Releituras Pop #02

O que prezar na hora de criar uma obra de arte? O resultado ou o processo criativo?

Vai ser em cima dessas questões que o segundo post da série Releituras Pop abrirá o mês de abril no Un Quimera.

É bom frisar que, ao tentar responder estas perguntas, não pretendo entrar em um julgamento de valor ou qualidade. Quer dizer: não estou dizendo que é melhor ou mais bonito valorizar o resultado em detrimento do processo criativo ou vice-versa, porém, e este é o ponto onde quero chegar, a escolha de uma dessas duas opções fatalmente leva a obra de arte para caminhos bem distintos.

Até pelo fato do nome da série ser Releituras Pop, vou tentar utilizar músicas do mundo pop para ilustrar essa polaridade. E pra não dizer que estou sendo saudosista ou coisa do tipo, vou lançar mão somente de exemplos da música contemporânea. Vamos lá.

Acredito que lá pelos idos de 2009 todo mundo, se não ouviu, ao menos ouviu dizer sobre o hit do momento: a Dança do Créu.

Pra quem quiser relembrar temos o vídeo:

A pergunta é: onde fica o processo criativo nessa música?

Não nego que, como já disse acima, essa música fez um sucesso estrondoso em 2009, caiu na boca do povo, tocou em todas as rádios, etc e tal. Mas qual teria sido a motivação de MC Créu ao compor esta música se não o resultado? Ou seja, a fama, o sucesso, o dinheiro? Ou será que por acaso ele pensou em como a gíria créu pode ser inserida dentro do contexto social das pessoas ou coisa do tipo?

Vamos agora para um outro exemplo. Ano passado, quem também fez muito sucesso foi o rapper Criolo. Até então não muito conhecido no mainstream, Criolo, com o disco Nó na Orelha, ganhou inúmeros prêmios, elogios e etc.

Uma das canções do premiado disco é Scurilhos:

Eu, mesmo se quisesse muito, jamais saberia qual foi a intenção e a motivação de Criolo para escrever essa música, no entanto, dá pra pelo menos tentar dar palpites sobre isso e eventualmente meu palpite será dizer que Criolo valorizou e muito o processo criativo dessa canção.

Ao tocar em problemas sociais, utilizar gírias talvez tão comuns quanto o próprio créu, mas pensando-as de forma que se adequem a uma crítica ou a uma exaltação de sua cultura, Criolo deve ter pensado e se dedicado muito na produção da música. Ele não esperava um bom resultado? Ele também não queria fama, sucesso e dinheiro? Não sejamos hipócritas, é lógico que, inserido num contexto de indústria fonográfica, ele poderia querer tudo isso sim. Porém, e aqui está o grande diferencial, isso não parece ser o objetivo principal dele. Tanto em suas próprias canções quanto em entrevistas e afins, Criolo se mostra como alguém preocupado socialmente, culturalmente e que, por conta disso, não visa o resultado em detrimento ao processo criativo.

Colocados dois exemplos contempoorâneos e devidamente explicado os porquês deles valorizarem mais o resultado ou o processo criativo, termino o post dizendo praticamente a mesma coisas que já disse antes: escrevi tudo isso hoje não pra falar que Criolo é melhor do que MC Créu ou vice-versa, não pra falar que a Dança do Créu é mais interessante que Sucrilhos ou vice-versa. Eles são apenas bem diferentes. A questão aqui é perceber as diferenças e identificar o porquê delas existirem.

Se você faz uma música, um quadro, um poema, qualquer coisa, visando e valorizando o resultado, a sua criação tende  a ser automática e repetitiva, afinal, se você vê um resultado que deu certo, fatalmente você pensará em copiá-lo ou ao menos se assemelhar a ele.

Se você faz uma música, um quadro, um poema, qualquer coisa, visando e valorizando o processo criativo, a sua criação tende a ser mais bem pensada, sigular, cheia de elementos que façam dessa criação algo enriquecedor tanto para criador quanto para aqueles que irão admirar a criatura. O resultado então torna-se apenas uma consequência.

Esse foi o segundo post da série Releituras Pop. Que tal repensar um pouco sobre essas diferenças dentro das músicas pop? Vocês leitores têm mais algum exemplo que se encaixe na valorização do resultado ou na valorização do processo criativo?

2 pensamentos sobre “Releituras Pop #02

  1. Nis Evangelista disse:

    Muito bem colocado, querido Rogério. Digo até mesmo que concordo. Tornando tudo isso bem clichê, o processo vem do coração.
    No entanto, quem não precisa se afugentar em criações frutos de visões-de-resultado para aguentar levar na cara no dia seguinte devido aos problemas sociais?
    Como diria o Chico, “sem a cachaça, ninguém aguenta esse rojão”. O funk, na atualidade, é fiel parceira da cachaça, rs.

  2. Entendo muito bem o seu ponto, Nis!
    Talvez possamos dizer mesmo que o processo vem do coração, mas, independente de onde ele venha, o principal objetivo do post era tentar contrapor algo que eu julgo ter sido criado com um certo desapego do que viria depois (sucesso, fama..) e algo que parece ter sido feito esperando e muito o que viria depois. Contudo, friso durante o post que essas duas linhas são apenas diferentes e não melhores, nem piores do que a outra.
    Ora, o funk é uma das infinitas possibilidades musicais dos dias de hoje, pode sim ser encarado como a cachaça musical da pós-modernidade (pelo menos no Brasil), buarqueanamente falando. Porém (e aí talvez entre minha predileção pelo som do Criolo.. rs) o funk em geral é um processo de criação musical automático, que visa o resultado quase que exclusivamente, é fácil perceber isso ao ver tantos MCs, como o MC Créu por exemplo, que possuem canções com nomes iguais ao seus (MC Créu – Dança do Créu) e por aí vai.
    Logo, nos dias atuais é quase que impossível separar de fato essas duas linhas que eu contrapus e também é quase que impossível não fazer uso da linha que visa o resultado, da cachaça pra aguentar o rojão. Mas será que temos que viver mesmo só com cachaça, ou ainda, com tanta cachaça? Por que não comer logo uma feijoada completa?

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