Arquivo mensal: fevereiro 2012

É, uma revolução musical…

O mês de fevereiro vai chegando ao fim e eu resolvi deixar pra falar só agora de uma data muito falada e lembrada no começo do mês. No dia dois de fevereiro de 2012 completaram-se quinze anos da morte de Chico Science, um dos principais nomes da música brasileira contemporânea. Chico foi um dos pioneiros do chamado “Manguebeat”, movimento musical e cultural surgido em Pernambuco no anos 90 e que ainda hoje exerce fortíssima influência em muitos artistas brasileiros e internacionais. Chico foi um visionário que marcou época com sua música, seu pensamento. Na minha opinião Chico conseguiu de fato realizar a chamada “revolução musical”, anunciada por ele na primeira faixa do ótimo álbum “Da Lama ao Caos” talvez o principal álbum da Nação Zumbi, banda que era comandada até 2 de fevereiro de 1997 por Chico Science.

O Manguebeat é um movimento musical que alia a cultura nordestina de “raiz” a uma cultura mais pop e universal, à internet (coisa ainda muito obscura e até mesmo misteriosa e duvidosa em meados dos anos 90 no Brasil) e outros avanços tecnológicos.

Ao “criar” o movimento, Chico Science conseguiu misturar vivências e crenças “comuns” e cotidianas de sua terra, como o maracatu, o frevo, a própria vivência no mangue, enfim, o “way of life” pernambucano dos anos 90 com influências novas e exteriores que chegavam a todo momento por lá.

De Pernambuco para o Mundo a coisa foi acontecendo e fluindo. Canções como “Manguetown”, “Rios, Pontes e Overdrives”, “A Cidade”, “Da Lama ao Caos”, “Maracatu Atômico”, só para citar algumas das principais canções de Chico Science e Nação Zumbi são demonstrações de toda essa revolução musical arquitetada por Chico Science. Além de revolucionar musicalmente Chico também criou um estilo de se vestir (o característico chapéu de palha e as roupas coloridas) e uma nova maneira de se enxergar a música brasileira, principalmente a nordestina.

O advento do manguebeat foi e é de extrema importância dentro da música nacional. Não dá pra não citar Chico Science como influência da grande maioria dos cantores nordestinos atuais tais como Lirinha, Otto (ex-integrante da Nação Zumbi), a própria Nação Zumbi que permaneceu viva com Jorge Du Peixe nos vocais, Cidadão Instigado, Karina Buhr, Siba, Eddie, etc…

A prematura morte de Chico Science deixa aquele sentimento de que poderíamos ter conhecido muitas outras canções geniais de Chico se ele continuasse vivo, mas ao mesmo tempo também deixa como legado uma nova maneira de se fazer música e de pensar a cultura, uma maneira totalmente original, sem esquecer de dialogar com tradições as vezes esquecidas e que possuem uma força enorme.

A revolução musical de Chico foi feita sem muito alarde, simplesmente foi feita com autenticidade e disposição, com alegria e inteligência. Enfim, da lama ao caos, o manguebeat foi e é um movimento musical que verdadeiramente impulsiona a cultura brasileira e esse post foi uma singela homenagem aos 15 anos de morte de Chico Science, tentei mostrar um pouco do que penso sobre a música brasileira que eu gosto de ouvir e que considero poder ser algo mais do que simplesmente uma música pra se ouvir e ficar por isso mesmo.

Pra fechar, o lindo clip de “Maracatu Atômico”, que de certa forma condensa tudo que eu falei e quase tudo o que parece pretender ser  o Manguebeat:

QuimeraTube #52

Anunciei o Carnaval com um QuimeraTube e agora curto a ressaca do Carnaval com outro QuimeraTube. Pra semana volto a escrever de fato aqui no Un Quimera.

Hoje vamos ficando com Otto e seus seis minutos:

QuimeraTube #51

O blogueiro aqui vai rumar pra Ouro Preto nesse Carnaval ao som de Siba e a Fuloresta:

Coruja de Minerva #05

O primeiro post da filosófica série Coruja de Minerva de 2012 vem falando um pouco sobre um tema muito estudado e comentado pelos estudantes de Filosofia do chamado período pós-moderno e sobre dois autores, não necessariamente, nem estritamente filósofos, mas que tiveram uma grande contribuição para a Filosofia de seu tempo (ambos do século XIX) e que até hoje suscitam pesquisas, estudos e afins.

Dando nome aos bois: falo sobre as semelhanças e diferenças do Niilismo em Nietzsche e Dostoievski, tema que estudei no período passado e que me chamou muito a atenção.

Vai um breve texto tentando falar sobre essas possíveis semelhanças e diferenças. Nem preciso dizer que tanto o alemão Nietzsche quanto o russo Dostoievski possuem várias obras que podem gerar discussões, textos e tudo mais. Diria ser altamente recomendável a leitura de alguma coisa de ambos.

Vamos ao texto:

Diferenças e semelhanças do niilismo para Dostoievski e Nietzsche

O tema do niilismo recebe grande atenção tanto da parte de Dostoievski quanto da parte de Nietzsche, no entanto, parecem existir diferenças cruciais entre o olhar em relação ao niilismo por parte destes dois pensadores.

Pretendo aqui apontar aquelas que seriam as principais diferenças em relação ao niilismo e também algumas semelhanças, para tal, procurei pesquisar o contexto histórico do termo niilismo e articular conceitos e explicações vistos nos textos-aula.

Partamos do começo. O termo niilismo é inserido e problematizado pela primeira vez na história da filosofia numa carta de Jacobi a Fichte, temos aí um contexto pós-kantiano (fim do século XVIII e começo do século XIX), de crítica à metafísica clássica ocidental, onde há também uma efervescência filosófico-literária na Alemanha (vide Schelling, Fichte, Hegel, Goethe, Hölderlin, etc.). Depois deste momento inicial, o termo caiu em certo esquecimento e ressurgiu já em meados do século XIX, no romance do escritor russo Ivan Turgueniev, Pais e Filhos. Nesta obra são mostradas duas gerações russas, a saber: a dos “românticos” da década de 1840 (representada pela personagem Páviel Pietrovich) e a dos “niilistas” da década de 1860 (representada pela personagem Bázarov).

A partir da leitura dessa obra (e de outras influências mais) é que tanto Dostoievski quanto Nietzsche desenvolverão suas considerações acerca do niilismo e serão os principais responsáveis pela difusão e discussão deste termo em sua época e em épocas posteriores, como a que vivemos hoje.

Na obra de Dostoievski em praticamente todos os chamados “grandes romances” temos personagens que direta ou indiretamente representam o que seria a ideia de niilismo para o escritor russo. Tomemos como exemplo o estudante Raskólnikov, de Crime e Castigo. No início da trama ele planeja matar uma velha usurária e assim conseguir dinheiro para dar prosseguimento aos seus estudos, no entanto, este motivo mais superficial apenas esconde aquele que talvez fosse seu principal motivo: ele queria matar essa velha para se afirmar como um homem extraordinário (cita aqui como exemplo de homem extraordinário Napoleão, é aquele que pode matar e transgredir a lei a seu bel prazer e não ter nenhuma represália por conta disso), em contraposição ao homem ordinário, ao piolho. Ao agir dessa maneira Raskólnikov se insere numa perspectiva niilista, porém no decorrer da trama ele não consegue suportar o fato de ter matado a velha pura e simplesmente para se afirmar como um homem extraordinário. O que acontece então? Raskólnikov passa por sofrimentos, questionamentos, encontra Sônia e só consegue se libertar, só consegue a salvação quando ele retorna a Deus, o livro termina justamente com Dostoievski indicando que agora será contada a história de um novo homem.

A partir desse exemplo podemos perceber que para Dostoievski, ainda que válida, a postura niilista só encontra salvação num retorno à Deus, à metafísica, se não acontece esse retorno o único fim possível é o da destruição, a negação niilista torna-se assim uma negação à vida e aí então salta aos olhos outro exemplo, dessa vez de seu romance Os Demônios: o suicídio de Kírilov.

