O puro do cotidiano

“Lindo e leve vou levando,

Com a cabeça fria e o pé quente

E o coração bombando, bombando…”

Curumin

Cada detalhezinho desse cotidiano, até o vira-lata vagabundo que vai atrás de comida na esquina de cima, tudo passa por mim, tudo deixa sua marca, direta ou indiretamente. E como eu reajo a tudo isso?

Às vezes penso em como inúmeras fatalidades que acontecem cotidianamente, sem maiores cerimônias, são deixadas de lado, esquecidas. Porque se a todo o momento estamos vivendo, sendo cobrados de um jeito ou de outro, o puro do cotidiano (se é que existe algo assim) torna-se mero acessório, mais um entre tantos outros detalhes e a “grandeza” de nossas vidas logo se esquece disso.

O puro do cotidiano. Que definição é essa? Que pureza pode conter o ônibus, a privada e as sacolas de lixo que a gente deixa pro caminhão de lixo pegar? Pode tudo isso ser apenas cotidiano e nada mais, pode tudo isso não ter um puro, não ter nada! Só que, com toda sinceridade, essas possibilidades me parecem tão sem graça.

Não é que o cotidiano tenha que ter alguma graça, mas é que essas repetições, chateações e necessidades são tão vivas e presentes que pelo menos pra este que vos fala não tem sentido elas apenas serem.

Elas são mais, elas te impulsionam a buscar o que se quer. Podem ser encaradas como obstáculos, como limites talvez, apenas constituintes da mundanidade, mas também podem ser vistas de outras maneiras, podem até possuírem um puro, não?

O puro do cotidiano. Vão dizer que é viagem, vão dizer que é loucura. Vão dizer o que quiserem dizer, mas essa chuva que cai diz mais alto, essa chuva que banha e purifica as ruas batidas do cotidiano me dá vontade de escrever tudo isso.

Tudo isso que é solitário e cotidiano. Experiências e mais experiências que vão me moldando. Essas pequenas nuances cotidianas fazem de mim o que eu sou, o contato com outras esferas talvez mais importantes e grandiloqüentes do que o simples cotidiano também existe e é muito válido para a minha auto-construção, mas eu ainda insisto no tal puro do cotidiano.

O que se escolheu é o que se tem. O que eu faço da minha vida é a minha invenção diária de significações, relações, escolhas, é, em última instância, solidão.

Solitário (dentro do meu cotidiano) e apaixonado (por ele, por sua pureza). Solitário e apaixonado. Todo santo dia é dia. “Meio-dia. Meia-tarde. Meia-noite.” Como diria a menina lá de cima. Lava prato, escreve post. Limpa quarto e tira um xerox. Até amanhã…

3 pensamentos sobre “O puro do cotidiano

  1. Talita de Assis disse:

    E se não fosse os dias que parecem iguais…?
    Me permita fazer outra citação, essa do Mago, que é super valida para todos (e muito mais para mim) tentar enxergar a beleza nesses dias que julgamos meio tediosos, iguais os outros, sem encanto, o que na verdade é apenas o instante mágico atropelado por essa nossa pressa cotidiana: ” Todos os dias Deus nos dá – junto com o sol – um momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infelizes. Todos os dias procuramos fingir que não percebemos este momento, que ele não existe, que hoje é igual à ontem – e será igual à amanhã. Mas, quem presta atenção ao seu dia, descobre o instante mágico.Ele pode estar escondido na hora em que enfiamos a chave na porta pela manhã, no instante de silêncio logo após o jantar, nas mil e uma coisas que nos parecem iguais.”
    E não vamos deixar passar esses instantes! E vamos nos construindo mais humanos… Há sempre algum tipo de sentido ou o que virá depois?

    Ah, querido, uma honra em ter sido citada! Obrigada! Beijão!

  2. Nayara X. disse:

    Lindo!
    pôxa, mocinha…
    Essa é uma daquelas ‘redações’ que tu disse que fazia pra estudar pro enem? hahaha
    Que linda. Que orgulho desse doce que você deixa por cada canto que passa.

    Beijos da Mabele, da Nay… de todas nós.

  3. A honra é minha de poder citar um poema que vai ao encontro dessas minhas impressões cotidianas, queridaça! E a sua citação realmente tem tudo a ver. É a tentativa de enxergar a beleza no não-belo, no tédio, através de um “instante mágico” talvez que se faz presente aqui.

    Cada detalhezinho, visto por outro ângulo, pode ser trilindo, como você mesma diz! 😀

    Beijão!

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