Arquivo mensal: outubro 2011

Le Rouge et Le Noir #10

Fecho o mês com mais um post da série Le Rouge et Le Noir. E, confesso, é com certa decepção que faço isso. Ontem, no Olímpico, o Flamengo teve a chance de vencer um jogo histórico (marcou a volta de R10 ao Olímpico) e de encostar de vez nos líderes, ficando mais perto do hepta. Mas isso não aconteceu, pelo contrário, após abrir 2 x 0, permitiu a virada gremista pra 4 x 2.

Falo um pouco sobre esse jogo e as perspectivas para essa reta final de Brasileirão 2011 (post original no Confio no Mengão):

O reencontro de R10 com o Olímpico

Falo hoje sobre o jogo de ontem, que adquiriu contornos históricos, por marcar a volta de R10 ao Olímpico e também contornos dramáticos, por marcar uma virada do Grêmio e dificultar ainda mais as pretensões rubro-negras pelo hepta.

O jogo começou de uma maneira muito interessante para o Flamengo. Todas as atenções estavam voltadas para R10 e logo no primeiro lance de maior perigo ele carimbou o travessão gremista após bela cobrança de falta. Esse primeiro lance dava indícios de uma Flamengo jogando pra frente, com o menino Thomás como titular na vaga de Willians.

E foi isso mesmo o que aconteceu durante quase todo o primeiro tempo. Um Flamengo pra frente, buscando o gol. Que veio aos 24 minutos com Deivid, após bom passe de Thiago Neves e falha de Rafael Marques, o camisa 9 rubro-negro chegou ao seu décimo terceiro gol no Brasileirão, igualando Ronaldinho no quadro de artilheiros rubro-negros.

Aos 35 foi a vez do Flamengo contar com a sorte. Após receber passe de Léo Moura, Thiago Neves arriscou com a direita, que não é a boa, e a bola desviou em Fernando, matando totalmente o goleiro Victor. 2 x 0 Flamengo e a sensação de que mais três pontos voltariam na bagagem e Ronaldinho sairia por cima ao fim do jogo.

Mas no futebol e principalmente quando se trata de Flamengo quando tudo vai muito bem, parece que tem alguma coisa errada e se aparece o comodismo, aí é que essa coisa errada cresce e tudo parece ficar muito mal.

No finzinho do primeiro tempo, num momento em que o Flamengo era extremamente superior, tanto no placar quanto na bola, o Grêmio achou um gol, com o seu artilheiro André Lima.

Esse gol de certa forma mudou completamente o jogo. O Grêmio voltou para o segundo tempo mais confiante e logo no início com outro gol de André Lima, em boa jogada individual empatou a partida.

O Flamengo parece que esqueceu aquele ímpeto ofensivo e raçudo do primeiro tempo e passou a assistir o Grêmio jogar. Era questão de tempo a virada tricolor. Que veio aos 34 minutos, com o camisa 10 Douglas. O gol de virada desestabilizou ainda mais o Flamengo e logo depois acabou saindo o quarto gol gremista, com Miralles.

Fim de jogo, virada gremista, sentimento de vingança consumada da torcida gremista em relação a Ronaldinho Gaúcho, Corinthians, Botafogo e Fluminense vencendo, se distanciando e deixando o Flamengo na quinta colocação.

Quer dizer, é um dos piores cenários que o Flamengo poderia encontrar ao fim dessa 32ª rodada. Mas o Campeonato Brasileiro parece querer mostrar mais e mais, a cada ano que passa, que essas adversidades e esses “cenários ruins” são normais, corriqueiros e não se assustar com eles é que faz toda a diferença. A distância para o atual líder Corinthians é de 6 pontos, restam 6 rodadas. Apesar de todas as dificuldades é ainda perfeitamente possível um hepta. No entanto tem um único probleminha: pra conseguir esse hepta acredito que o Flamengo, de agora em diante, tem que voltar a pôr prática algo que vinha colocando alguns meses atrás: a invencibilidade. Quatro empates e duas vitórias não adiantariam muito, mas a hora de perder precisa ter chegado ao fim também.

E independente de quem está jogando bem ou não, independente se Luxemburgo está escalando e substituindo bem ou não, agora é reta final. O jeito é ir junto com esse time, com suas limitações e erros todos. A meta, creio eu, ainda é e sempre foi o título, mas o “plano de segurança” TEM que ser a vaga na Libertadores. Um ano de 2012 com Copa do Brasil e Sul-Americana seria extremamente chato, desinteressante e decepcionante.

SRN  #RumoAoHepta

XIX Semana de Filosofia (UFJF)

A exemplo do que fiz no ano passado, faço um post hoje dedicado exclusivamente à Semana de Filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Ano passado dizia que o 2º período da faculdade ia chegando ao fim e gosto pela Filosofia só aumentando, hoje posso dizer que a única mudança nessa frase poderia ser o 4º no lugar do 2º. O gosto pela Filosofia continua só aumentando e não é só uma questão de gosto, o pensamento filosófico, a maneira de olhar o mundo filosoficamente, tudo isso vai me “contaminando” cada vez mais e a Semana de Filosofia é um bom momento pra se refletir um pouco sobre isso.

Neste ano a Semana de Filosofia da UFJF foi realizada já no novo prédio do Instituto de Ciências de Humanas, o novo prédio é de certa longínquo, mal localizado, ainda mais se pensarmos na ótima localização do antigo ICH, mas nostalgias e saudades à parte, o novo ICH oferece três anfiteatros, salas mais bem estruturadas, etc.

E a primeira Semana de Filosofia do novo ICH, realizada do dia 24 ao dia 27 de outubro diferente do que comumente se faz, não teve um tema específico, o “tema” foi chamado justamente de “O múltiplo das questões”. Por isso cada dia meio que teve um tema, mas nada muito certinho.

Na segunda, o evento foi inaugurado com Fenomenologia. O recém-contratado professor da UFJF, Luciano Donizetti da Silva, falou sobre “Liberdade e Engajamento: a Fenomenologia Francesa”. A palestra girou em torno das desavenças filosóficas entre Sartre e Merleau-Ponty. Focando mais no primeiro e também relembrando a importante contribuição heideggeriana para estes dois pensadores franceses.

Logo em seguida foi iniciado o primeiro mini-curso. Ministrado pelo também professor da UFJF (esse já um velho conhecido) José Carlos Rodrigues. O tema foi “Metafísica e Subjetividade”. José Carlos dividiu sua exposição em três momentos: o primeiro foi a “descoberta” da subjetividade por Descartes, depois as sistematizações kantianas de sujeito-objeto e por fim a apresentação de uma entrevista de Martin Heidegger, dada em 1969 no famoso chalé da floresta negra.

Este minicurso foi complementado pelo professor Adelmo José Silva da UFSJ, ele focou em Henri Bergson, pensador pouco estudado no Brasil e que possui um pensamento bem interessante, Bergson aliás foi retomado na terça-feira, na apresentação do livro de Tarcisio Jorge Santos Pinto: “O método da intuição em Bergson e sua dimensão ética e padagógica.”

Na terça-feira o dia foi aberto com o diálogo investigativo do chefe de departamento da Filosofia da UFJF, Juarez Gomes Sofiste. O tema de sua apresentação foi: “Filosofia na América Latina: Filosofia da Libertação ou Libertação da Filosofia”. Juarez buscou lembrar nomes de filósofos latino-americanos que são esquecidos pela maioria como por exemplo Leopoldo Zéa, Enrique Dussel, etc.. falou de uma maneira radical sobre o fazer Filosofia na América Latina.

Terça-feira também foi dia de abertura das Comunicações Filosóficas, que é o espaço dado para os alunos do curso mostrarem seus estudos. As Comunicações Filosóficas este ano foram especiais pra mim, por apresentei o artigo “O Silêncio em Kierkegaard” numa das mesas (já na quinta-feira). Foi a minha “estreia” em apresentações acadêmicas desse porte e o interessante foi ter dividido a mesa com Carlos Mário Paes Camacho, meu colega de sala, que no ano passado também apresentou uma comunicação filosófica e foi citado aqui por mim no blog, naquele momento ele era um “colega palestrante” agora não deixa de ser um “colega de palestrar”.

