O Dogmatismo Jururu

Hoje é dia de mais um conto que tem como cenário a fictícia cidade de São Gonçalo do Jururu.

Depois da história da redenção do Zé da Vaca Preta, hoje conto uma história não tão bonita e feliz assim, na verdade a história de hoje tem tons cinzas e requintes de crueldade, mas é uma espécie de alerta contra o comodismo e o dogmatismo.

Aí vai a história do Seu Zezé:

O Dogmatismo Jururu

“A gente não banca esperteza
não banca ser forte, ser nada;
tá tudo muito bem assim normal.
Pra gente já basta a clareza,
cerveja, filminho legal
e alguém pra gente, às vezes, falar mal.”

Rafael Castro

Apenas uma velha, suja e pequena televisão, com antena quebrada e imagem borrada. Era isso o que continha aquela estante. Nas paredes, assimetricamente colocados os quadros de Nossa Senhora Aparecida e a foto do último título do time de coração. O calendário do mês também marcava presença ali naquelas paredes envelhecidas, cheias de história. Um pequeno balcão e atrás dele muito trabalho a ser feito. Madeira, ferramentas e afins. Entre tudo isso e ora atrás, ora à frente do balcão sempre estava ali o Seu Zezé. O marceneiro mais antigo e saudoso de São Gonçalo do Jururu.

Há mais de quarenta anos Seu Zezé trabalhava diariamente ali naquele pequeno cômodo, próximo a sua casa, mas que acabou transformando-se, ele mesmo, em sua casa. Seu Zezé passava boa parte do seu tempo ali e quando não estava trabalhando sério estava conversando com algum cliente ou amigo que passava pela rua. A Marcenaria Jururu ficava numa esquina que marcava o ponto onde terminava a estrada de pedras e começava a estrada de asfalto de São Gonçalo do Jururu, isso não quer dizer lá muita coisa, mas para Seu Zezé, de certa forma, isso mantém a tradição e o saudosismo de sua querida cidade. Um homem vivido e nostálgico.

Entre as pedras e o asfalto Seu Zezé sempre comenta sobre praticamente todos os assuntos que surgem ali naquela pacata cidade. Os falecimentos, casamentos, esquecimentos, barracos, tragédias, festas e tudo mais. A velha, suja e pequena televisão está sempre sintonizada nos canais que colocam no ar programas que falam de coisas semelhantes a todas essas comentadas por Seu Zezé e pelos moradores que por ali passam.

Contudo, a televisão nem sempre é muito bem aceita por Seu Zezé. Sim, isso parece até estranho, mas eu explico: é que Seu Zezé, nascido, criado e crescido em São Gonçalo do Jururu, tem uma mentalidade, uma visão de mundo, bem arraigada nos valores e costumes locais, tradicionais e conservadoristas. Principalmente por isso muitas vezes Seu Zezé discorda plenamente de coisas que ele vê por aquela velha TV:

– Até parece que um bando de crianças que ficam o dia inteiro sem fazer nada, só cochichando e cochilando são grandes heróis – comentou Seu Zezé com um amigo sobre o famigerado programa de TV Big Brother Brasil – queria ver esses moleques trabalhando duro que nem eu, acordando cedo todo dia pra vim trabalhar, cortar madeira, suar a camisa! Isso sim tinha que ser uma coisa pra se ganhar um milhão e não a mixaria que eu ganho todo mês.

Seu Zezé mostrava toda a sua indignação com programas como o BBB, mas pra quem pensa que suas opiniões sempre muito fortes e exacerbadas paravam nos reality shows está muito enganado. Era só passar alguma coisa na TV num momento em que Seu Zezé não estivesse trabalhando ou conversando do lado de fora da Marcenaria Jururu que ele prestava muita atenção e logo em seguida saia comentando com o primeiro que passasse pela rua:

– Pensa bem Seu João – disse Seu Zezé para um compadre seu que passava por ali depois da hora do noticiário – esse povo agora deu de querer deixar vender droga pro povo como se fosse uma coisa normal! Tem filmezinho, campanha e o escambau. Tão dizendo que é preciso uma “descriminalização da maconha”. Onde que a gente vai parar? Maconha é droga, isso é coisa do capeta, esses bandidos tão ficando tão poderosos que agora até gente importante tá achando que quem usa droga não pode ser preso nem nada. Fico inconformado com isso…

Entre um pitaco e outro sobre os temas do momento noticiados pela televisão Seu Zezé já era uma figura carimbada da cidade de São Gonçalo do Jururu, uma daquelas peças raras que toda cidade do interior possui. Se você estivesse com vontade de ouvir uma opinião assídua sobre qualquer tipo de assunto que rolava na mídia era só dar uma passadinha na Marcenaria Jururu que Seu Zezé com muita satisfação destilava sua opinião conservadora e reacionária de sempre.

