que me perdi por falta de discursos com que vos poderia persuadir, se na minha opinião se devesse tudo fazer e dizer para escapar à justiça. Engano! Perdi-me por falta, não de discursos, mas de atrevimento e descaramento, por me recusar a proferir o que mais gostais de ouvir, lamentos e gemidos, fazendo e dizendo uma porção de coisas que declaro indignas de mim, tais como costumais ouvir dos outros”.

E dirige-se aos que o absolveram de maneira mais amigável:

“Façamos mais esta refelxão: há grande esperança de que isto seja um bem. Morrer é uma destas duas coisas: ou o morto é igual a nada, e não sente nenhuma sensação de coisa nenhuma; ou, então, como se costuma dizer, trata-se duma mudança, uma emigração da alma, do lugar deste mundo para outro lugar. Se não há nenhuma sensação, se é como um sono em que o adormecido nada vê nem sonha, que maravilhosa vantagem seria a morte!”.

Sócrates parte então para a sua morte mas nos deixa um legado de pensamentos revolucionários que alteraram e alteram todo o estudo relacionado à Filosofia, Sócrates de uma maneira ou de outra foi um visionário, um “mártir da Filosofia”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SEIXAS,Raul. Faça, fuce, force. SEIXAS, Raul. Documento. São Paulo, MZA, 1998. CD. Faixa 3.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. PLATÃO. Coleção Os Pensadores, Nova Cultural, São Paulo, 1999.

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