Enfim, na terça quem apresentou as Comunicações foram Diegho Salles, com “Manoel de Barros: uma reinvenção metafenomenológica da linguagem.” Lidiane Giarola com a “Análise do Discurso” e Vanessa Gonçalves com “O narrador em ‘A Hora da Estrela'”. Todas tiveram como eixo o discurso, a linguagem, e falaram basicamente da pós-modernidade, seja por um viés fenomenológico, estruturalista ou literário.

A quarta também foi um dia especial, principalmente para o Un Quimera. Sim, quarta foi dia palestra do professor René Dentz: “Ética e Psicanálise em Paul Ricoeur”. Digo que foi especial para o Un Quimera pois foi através do post sobre a Semana de Filosofia do ano passado que o René fez contato comigo (via comentário até) e a partir daí fomos planejando a ida dele pra Juiz de Fora para apresentação dessa palestra, é interessante lembrar também que o René é um ex-aluno da própria Filosofia da UFJF, inclusive ajudou a organizar a X Semana de Filosofia. Sua palestra também focou a pós-modernidade, com ênfase nas obras de Paul Ricouer e ressaltou bastante também a importância de um aprofundamento filosófico para que a Psicanálise, a Psicologia possam se desenvolver bem.

O segundo momento de quarta-feira contou com o mini-curso do professor Luiz Antônio Peixoto da UFJF sobre “Ideologia e Senso Comum”. Talvez essa tenha sido a apresentação mais aguardada e frequentada. Dividida em duas partes foi uma espécie de introdução para os futuros alunos de Estética e Filosofia da História (meu caso) e de revisão para os atuais alunos dessa disciplina. Partindo de Marx e da Escola de Frankfurt, Luiz Antônio ministrou um mini-curso que gerou muito interesse, discussão e que pretende sempre, creio, despertar mesmo é a crítica social através de um viés filosófico.

Esse mini-curso foi o gancho para os alunos Aurius Gonçalves e Emerson Oliveira apresentarem seus trabalhos nas Comunicações Filosóficas de quarta. Aurius apresentou “A Ideologia da Cultura na Contemporaneidade” e Emerson uma análise de “Ideologia: uma introdução” de Terry Eagleton. Muito debate e muita discussão, os habituais dez minutos de perguntas foram fortemente extrapolados.

A quarta foi fechada com a palestra do professor da UFJF, Ricardo Vélez: “Panorma completo da Filosofia Latina”.

Na quinta-feira, último dia da Semana, a primeira atração foi a mesa de Comunicações Filosóficas, onde, como já adiantei, o blogueiro aqui e Carlos Mário Paes Camacho fizeram suas apresentações. Ele com “Ética e Atualidade em Michel de Montaigne” e eu com “O Silêncio em Kierkegaard”.

O dia continuou e de certa forma retomou a levada de quarta-feira das ideologias e afins com o mini-curso do professor da UFJF Pedro Rocha: “Ideologia e Imagem”. Dividido em duas partes, como todos os mini-cursos, a primeira parte foi de apresentação do filme “Salve Geral”, que conta a história do acontecimento que ficou conhecido como Salve Geral, revolta do PCC ocorrida em 2006.

A segunda parte da mini-curso foi para discussão do filme em si e de como a violência e as ideologias são representadas em imagem (no caso, pelo Cinema). Assim como o mini-curso do Pedro Rocha na Semana de Filosofia do ano passado, este foi impactante e gerou muita discussão bacana.