Nietzsche, por sua vez, pensa o niilismo em uma via de mão dupla: o niilismo passivo e o niilismo ativo. Ambas são pensadas a partir do anúncio da morte de Deus feito por Nietzsche. O caminho do niilismo passivo seria o chamado ateísmo fácil, quer dizer, se Deus morreu, não existe mais um sentido último, o horizonte está vazio, mas o que faz então o niilista passivo? Literalmente nada! Creio ser válido recorrer também a um exemplo da obra de Nietzsche, o trecho das três transmutações da alma, de Assim Falou Zaratustra. A figura do leão poderia representar, até certo ponto, essa postura de niilismo passivo, pois ela remete a uma rebelião em relação ao “tu deves” aceito pela figura do camelo, mas ainda sim não possui um poder criador, para na negação.

Já o niilismo ativo, seria uma possível saída niilista para Nietzsche, diferentemente de Dostoievski que, como disse acima, considera como única saída possível o retorno à Deus, Nietzsche pensa que dentro do próprio niilismo também pode existir salvação. Vejamos como: o niilista ativo pode ser representado pela terceira transmutação da alma, a figura da criança. Esta figura representa o desapego, ela não precisa nem suportar o peso que o camelo suporta, nem negá-lo da maneira que faz o leão, ela simplesmente está acima disso, pois tem o poder de criação, é o sim à criação, o sim ao devir, ao eterno retorno. A figura da criança representa dessa forma também a passagem ou a tradução mais próxima do que seria o Übermensch (além-do-homem), ou seja, adotando a postura da criança, de desapego e criação, estar-se-ia adotando também a postura do além-do-homem, do niilismo ativo. É por isso que Nietzsche não refuta totalmente o niilismo, pois a perspectiva do niilismo ativo é para ele válida e possível, embora, ainda assim, rara de ser concretizada.

Até aqui creio já ter apontado as principais diferenças em relação ao niilismo para Dostoievski e Nietzsche. A grande semelhança parece estar na noção de que ambos consideram a real possibilidade do niilismo enquanto destruição. Como exposto acima, Dostoievski pensa que esta seria a única saída do niilismo, enquanto Nietzsche a considera como uma das possíveis saídas (a outra, também já exposta, seria a ascensão do além-do-homem).

Enfim, de uma maneira bem ampla e geral, essas seriam as minhas principais considerações acerca do niilismo em Dostoievski e Nietzsche.

Le Rouge et Le Noir #14

Pra abir o mês aqui no Un Quimera o assunto não poderia ser outro que não o decisivo jogo de ontem entre Flamengo x Real Potosí pela Pré-Libertadores. O jogo, desde que foi marcado, no fim do ano passado, já se revestiu de enorme importância, afinal, valia vaga para a fase de grupos da maior competição de clubes das Américas.

Porém, no começo da temporada inúmeros problemas surgiram na Gávea e além da vaga na Libertadores o jogo de ontem parecia valer muito mais. Teria que ser uma afirmação de que esse time do Flamengo pode sim não apenas participar da Libertadores 2012, mas também buscar o título. A desconfiança de muitos e os problemas na Gávea ainda existem, mas a vaga está garantida. Falei um pouco sobre tudo isso no Confio no Mengão e reproduzo o texto aqui, pra abrir o último mês de férias:

Mengão na Libertadores

Geralmente escrevo meus posts nas segundas-feiras, mas essa semana eu tive que esperar a quinta-feira chegar pra falar sobre a partida de ontem contra o Real Potosí, jogo de volta da Pré-Libertadores.

O clima que envolvia essa partida era único: uma crise sem entrar em campo, que fez o começo de ano do Flamengo virar um deleite pra imprensa, principalmente pra aquela parte da imprensa que só quer ver defeitos, bagunça e desorganização no Flamengo. Sim, tudo isso existe lá na Gávea, é fato, mas não é só isso e as vezes fica parecendo que é só isso.

