Arquivo mensal: julho 2011

América Celestial

“Em que o futebol se parece com Deus? Na devoção que desperta em muitos crentes e na desconfiança que desperta em muitos intelectuais” 

O post de hoje é uma dupla homenagem. Uma dupla comemoração. À Eduardo Galeano pelo dia do escritor e à Seleção Uruguaia de futebol pela conquista da 15ª Copa América de sua história. A edição de 2011 da maior competição de seleções da América Latina foi disputada em solo argentino e terminou ontem.

A citação que abre o post é do escritor e uruguaio Eduardo Galeano, um cara que possui 40 obras publicadas e mesmo sem conhecer boa parte delas, dá pra sentir que todas possuem uma forte contestação, uma visão diferenciada, crítica e sagaz. E tudo isso vem sempre salpicado de um temperinho futebolístico. Sim, Eduardo Galeano é um apaixonado por futebol e isso não faz de sua obra algo menos inteligente (eu, na verdade, penso o contrário) acho que Galeano é uma das provas, talvez a maior delas, de que o futebol pode sim ser visto de diversas maneiras, não só naquele lugar-comum de caras correndo atrás de uma bola, de circo pro povo, de retrocesso intelectual. É muito mais do que isso! E essa veia literária do futebol é uma das minhas “lutas” vamos dizer assim. Mas isso também é outra história, deixa pra depois.

Hoje o assunto principal é a Copa América. A ideia inicial desse post era falar da competição como um todo, mas para não me alongar muito vou falar mais mesmo da participação da Seleção Brasileira e do campeão Uruguai.

A Copa América começou no dia 1º de julho, no duelo entre a anfitriã Argentina e a fraca Bolívia. Todos, inclusive eu, esperavam talvez uma sonora goleada dos donos da casa, mas não foi bem isso o que aconteceu. Em um jogo bem fraco tecnicamente, a Bolívia surpreendeu e saiu na frente, com gol do brasileiro naturalizado boliviano Edivaldo. A Argentina buscou o empate com Agüero que saiu do banco para marcar, mas ficou nisso: 1 x 1. No dia parecia ser uma grande surpresa, mas na verdade o que todo mundo ia constatar depois e que isso acabou sendo uma tônica da competição. Jogos mais pegados do que jogados, muitos empates e muitas zebras! A Argentina continuou sofrendo, após novo empate contra a Colômbia, dessa vez por 0 x 0, só na última rodada da primeira fase, contra a equipe sub-23 de Costa Rica, que os hermanos conseguiram vencer: 3 x 0.

Os outros dois principais favoritos, assim como a Argentina, não empolgaram muito na primeira fase. O Brasil empatou com a Venezuela e o Paraguai e só no último jogo da primeira fase conseguiu vencer, 4 x 2 pra cima do Equador, com duas falhas de Júlio César nos gols equatorianos. O time de Mano Menezes que era muito badalado antes da competição, devido ao despojado esquema tático com Ganso, Neymar, Robinho e Pato no time titular acabou não correspondendo e só mesmo no jogo contra o Equador jogou um pouco melhor, nada de extraordinário contudo.

O Uruguai também não jogou aquilo tudo que se esperava na primeira fase. O bom atacante Cavani acabou lesionado e as principais esperanças celestes ficaram em Suárez e Forlán, o melhor jogador da última Copa do Mundo. Com duas vitórias e um empate a classificação veio sem maiores sustos, mas também sem maiores brilhos. Assim como Brasil e Argentina, dois empates (contra Peru e Chile) e uma vitória, sobre o sub-23 do México.

Essas inesperadas campanhas dos favoritos na primeira fase acabaram fazendo com que logo nas Quartas de Final acontecesse o confronto entre Argentina x Uruguai, o Brasil por sua vez também não pegou nenhum adversário mais fraco, novo encontro contra o Paraguai.

O jogo entre Argentina x Uruguai foi o melhor dessa edição da Copa América, As apagadas campanhas da primeira fase foram esquecidas, e ambas as equipes entraram com muita raça e motivação, bem ao estilo do clássico platino mesmo, o resultado foi um jogo intenso, com muita emoção e que acabou sendo decidido nos pênaltis.

No tempo normal Diego Pérez abriu o placar pros uruguaios e pouco depois Gonzalo Higuaín, após cruzamento de Messi (sim, o melhor jogador do mundo jogou nessa Copa América) empatou a partida. Com uma expulsão para cada lado (Pérez e Mascherano) o jogo foi até a prorrogação e o empate foi mantido. É bom que se diga, sem a participação do goleiro uruguaio Muslera o empate talvez não fosse mantido, o arqueiro uruguaio fez talvez a melhor partida de sua carreira, literalmente fechando o gol.

Nos pênaltis, todos os batedores acertaram suas cobranças, com exceção de Tévez que viu sua cobrança parar nas mãos de Muslera. Se em 1950 ocorreu o Maracanazzo, em 2011 foi a vez do Elefantazzo (o jogo foi disputado no estádio Cemitério dos Elefantes), essa partida foi a mostra de que a fraca primeira fase poderia realmente ser esquecida, de que o bom time uruguaio da Copa do Mundo de 2010 ainda estava ali e que a Argentina continua com sérios problemas, muda o técnico, muda o esquema, mas os problemas persistem, Lionel Messi não conseguiu jogar o futebol que deu a ele o título de melhor do mundo e mais uma vez decepcionou os argentinos.

Já no duelo entre Brasil x Paraguai. Novo empate, nova prorrogação e nova disputa por pênaltis. No tempo normal o Brasil se impôs, jogou melhor, mas não conseguiu fazer o gol. O goleiro paraguaio Justo Villar, assim como Muslera no dia anterior, fechou o gol e o 0 x 0 persistiu até as cobranças de pênaltis. O que absolutamente ninguém esperava era que o 0 permanecesse ao fim da disputa de pênaltis também. E foi o que aconteceu com o Brasil. Elano, Thiago Silva, André Santos e Fred desperdiçaram suas cobranças enquanto que o Paraguai de três aproveitou duas e ficou com a vaga nas semi-finais. Não sou grande entendedor da história do futebol, mas pelo menos em competições do porte da Copa América, acredito que nunca antes na história alguma equipe desperdiçou todas as suas cobranças em uma disputa de pênaltis. É algo lamentável, pois como havia dito, a Seleção Brasileira jogou mais durante todo o tempo normal, porém só jogar mais não garante classificação e todos esses erros nos pênaltis não podem ser considerados apenas falta de sorte, faltou muito mais do que isso, a Seleção Brasileira, ainda em formação, precisa melhorar muito se quiser algo mais daqui pra frente.

Nos outros duelos das quartas de final, novas surpresas. A Colômbia de Falcao García, que tinha feito a melhor campanha da primeira fase foi parado pelo Peru. Com direito a pênalti perdido pelo astro do time e tudo mais. Vitória peruana por 2 x 0 na prorrogação. Chile e Venezuela protagonizaram mais uma zebra. Vitória venezuelana por 2 x 1 e o time com a segunda melhor campanha da primeira fase também ficava pelo caminho.

Nas semi-finais o Uruguai se impôs frente o Peru e com dois gols de Luis Suárez venceu por 2 x 0 e garantiu vaga na grande final. Do outro lado Paraguai e Venezuela ficaram no 0 x 0 durante todo tempo normal e prorrogação e mais uma vez na disputa de pênaltis os paraguaios conseguiram a classificação, a equipe de Justo Villar chegou a final da Copa América sem vencer um jogo sequer, foram 5 empates em 5 jogos.

Na disputa pelo terceiro lugar veio a maior goleada da competição. O Peru aplicou 4 x 1 na Venezuela, com 3 gols de Paolo Guerrero, que acabou sendo o artilheiro da competição com 5 gols.

E na final, disputada ontem no Monumental de Nuñez, deu a lógica. O ferrolho defensivo paraguaio dessa vez não conseguiu segurar o potente ataque uruguaio, Suárez abriu o placar no começo do primeiro tempo e depois com dois gols de Diego Forlán, um em cada tempo, o Uruguai confirmou o favoritismo e levou mais uma Copa América. Suárez foi eleito o melhor jogador da competição, merecidíssimo.

Depois de 16 anos, pra alegria de Eduardo Galeano, o Uruguai finalmente volta a conquistar um título. A equipe comandada por Óscar Tabárez já havia feito uma ótima Copa do Mundo no ano passado e agora, com muito merecimento consegue o título da Copa América, além do título, o Uruguai recupera também sua auto estima e sua posição de grande força do futebol latino-americano, há muito esquecida. O interessante é perceber também como as divisões de base uruguaias vêm crescendo no mesmo ritmo da equipe principal. Vice-campeão do Mundo no Mundial Sub-17 e vice campeão Sul-Americano no Sul-Americano Sub-20.