Quinta-feira continuou com muito cinema. Depois do mini-curso do Pedro Rocha foi a vez de Leandro Domith dividir a mesa com o cineasta Sergio Santeiro. O primeiro escreveu sua tese de mestrado em cima da obra do segundo e ambos falaram muito bem sobre “O Cinema no Terceiro no Mundo”. A discussão acabou indo para o lado quase que estritamente cinematográfico e saindo um pouco da Filosofia em certos momentos, mas ainda assim foi muito válida, um dos pontos altos da Semana.

Semana de Filosofia que chegou ao fim com palestra conjunta do cineasta Geraldo Veloso e do professor da UFJF Gilberto Vasconcellos, ainda nesse diálogo entre Filosofia e Cinema o tema da palestra foi: “O Cinema concebido como reflexão sobre a realidade no terceiro mundo e seu devir histórico”.

Essa foi uma passada bem superficial sobre as palestras, mini-cursos e comunicações dessa XIX Semana de Filosofia. É muito bom e engrandecedor, academicamente falando, participar de um evento dese porte. Apenas dentro das quatro paredes da sala de aula não dá pra se ter uma vida acadêmica verdadeiramente interessante.

Enfim, cada vez mais envolvido nessa Filosofia da UFJF vou escrevendo sobre as Semanas e espero que elas possam continuar sendo realizadas e sempre despertando o interesse em professores, alunos e demais pesquisadores (principalmente os da própria UFJF), mas também aos de fora.

QuimeraTube #44

Em meio a correria alucinada do dia-a-dia acadêmico e na iminência de mais um fim de período, uma pausa e uma verdadeira ode à preguiça, com a linda Maria do Céu:

O puro do cotidiano

“Lindo e leve vou levando,

Com a cabeça fria e o pé quente

E o coração bombando, bombando…”

Curumin

Cada detalhezinho desse cotidiano, até o vira-lata vagabundo que vai atrás de comida na esquina de cima, tudo passa por mim, tudo deixa sua marca, direta ou indiretamente. E como eu reajo a tudo isso?

Às vezes penso em como inúmeras fatalidades que acontecem cotidianamente, sem maiores cerimônias, são deixadas de lado, esquecidas. Porque se a todo o momento estamos vivendo, sendo cobrados de um jeito ou de outro, o puro do cotidiano (se é que existe algo assim) torna-se mero acessório, mais um entre tantos outros detalhes e a “grandeza” de nossas vidas logo se esquece disso.

O puro do cotidiano. Que definição é essa? Que pureza pode conter o ônibus, a privada e as sacolas de lixo que a gente deixa pro caminhão de lixo pegar? Pode tudo isso ser apenas cotidiano e nada mais, pode tudo isso não ter um puro, não ter nada! Só que, com toda sinceridade, essas possibilidades me parecem tão sem graça.

Não é que o cotidiano tenha que ter alguma graça, mas é que essas repetições, chateações e necessidades são tão vivas e presentes que pelo menos pra este que vos fala não tem sentido elas apenas serem.

Elas são mais, elas te impulsionam a buscar o que se quer. Podem ser encaradas como obstáculos, como limites talvez, apenas constituintes da mundanidade, mas também podem ser vistas de outras maneiras, podem até possuírem um puro, não?

O puro do cotidiano. Vão dizer que é viagem, vão dizer que é loucura. Vão dizer o que quiserem dizer, mas essa chuva que cai diz mais alto, essa chuva que banha e purifica as ruas batidas do cotidiano me dá vontade de escrever tudo isso.

Tudo isso que é solitário e cotidiano. Experiências e mais experiências que vão me moldando. Essas pequenas nuances cotidianas fazem de mim o que eu sou, o contato com outras esferas talvez mais importantes e grandiloqüentes do que o simples cotidiano também existe e é muito válido para a minha auto-construção, mas eu ainda insisto no tal puro do cotidiano.

O que se escolheu é o que se tem. O que eu faço da minha vida é a minha invenção diária de significações, relações, escolhas, é, em última instância, solidão.

