Coruja de Minerva #04

O último post do ano da filosófica série Coruja de Minerva vai falar um pouco de um dos filósofos que, na minha singela opinião, exerce, de uma forma ou de outra, muita influência e muito interesse em qualquer aluno de qualquer curso de Filosofia (pelo menos no Brasil), falo de Jean-Paul Sartre.

O meu quarto período vai chegando ao fim e este período inegavelmente fica com a marca de Sartre, apesar de estar estudando ele especificamente em apenas uma disciplina é quase que inevitável não ouvir seu nome ou suas ideias em várias outras disciplinas, nos corredores, na cantina, etc…

Acho esse fenômeno bem interessante, esse lado pop de Sartre é positivo, creio eu, e por tudo isso resolvi falar um pouco do filósofo francês neste post.

Para tal, selecionei um dos textos que escrevi sobre ele nesse período. O texto foca na questão da má-fé sartriana.

De aparente fácil compreensão, a má-fé em Sartre muitas vezes é confundida pelo senso comum, que pensa a má-fé de outra maneira. A má-fé em Sartre tem um sentido diferente do comumente usado e é um termo de extrema importância dentro de seu pensamento.

Em sua principal (e gigante) obra, “O Ser e o Nada”, Sartre apresenta o seu conceito de má-fé, e a partir da leitura do trecho dedicado má-fé nessa obra e de outras leituras como de “O Existencialismo é um Humanismo” e conversar sobre o assunto, escrevi este pequeno texto:

A má-fé em Sartre

O presente texto procura fazer uma análise comentada dos fragmentos da obra “O Ser e o Nada” do filósofo francês Jean Paul Sartre, que falam sobre a questão da “má-fé”.

Após expor o seu objetivo principal (que é a busca pelo Ser), explicitar sua veia fenomenológica e caracterizar o Em-si e o Para-si, Sartre nos fala do conceito de má-fé. Este termo é muito utilizado pelo senso comum, mas é condição sine qua non para entendê-lo na visão sartriana, não entendê-lo à maneira do senso comum, pois a má-fé em Sartre terá um sentido ontológico; bem diferente da má-fé do senso comum.

A má-fé em Sartre está ligada ao Para-si. Já foi visto que o Para-si é o ser que toma consciência de si (de sua contingência, finitude, etc..), mas ao tomar consciência de si o Para-si percebe que é o nada, a partir disso a condição humana passa a querer ser algo, essa vontade de assumir uma segunda natureza (que no caso seria ser o Em-si) é a má-fé.

Esse “em-sisar-ze” é a negação da liberdade, é também a fuga da responsabilidade. Sartre nos mostrará exemplos cotidianos (as condutas de má-fé) que ilustrarão muito bem o que é agir de má-fé. O mais paradigmático dos exemplos é o do garçom. O garçom, quando atende os consumidores, faz seu serviço, seus gestos e trejeitos, neste momento ele está sendo um garçom, de certa forma está representando um papel. A má-fé estaria no fato do garçom não ter essa consciência, dele pensar que É um garçom, quando na verdade ele não é nada, pois o para-si é fazer-se, ao assumir que é um garçom ele está agindo de má-fé, está buscando aquela chamada segunda natureza que é o Em-si.

É interessante perceber também em um exemplo citado posteriormente, que nesse sentido, sinceridade e má-fé coincidam. Afinal, o chamado “campeão de sinceridade” afirma veementemente aquilo que ele pensa ser (no caso, sincero), assim, a sinceridade também passa a ser um Em-si ilusório.

Esses exemplos, além de ilustrarem bem o que é a má-fé, corroboram também para um dos principais motes sartrianos: a questão da transitoriedade. Para Sartre, nossas vidas são um constante repensar e refazer-se, não existe nada pronto e fechado (se não cairíamos no Em-si), é o homem que faz a si mesmo.

Ao dar tanta ênfase assim à questão da má-fé, Sartre toca num ponto fundamental que é a tomada de consciência da finitude, vai fundo na questão do Ser e da postura humana frente ao Ser.

A má-fé também não deixa de constituir o Para-si, que é o ser da consciência e é partir da má-fé que as estruturas ontológicas dessa mesma consciência serão abordadas. O constante risco da má-fé não deixa de ser uma das possibilidades do Para-si e como fazer uso ou não dela é determinante e fundamental para o exercício da autenticidade e da liberdade.

É mais ou menos isso. Ano que vem tem mais Coruja de Minerva!

2 pensamentos sobre “Coruja de Minerva #04

  1. Ivan Bilheiro disse:

    Eu sempre quero mais…!

    Sartre é sempre bom e, embora curto, o texto lança vários conceitos que permitem um início de contato para aqueles que não conhecem o francês.

    “Para mim ser é admirar-me de estar sendo” (Fernando Pessoa)

  2. Grato por mais um comentário! =D

    A ideia desse post era mais essa mesmo, de propiciar um “pontapé inicial” para Sartre, com o cuidado de, mesmo ressaltando seu lado pop, não banalizá-lo (aquela “nova-velha” discussão da pop-filosofia.. hehe), mas claro que dá pra ter muito mais em futuras investigações…

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