Arquivo mensal: junho 2012

Coruja de Minerva #06

Dia de post da filosófica série Coruja de Minerva.

Hoje vou fazer quase que uma “brincadeira” aqui.

Olhando meus textos antigos, do início da faculdade (na época tinha 17 anos!) me deparei com um que falo sobre a Apologia de Sócrates – texto clássico em qualquer curso de Filosofia – e literalmente me diverti com as coisas que escrevi na ocasião. O que resolvi fazer então? Publicá-lo aqui no Un Quimera, no post de hoje, como exercício de olhar para trás e ver como, inclusive textualmente, nós mudamos e mudamos bastante!

Citando Raul Seixas e bastante empolgado com a Filosofia Antiga, escrevi esse texto e agora, três anos depois, publico aqui:

O Mártir da Filosofia 

“Vida: alguma coisa acontece. Morte: alguma coisa pode acontecer”.

Sócrates foi um grande filósofo, um dos pioneiros dessa área e ensinou muito a seus discípulos assim como continua ensinando a todos que buscam aquilo que está sob a luz, a verdade em sua plenitude.

Porém Sócrates, durante seus aproximadamente 71 anos de vida,  não deixou nada escrito e por isso todos os seus ensinamentos estão contidos em obras dos seus discípulos.

Trato de uma dessas obras em especial no presente texto: Apologia.

Escrita por um dos seus mais famosos discípulos, Aristócles (vulgo Platão), Apologia é uma obra que nos mostra a defesa de Sócrates contra as acusações que sofreu da tríade Meleto, Ânito e Lícon; passando por um diálogo entre Sócrates e Meleto, chegando até a pena que recebeu Sócrates e terminando com os momentos pós-condenação. Dali pra frente poucos foram os momentos que separaram o venerado filósofo de sua taça de cicuta.

Segundo o doxógrafo Diógenes Laércio, a acusação sofrida por Sócrates foi a seguinte:

“A seguinte acusação escreve e jura Meleto, filho de Meleto, do povoado de Piteo, contra Sócrates, filho de Sofronisco, do povoado de Alópece. Sócrates é culpado de não aceitar os deuses que são reconhecidos pelo Estado, de introduzir novos cultos, e, também, é culpado de corromper a juventude. Pena: a morte”.

Partindo disso, Platão expõe detalhadamente a auto-defesa de Sócrates perante seus acusadores e todo povo ateniense.

Sócrates fundamenta muito bem sua defesa utilizando-se de argumentos sólidos, mas não de uma maneira prolixa ou com o intuito de enganar, ele mesmo antecipa como será seu discurso: “serão expressões espontâneas, nos termos que me ocorrerem, porque deposito confiança na justiça do que digo; nem espere outra coisa qualquer um de vós”.

Primeiramente Sócrates expõe ao povo que existiam antigos e novos acusadores e diz que os primeiros são os mais perigosos pois proferiram muitas calúnias a seu respeito. Até citar seu grande amigo Querefonte, e dizer que uma atitude deste gerou uma grande pesquisa feita pelo próprio Sócrates.

Em meio a todas as acusações que Sócrates vinha sofrendo, Querefonte resolve ir ao oráculo de Delfos perguntar se existia alguém mais sábio que seu amigo Sócrates, a resposta foi negativa e como o oráculo jamais mente Sócrates resolve buscar nos sábios de sua época (políticos, poetas, artesãos) alguém mais sábio do que ele.

O simples fato de ter essa crença ferrenha na palavra do óraculo já pode ser considerado um dos álibis de Sócrates, afinal, se ele realmente não acreditasse nos deuses por que cargas d’água acreditaria no oráculo?

Enfim, Sócrates relata sobre sua pesquisa, sobre as inimizades que construiu no curso dela e aí surge talvez a mais célebre de todas as frases deixadas por ele: “Só sei que nada sei”.

A grande descoberta de Sócrates nessa pesquisa foi a de que o verdadeiro saber consiste em saber que não se sabe, e com essa certeza Sócrates se mostra tranquilo, e enfim consegue se convencer de que sim, ele era mais sábio do que todos os outros, pois só ele conseguiu enxergar que a certeza do não saber é mais sábia do que qualquer “achismo” de saber.

Isto posto é iniciado um diálogo entre Sócrates e Meleto. Nesse diálogo Sócrates mostra que apesar de não ter sido sofista também era um mestre da retórica, Meleto se contradiz várias e várias vezes, sempre virando presa fácil para os astutos questionamentos de Sócrates, um verdadeiro baile.

Aí então Sócrates começa a falar diretamente sobre a questão da morte:

“Algum de vós poderia talvez altercar-me: ‘Sócrates, não te envergonhas de haveres exercido tal atividade, que agora coloca em risco tua vida?’ Eu responderia a este: ‘Não falas bem se pensas que alguém, tendo a capacidade de fazer algum bem, mesmo sendo pequeno, deva calcular os riscos de vida ou de morte e não deva olhar o injusto e se pratica as ações de homem honesto e corajoso ou de infame e mau’”.

Além de saber que não sabe o outro grande trunfo, a outra grande revolução do pensamento socrático é esta “falta de medo” da morte, ainda nos dias de hoje esse pensamento em relação a morte é considerado por muitos como estranho, são pessoas que tem verdadeira aversão à morte; Sócrates nos mostra que a morte nada mais é do que um caminho pelo qual todos nós um dia vamos passar, e que a justiça e a virtude devem sempre ser seguidas, o medo da morte não pode ser um obstáculo para tal.

Sócrates continua seu discurso cada vez mais seguro, valorizando a alma e mostrando sua abstenção em relação a política comum.

Por fim Sócrates, seguro de que disse tudo da maneira mais sincera possível e que com isso demonstrou sua sabedoria e ao mesmo a estupidez de seus acusadores, chega a conclusão de que não quer misericórdia, deixa tudo nas mãos dos deuses (sim, Sócrates acredita neles) e dos juízes.

A pena então é decretada, Sócrates é condenado a morte e sem nenhum alarde acata essa decisão.

Dirige-se aos que votaram contra ele de uma maneira superior:

“Talvez imagineis, senhores, que me perdi por falta de discursos com que vos poderia persuadir, se na minha opinião se devesse tudo fazer e dizer para escapar à justiça. Engano! Perdi-me por falta, não de discursos, mas de atrevimento e descaramento, por me recusar a proferir o que mais gostais de ouvir, lamentos e gemidos, fazendo e dizendo uma porção de coisas que declaro indignas de mim, tais como costumais ouvir dos outros”.

E dirige-se aos que o absolveram de maneira mais amigável:

“Façamos mais esta refelxão: há grande esperança de que isto seja um bem. Morrer é uma destas duas coisas: ou o morto é igual a nada, e não sente nenhuma sensação de coisa nenhuma; ou, então, como se costuma dizer, trata-se duma mudança, uma emigração da alma, do lugar deste mundo para outro lugar. Se não há nenhuma sensação, se é como um sono em que o adormecido nada vê nem sonha, que maravilhosa vantagem seria a morte!”.

Sócrates parte então para a sua morte mas nos deixa um legado de pensamentos revolucionários que alteraram e alteram todo o estudo relacionado à Filosofia, Sócrates de uma maneira ou de outra foi um visionário, um “mártir da Filosofia”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SEIXAS,Raul. Faça, fuce, force. SEIXAS, Raul. Documento. São Paulo, MZA, 1998. CD. Faixa 3.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. PLATÃO. Coleção Os Pensadores, Nova Cultural, São Paulo, 1999.

Le Rouge et Le Noir #18

Assisti ontem à partida entre Grêmio x Flamengo já pensando no que iria escrever aqui hoje. A verdade é que a cada minuto do jogo que passava a vontade de escrever diminuía, mas, ainda assim vou escrever um pouco sobre a partida de ontem e sobre a atual situação do Flamengo.

Poucos dias depois de eu escrever o último post da série Le Rouge et Le Noir, Ronaldinho foi embora do Flamengo. A situação daquele que veio para a Gávea a preço de ouro e que despertou nos torcedores a esperança de conquistar títulos e mais títulos,  já era bem complicada há um bom tempo. Por fim ele assinou a rescisão de contrato com o Flamengo e na semana seguinte foi contratado pelo Atlético Mineiro.

Esse acontecimento de uma forma ou de outra mexeu com os torcedores rubro-negros, a grande maioria, como é o meu caso, creio que já queria a saída dele há um bom tempo e se sentiu aliviada com isso. No entanto, eu logo pensei: bom, agora que o “grande astro” saiu as coisas vão ter que mudar! Não vai existir mais nenhum camisa 10 pra jogar a bola e esperar um milagre acontecer, todo mundo vai ter que jogar de verdade e pior do que tá não fica.

Ledo engano. Parece que mesmo depois da saída de Ronaldinho Gaúcho tudo continua desorganizado e despreocupante. Desorganizado porque nenhum time que joga com quatro volantes no meio-campo toma gol todo jogo, desorganizado porque não se tem mais um time titular bem definido, não se tem um bom esquema tático, despreocupante porque o adversário que enfrenta o Flamengo sabe de tudo isso e quando se depara com o ataque rubro-negro vê sempre as mesmas ineficazes e previsíveis jogadas.

O jogo de ontem contra o Grêmio foi o melhor exemplo disso. Não fosse um certo desinteresse por parte dos gremistas, talvez um tanto abatidos pela recente eliminação na Copa do Brasil, uma goleada histórica poderia ter acontecido. Aqui vale ressaltar também o trabalho do goleiro Paulo Victor, talvez o único jogador rubro-negro que conseguiu fazer algo positivo ontem.

Enfim, a situação e desastrosa e deprimente. Por mais otimista que eu possa ser em relação ao Flamengo, vendo um jogo como o de ontem só dá pra dizer: esse ano vamos ter que lutar e muito pra não cair!

Não sei se a culpa é do Joel, da diretoria, dos jogadores todos ou de alguns em específico, só sei que os torcedores rubro-negros querem algo novo e diferente e não isso o que estamos vendo aí.

*Vale ler também o texto do Arthur Muhlenberg, que segue a mesma linha desse aqui.

QuimeraTube #60

Quem volta ao QuimeraTube hoje é Jards Macalé.

Sua “Negra Melodia” não sai da minha cabeça!

Uma canção vibrante e exótica, bem ao estilo mesmo desse maldito da MPB:

Sísifo Feliz

“Deixo Sísifo na base da montanha! As pessoas sempre reencontram seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que
nega os deuses e ergue as rochas. Também ele acha que está tudo bem. Esse universo, doravante sem dono, não lhe parece
estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada fragmento mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo.
A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz”.

(Albert Camus – O Mito de Sísifo)

Para ler, ouvir e sentir ao som de “Luz  Negra” de Nelson Cavaquinho.

Ó, Sísifo!

Meu amigo e meu irmão
Meu eu e meu outro.
Sentido existe, que não o absurdo?
Existência existe, que não essa?

Berram os animais
Cantam os rios
Assobiam as plantas
E o homem?

O homem chora.
Chora e silencia.

Sua pedra é seu fardo
e também seu combustível.

Seu suor é seu desgaste
e também sua recompensa.

Sua vida é condenada
e por isso mesmo flerta com a liberdade.

Ó, Sísifo, meu caro!

Diga como consegues
que eu também estou tentando.

Diga o que não se diz
que eu ouço e digo: sou feliz!

Rogério Arantes 

Lembra?

Não, ainda não vou falar do disco novo do Rafael Castro de título homônimo ao desse post. Num futuro próximo possivelmente o farei.

O post de hoje é o fim de uma série, iniciada há dois meses. Falo hoje sobre o último episódio da primeira temporada de Black Mirror.

O seriado de Charlie Brooker é curto e grosso (mas ao mesmo tempo pode proporcionar longas discussões e finas apreciações). Com histórias e personagens totalmente diferentes em cada um dos três episódios, o pano de fundo é o mesmo: um mundo contemporâneo (fictício para alguns) onde questões existenciais, políticas, econômicas, tecnológicas são colocadas em jogo.

Vamos ao terceiro episódio:

1×03 – The Entire History of You

Para esse último episódio da temporada, Charlie Brooker parece ter focado mais no drama puro, do que nas sátiras e nos toques de humor ácido dos outros dois episódios. Bom ou mau, isso faz do terceiro episódio um episódio mais sério e mais tenso, não menos interessante por isso.

Dividido em quatro partes, esse episódio tem como principal “protagonista tecnológico” uma espécie de chip, ou “grão” que é implantado no cérebro das pessoas. Esse “grão” armazena todas as memórias das pessoas e permite a elas que assistam toda e qualquer memória, a qualquer momento, em suas tv’s de plasma.

A problemática do episódio parte daí. Liam e Ffion, um casal aparentemente comum, vão jantar com velhos amigos de Fi. A cena da reunião entre os amigos, assim como nos outros episódios, busca resgatar momentos muito reais e muito palpáveis pra qualquer um de nós, no entanto, sempre leva em conta as diferenças tecnológicas (no caso esse “grão”) do mundo Black Mirror, para o nosso mundo.

Nesta reunião entre amigos, surge Jonas. Um cara bem irônico e ácido, que solta os principais pitacos da conversa. Liam percebe que sua mulher Ffion dá muita atenção a Jonas, ri de suas gracinhas e tudo mais. Voltando pra casa, a desconfiança de Liam vai aumentando e no decorrer do episódio os arquivos de memória vão sendo analisados na tv de plasma e Liam descobre do relacionamento amoroso de sua mulher Ffion e de Jonas.

Mais uma vez, como venho pontuando nos outros posts sobre a série, um assunto, um roteiro bem comum, bem batido é transportado pra uma nova ótica e assim resignificado e assim pode ser pensado de outras e novas maneiras.

Considerando que através dos arquivos de memória proporcionados por essa tecnologia, você pode rever e relembrar de tudo, literalmente tudo; os momentos bons e divertidos, os momentos de possível traição ou coisa parecida (como é o caso do episódio), como ficam as relações e as interações estritamente humanas? É um novo e nunca antes visto desafio que Charlie Brooker nos propõe neste último episódio.

O fim do episódio, assim como ocorre nos outros dois, é emblemático. E pode ajudar ainda mais nesses pensamentos acerca da memória, da “capacidade de lembrar em outro tempo, do vento futuro que passou na flor do tempo” como diria José Paes de Lira.

Enfim, chegam aos fim os meus posts sobre Black Mirror. Espero que novas temporadas venham por aí, para então surgirem novos posts e pensamentos sobre a série. Acredito mesmo que os três posts sobre a série tenham ficado um pouco confusos, principalmente o do segundo episódio, devido àquela minha vontade de falar muito, mas ao mesmo tempo não dar spoiler nenhum. A intenção é chamar a atenção dos leitores do blog para assistirem a série, e então depois, se quiserem conversar sobre aqui nos comentários ou em qualquer lugar.

QuimeraTube #59

Tem horas que eu acho que o samba consegue dizer coisas, tocar em coisas que são de difícil acesso pra muitos dos chamados “poetas”…

Com essa dupla aí então, nem preciso falar nada:

Pintura

Tem coisas na vida
que a gente só vê uma vez
e mais abstrato do que você possa imaginar
falo isso tanto para os olhos do mundo
quanto para os olhos da alma.

Tem coisas na vida
que a gente só vê uma vez
e mais concreto do que você possa imaginar
falo isso tanto para a percepção da alma
quanto para a percepção de mundo.

Num momento singular da vida
me deparei com uma visão ainda mais singular:

Uma linda borboleta voando
e como que se equilibrando
no brilho e na matéria de uma estrela.

E eu sei lá o significado disso!

Só sei que essa surreal visão me transformou.
Me transformou num novo homem.
Num homem que não quer saber o significado dessa imagem.
Num homem que só quer sentir e amar
cada detalhe e cada nuance
dessa romântica e atípica imagem.
Dessa imagem por vezes distante
e quase que inalcançável pra esse novo homem.
Dessa imagem tão bela e tão intensa
e por isso mesmo inesquecível pra esse novo homem.

E por saber que tem coisas na vida
que a gente só vê uma vez
o eu-poeta, o eu-lírico e o eu-homem
só pensam em capturar essa imagem,
fazer a distância e as complicações todas
desaparecerem de uma forma ou de outra
e poderem apreciar o máximo possível
essa borboleta, esse equilíbrio e essa estrela!

Essa imagem intensa e instigante
Esse real superior a qualquer ideal
Essa coisa doida e liberta,
esse último suspiro de sentido
na vida desse poeta!

Rogério Arantes