Solitário (dentro do meu cotidiano) e apaixonado (por ele, por sua pureza). Solitário e apaixonado. Todo santo dia é dia. “Meio-dia. Meia-tarde. Meia-noite.” Como diria a menina lá de cima. Lava prato, escreve post. Limpa quarto e tira um xerox. Até amanhã…

Inclinação Cinematográfica #05 – Os múltiplos ângulos

Hoje é dia de Inclinação Cinematográfica e seguindo a linha dos últimos posts da série, falarei de um filme estadunidense que talvez também já tenha adquirido o status de “clássico”.

Falo de Elefante, de Gus Van Sant.

Van Sant é um cineasta de renome no meio underground, mas o blogueiro em especial conhece muito pouco de sua obra, o único filme que já vi dele foi mesmo Elefante, até por isso minhas impressões sobre o diretor vão se restringir a esse parágrafo, o que não me impede de elogiá-lo imensamente aqui.

Entrando no filme em questão, antes de mais nada acredito valer a pena dar uma explicação sobre o título, que já vai ir clareando muita coisa do filme em si.

Para tal, faço uso de um trecho do escritor romeno Mircea Eliade, onde na verdade o intuito dele é uma não redução do fenômeno religioso, o que não tem muito a ver com o filme em questão. Citarei o trecho inteiro e depois explicarei aonde quero chegar, repare bem no elefante do trecho:

“A ciência moderna reabilitou um princípio que certas confusões do século XIX comprometeram gravemente: é a escala que cria o fenômeno. Henri Poincaré perguntava a si próprio, com ironia: ‘um naturalista que só tivesse estudado um elefante ao microscópio acreditaria conhecer plenamente este animal?’ O microscópio revela a estrutura e o mecanismo das células, estrutura e mecanismo idênticos em todos os organismos pluricelulares. E não há dúvida de que o elefante é um animal pluricelular. Mas não será mais do que isso? (grifo meu) À escala microscópica podemos conhecer uma resposta hesitante. À escala visual humana, que tem pelo menos o mérito de nos apresentar o elefante como fenômeno zoológico, não há hesitação possível. Da mesma maneira, um fenômeno religioso somente se revelará como tal com a condição de ser apreendido dentro de sua própria modalidade, isto é, de ser estudado à escala religiosa. Querer delimitar este fenômeno pela fisiologia, pela psicologia, pela sociologia e pela ciência econômica, pela linguística e pela arte, etc… é traí-lo, é deixar escapar precisamente aquilo que nele existe de único e irredutível, ou seja, o seu caráter sagrado. É verdade que não há fenômenos religiosos puros, assim como não há fenômeno única e exclusivamente religioso”.

Deixando de lado este aspecto religioso (que por sinal também é muito interessante) e levando mais em a primeira parte desse trecho, a analogia feita com a religião pode ser feita da mesma maneira com o filme. Quer dizer, ao observar o elefante microscopicamente temos sim uma definição verdadeira dele (ele é, com certeza, um animal pluricelular), porém isso não é tudo, o gigante elefante não se esgota nessa definição, pode possuir infinitas outras a partir de diferentes ângulos, diferentes pontos de vista.

É isso o que busca Van Sant em seu filme: com uma câmera flutuante, bem ao estilo experimental, ele vai nos mostrando os diferentes pontos de vista de vários alunos de uma típica “high school” estadunidense. Um detalhe interessante é que o filme foi gravado em Oregon, numa escola de lá, e os atores que foram selecionados para atuar também eram estudantes dessa escola. De certa forma isso dá um ar realista a este filme experimental.

Mas além de apenas nos mostrar os diferentes pontos de vista de vários estudantes, ou até mesmo grupo deles, o filme tem também um grand finale. As ações se desenrolam em apenas um dia (daí um vai e vem, e algumas cenas repetidas, justamente por mostrar os diferentes ângulos) e esse dia é o dia em que dois estudantes invadem o colégio e promovem um verdadeiro massacre.

O massacre reproduzido na parte final do filme é baseado em fatos reais – em 1999, no colégio de Columbine, Colorado, EUA, algo parecido ocorreu. A ideia de Van Sant entretanto não é uma fiel reprodução deste massacre real, mas sim uma alusão que busca retratar não jornalisticamente o fato, uma reprodução que busca retratar por um outro ângulo o que foi esse massacre.

