Arquivo mensal: abril 2012

QuimeraTube #56

Pra fechar o mês no Un Quimera, vamos cair no suingue, porque essa vida não tá mole, vamos fazer assim pra nos segurar:

Sargento Garcia: a marginalidade homoerótica e filosófica

Acabei de publicar no Sempre um livro, uma reflexão acerca de um conto de Caio Fernando Abreu, intitulado “Sargento Garcia”.

Falar de Caio Fernando Abreu hoje é em dia é sinônimo de modinha coisa do tipo, como um dia falar de Nietzsche já foi sinônimo de modinha ou coisa tipo. O que quero deixar claro é que, pelo menos na minha singela opinião, a obra de Caio Fernando Abreu é riquíssima e merece muitas leituras, estudos e afins, não é apenas pra virar frase bonitinha de facebook.

Um possível estudo, uma possível reflexão sobre essa obra eu acabei de fazer e publico aqui também. Tento encontrar pontos de contato entre o homoerótico e o estudante de Filosofia. O que? Tá assustado? Dá uma lida aí, sem muito preconceito e vê se concorda, discorda, curte ou descurte o meu texto:

Sargento Garcia: a marginalidade homoerótica e filosófica

O conto “Sargento Garcia”, parte integrante do livro “Morangos Mofados” de Caio Fernando Abreu é tido por muitos como uma bandeira do homoerotismo. Ele por si só, adapatações cinematográficas e vários estudos denunciam essa característica do conto. No entanto, o que muitas vezes é esquecido é a possibilidade de contato dessa marginalidade do homoerotismo, enquanto necessidade de se afirmar frente os preconceitos da sociedade, com a marginalidade da Filosofia, em especial do estudante de Filosofia, frente a essa mesma sociedade. O que pretendo aqui é tentar explicitar esse contato, e mostrar como ao mesmo tempo distantes e sem uma conexão, o homoerotismo e a Filosofia também podem ser, em alguns aspectos, muito próximos.

O conto, a exemplo de vários outros contos do mesmo autor, tem uma escrita bem clara e direta, ainda que ocorram divagações durante as falas das personagens e do próprio narrador, Caio F. diz muito bem o que quer dizer sem muitos preconceitos ou ”não me toques”.

Tudo começa com uma apresentação ao Exército – experiência comum e necessária a todos os homens de dezoito anos – onde a personagem que dá nome ao conto, Sargento Garcia, demonstrando-se alguém rude e severo chama pelo nome de Hermes, a outra personagem de destaque no conto. Durante um longo diálogo entre ambos, a atmosfera do lugar também vai sendo descrita pelo autor. A ênfase é no mau cheiro dos corpos dos homens nus, misturados a bosta de cavalo e à severidade de Sargento Garcia.

Um momento importante do diálogo que pretendo destacar é aquele que está relacionado com a Filosofia:

– Trabalha?

– Sim, meu sargento – menti outra vez.

– Onde?

– Num escritório, meu sargento.

– Estuda?

– Sim, meu sargento.

– O quê?

– Pré-vestibular, meu sargento.

– E vai fazer o quê? Engenharia, direito, medicina?

– Não, meu sargento.

– Odontologia? Agronomia? Veterinária?

– Filosofia, meu sargento. (ABREU, 1995, p. 61).

A reação de Sargento Garcia diante da escolha do curso de Hermes é singular e sintomática, logo em seguida ele diz:

– Pois, seu filósofo, o senhor está dispensado de servir à pátria. Seu certificado fica pronto daqui a três meses. Pode se vestir. – Olhou em volta o alemão, o crioulo, os outros machos. – E vocês, seus analfabetos, deviam era criar vergonha nessa cara porca e se mirar no exemplo aí do moço. Como se não bastasse ser arrimo de família, um dia ainda vai sair filosofando por aí, enquanto vocês vão continuar pastando que nem gado até a morte. (ABREU, 1995, p. 61-62).

Após a dispensa, Hermes vai caminhando de volta pra casa, mas no meio do caminho vê um Chevrolet antigo parar na sua frente. Era o Sargento Garcia. Agora sem a mesma severidade que demonstrava no quartel, o bigodudo e másculo sargento oferece uma carona a Hermes, este, meio sem jeito, entra no carro.

Dentro do carro a relação entre os dois, que até então era hierárquica e respeitosa, vai começando a se suavizar e no momento em que Sargento Garcia começa a passar a mão na coxa de Hermes o caráter homoerótico do conto é explicitado de vez.

Em meio às passadas de mão e afins, a conversa de ambos gira em torno do fato de Hermes ter escolhido a Filosofia como curso. Sargento Garcia se mostra interessado nisso e diz que apesar de ter de ser durão no quartel, enquanto pessoa ele gosta da tal Filosofia.

Hermes então fala sobre Leibniz, filósofo racionalista que desenvolveu a teoria das mônadas, com certa empolgação. Sargento Garcia até se interessa, mas meio que voltando à sua realidade – que é o quartel, a vida dura e cinza – diz que lá não tem nada desse negócio de “mônicas” (sic) não. A troca de mônadas por mônicas parece ser intencional, o autor tenta deflagrar ainda mais, de maneira sutil, a estranheza que a Filosofia e certos conceitos filosóficos causam naqueles que vivem à margem dela.

O contato dos dois dentro do carro vai esquentando e Sargento Garcia sugere que eles vão a um lugar mais reservado e confortável. É aí que entramos no ápice do conto. Sargento Garcia leva Hermes a nada mais, nada menos do que uma “casa de quartos”, comandada pela travesti Isadora.

Ela mostra-se muito conhecida do Sargento Garcia, o que indica que o sargento é um cliente assíduo do lugar. Isadora conduz o casal até o quarto nº 7 e então é descrito o ato sexual dos dois, sem muito pudor. Como disse acima, Caio Fernando Abreu não parece querer se enquadrar em uma escrita politicamente correta, asséptica e isenta de termos aparentemente horrorizantes.

Hermes tem então a sua primeira vez. No fim do conto, é descrita a volta pra casa do jovem e ao deparar-se com uma estátua grega no meio da rua ele vai lembrando nomes de deuses gregos, até que lembra o seu:

Zeus, Zeus ou Júpiter, repeti. Enumerei: Palas Atena ou Minerva, Posêidon ou Netuno, Hades ou Plutão, Afrodite ou Vênus, Hermes ou Mercúrio. Hermes, repeti, o mensageiro dos deuses, ladrão e andrógino. Nada doía. Eu não sentia nada. Tocando o pulso com os dedos podia perceber as batidas do coração. (ABREU, 1995, p. 70).

Nesse momento se dá a epifania completa de Hermes. Ele, que nunca havia transado, se descobriu de vez homossexual. E ao lembrar que Hermes era ladrão e andrógino se identifica de vez com seu próprio nome. A trajetória de Hermes do quartel ao quarto de hotel é a trajetória de alguém que se descobre e se revela, no jargão do senso comum, Hermes literalmente “saiu do armário”. E a importância disso para o conto é fundamental. Tanto que na última frase do conto Hermes nos diz: “O bonde guinchou na curva. Amanhã, decidi, amanhã sem falta começo a fumar.” (ABREU, 1995, p. 70).

Hermes começar a fumar é uma metáfora para dizer que Hermes agora assumirá de vez sua condição sexual. O jovem estudante de Filosofia experimentou e gostou da coisa.

Essas reflexões acerca do homoerotismo dentro do conto são geralmente as mais exploradas, afinal, o ponto central do conto é mesmo este. No entanto, abusando da marginalidade e sendo marginal dentro do marginal, proponho uma leitura que relacione essa dificuldade de aceitação perante a sociedade em relação ao homoerotismo, com a mesma dificuldade em relação ao estudante de Filosofia (que, no caso, pode ser representado por este que vos fala).

Ao escolher Filosofia como futuro curso da personagem Hermes, Caio Fernando Abreu poderia ter feito várias outras escolhas, como, por exemplo, Letras, o curso que talvez tivesse mais proximidade com o próprio autor. No entanto, a escolha da Filosofia, segundo minha leitura, não foi feita sem propósito. Eu e qualquer outro estudante de Filosofia podemos dizer melhor do que ninguém como são únicas e diferentes as reações do senso comum ao escutarem de nós que fazemos Filosofia.

Nos dias de hoje, parece existir um preconceito velado a esta resposta. As pessoas estão esperando inúmeras respostas, mas Filosofia não. A reação mais comum e imediata das pessoas é soltar um “legal” desinteressado ou coisa que o valha e logo mudar de assunto, desconversar.