Atando os nós e voltando a falar da citação de Eduardo Galeano, me parece que no país do futebol a devoção dos crentes vai sendo a cada dia que passa enfraquecida, esquecida, não que isso seja algo benéfico, até porque essa devoção pelo futebol em si vai sendo substituída pela devoção aos cortes de cabelo e as chuteiras dos nossos “craques”, enquanto que no Uruguai a devoção volta a crescer fervorosamente, devido a raça e a superação de seus jogadores, que não são considerados craques, mas que jogam um futebol que, se não bonito e técnico, é pelo menos intenso e interessado.

Em tempo: ao que tudo indica no domingo próximo, pra fechar o mês de julho, deve tá no ar um QuimeraCast falando sobre essa Copa América!

Le Rouge et Le Noir #07

Hoje, depois de muito tempo, volto a escrever no blog Confio no Mengão. Pelo nome já deve dar pra sacar que este é blog é produzido por torcedores do Flamengo que gostam de escrever sobre o time. Estou lá desde 2007. A princípio volto a escrever lá todas as segundas-feiras.

Então o esquema vai ser o seguinte: dos 4 posts mensais que eu colocarei lá um será o Le Rouge et Le Noir do mês aqui no Un Quimera. Nesse mês comecei falando sobre as tão faladas contratações, que rondam todos os noticiários esportivos nessa época em que o campeonato ainda não começou de vez, tanto aqui como no Confio no Mengão o texto é o mesmo e aí vai:

Especulações, contratações…

Fala rapaziada do Confio no Mengão.

Depois de um bom tempo volto a postar por aqui. A princípio todas as segundas-feiras.

E hoje venho falar sobre o que mais de fala nesses períodos em que os jogos ainda não estão rolando naquela sequência frenética de domingo-quarta, domingo-quarta. São as contratações.

Acredito que todos pensam que é importante para o Flamengo e para qualquer clube reforçar seu plantel, até porque o Brasileirão é um campeonato longo e difícil e que sem um elenco qualificado é praticamente impossível vencê-lo.

Isso é fato. O que incomoda as vezes é a supervalorização que a imprensa dá pra esse assunto. Pra vender jornal e ganhar ibope surgem os mais variados nomes de potenciais contratações do Flamengo, criam uma expectativa enorme e depois muitas vezes acabam não dando em nada.

A contratação de Ronaldinho Gaúcho é talvez um bom exemplo dessa supervalorização. Enquanto Palmeiras e Grêmio bradavam pra todo mundo que o craque já era deles o Flamengo agia silenciosamente, como tinha que ser feito, e no fim conseguiu acertar com o camisa 10. Se eles está rendendo o que se esperava ou não aí já é outra história que não cabe ser discutida agora.

Mas o que quis dizer com esse exemplo é que apesar de todos ficarmos curiosos e interessados pra saber quem vem pra reforçar o time, é bem melhor não ficar sabendo tanto, somente quando realmente houver o acerto. Nas contratações recentes foi assim, tanto Júnior César quanto Aírton e agora Alex Silva (três ótimas contratações na minha opinião) vieram dessa maneira mais silenciosa, sem muito alarde.

A bola da vez é o atacante e as longas, chatas e arrastadas novelas de Vagner Love, André e Kleber não me parecem coisa que valha a pena ficar acreditando e comentando. Ariel e Amauri são nomes que podem chegar sem tanto oba-oba e funcionar muito bem. O argentino fez boas partidas pelo Coritiba, é jovem e tem muita presença de área. O brasileiro naturalizado italiano foi um dos principais jogadores da Juventus nas últimas temporadas e também sabe fazer gols. Tanto um como outro podem ser boas contratações para o Mengão.

Mas sinceramente, com a vinda de Alex Silva pra fechar ainda mais a zaga, já muito bem protegida pelos cães de guarda Aírton e Willians, acredito que o elenco já é forte o suficiente para a disputa do Brasileirão. A grande maioria da torcida ainda quer mais um nome de peso para o ataque, mas apesar das inúmeras críticas Deivid aos poucos vai voltando a fazer seus gols e jogar bem.

