O Paradoxo do Poeta Perdido

Eis que surgem, aos 44 do segundo tempo de 2011, circunstâncias e inspiração pra escrever um poeminha sentimental (coisa que não faço com muita frequência), aí vai:

O Paradoxo do Poeta Perdido

Para ler e reler ao som de “Apagada a Luz” de Rafael Castro Oliveira da Silva

De que adiantam as palavras
Provocantes ou elegantes
Se o encanto acabou?
Se aquilo que era vivo e intenso
Tal qual brasa de vulcão
Não é hoje nada mais que
A tíbia chama de um isqueiro molhado?
Passou.
E se passou é pra ficar em algum lugar
No papel, nas histórias, em qualquer canto.
Não quero as palavras elegantes
Ditas no céu aberto
De uma hipocrisia social
Nem quero as palavras provocantes
Ditas entre quatro paredes
De um quarto escuro. Agora não.
Quero o frio na barriga de um novo conflito
Aqueles detalhes fugazes
De um encanto que se engendra
Quero a indecisão e o desencontro
Quero tudo isso às oito em ponto
– ou quem sabe um pouquinho mais tarde
horário de verão e coisa e tal –
Cafuné, preguiça e tesão.
Sou sozinho demais pra solidão.

Rogério Arantes

9 pensamentos sobre “O Paradoxo do Poeta Perdido

  1. Nis Evangelista disse:

    Sabe, ter alguém e ter a certeza que esse alguém vai estar contigo amanhã é ótimo, mas de quando em quando me pergunto se isso não é um vício de emoções. Quer dizer, pelo que estou apaixonada senão pela segurança e estabilidade que eu mesma consegui me proporcionar, consegui lutar contra todas as incertezas e cá estou há milênios (o tempo é relativo) com a mesma pessoa e digo-lhe todos os dias que o amo, e não minto ou, no máximo, minto, mas minto pra mim. Acredito que amo o homem, não a mim mesma, reluto em acreditar no meu vício. Daí eu conheço outra pessoa, tudo é tão novo, tudo é tão incerto, tudo que eu lutei contra, tudo que eu digo que não quero e, quando vejo, ó meu deus, estou emaranhada, estou me apaixonando pelo inverso que digo estar apaixonada, tou prezando a incerteza, o frio na barriga, o encontro às 20h, o conflito. Ah, o conflito! Quem, em sã consciência, troca o certo pelo duvidoso? É preciso muita ousadia, é preciso mesmo ter consciência das suas emoções, dos seus vícios, do que pode (não) ter e conseguir lidar com isso.
    No final, você precisa ser forte pra conseguir acordar com a mesma pessoa pro resto da vida e, da mesma forma, é preciso ser forte pra aguentar o constante frio na barriga, a incerteza, o conflito interno. Mas, é mesmo uma questão de força? Coragem, isso sim. Onde a coragem cruza com a força?

  2. Antes de mais nada agradeço pelo belo comentário.
    Falando agora sobre ele:penso que em meio a insegurança, aos pequenos detalhes e tropeços de uma corda bamba é que tudo isso tem de ser demonstrado, a coragem, a força, a ousadia. O risco é então totalmente assumido, mas viver sem riscos é uma mentira. Talvez (quase sempre) a segurança e a estabilidade são privilegiadas, são tidas como “corretas”, mas até onde uma segurança e uma estabilidade sem encanto podem de fato sobreviver? O constante risco, o constante frio na barriga é o que nos move, não somos fixos ou fechados, estamos nos construindo, seja no campo sentimental ou em qualquer outro campo.

  3. Nis Evangelista disse:

    Mas então, Rogério, a insegurança, os pequenos detalhes, os tropeços de uma corda bamba são incríveis, te move, te faz querer mais e mais.Querer mais e mais o que? A segurança e a estabilidade, não? No entanto, depois de um tempo (dizem que a paixão só dura três anos, biologicamente falando), tudo que você mais quer é a insegurança, o frio na barrida e os tropeços de uma corda bamba de novo. É um ciclo vicioso. É sempre um vício de emoções paradoxal. Acho que, talvez, por isso o ciúme e um pouco de distância entre o casal pode ser saudável para que a paixão seja mantida por mais tempo.
    E ah, eu comentei porque belo mesmo foi o teu poema. 😀

  4. Sim, entendi o que você falou e concordo em dizer que acaba sendo um ciclo vicioso mesmo. Mas é justamente esse que é o lance: essa vontade de segurança e estabilidade, seguida da vontade de frio na barriga e tropeços e vice-versa. O grande erro (penso eu) é querer se fixar no momento da segurança e da estabilidade, quebrando assim esse ciclo, sacou? Por isso te disse antes que essa segurança e essa estabilidade são muitas vezes privilegiadas e tidas como “corretas”. Contudo, como você bem definiu, é um vício de emoções paradoxal, pensar ter uma fórmula e uma maneira mais correta de lidar com isso talvez seja a pior de todas as maneiras.. rs Quanto ao ciúme e um pouco de distância, acho que podem sim fazer com que a paixão seja mantida por mais tempo, mas a partir do momento que isso acontece de uma maneira natural, sem pressão, porque se um começa a sentir ciúme ou se distanciar um pouco com o intuito de prolongar a paixão é fácil que pensar que nesse momento a paixão já tenha acabado há um tempo.
    E obrigado pelo elogio ao poema, sinta-se à vontade pra ler todos os outros posts do Un Quimera, que está aí na net desde janeiro de 2009! 😀

  5. Nis Evangelista disse:

    É, você tem um ponto. A segurança e a estabilidade são mesmo superestimadas, muito porque fazem parte dos mitos do amor e do relacionamento, etc e tal, mas eu também acho que é um processo inconsciente. O que as pessoas querem senão o que a sociedade prega? Mas, sim, Rogério, acho que consegui te entender, enfim.
    E ok, vou sentir-me à vontade pra ler os outros posts do Un Quimera e, da mesma forma, sinta-se à vontade de ler os posts do Caos Colorido, apesar de eu não fazer posts tão profundos, rs.

  6. Nis Evangelista disse:

    Eu escrevi a resposta, mas acho que a internet tá me trollando. Acho que concordamos, enfim. Mas também acho que isso de querer a segurança e a instabilidade num lugar tranquilo faz parte dos mitos do namoro, do relacionamento, afinal, o que as pessoas querem a não ser o que a sociedade lhes diz pra querer, o que a novela das 8h (das 9h, sei lá) lhes diz que é ok. Acho que muito disso é processo inconsciente.
    E sim, sentir-me-ei à vontade pra ler teus posts da mesma forma que você pode se sentir à vontade pra ler os posts de Caos Colorido, mesmo que a intenção não seja profunda e seja bem, beeem recente. 😀

  7. Nis Evangelista disse:

    É, a internet me trollou.

  8. Sim, a internet te trollou mesmo.. rs, mas não tem problema.
    Parece que concordamos mesmo, principalmente nesse ponto da segurança ser valorizada por grande parte da sociedade, o senso comum, as novelas de todos os horários, etc..
    Gostei de verdade dos seus comentários e do seu interesse pelo poema, valeu mesmo! Aproveito pra pedir autorização pra incluir o Caos Colorido na minha Blogroll! ;D Não importa ser recente e a intenção não ser tão profunda, o que vale é escrever! 😀
    E sim, vamos continuar os papos..

  9. Nis Evangelista disse:

    Siiimmm! Não sei usar direito o wordpress, mas teu poema apareceu pra mim depois de uma xícara de café, às 4h da manhã. Nada é por acaso nesse mundo, rs. E sim, autorização concedida. E sim (III), vamos continuar os papos…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: