Transporte Coletivo

“Enquanto eles se batem, dê um rolê…”

Moraes Moreira/Galvão

Quando era adolescente e viajava pra cidade grande, pegar ônibus sempre era uma das atividades mais preocupantes. Aquele medo bobo e juvenil de pegar o ônibus errado e ir parar em um lugar onde você nunca havia parado antes ou de se perder de algum colega no meio da multidão que espera no ponto.

Mas os medos estão aí para serem superados e a vida está aí para ser vivida. O tempo foi passando, a cidade grande virou lugar não de fazer visitas ou excursões, mas sim de viver, e os ônibus deixaram de passar aquela preocupação toda e viraram mais uma entre tantas outras tarefas cotidianas.

Mas o cotidiano está aí para ser repensado e visto com outros olhos. É a partir da mudança de ângulo que a vida vai se construir, que você se afirmará como alguém que sabe usar da faculdade da razão, mas que também se abre e desconstrói, que também erra, que também sofre, chora, desespera, mas que ainda assim afirma, afirma o quê? A vida é algo bom de ser afirmado, sem precisar de justificativa nenhuma, vida enquanto vida, construída de uma maneira singular – e porque não ao mesmo tempo múltipla – vida cotidiana no fim das contas.

E pode até parecer loucura ou bobagem, mas esses lampejos todos foram tomando conta da minha cabeça hoje, dentro um ônibus. O transporte coletivo tornou-se algo cotidiano, e esse tornar-se cotidiano fez com que eu repensasse esse cotidiano e tentasse buscar alguma coisa diferente ali. Não ficar reclamando da demora das viagens, do motorista, do cobrador, das pessoas. Mas sim de me recolher naquele banco e pensar um pouco.

Pensar em tudo isso que estou escrevendo aqui, coisas bem introspectivas até certo ponto, diga-se de passagem, mas também pensar pra fora, pensar essa cidade que a cada dia que passa me incorpora mais. É que da janela desse ônibus dá pra ver muita coisa.

O clima frio mesclado ao sol quente e as ruas e casas cinzentas são cenário para uma vasta gama de personagens que compõem esta grande encenação: as pessoas com as camisas de seus times, os senhores que caminham com dificuldade e olhar perdido, a família que espera no ponto e vê um amigo dentro de outro ônibus, o cara que busca um mato qualquer para urinar.

Todos esses personagens e muitos outros vão povoando o meu cotidiano. E o que eu vou fazer com tudo isso? Além de observar tudo atentamente com o som do Criolo tocando no fone de ouvido – “Cartola virá que eu vi, tão lindo, forte e belo como Muhammad Ali” – penso, escrevo e vou me convencendo de que o mundo não requer explicações mirabolantes, fugas escatológicas, nem nada disso. Pensar, acreditar e querer o lado de lá é plausível, aceitável e por vezes a melhor solução. Pensar, acreditar e viver o lado de cá, entretanto, é ainda mais plausível e aceitável e mesmo que não seja a melhor solução é, ainda assim, uma solução. Uma resolução.

A conversa sobre o churrasco de ontem das mulheres que sentam na minha frente confundem um pouco a minha mente, os pensamentos vão ficando difusos e logo eu acabo chegando ao ponto onde tinha que descer. Desço e continuo pensando em como o ônibus, que não passava de um sinônimo de medo e preocupação, tornou-se um refúgio para o exercício do pensar. Nas várias mudanças e viradas dessa vida, o transporte coletivo acabou metamorfoseando-se e a teleologia disso tudo talvez seja transportar a uma coletividade um pouco do que eu penso. Se isso tudo tem um preço? Tem sim, R$ 1,95.

7 pensamentos sobre “Transporte Coletivo

  1. Antônio C disse:

    Será que realmente a propaganda tem razão? Ser feliz não tem preço?

  2. A propaganda por vezes nos ilude e a valoração de algo como a felicidade é extremamente delicada..

  3. Oh-la-la, monsieur!! (aprendi isso na última aula com a irmã!)
    Gostei muito desse texto. Ficou super diferente dos outros. Mas mesmo assim você conseguiu não tirar toda a reflexão que você sempre faz…
    Eu me identifiquei com muitos pensamentos seus. Realmente, tudo o que é novo, ainda mais pra gente que é da roça – rsrs – causa um certo receio. Mas logo é incorporado às nossas atividades diárias. De qualquer forma, a gente sempre acaba achando uma brechinha pra avaliar o mundo ao redor, buscar um pouquinho de compreensão – e mesmo aceitação – e ir vivendo como a gente pode…
    Muito legal, mesmo!
    Excellent *

  4. […] Arantes. Após a leitura de alguns textos postados, alguns posts me chamaram muito a atenção: Transporte Coletivo e “Quimera Tube […]

  5. Ivan Bilheiro disse:

    Aprimorado, com reflexão, e revelador de seu amadurecimento filosófico. Sem mais. Parabéns!

  6. […] O seu artigo mais comentado em 2011 foi Transporte Coletivo […]

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