O Pluralismo Universitário

“Poesia não tem dono, alegria não tem grife”

Zeca Baleiro

Vento frio soprando devagar, restos da outra noite perdidos entre as ruas; roupas, pastas, jovens salas, cantinas, bibliotecas, um ônibus que sobe e dá voltas, gente, muita gente e uma inércia imensa, preguiça, desinteresse, conformismo. Sol quente queimando devagar, anotações da outra aula perdidas entre os cadernos; roupas, pastas, jovens, salas, cantinas, bibliotecas, um ônibus que já não sobe mais, gente, muita gente e uma vontade imensa de ir além, questionar, pensar, experimentar. O que é que faz essa rotina por vezes entediante e cinzenta ser pensada de diferentes maneiras e da onde vem essa vontade toda de deixar tudo como está e essa vontade louca de agir e fazer o novo acontecer?

No meio de badaladas festas regadas a muita cerveja, vodka, refrigerante, energético e “sertanejo universitário” (esse último não é nenhum novo tipo de bebida, é o gênero musical mesmo), João, estudante de um curso superior qualquer, se diverte muito e faz a farra com seus amigos. As provas e trabalhos não são tão importantes, tem sempre aquele resumo na internet, aquele colega estudioso, aquele jeitinho com o professor. A vivência verdadeiramente universitária também não é tão atraente. Grupos de estudo, congressos, simpósios, são todos chatos e entediantes, no máximo uma assinatura ou outra para conseguir novos certificados. Mas as festinhas são essenciais. Sem elas não haveria aquele gostoso ambiente de bebedeiras e pegação, de menininhas pegando carona no carro sport de João, menininhas que estudam no ensino médio e sonham um dia chegar a faculdade para poderem curtir mais e mais festas como aquelas que João sempre as convida para ir. Menininhas que estudam na faculdade, colegas de João, que se enfeitam, dançam, riem, conjugam vários verbos e às vezes esquecem-se de conjugar o verbo estudar. Sem as festas João não teria o sorriso estampado na cara, não seria feliz. Afinal, a vida universitária é isso, não? É passar aulas e mais aulas dormindo ou conversando e nos finais de semana ir a festas, se divertir, ser feliz, beber e foder!

Na mesma universidade de João, estuda também José. Estudante de um outro curso superior qualquer, José de vez em quando freqüenta as mesmas festas que João, mas não se liga tanto nas baladas sertanejas de João. De vez em quando José bebe um pouco: cachaça, ou então misturas mais alternativas de Martini com conhaque, vinho, uísque e por aí vai. De vez em quando José também estuda um pouco: vai buscar livros na biblioteca, lê obras a fundo e consulta um ou outro artigo na internet. De vez em quando José também pega menininhas: aquelas que não se impressionam tanto com os carros e roupas de João, mas entendem um pouco melhor das coisas do que as lindas menininhas das baladas sertanejas. E a vida de José é boa e feliz, seja nas festas universitárias, nos grupos de estudo, nas conversas com amigos e professores. Afinal, a vida universitária é isso, não? É estudar e aprender bastante a todo momento e também ir a festas, se divertir, ser feliz, beber e foder!

A essa altura o querido leitor já deve estar pensando: entendi tudo o que esse rapaz está querendo me dizer, que tem gente diferente dentro de cada universidade, de cada curso, e que é melhor se dedicar aos estudos do que cair na farra. Tudo não passa de uma besta liçãozinha de moral vinda de alguém que pensa ser melhor do que todo mundo. Se você pensou isso ou coisa parecida, parabéns! É uma chave de leitura sua que pode sim ser utilizada, mas na verdade não é nada disso!

Não é lição de moral nem julgamento de valor. A questão é bem mais profunda: é a existência humana que está em jogo, seja a de João, seja a de José, seja a minha, seja a sua. Se um dia você pudesse conversar com João tudo o que ele lhe diria seria o calendário das festas que ele tem pra ir e as meninas que ele tem pra pegar, João não pensaria em mais nada além disso. Se um dia você pudesse conversar com José ele teria infinitas possibilidades de compartilhar idéias e conhecimentos, falaria de festas e meninas, coisas que todos gostamos, mas falaria também de outras coisas, pensaria além.

Qual dos dois seria melhor pra conversar? Não cabe a eu julgar. Só que chega um ponto em que não são mais as festas e farras que pertencem a João, é ele que pertence a elas. Se João se ver privado das festas ele entra em parafuso. Ele não conseguiria abandonar suas queridas baladas sertanejas por um final de semana sequer, sua existência reduzida a isso é uma existência pobre e vazia, sua alegria deixaria de existir. Já José conseguiria viver muito bem sem festas, pois ao mesmo tempo em que ele freqüenta e gosta de festas, ele também tem vários outros universos permeando sua existência: conversas, livros, sensibilidade. É uma existência rica e densa, e tão feliz quanto à de João.

Por tudo isso repito que não quis expor nenhum tipo de lição de moral aqui, quis apenas mostrar um retrato muito comum nas universidades brasileiras. Esse pluralismo universitário é algo muito real hoje em dia, é importante pensar se essa dualidade não terá reflexos maiores lá na frente, muito se diz do fato das universidades brasileiras estarem ampliando o número de vagas e crescendo mais e mais, mas dentro dessas universidades o que se vê são histórias muito semelhantes às de João e José, qual dos dois teria mais capacidade de contribuir para o futuro do país, qual existência seria mais digna e feliz? Esses questionamentos não parecem ser muito difíceis de responder e não é difícil também constatar que tem muito mais João do que José por aí.

2 pensamentos sobre “O Pluralismo Universitário

  1. Ivan disse:

    Grande Rogério, gostei do texto. Acho, porém, que você abraçou um reducionismo dos “tipos” da universidade (enquanto meio social). Há muito mais que isso por aí, e mais tipos indefiníveis, com fragmentos de uns e de outros, que qualquer outra coisa. Este texto pareceu-me mais um libelo seu… contra quem/o quê? Fica a pergunta…. Abraço.

  2. Fala, Ivan! Muito obrigado! Então, também penso que existem muitos outros “tipos” dentro da universidade e por isso o título pluralismo e não dualismo, embora no texto tenha explorado apenas o João e o José. Na verdade esse texto era pra ser uma outra coisa, a epígrafe do Baleiro, a ideia inicial, era uma coisa diferente, mas conforme fui escrevendo o texto rumou pra essa crítica. Esse é o primeiro de alguns textos que eu estou pensando em escrever que têm como pano de fundo uma teoria kierkegaardiana, que tá lá no livro Temor e Tremor, depois te explico melhor.

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