Pensemos um pouco: estas reações, guardadas as devidas proporções, não são bem semelhantes com as reações das pessoas frente aqueles que se dizem gays, lésbicas, bissexuais ou transsexuais?

Esse é o meu ponto. O preconceito velado frente a estudantes de Filosofia e homossexuais, apesar de tudo, ainda existe nos dias de hoje e a intenção de Caio Fernando Abreu, ao escolher a Filosofia como futuro curso de Hermes, talvez tenha sido nos mostrar também isso.

Antes que apareçam interpretações equivocadas sobre esta minha reflexão é bom esclarecer bem as coisas: não quis dizer em nenhum momento que o homoerotismo e a Filosofia têm de servir de condição de possibilidade um para o outro. Sei que isso seria uma interpretação absurda, mas o mundo atual tem suas absurdidades, é bom lembrar. Homoerotismo é uma coisa, Filosofia é outra. Os pontos de contato, segundo a minha leitura, são a marginalidade de ambos e o preconceito velado também sofrido por ambos.

A opção sugerida pelo autor no conto, para aqueles que sofrem preconceito por conta de suas escolhas sexuais é a de se entregar de fato a esta condição, assumir de vez isso e enfrentar de frente todo e qualquer preconceito que possa surgir. Mas e os estudantes de Filosofia, como devem encarar esse preconceito velado que sofrem?

A exemplo do que fez Hermes, chega uma hora que não dá mais pra ficar se escondendo dos outros e iludindo a si próprio, chega uma hora em que é necessário assumir efetivamente as suas escolhas e conviver com elas.

Ser estudante de Filosofia é sinônimo de desprestígio perante a sociedade, ao senso comum. Ser estudante de Filosofia é muitas vezes ser taxado de louco, lunático ou até mesmo (e aí quem sabe já entraríamos em uma nova discussão, em um novo preconceito) de maconheiro.

Frente a todos esses rótulos e preconceitos, o estudante de Filosofia, se realmente quer afirmar essa sua condição, deve ter a atitude de encarar tudo isso de frente, como se fossem apenas comentários sem nenhum sentido e fundamentação que não influem de fato na caminhada do estudante de Filosofia (como se fossem?).

Parafraseando Hermes e lembrando o dia que resolvi assumir de fato a Filosofia, encerro o texto dizendo que: amanhã, decidi, amanhã começo sem falta a ler.

REFERÊNCIAS

ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. 9. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

INTERNET

http://bibliotecadigital.unec.edu.br/ojs/index.php/unec02/article/viewFile/278/352

http://www.fileden.com/files/2009/4/27/2420624/Artigos/EROTISMO%20E%20EPIFANIA%20EM%20SARGENTO%20GARCIA%20DE%20CAIO%20FERNANDO%20ABREU_MARCELO%20BARBOSA%20PEIXOTO.pdf

FILMOGRAFIA

Sargento Garcia, curta-metragem. (35mm, cor, 15 min, 2000).

O seriado contemporâneo

De uns anos pra cá tornou-se algo muito comum entre boa parte da população o hábito de assistir séries ou seriados.

O blogueiro aqui, desde 2010 mais ou menos, também entrou nessa onda. Entre um seriado e outro, assistido na TV aberta ou então baixado da internet, ia conhecendo histórias novas e interessantes, mas de certa forma sempre permanecia num nível raso, de espectador e nada mais.

No começo desse an, entretanto, me deparei com aquele que considero o melhor seriado já produzido, e foi produzido há um bom tempo já. Falo de Twin Peaks, de David Lynch. Um seriado onde o bizarro, o grotesco e o onírico formam um tripé que baliza toda a trama e que tiveram um impacto muito forte em mim. Vale a menção pra futuros posts, mas hoje vou falar de um outro seriado.

Depois de Twin Peaks chegou até o blogueiro um seriado que, visto de longe é até bem singelo: Black Mirror. Bem singelo porque, diferente da grande maioria dos seriados possui uma primeira temporada de apenas três episódios. Só que cada episódio parece conter muito mais críticas e sacadas do que vários outros seriados.

O negócio é o seguinte: assisti apenas o primeiro episódio ontem e fiquei doido pra escrever sobre, surgiram várias ideias. Uma delas é passar a publicar aqui no Un Quimera, mesalmente, um post sobre cada um dos três episódios.

Começo então hoje com:

1×01 – The National Anthem

Eu penso que pra qualquer um é quase impossível não ter assistido, alguma vez, um filme, série ou coisa parecida que não tenha um sequestro e um pedido de resgate e a trama, posteriormente, desenvolvida a partir disso.

Pode-se dizer que este primeiro episódio de Black Mirror, série inglesa criada por Charlie Brooker, segue, em última análise, esse roteiro básico e já muito antigo. No entanto é aí que começa a surgir a genialidade e a visão crítica da série. A partir de um modelo aparentemente comum e banal assuntos primordiais dentro da problemática contemporânea (quando falo contemporâneo aqui entenda século XXI, 2012 se preferir, não é nem um contemporâneo século XX, muito menos um contemporâneo com nuances de science fiction, é contemporâneo AGORA) e que geralmente não são discutidos.

Entrando no enredo da série de vez e com um cuidado gigantesco pra não deixar escapar nenhum spoiler, a história toda começa com o sequestro de  Princesa Susannah, a princesa da Inglaterra. As coisas vão saindo do roteiro normal de sequestro/pedido de resgate, quando o vídeo que mostra Susannah em cativeiro, fazendo o pedido de resgate é lançado pelo sequestrador no YouTube, comentado freneticamente no Twitter e tem como pedido de resgate algo extremamente inusitado (que não merece ser contado aqui, mas sim visto) e que em si já possui outras implicações muito vivas na sociedade contemporânea; imagem pode ser poder.

O desenrolar da trama segue tocando nesses pontos já citados, como por exemplo a repercussão do caso via twitter e as tentativas de resolução do mesmo por parte do governo britânico e em especial por parte do primeiro ministro Michael Callow, figura central do episódio.

Após uma subdivisão em quatro partes dos pouco mais de quarenta minutos desse episódio, a sequência final, que mostra o depois, a repercussão final do caso de sequestro da princesa coloca, em poucas cenas, novas e múltiplas interpretações de um fato fictício que de tão real pode acontecer a qualquer momento por aí.

Não falei tanto, até pra não estragar as surpresas e os socos no estômago que esse seriado deve causar, a dica é assistir e ver se tudo o que eu falei aqui é, efetivamente, interessante e digno de discussão ou se os outros tantos seriados que pululam por aí são mais interessantes que o micro Black Mirror. Aposto minhas fichas na primeira opção.

QuimeraTube #55

Assisti ontem o documentário “Raul – O início, o fim e o meio” e acho super válido relembrar um pouquinho mais esse gênio da música brasileira que foi Raul Santos Seixas:

Le Rouge et Le Noir #16

É, ontem coisas incríveis aconteceram na famosa Taça Libertadores da América, entre elas a eliminação do Flamengo ainda na fase de grupos.

Decepcionante, inacreditável, revoltante. Acho que esses são adjetivos que se encaixam bem no momento. Escrevi no Confio no Mengão sobre o tema e reproduzo aqui um dos posts mais tristes da série Le Rouge et Le Noir:

Fim da linha

Ontem o sonho da conquista de mais uma Taça Libertadores da América foi novamente exterminado. O fato é esse, puro, simples, seco: o Flamengo está fora da Libertadores 2012.

No entanto, as circunstâncias que rodearam tanto os jogos dessa rodada final da fase de grupos quanto os jogos todos da fase de grupos fizeram dessa eliminação algo agonizante e dramático, no fim pareceu tudo meio inacreditável.

Após a classificação para a fase de grupos da Libertadores, eliminando o Real Potosí na Pré-Libertadores o Flamengo estreou de fato na fase de grupos no dia 15 de fevereiro, enfrentando o Lanús na Argentina. Joel tinha acabado de assumir a equipe e apesar de certa desconfiança por parte de todos, o time parecia que ia começar bem a Libertadores. Mesmo não jogando tão bem conseguiu abrir o placar no fim do primeiro tempo com Léo Moura. No segundo tempo, a vitória parecia bem possível, no entanto, em uma bobeira do setor defensivo os donos da casa empataram a partida e o gostinho de derrota acabou ficando.

Na segunda rodada, dia 8 de março, duelo contra o Emelec no Engenhão. A equipe equatoriana teoricamente seria o saco de pancadas do grupo, porém, foi com muita dificuldade que o Flamengo venceu com um magro 1 x 0. Naquele momento, apesar do empate com gosto de derrota na estreia, tudo estava bem encaminhado.

Aí então chegou o jogo que pode ter mudado tudo, tanto matematicamente quanto moralmente. Dia 15 de março, Engenhão, Flamengo x Olimpia. As desconfianças ainda existiam, porém depois de boa atuação no primeiro tempo e principalmente no início da segunda etapa, com 3 x 0 a favor no placar, parecia que ali o Flamengo iria deslanchar de vez e conseguir a classificação para as Oitavas com certa facilidade.
Só que aí em 15 minutos o Olimpia foi lá e fez 3 gols! Se o empate contra o Lanús na estreia já tinha gostinho de derrota, imagina esse! Foi inacreditável e depois desse jogo, apesar de todo e qualquer esforço, o time nunca mais foi o mesmo.

Tanto não foi que na rodada seguinte, dia 28 de março, contra o mesmo Olimpia, agora no Paraguai, o Flamengo não conseguiu jogar bem e acabou sofrendo sua primeira derrota na fase de grupos: 3 x 2 para os paraguaios e a vaga nas Oitavas começa a ficar complicada de verdade.

Mas tudo bem, nada que uma vitória sobre o fraco Emelec fora de casa não resolva. Pois é, no dia 4 de abril o Flamengo foi ao Equador, fez seus gols, jogou mal e mais uma vez bobeou e sofreu uma virada no fim do jogo, novo 3 x 2 e agora as chances de vaga nas Oitavas dependiam de um milagre.

O milagre teria que ser realizado ontem. E consistia no seguinte: vitória do Flamengo sobre o Lanús no Engenhão e empate entre Olimpia x Emelec no Paraguai. No jogo do Engenhão o Flamengo talvez tenha resolvido esquecer tudo e jogar um pouquinho só de futebol, deu no que deu, vitória fácil por 3 x 0, com R10 jogando muito bem (olha que coisa inacreditável!) em cima do time que havia vencido o Olimpia por 6 x 0 na rodada anterior e que acabou como líder o grupo (não dá pra não falar que esse grupo, além de tudo, era fácil demais!).

Só que no Paraguai muita coisa. Com muito drama (três gols após os 40 minutos do segundo tempo) o Emelec mais uma vez com um 3 x 2 de virada venceu o Olimpia e garantiu sua vaga nas Oitavas. Isso mesmo, o fraco e desacreditado Emelec está nas Oitavas e os tradicionais e favoritos Flamengo e Olimpia ficaram no caminho ainda na primeira fase.

Como já disse e frisei, foi tudo meio inacreditável, essa situação toda com certeza ficará para a história do futebol, como uma amostra daquelas coisas contingentes e inesperadas que o futebol proporciona. Confesso que foi totalmente novo e curioso torcer por um empate no outro jogo, acompanhar e vibrar com cada lance do jogo do Paraguai e ir da euforia à tristeza e poucos minutos. Tudo isso foi de fato novo e interessante.

Só que temos deixar esse lado eufórico/dramático da rodada de ontem de lado e pensarmos com certa calma: num grupo como esses e com a tradição que o Flamengo possui, não era pra estar torcendo pra empate nenhum na rodada, a vaga talvez já pudesse ter sido garantida com antecedência se o Flamengo não tivesse bobeado tanto durante essa fase de grupos. Penso sim que ontem o time foi bem e merece o reconhecimento por todo esforço despendido, porém já passou da hora do time do Flamengo jogar bola todo dia, não ficar esperando um dia bonito e importante pra resolver jogar! Vejo esse problema acontecendo desde a era Luxemburgo.

Parece que o time se acha muito bom, muito melhor do que todos, acha que é assim e que não precisa jogar dentro das quatro linhas pra demonstrar de fato isso, então em jogos teoricamente mais fáceis eles não jogam mesmo, aí surgem derrotas e empates inesperados que podem complicar lá na frente. Aí então, quando chega um jogo importante, badalado pela imprensa e coisa e tal todo mundo resolve jogar de verdade e aí, obviamente, o Flamengo vence e vence bem, afinal, o time e o elenco como um todo são de fato muito bons.

Isso tudo é revoltante e agora não adianta ficar remoendo essa eliminação, buscando culpados ou coisa do tipo: Joel é culpado, R10 é culpado, todo mundo é culpado! E todo mundo agora devia tentar esquecer essa eliminação e pensar no Brasileirão que daqui a pouco começa. Em relação ao Carioca, as chances de título ainda existem e mais um título carioca seria ótimo, porém se contentar com isso seria muito pouco.