Durante a trama, dentre os variados pontos de vista retratados, alguns lugares comuns são mostrados, mas mostrados de uma maneira pela qual possa haver uma maior reflexão sobre eles: homossexualismo, bullying, bulimia, etc

Enfim, Elefante conta a história de uma tragédia de uma maneira totalmente diferenciada e autêntica. O filme parece não ter pretensões, ele simplesmente se mostra de vários modos (assim como o ser para Aristóteles) e essa não definição é o que faz dele um grande filme, de reflexão demorada e repetida e não de conclusão rápida e única.

Em dezembro volto com mais Inclinação Cinematográfica.

QuimeraTube #43

O QuimeraTube de hoje é uma homenagem/agradecimento ao Coletivo Sem Paredes e ao DCE da UFJF (Gestão Outras Palavras), pela realização do I Festival de Cultura e Arte e pelo I Festival Sem Paredes. Eventos que agitaram a Universidade Federal de Juiz de Fora de quarta passada até ontem.

Oficinas de rugby, slackline, jornalismo cultural, etc.. E no fim de semana, som, muito som bacana na praça cívica da UFJF.

Um batalhão de bandas independentes, de casa (como Martiataka e Silva Soul) e do Brasil inteiro (como Black Sonora, Aeromoças e Tenistas Russas, Garotas Suecas, Do Amor, entre outras..)

O detalhe é que no caso deste blogueiro que voz fala o fim de semana foi ainda mais recheado culturalmente com o show do Ventania, no Cultural Bar, na quinta-feira. O maluco magrelo de cabelo amarelo botou fogo no Cultural cantando seus grandes sucessos e ainda teve direito a um pouquinho de Raul Seixas no fim…

Enfim, essa efervescência cultural que rolou em JF na última semana é muito positiva, saudável pra corpos e mentes de poetas, cantadores e estudantes. Fica o agradecimento aos organizadores do evento e o vídeo de como foi mais ou menos o fim desse festival, com BNegão e Black Sonora mandando a pesada “Guiné Bissau, Moçambique e Angola” do grande Tim Maia:

A Saudade Não Pode Acabar

No dia 1º de janeiro de 2009 eu estava inaugurando esse blog. Se perguntassem pra mim naquele dia qual era o intuito disso eu acho que hoje nem saberia dizer mais qual seria a minha resposta naquela época. De lá pra cá eu vivi muita coisa, aprendi várias outras, mas o fundamental e que eu acho que sempre diria em relação ao blog, seja em janeiro de 2009 seja nesse outubro de 2011 é que esse Un Quimera é um lugar pra pessoas que estão afim de ler e de pensar um pouco mais, a princípio é só um lugar pra eu descarregar minhas ideias e opiniões em forma de poemas, contos, artigos e etc, mas esse ponto de despertar o gosto da leitura e da reflexão nos leitores é também essencial.

Você leitor deve estar se perguntando o porquê de eu estar falando tudo isso, o motivo é o seguinte: o post de hoje é um texto de um grande amigo dos tempos de São Gonçalo, amigo que quase sempre encontro quando vou pra lá e que principalmente nas férias é uma das pessoas com quem eu mais converso e compartilho experiências.

Falo de Marcelo Borges Pinto, o “Marcelo Cabeça” dos QuimeraCasts. Ontem ele me passou um e-mail com esse texto e eu fiquei realmente emocionado ao ver que o meu blog devagarinho, devagarinho vai despertando a leitura e a escrita em outras pessoas, quando essas pessoas são amigos parece ser mais gratificante ainda.

O aspirante à faculdade de Medicina fala sobre a saudade (tema comum em rapazes e garotas como nós que saem das pequeninas e singelas cidades e vão para os grandes centros) e da vida como um todo, citando orgulhosamente tanto a Marta quanto o Mauro. Sem mais conversas vamos ao texto:

A Saudade Não Pode Acabar

Cá estou nesta noite quente de São Paulo e me vem à mente visitar o Blog do meu grande amigo Rogério Arantes. Após a leitura de alguns textos postados, alguns posts me chamaram muito a atenção: Transporte Coletivo e “Quimera Tube #40”.