Na quarta-feira temos o duelo contra o Palmeiras pela 10ª rodada do Brasileirão e aí o campeonato vai definitivamente engrenar com uma sequência de jogos contra Ceará, Santos, Grêmio, Cruzeiro e Coritiba, para depois estrear na Copa Sulamericana contra o Atlético-PR.

Hora de confirmar a boa colocação e permanecer de vez na briga pelo hepta!

SRN

QuimeraTube #38

A exemplo do último QuimeraTube não sou lá grande conhecedor da banda, mas ela vem bombando nessa minha playlist de férias. Deixem Thom Yorke e cia. tomarem controle:

Inclinação Literária #04 – Ratos, ausências e presenças

Uma brasileira!

Sim, contrariando a linha que os posts da série Inclinação Literária vinham seguindo até aqui (escritores estrangeiros e masculinos: os americanos Jack Kerouac e John Fante e o francês Albert Camus), o post de hoje vai ser sobre um dos livros de uma grande escritora brasileira.

Falo de Seminário dos Ratos, de Lygia Fagundes Telles.

Antes de começar acho válido falar sobre o meu primeiro contato com a referida escritora. Foi no longínquo ano de 2007, quando estava no 1º ano do Ensino Médio, através de um livro de contos chamado Gente em Conflito, onde vários autores brasileiros escreveram contos abordando o tema da violência, de Machado de Assis a Fernando Sabino, tinha muita coisa boa lá, mas o conto que mais me chamou atenção foi Venha ver o pôr-do-sol, de Lygia Fagundes Telles. Com maestria, eu diria, a autora criou um história com uma narrativa envolvente que envolve muito mistério e um crime passional.

Mesmo tendo gostado bastante, de lá pra cá não tinha lido mais nada dessa escritora paulistana, membro da Academia Brasileira de Letras, que completou 88 anos em 2011 e possui uma vasta de bibliografia de contos e romances. Suas principais obras são Ciranda de Pedra (que foi adaptada para a televisão em 1981 e, mais recentemente, em 2008) e As Meninas.

A obra sobre a qual falarei hoje, Seminário dos Ratos, está um pouco a margem, foi publicada pela primeira vez em 1977 (eu li a 8ª edição, de 1998) e é composta por 14 contos.

Não acho muito interessante falar sobre cada um deles separadamente: muito trabalho e possivelmente pouca clareza. Por isso pretendo falar dos contos como um todo e falar um pouco mais daqueles que me chamaram mais atenção.

É uma característica marcante em praticamente todos os contos a mistura de realidade e fantasia, o que de certa forma torna os textos de Lygia algo muito subjetivo, pois os limites e contatos entre realidade e fantasia não podem ser definidos de uma maneira exata. Em meio a essa ambientação “mista” os personagens, dos mais variados possíveis, vão desenvolvendo seus dramas, angústias e paixões e fazem isso de uma maneira humana e voraz.

Esse é outro ponto que me chamou muito a atenção, a penetração psicológica que Lygia Fagundes Telles realiza em seus personagens, isso, no meu ponto de vista, enriquece demais a obra, ainda mais quando se trata de contos. Este estilo literário geralmente conciso e sem muitos acontecimentos e histórias necessita que os personagens saiam do óbvio para que assim possam transformar pequenas coisas, que por vezes passam despercebidas, em algo realmente interessante de se ler.

Para exemplificar e adentrar um pouco mais na obra vou falar um pouco de alguns contos. Em Pomba Enamorada ou Um História de Amor, nos deparamos com uma mulher que ganhou o título de princesa do Baile da Primavera e no mesmo baile se apaixonou por um rapaz, ela que aparentemente era descrente em relação às paixões entra em uma paranóia atrás de seu “príncipe” e recorre a todas as crenças e simpatias que povoam o imaginário popular: o poder dos signos, sapo com boca costurada e por aí vai, tudo por uma paixão.

O x do problema é ambientado em uma favela e assim como o conto que dá título ao livro é uma astuta crítica social, (outra faceta de Lygia é essa crítica social sutil e precisa) que mostra uma família pobre, cheia de problemas, mas que possui também uma televisão, a partir daí o conto se desenrola e passando por Ary, Clorinda, Pelé, Zico a história chega a um desfecho bem sugestivo.