A coisa foi tomando proporções tão grandes que num belo dia Seu Zezé, ao ver suas opiniões sempre tão requisitadas e comentadas pela cidade a fora, decidiu afirmar em alto e bom som:

– Nada muda de verdade! As coisas sempre foram e sempre serão do mesmo jeito, por mais que tentem inventar maluquices nesse mundão de meu Deus e a televisão fique mostrando cada dia mais uma maluquice atrás da outra, a verdade é que o certo é deixar tudo como está! Não adianta querer se intrometer em assuntos que não são da nossa conta. Eu tenho experiência minhas crianças, eu já vi de tudo nesse mundo e depois de tudo só o que eu posso dizer é que as coisas não mudam, é que temos que nos conformar com a nossa vida, mas sempre, sempre ficar atentos ao que acontece, pra ver as barbaridades que jogam na nossa cara, pra ver como tentam nos mostrar que podemos ser diferentes e coisa e tal. Tudo isso é conversa fiada dessa tal de mídia.

A eufórica afirmação de Seu Zezé não despertou muito espanto nos moradores de São Gonçalo do Jururu, pelo contrário. Alguns moradores até parabenizaram Seu Zezé por essa fala e concordaram de fato com ele. Uns e outros não pensavam tão igual a ele, mas também acharam válida a tal afirmação.

Seu Zezé de fato tem muita experiência, como ele mesmo disse. Muitas vezes os maiores intelectuais dizem que a experiência faz toda diferença, que teoria sem prática é furada e que é preciso viver e experenciar as coisas. Seu Zezé não fez isso durante toda essa sua vida de marceneiro? Seu Zezé não conviveu com inúmeras pessoas e situações e aprendeu muito durante toda sua vida? Parece-me que sim.

Então porque que para ouvidos não arraigados numa visão de mundo conservadora e reacionária a afirmação de Seu Zezé de que nada no mundo muda e nós devemos nos conformar com todas as coisas parece tão antiquada e retrógrada?

Iguais a Seu Zezé muitos outros senhores e senhoras vivem por aí, em São Gonçalo do Jururu e em outras tantas cidades pelo mundo afora. Com experiência, vivência e etc. Dentro do “mundo” deles seus pensamentos de fato são válidos e muitas das vezes se confirmam. Mas falta algo. Falta algo.

Falta perceber que não é só a experiência de vida que tem que ser levada em conta. É preciso perceber que qualquer pensamento e conduta levados totalmente a sério e pensados como único ou superior corre o sério risco de se dogmatizar e de parecer uma verdade absoluta, algo que realmente é comprovado no mundo real.

Porém isso quase sempre nada mais é do que uma ilusão reconfortante. Uma ilusão que nos coloca dentro de uma perspectiva cômoda e até certo ponto “digna e correta”. Mas que ainda assim é uma ilusão e, pior, uma ilusão tomada por realidade, uma ilusão que não se sabe ilusão.

Não é por tudo isso que Seu Zezé tem de ser apedrejado e/ou condenado. Ele tem de fato um conhecimento e uma sabedoria de mundo. Não é qualquer um que sabe ser marceneiro como ele, que sabe expressar suas opiniões, que sabe viver como ele. Quer dizer, a sabedoria do povo existe e está muito viva por aí, porém muitas das vezes o povo não percebe que essa sua sabedoria pode e quase sempre é dogmatizada e acaba se perdendo em meio a tantas outras teorias, visões de mundo e etc. O que poderia se transformar num trunfo do povo para conseguir coisas boas acaba virando senso comum conformista e dogmático.

Não é afirmando dogmaticamente que tudo sempre permanecerá igual que Seu Zezé chegará a todas as conclusões. Como já falei, isso muitas vezes se mostra real e interessante, mas é uma certeza tão frágil e delicada que a qualquer momento pode ser quebrada:

– Seu Zezé, não tem mais jeito, você precisa urgentemente digitalizar todo o sistema da sua marcenaria – disse um dos fiscais capitalistas tecnólogos que começavam a pipocar na pacata São Gonçalo do Jururu – os tempos são outros e se você não fizer o processo de digitalização das mercadorias e vendas você perderá o alvará da sua marcenaria e, infelizmente, ela vai ter de ser fechada!

A imposição do fiscal capitalista tecnólogo é tão absurda quanto a afirmação dogmática do Seu Zezé, porém, ela é a imposição dominante, ela desmorona, sem muito esforço, a afirmação do Seu Zezé de que nada muda e faz com que todo o conformismo dessa afirmação seja punido.

A sabedoria de anos e anos de experiência e vivência do Seu Zezé acaba caindo por terra, ele se desespera e não sabe o que fazer; o homem mal sabe o que é um computador, como ele vai digitalizar todo o sistema de sua marcenaria?

O tempo passou, a Marcenaria Jururu virou apenas uma sombra na história de São Gonçalo do Jururu e está prestes a ser demolida para a construção de uma moderníssima Casa de Construção. Seu Zezé, por sua vez, está prestes a falecer, com problemas cardíacos seríssimos ele agora vive somente na sua casa, com algumas economias da antiga marcenaria e com parte dos salários mínimos dos seus filhos. A velha, suja e pequena televisão que ficava na estante da Marcenaria Jururu agora fica na estante do quarto de Seu Zezé e a cada nova notícia desperta novos e calorosos comentários de Seu Zezé, que agora, no fim da vida, parece repensar muito sobre suas antigas afirmações.

Um pensamento sobre “O Dogmatismo Jururu

  1. Ivan Bilheiro disse:

    Espécie de conto, espécie de artigo-ensaio… importante é que toca na questão do dogmatismo e seus riscos. Que satisfação vê-lo pensando nesta questão, meu amigo. Parabéns por mais este texto.

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