O colecionador de palitos de dente

Sair à noite, andar pelas ruas e parar em bares, restaurantes, lanchonetes, pizzarias. Coisa bem cotidiana dentro do meio urbano, esses estabelecimentos nos remetem a comes, bebes e conversas, encontros informais, enfim, a um ambiente bem sociável e às vezes inusitado.

Dias atrás, numa pizzaria qualquer, sai com um grupo de amigos para botar o papo em dia, relembrar antigas histórias que muitas vezes são esquecidas por nossas memórias, mas que um bom amigo sempre lembra, a lembrança pode até não ser muito exata, mas aí vem outro amigo e coloca um novo detalhe, você se lembra de alguma outra coisa e uma nova velha história é contada.

O papo rolava tranqüilo. Além de lembranças, assuntos do cotidiano também eram abordados e como em todo grupo de amigos de infância o tempo passa e acabam surgindo alguns novos amigos, conhecidos na faculdade, no trabalho ou em qualquer outro lugar.

Nesse nosso encontro na pizzaria surgiram algumas novas amizades e um cara em especial me chamou a atenção. Seu nome é Kleber e entre um gole e outro de qualquer coisa, conversamos sobre muita coisa.

Ele vestia a camiseta do Sampdoria, clube italiano de futebol. Como me interesso muito pelo assunto ludopédico logo puxei conversa. Além das conversas óbvias sobre as situações de nossos times, ele dizia que o futebol brasileiro, é hoje em dia algo totalmente deturpado. A tirania da CBF perdura e juntamente com ela clubes e empresários se enriquecem a custo do dinheiro de torcedores que compram camisas e artigos, mas às vezes não têm dinheiro nem pra comprar comida. Eu dizia que essa triste realidade parece ser impossível de ser modificada, mas necessita disso, e que apesar dessa situação toda, isso não poderia prejudicar a paixão do torcedor, pois a paixão não cobra ingresso nem vende camisa, ela simplesmente existe.

Enveredamos então para o campo da paixão. Kleber, um tanto acanhado, contava sobre sua última namorada, que o traiu com um atendente de Sex Shop. Ela ia ao Sex Shop comprar coisas para usar com Kleber, mas acabou conhecendo esse atendente, foi a uma festa com ele e deu no que deu. O lado cômico da coisa tinha de ser sublimado para evitar um maior constrangimento, mas disse a Kleber que independente de qualquer coisa, certas coisas acontecem e ele deveria procurar não se prender a ninguém, viver intensamente as paixões, deixar as pessoas com quem se relaciona livres, embora ciúme e insegurança sejam palavras muito vivas nesse vocabulário sentimental, por mais que se tente negar.

Chegavam mais algumas porções de batata-frita e a gente ia conversando, trocando idéias, compartilhando experiências, rindo de piadas alheias, pois tem sempre um piadista no grupo e a noite assim ia passando.

Quando os copos, bandejas e pratos ficaram vazios e o pessoal esperava o garçom trazer a conta, Kleber pegou disfarçadamente todos os palitos de dente utilizados ali e guardou no bolso. Meio sem querer eu notei isso e depois de todos pagarem a conta e já estarmos na porta da pizzaria para as despedidas, perguntei pra Kleber o porquê dele ter guardado os palitos de dente no bolso. Ele, envergonhado, me disse que coleciona palitos de dente.

Não cheguei a imaginar nenhuma resposta possível naquele meio tempo, mas com certeza não pensei em nada do estilo de uma coleção de palitos de dente. Kleber percebeu meu espanto e sem embaraço me clareou a mente:

– Rogério, praticamente tudo que a gente falou aqui hoje é de se espantar, não tem fundamento racional nenhum. A paixão por um clube de futebol, adultério, ciúmes e por aí vai… Possuir uma coleção de palitos de dente é só mais uma demonstração das imensas possibilidades e singularidades disso que nós chamamos de ser humano. Ainda que não com a intensidade e importância dessas outras coisas. Exótico sim, mas ainda sim possível.

Sorri e logo me lembrei de quando eu gostava de decorar todas as palavras novas das páginas 42 dos livros. Disse a Kleber que entendi muito bem o que ele falou e depois de me despedir voltei pra casa pensando muito nesse eterno repensar, nessa eterna ressignificação de valores dentro da qual estamos inseridos.

Hoje à noite devo sair pra um barzinho e quem sabe novas pessoas e novas conversas como a descrita acima possam surgir. Acredito que os palitos de dente nunca mais serão os mesmos.

Um pensamento sobre “O colecionador de palitos de dente

  1. Ivan disse:

    Constantes ressignificações…
    Muito bom!

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