Salários atrasados e boatos de um novo técnico a parte ontem a noite o Flamengo tinha um objetivo claro: vencer, ainda que por 1 x 0, o modesto Real Potosí e conseguir a vaga na fase de grupos da Libertadores 2012.

O jogo não foi dos melhores, o Flamengo ainda precisa melhorar muito (as entradas do zagueiro Gonazález e de Vagner Love podem ajudar muito), mas o objetivo foi conquistado, ainda que com uma boa dose de drama.

O primeiro tempo foi todo do Flamengo, posse de bola, volume de jogo e tudo mais. O Potosí só se defendia e em muitos momentos tinha todos os seus jogadores atrás da linha do meio de campo. Isso dificultou e muito o Flamengo, que entrou naturalmente nervoso, querendo o gol a todo momento e com a torcida rubro-negra praticamente lotando o Engenhão, apoiando e muito o time.

As chances eram criadas, mas o gol não saia. O fim do primeiro tempo ia chegando e um drama desnecessário parecia ir se anunciando. Até que Bottinelli fez boa jogada pela direita e sofreu falta. Ronaldinho cobrou bem e Léo Moura, antecipando de cabeça, abriu o placar.

Na volta para o segundo tempo o jogo mudou, com o 1 x 0 a favor do Flamengo o Potosí ia sendo eliminado, então resolveu se abrir e começou a dar sustos no Flamengo. Apesar de não ter conseguido praticamente nenhuma chance realmente boa (a exceção foi uma boa cabeçada de Brittes que deixou Felipe apenas olhando a bola e torcendo pra ela sair) o time boliviano adotou uma postura bem mais ofensiva e o Flamengo não marcava tão bem quanto os bolivianos no primeiro tempo.

Com o jogo mais aberto Luxa apostou na base mais uma vez. As três substituições foram realizadas com a entrada de garotos da base: Muralha, Camacho e Negueba. Mais fôlego e velocidade ao time que não criou tanto, mas que num dos últimos lances do jogo conseguiu o segundo gol. Após muita briga de Negueba pra recuperar a bola e bom cruzamento de Ló Moura, Ronaldinho dominou, mandou entre as pernas do zagueiro e com muita tranquilidade tocou no canto do goleiro. Classificação assegurada e festa de R10 com a torcida.

O Flamengo agora está no Grupo 2, ao lado de Lanús, Emelec e Olimpia. Sinceramente considero esse um dos grupos mais complicados, ao lado do grupo do Vasco. Pra quem pensa que agora que a classificação pra fase de grupos veio a vaga nas Oitavas já é praticamente certa, está muito enganado. O Flamengo vai ter que jogar muita bola pra conseguir mais essa vaga. A começar pela partida de estreia, dia 15, em solo argentino, contra o Lanús.

Mas independente disso o resultado de ontem confirmou que o Flamengo, se quiser jogar, é um bom time que tem muito a evoluir e pode sim disputar de igual pra igual contra qualquer um essa Libertadores.

Resta saber agora se com Luxa ou com Joel. Se com Ronaldinho ou sem Ronaldinho. Todas essas polêmicas e pendências extra-campo, por mais que tenham sido esquecidas nos 90 minutos do jogo de ontem estão aí e melhor seria que até dia 15, dia da estreia na Libertadores, de fato, fossem resolvidas e o Flamengo pudesse continuar mais tranquilo a caminhada para o bi da América.

Amanhã tem jogo pelo Carioca, contra o Olaria. Isso mesmo, amanhã! Não me importo com isso, a vaga nas semi-finais do Carioca é quase certa, independente de qualquer resultado e mesmo que aconteça uma tragédia e ela não venha continuarei não me importando. É lindo ganhar Campeonato Carioca, mas já temos Cariocas demais, agora é hora de focar de uma vez por todas na Libertadores.

E ah, ontem foi só o primeiro show da torcida rubro-negra nas arquibancadas, a continuar assim os adversários vão sentir e muito a força dessa torcida.

SRN