A consulta foi um dos mais divertidos. Quando doutor Ramazian sai de seu escritório e deixa o seu “assistente” Maximiliano no seu lugar, para anotar recados e coisas do tipo, só que nesse meio tempo chega ao escritório o senhor Samuel Fernandez, um paranóico que está com medo da morte, o conto se desenrola num diálogo entre os dois, o desfecho ótimo, não vale a pena contar aqui.

E por fim, falo do conto que dá título ao livro, Seminário dos Ratos sintetiza bem a aura dos contos de Lygia, temos ali a crítica social, a penetração psicológica, a mistura fantasia e realidade, enfim, temos mais um belo conto, onde ratos tomam conta de um seminário e provocam mudanças no país.

É mais ou menos nisso que essa obra gira, Lygia Fagundes Telles consegue falar de paixões e sentimentos de uma maneira muito interessante, ela é intensa e sabe explorar pequenas coisas cotidianas. Pra falar um pouco disso, nada melhor do que a própria, a seguir um trecho de um depoimento dela:

“Alguns dos meus textos nasceram de uma simples frase ou de alguma imagem que vi e retive. Outros, nasceram em algum sonho, enfim, a maior parte destas ficções talvez tenha sua origem lá nos emaranhados do inconsciente – zona vaga e obscura como um fundo de mar. O ato da criação é sempre um mistério. Anoiteço às vezes, como toda gente, mas tenho esperança na manhã, e o humor? Então, espero por essa manhã com o seu bíblico grão de loucura, de acaso e de imprevisto.”

Em setembro volto com mais Inclinação Literária.

Ervilha da Fantasia

Época de férias significa mais tempo. Mais tempo pra não fazer nada, pra rever os amigos e familiares, pra ler simplesmente por ler, pra fazer n coisas e inclusive dar uns giros na internet.

Ontem, num desses giros, encontrei uma pérola: a Ervilha da Fantasia.

Um documentário dirigido por Werner Schumann que mostra o poeta Paulo Leminski falando de muita coisa, em especial, da poesia e também outros caras falando de Leminski.

Conheço muito pouca coisa do poeta curitibano, mas após assistir esse curta me animei de conhecer mais e mais. O cara é muito transparente, fala coisas que em geral não se fala, e dá um valor muito interessante pra poesia em si. Se diz um puro poeta, mas na verdade acaba se embrenhando em outras áreas e com a poesia (essa grande inutilidade, segundo ele mesmo) consegue ressignificar muita coisa, consegue sair da normalidade.

Poetas, escritores, filósofos contemporâneos merecem ser melhor estudados e compreendidos, não é que eu queira desvalorizar os grandes clássicos de séculos atrás, jamais, possuem seu enorme valor e importância; porém os contemporâneos também possuem e isso as vezes é esquecido, ainda mais em terras tupiniquins.

Sem mais conversa, fica aí o vídeo:

QuimeraTube #37

Pra ser sincero, conheci a banda há pouco tempo, mas nesse pouco tempo o que mais rolou na minha playlist foi ela, Catatau e cia. e essa viagem toda:

O Pluralismo Universitário

“Poesia não tem dono, alegria não tem grife”

Zeca Baleiro

Vento frio soprando devagar, restos da outra noite perdidos entre as ruas; roupas, pastas, jovens salas, cantinas, bibliotecas, um ônibus que sobe e dá voltas, gente, muita gente e uma inércia imensa, preguiça, desinteresse, conformismo. Sol quente queimando devagar, anotações da outra aula perdidas entre os cadernos; roupas, pastas, jovens, salas, cantinas, bibliotecas, um ônibus que já não sobe mais, gente, muita gente e uma vontade imensa de ir além, questionar, pensar, experimentar. O que é que faz essa rotina por vezes entediante e cinzenta ser pensada de diferentes maneiras e da onde vem essa vontade toda de deixar tudo como está e essa vontade louca de agir e fazer o novo acontecer?