Depois de refletir sobre estes posts, percebi o quanto se assemelham no aspecto da saudade (um sentimento que tem vindo muito à tona neste momento da minha vida), e com base nisso gostaria de expor alguns pensamentos e reflexões.

Há quase dois anos deixei uma cidade pacata do interior de Minas Gerias – São Gonçalo do Sapucaí – e vim morar em São Paulo em virtude do estudo.  E desde esse momento comecei a perceber o quanto a vida pode se tornar difícil a partir do momento em que não se tem esforço para ter aquilo que se quer. Como diz minha querida mãe: “onde tem ferro, tem ferrugem”, e aos poucos a saudade da vida “monótona” que levava aparece mais, junto com a dificuldade de se viver longe dos pais, assumir os seus compromissos, viver momentos de solidão, sem a presença daqueles que desde pequeno aprendi a amar. E isto pode se tornar um medo, uma frustração para homens que não tenham “ninguém” com quem possam se abrir.

A saudade cada vez mais se torna evidente, chegando a um ponto de ser um martírio em certos momentos do dia, podendo fazer mal a mim próprio. Diga-se de passagem, me fez mal em certo momento e pensei em desistir da cidade grande. Mas a saudade se tornou um mal necessário, é só com ela que vou poder conquistar o meu desejo de ser médico. E hoje entendo este sentimento doloroso pelo qual alguns passam. Do que vale este mal se a vida é feita de fases?  Passa-se por isso, é inevitável. Preciso deste momento para conseguir aquilo que almejo.

Existem vários por aí que não se encontram com a saudade para conquistar um sonho. Ou por uma vontade, ou por já estarem em um grande centro urbano e perto daqueles que amam ou por já terem nascido do “lado” do tão almejado desejo construído durante a sua infância e adolescência. Mas, principalmente cidadãos do interior, convivem com este mal, pelo fato de irem buscar na cidade grande o que tem em mente.  Mas deve-se ter um objetivo bem moldado na cabeça para não se deixar levar pela saudade e acabar voltando para a sua terra natal ou suas proximidades.

Agora, Como deixar a saudade de lado? Como citado anteriormente, apenas homens com objetivos na vida conseguem seguir em frente e deixar de lado. Vale a pena citar uma frase em que meu grande pai diz: “Um homem na vida sem objetivos não é nada”.

Para muitos a saudade sempre estará vinculada com a conquista dos sonhos. E para outros apenas um sentimento no qual se pode rotular como tolice. Mas basta estar distante das pessoas das quais sempre gostou e enxergar o quanto este sentimento está entrelaçado.

Marcelo Borges Pinto

Poético Temporal

“E se sinta começando, renascendo, solitário

Tendo em vista um novo momento…”

Fernando Catatau

É novo o que se mostra

É tempo, sempre tempo

De questionar e pensar

Chuva mansa que escorre

Tal qual lágrimas solitárias

Calor infernal que escorre

Como o suor na face cansada

É tempo, sempre tempo

De pensar e questionar

O passado quase todo refeito

Em cada nova significação

O futuro que é agora

Perdido em cada novo projeto

É tempo, sempre tempo

De não ter tempo e correr

Correr demais sem saber por quê

E querer mais e mais tempo

Pra saber ainda mais

Não é epistemologia

Muito menos cosmologia

É tempo, sempre tempo

E se é poesia é instante

E o instante desse momento

Só me faz pensar que

É tempo, sempre tempo

Se a poesia se encerra

Dentro da temporalidade

E ainda assim pode

Ser algo infinito

Então é tempo, sempre tempo

E é mais, é outra coisa

Defina leitor, defina!

Eu, preso na finitude desse poema

Apenas digo que o tempo passou

E eu já não sou mais quem eu fui.