É isso, o sonho da Libertadores mais uma vez acabou. Não dá pra falar mais nada.

SRN

Releituras Pop #02

O que prezar na hora de criar uma obra de arte? O resultado ou o processo criativo?

Vai ser em cima dessas questões que o segundo post da série Releituras Pop abrirá o mês de abril no Un Quimera.

É bom frisar que, ao tentar responder estas perguntas, não pretendo entrar em um julgamento de valor ou qualidade. Quer dizer: não estou dizendo que é melhor ou mais bonito valorizar o resultado em detrimento do processo criativo ou vice-versa, porém, e este é o ponto onde quero chegar, a escolha de uma dessas duas opções fatalmente leva a obra de arte para caminhos bem distintos.

Até pelo fato do nome da série ser Releituras Pop, vou tentar utilizar músicas do mundo pop para ilustrar essa polaridade. E pra não dizer que estou sendo saudosista ou coisa do tipo, vou lançar mão somente de exemplos da música contemporânea. Vamos lá.

Acredito que lá pelos idos de 2009 todo mundo, se não ouviu, ao menos ouviu dizer sobre o hit do momento: a Dança do Créu.

Pra quem quiser relembrar temos o vídeo:

A pergunta é: onde fica o processo criativo nessa música?

Não nego que, como já disse acima, essa música fez um sucesso estrondoso em 2009, caiu na boca do povo, tocou em todas as rádios, etc e tal. Mas qual teria sido a motivação de MC Créu ao compor esta música se não o resultado? Ou seja, a fama, o sucesso, o dinheiro? Ou será que por acaso ele pensou em como a gíria créu pode ser inserida dentro do contexto social das pessoas ou coisa do tipo?

Vamos agora para um outro exemplo. Ano passado, quem também fez muito sucesso foi o rapper Criolo. Até então não muito conhecido no mainstream, Criolo, com o disco Nó na Orelha, ganhou inúmeros prêmios, elogios e etc.

Uma das canções do premiado disco é Scurilhos:

Eu, mesmo se quisesse muito, jamais saberia qual foi a intenção e a motivação de Criolo para escrever essa música, no entanto, dá pra pelo menos tentar dar palpites sobre isso e eventualmente meu palpite será dizer que Criolo valorizou e muito o processo criativo dessa canção.

Ao tocar em problemas sociais, utilizar gírias talvez tão comuns quanto o próprio créu, mas pensando-as de forma que se adequem a uma crítica ou a uma exaltação de sua cultura, Criolo deve ter pensado e se dedicado muito na produção da música. Ele não esperava um bom resultado? Ele também não queria fama, sucesso e dinheiro? Não sejamos hipócritas, é lógico que, inserido num contexto de indústria fonográfica, ele poderia querer tudo isso sim. Porém, e aqui está o grande diferencial, isso não parece ser o objetivo principal dele. Tanto em suas próprias canções quanto em entrevistas e afins, Criolo se mostra como alguém preocupado socialmente, culturalmente e que, por conta disso, não visa o resultado em detrimento ao processo criativo.

Colocados dois exemplos contempoorâneos e devidamente explicado os porquês deles valorizarem mais o resultado ou o processo criativo, termino o post dizendo praticamente a mesma coisas que já disse antes: escrevi tudo isso hoje não pra falar que Criolo é melhor do que MC Créu ou vice-versa, não pra falar que a Dança do Créu é mais interessante que Sucrilhos ou vice-versa. Eles são apenas bem diferentes. A questão aqui é perceber as diferenças e identificar o porquê delas existirem.

Se você faz uma música, um quadro, um poema, qualquer coisa, visando e valorizando o resultado, a sua criação tende  a ser automática e repetitiva, afinal, se você vê um resultado que deu certo, fatalmente você pensará em copiá-lo ou ao menos se assemelhar a ele.

Se você faz uma música, um quadro, um poema, qualquer coisa, visando e valorizando o processo criativo, a sua criação tende a ser mais bem pensada, sigular, cheia de elementos que façam dessa criação algo enriquecedor tanto para criador quanto para aqueles que irão admirar a criatura. O resultado então torna-se apenas uma consequência.

Esse foi o segundo post da série Releituras Pop. Que tal repensar um pouco sobre essas diferenças dentro das músicas pop? Vocês leitores têm mais algum exemplo que se encaixe na valorização do resultado ou na valorização do processo criativo?