Na Estrada

NÃO É OURO

MAIS É PRATA

As duas primeiras linhas desse texto foram vistas originalmente num pára-choque de caminhão com placa do interior de São Paulo, em uma rodovia das Minas Gerais.

Na estrada muita coisa acontece, talvez boa parte dessas coisas fiquem ocultas devido ao cansaço de uma longa viagem da Zona da Mata de Minas até o Sul deste mesmo estado. O som do Zeca Baleiro faz com que o sono vá embora, canções contemporâneas e inteligentes, que pra alguns fazem do Zeca um poser, compositor difícil ou coisa parecida. Pra essa galera vai um desafio: “quero ver você dizer rala, lara, loura, lisa”.

Mas não é só no som do Zeca que a viagem se desenrola. São longas paradas na estrada devido a obras em pontes e asfaltos, o vento que invade a janela e o vasto verde de pastos e árvores nas margens da estrada. Uma parada pra um pastelzinho de carne com suco de açaí também faz parte.

E em meio a toda essa atmosfera o que não falta são caminhões. Tem de todo tipo e tamanho, carregadíssimos e pesadíssimos, nem tão carregados assim, com um dos eixos arreados e um pouco mais leves. Vem e vão, vem e vão. Cortam as estradas do país a todo o momento, fazem parte da cultura do país – quem nunca ouviu uma pitoresca história de caminhoneiro? – e também atrasam um bocado a viagem de quem só quer voltar pra casa pra passar um final de semana.

E foi num pára-choque de um desses tantos caminhões que a minha mente enxergou as linhas que iniciam esse texto. Com certeza existem outros pára-choques mais bonitos e mais engraçados, mas esse particularmente, sem nenhuma razão em especial, me chamou muita atenção.

Primeiramente pelo crasso erro de português. As confusões com mas e mais me remontam a infância, a um tempo em que caminhão não passava de brinquedo, mas ao mesmo tempo me fazem pensar na escolaridade do motorista do caminhão. Sua mensagem para o mundo (penso que talvez seja essa a significação do pára-choque para o caminhoneiro) toda torta e ele possivelmente nem sequer saiba disso.

Não pense o leitor que quando toco nesse ponto estou sendo preconceituoso com o caminhoneiro, querendo dar uma de intelectual que encontra erros em pára-choque de caminhão, nada mais chato e fundamentalista do que ser alguém assim. Quero apenas mostrar que é nesses pequenos erros, que às vezes passam despercebidos por muitos, é aí que a sociedade vai se construindo e se mostrando, é aí que se instiga um estudante qualquer a escrever um texto qualquer, um pára-choque de pleno acordo com as mais novas mudanças da reforma ortográfica talvez não despertasse tanto a minha atenção.

Pensando mais especificamente no teor da frase, quem sabe uma prova de humildade, mas ao mesmo tempo uma afirmação do seu status, uma prova de carinho para com o seu instrumento de trabalho ou até mesmo uma lembrança das medalhas das Olimpíadas, sabe-se lá o que se passa na cabeça de um cara que viaja o tempo todo e encontra com gente dos mais variados tipos e se depara com as mais variadas situações, suas vivências são constantes e ímpares. Um simples erro de português pode não ser nada mais do que um simples erro de português, proveniente de uma mente fechada e rasa, mas ao mesmo tempo pode ser só uma carcaça para algo mais profundo, um caminhoneiro que dialoga com pessoas de vários lugares e conhece várias coisas novas pode não saber muito de português, mas talvez saiba muito sobre outros campos do conhecimento. Do conhecimento marginal e cotidiano, mundano e somente adquirido com a experiência de um caminhoneiro ou de um pedreiro qualquer.

E em meio a todos esses pensamentos Zeca Baleiro diz que a felicidade não existe, só momentos felizes. O caminhão que não é ouro, mas é prata, tem que ser ultrapassado, quero chegar logo em casa e descansar um pouco. Quando o caminhão se perde na estrada e o que vejo passa a ser uma longa Rodovia Fernão Dias outros pensamentos vão surgindo e as reflexões sobre o pára-choque do caminhão também vão ficando pra trás, na poeira da estrada.

Na viagem de volta pra Juiz de Fora outros caminhões estarão no caminho, quem sabe não serão ouro, não me trarão inspiração nenhuma, mas quem sabe uma prata qualquer perdida no caminho pode ser motivo para novas e desajeitadas linhas.

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