No meio de badaladas festas regadas a muita cerveja, vodka, refrigerante, energético e “sertanejo universitário” (esse último não é nenhum novo tipo de bebida, é o gênero musical mesmo), João, estudante de um curso superior qualquer, se diverte muito e faz a farra com seus amigos. As provas e trabalhos não são tão importantes, tem sempre aquele resumo na internet, aquele colega estudioso, aquele jeitinho com o professor. A vivência verdadeiramente universitária também não é tão atraente. Grupos de estudo, congressos, simpósios, são todos chatos e entediantes, no máximo uma assinatura ou outra para conseguir novos certificados. Mas as festinhas são essenciais. Sem elas não haveria aquele gostoso ambiente de bebedeiras e pegação, de menininhas pegando carona no carro sport de João, menininhas que estudam no ensino médio e sonham um dia chegar a faculdade para poderem curtir mais e mais festas como aquelas que João sempre as convida para ir. Menininhas que estudam na faculdade, colegas de João, que se enfeitam, dançam, riem, conjugam vários verbos e às vezes esquecem-se de conjugar o verbo estudar. Sem as festas João não teria o sorriso estampado na cara, não seria feliz. Afinal, a vida universitária é isso, não? É passar aulas e mais aulas dormindo ou conversando e nos finais de semana ir a festas, se divertir, ser feliz, beber e foder!

Na mesma universidade de João, estuda também José. Estudante de um outro curso superior qualquer, José de vez em quando freqüenta as mesmas festas que João, mas não se liga tanto nas baladas sertanejas de João. De vez em quando José bebe um pouco: cachaça, ou então misturas mais alternativas de Martini com conhaque, vinho, uísque e por aí vai. De vez em quando José também estuda um pouco: vai buscar livros na biblioteca, lê obras a fundo e consulta um ou outro artigo na internet. De vez em quando José também pega menininhas: aquelas que não se impressionam tanto com os carros e roupas de João, mas entendem um pouco melhor das coisas do que as lindas menininhas das baladas sertanejas. E a vida de José é boa e feliz, seja nas festas universitárias, nos grupos de estudo, nas conversas com amigos e professores. Afinal, a vida universitária é isso, não? É estudar e aprender bastante a todo momento e também ir a festas, se divertir, ser feliz, beber e foder!

A essa altura o querido leitor já deve estar pensando: entendi tudo o que esse rapaz está querendo me dizer, que tem gente diferente dentro de cada universidade, de cada curso, e que é melhor se dedicar aos estudos do que cair na farra. Tudo não passa de uma besta liçãozinha de moral vinda de alguém que pensa ser melhor do que todo mundo. Se você pensou isso ou coisa parecida, parabéns! É uma chave de leitura sua que pode sim ser utilizada, mas na verdade não é nada disso!

Não é lição de moral nem julgamento de valor. A questão é bem mais profunda: é a existência humana que está em jogo, seja a de João, seja a de José, seja a minha, seja a sua. Se um dia você pudesse conversar com João tudo o que ele lhe diria seria o calendário das festas que ele tem pra ir e as meninas que ele tem pra pegar, João não pensaria em mais nada além disso. Se um dia você pudesse conversar com José ele teria infinitas possibilidades de compartilhar idéias e conhecimentos, falaria de festas e meninas, coisas que todos gostamos, mas falaria também de outras coisas, pensaria além.

Qual dos dois seria melhor pra conversar? Não cabe a eu julgar. Só que chega um ponto em que não são mais as festas e farras que pertencem a João, é ele que pertence a elas. Se João se ver privado das festas ele entra em parafuso. Ele não conseguiria abandonar suas queridas baladas sertanejas por um final de semana sequer, sua existência reduzida a isso é uma existência pobre e vazia, sua alegria deixaria de existir. Já José conseguiria viver muito bem sem festas, pois ao mesmo tempo em que ele freqüenta e gosta de festas, ele também tem vários outros universos permeando sua existência: conversas, livros, sensibilidade. É uma existência rica e densa, e tão feliz quanto à de João.

Por tudo isso repito que não quis expor nenhum tipo de lição de moral aqui, quis apenas mostrar um retrato muito comum nas universidades brasileiras. Esse pluralismo universitário é algo muito real hoje em dia, é importante pensar se essa dualidade não terá reflexos maiores lá na frente, muito se diz do fato das universidades brasileiras estarem ampliando o número de vagas e crescendo mais e mais, mas dentro dessas universidades o que se vê são histórias muito semelhantes às de João e José, qual dos dois teria mais capacidade de contribuir para o futuro do país, qual existência seria mais digna e feliz? Esses questionamentos não parecem ser muito difíceis de responder e não é difícil também constatar que tem muito mais João do que José por aí.