Coruja de Minerva #05

O primeiro post da filosófica série Coruja de Minerva de 2012 vem falando um pouco sobre um tema muito estudado e comentado pelos estudantes de Filosofia do chamado período pós-moderno e sobre dois autores, não necessariamente, nem estritamente filósofos, mas que tiveram uma grande contribuição para a Filosofia de seu tempo (ambos do século XIX) e que até hoje suscitam pesquisas, estudos e afins.

Dando nome aos bois: falo sobre as semelhanças e diferenças do Niilismo em Nietzsche e Dostoievski, tema que estudei no período passado e que me chamou muito a atenção.

Vai um breve texto tentando falar sobre essas possíveis semelhanças e diferenças. Nem preciso dizer que tanto o alemão Nietzsche quanto o russo Dostoievski possuem várias obras que podem gerar discussões, textos e tudo mais. Diria ser altamente recomendável a leitura de alguma coisa de ambos.

Vamos ao texto:

Diferenças e semelhanças do niilismo para Dostoievski e Nietzsche

O tema do niilismo recebe grande atenção tanto da parte de Dostoievski quanto da parte de Nietzsche, no entanto, parecem existir diferenças cruciais entre o olhar em relação ao niilismo por parte destes dois pensadores.

Pretendo aqui apontar aquelas que seriam as principais diferenças em relação ao niilismo e também algumas semelhanças, para tal, procurei pesquisar o contexto histórico do termo niilismo e articular conceitos e explicações vistos nos textos-aula.

Partamos do começo. O termo niilismo é inserido e problematizado pela primeira vez na história da filosofia numa carta de Jacobi a Fichte, temos aí um contexto pós-kantiano (fim do século XVIII e começo do século XIX), de crítica à metafísica clássica ocidental, onde há também uma efervescência filosófico-literária na Alemanha (vide Schelling, Fichte, Hegel, Goethe, Hölderlin, etc.). Depois deste momento inicial, o termo caiu em certo esquecimento e ressurgiu já em meados do século XIX, no romance do escritor russo Ivan Turgueniev, Pais e Filhos. Nesta obra são mostradas duas gerações russas, a saber: a dos “românticos” da década de 1840 (representada pela personagem Páviel Pietrovich) e a dos “niilistas” da década de 1860 (representada pela personagem Bázarov).

A partir da leitura dessa obra (e de outras influências mais) é que tanto Dostoievski quanto Nietzsche desenvolverão suas considerações acerca do niilismo e serão os principais responsáveis pela difusão e discussão deste termo em sua época e em épocas posteriores, como a que vivemos hoje.

Na obra de Dostoievski em praticamente todos os chamados “grandes romances” temos personagens que direta ou indiretamente representam o que seria a ideia de niilismo para o escritor russo. Tomemos como exemplo o estudante Raskólnikov, de Crime e Castigo. No início da trama ele planeja matar uma velha usurária e assim conseguir dinheiro para dar prosseguimento aos seus estudos, no entanto, este motivo mais superficial apenas esconde aquele que talvez fosse seu principal motivo: ele queria matar essa velha para se afirmar como um homem extraordinário (cita aqui como exemplo de homem extraordinário Napoleão, é aquele que pode matar e transgredir a lei a seu bel prazer e não ter nenhuma represália por conta disso), em contraposição ao homem ordinário, ao piolho. Ao agir dessa maneira Raskólnikov se insere numa perspectiva niilista, porém no decorrer da trama ele não consegue suportar o fato de ter matado a velha pura e simplesmente para se afirmar como um homem extraordinário. O que acontece então? Raskólnikov passa por sofrimentos, questionamentos, encontra Sônia e só consegue se libertar, só consegue a salvação quando ele retorna a Deus, o livro termina justamente com Dostoievski indicando que agora será contada a história de um novo homem.

A partir desse exemplo podemos perceber que para Dostoievski, ainda que válida, a postura niilista só encontra salvação num retorno à Deus, à metafísica, se não acontece esse retorno o único fim possível é o da destruição, a negação niilista torna-se assim uma negação à vida e aí então salta aos olhos outro exemplo, dessa vez de seu romance Os Demônios: o suicídio de Kírilov.

Nietzsche, por sua vez, pensa o niilismo em uma via de mão dupla: o niilismo passivo e o niilismo ativo. Ambas são pensadas a partir do anúncio da morte de Deus feito por Nietzsche. O caminho do niilismo passivo seria o chamado ateísmo fácil, quer dizer, se Deus morreu, não existe mais um sentido último, o horizonte está vazio, mas o que faz então o niilista passivo? Literalmente nada! Creio ser válido recorrer também a um exemplo da obra de Nietzsche, o trecho das três transmutações da alma, de Assim Falou Zaratustra. A figura do leão poderia representar, até certo ponto, essa postura de niilismo passivo, pois ela remete a uma rebelião em relação ao “tu deves” aceito pela figura do camelo, mas ainda sim não possui um poder criador, para na negação.

Já o niilismo ativo, seria uma possível saída niilista para Nietzsche, diferentemente de Dostoievski que, como disse acima, considera como única saída possível o retorno à Deus, Nietzsche pensa que dentro do próprio niilismo também pode existir salvação. Vejamos como: o niilista ativo pode ser representado pela terceira transmutação da alma, a figura da criança. Esta figura representa o desapego, ela não precisa nem suportar o peso que o camelo suporta, nem negá-lo da maneira que faz o leão, ela simplesmente está acima disso, pois tem o poder de criação, é o sim à criação, o sim ao devir, ao eterno retorno. A figura da criança representa dessa forma também a passagem ou a tradução mais próxima do que seria o Übermensch (além-do-homem), ou seja, adotando a postura da criança, de desapego e criação, estar-se-ia adotando também a postura do além-do-homem, do niilismo ativo. É por isso que Nietzsche não refuta totalmente o niilismo, pois a perspectiva do niilismo ativo é para ele válida e possível, embora, ainda assim, rara de ser concretizada.

Até aqui creio já ter apontado as principais diferenças em relação ao niilismo para Dostoievski e Nietzsche. A grande semelhança parece estar na noção de que ambos consideram a real possibilidade do niilismo enquanto destruição. Como exposto acima, Dostoievski pensa que esta seria a única saída do niilismo, enquanto Nietzsche a considera como uma das possíveis saídas (a outra, também já exposta, seria a ascensão do além-do-homem).

Enfim, de uma maneira bem ampla e geral, essas seriam as minhas principais considerações acerca do niilismo em Dostoievski e Nietzsche.

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