Inclinação Literária #04 – Ratos, ausências e presenças

Uma brasileira!

Sim, contrariando a linha que os posts da série Inclinação Literária vinham seguindo até aqui (escritores estrangeiros e masculinos: os americanos Jack Kerouac e John Fante e o francês Albert Camus), o post de hoje vai ser sobre um dos livros de uma grande escritora brasileira.

Falo de Seminário dos Ratos, de Lygia Fagundes Telles.

Antes de começar acho válido falar sobre o meu primeiro contato com a referida escritora. Foi no longínquo ano de 2007, quando estava no 1º ano do Ensino Médio, através de um livro de contos chamado Gente em Conflito, onde vários autores brasileiros escreveram contos abordando o tema da violência, de Machado de Assis a Fernando Sabino, tinha muita coisa boa lá, mas o conto que mais me chamou atenção foi Venha ver o pôr-do-sol, de Lygia Fagundes Telles. Com maestria, eu diria, a autora criou um história com uma narrativa envolvente que envolve muito mistério e um crime passional.

Mesmo tendo gostado bastante, de lá pra cá não tinha lido mais nada dessa escritora paulistana, membro da Academia Brasileira de Letras, que completou 88 anos em 2011 e possui uma vasta de bibliografia de contos e romances. Suas principais obras são Ciranda de Pedra (que foi adaptada para a televisão em 1981 e, mais recentemente, em 2008) e As Meninas.

A obra sobre a qual falarei hoje, Seminário dos Ratos, está um pouco a margem, foi publicada pela primeira vez em 1977 (eu li a 8ª edição, de 1998) e é composta por 14 contos.

Não acho muito interessante falar sobre cada um deles separadamente: muito trabalho e possivelmente pouca clareza. Por isso pretendo falar dos contos como um todo e falar um pouco mais daqueles que me chamaram mais atenção.

É uma característica marcante em praticamente todos os contos a mistura de realidade e fantasia, o que de certa forma torna os textos de Lygia algo muito subjetivo, pois os limites e contatos entre realidade e fantasia não podem ser definidos de uma maneira exata. Em meio a essa ambientação “mista” os personagens, dos mais variados possíveis, vão desenvolvendo seus dramas, angústias e paixões e fazem isso de uma maneira humana e voraz.

Esse é outro ponto que me chamou muito a atenção, a penetração psicológica que Lygia Fagundes Telles realiza em seus personagens, isso, no meu ponto de vista, enriquece demais a obra, ainda mais quando se trata de contos. Este estilo literário geralmente conciso e sem muitos acontecimentos e histórias necessita que os personagens saiam do óbvio para que assim possam transformar pequenas coisas, que por vezes passam despercebidas, em algo realmente interessante de se ler.

Para exemplificar e adentrar um pouco mais na obra vou falar um pouco de alguns contos. Em Pomba Enamorada ou Um História de Amor, nos deparamos com uma mulher que ganhou o título de princesa do Baile da Primavera e no mesmo baile se apaixonou por um rapaz, ela que aparentemente era descrente em relação às paixões entra em uma paranóia atrás de seu “príncipe” e recorre a todas as crenças e simpatias que povoam o imaginário popular: o poder dos signos, sapo com boca costurada e por aí vai, tudo por uma paixão.

O x do problema é ambientado em uma favela e assim como o conto que dá título ao livro é uma astuta crítica social, (outra faceta de Lygia é essa crítica social sutil e precisa) que mostra uma família pobre, cheia de problemas, mas que possui também uma televisão, a partir daí o conto se desenrola e passando por Ary, Clorinda, Pelé, Zico a história chega a um desfecho bem sugestivo.

A consulta foi um dos mais divertidos. Quando doutor Ramazian sai de seu escritório e deixa o seu “assistente” Maximiliano no seu lugar, para anotar recados e coisas do tipo, só que nesse meio tempo chega ao escritório o senhor Samuel Fernandez, um paranóico que está com medo da morte, o conto se desenrola num diálogo entre os dois, o desfecho ótimo, não vale a pena contar aqui.

E por fim, falo do conto que dá título ao livro, Seminário dos Ratos sintetiza bem a aura dos contos de Lygia, temos ali a crítica social, a penetração psicológica, a mistura fantasia e realidade, enfim, temos mais um belo conto, onde ratos tomam conta de um seminário e provocam mudanças no país.

É mais ou menos nisso que essa obra gira, Lygia Fagundes Telles consegue falar de paixões e sentimentos de uma maneira muito interessante, ela é intensa e sabe explorar pequenas coisas cotidianas. Pra falar um pouco disso, nada melhor do que a própria, a seguir um trecho de um depoimento dela:

“Alguns dos meus textos nasceram de uma simples frase ou de alguma imagem que vi e retive. Outros, nasceram em algum sonho, enfim, a maior parte destas ficções talvez tenha sua origem lá nos emaranhados do inconsciente – zona vaga e obscura como um fundo de mar. O ato da criação é sempre um mistério. Anoiteço às vezes, como toda gente, mas tenho esperança na manhã, e o humor? Então, espero por essa manhã com o seu bíblico grão de loucura, de acaso e de imprevisto.”

Em setembro volto com mais Inclinação Literária.

3 pensamentos sobre “Inclinação Literária #04 – Ratos, ausências e presenças

  1. Virgínia disse:

    Adorei esta inclinação… :]

  2. Valeu, Virgínia! 😀

    E só pra registrar para os leitores, Seminário dos Ratos foi um empréstimo da Virgínia pra eu ler nas férias, mas acabei terminando de ler ele antes de terminar a primeira semana de férias. rs

  3. […] quinto post da série Inclinação Literária seguirá a linha do último post dessa mesma série e falará de uma obra de uma escritora brasileira, só que dessa vez a temática e ambientação […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: