Além da trave e do gol

– Bate, moleque! Bate!

Quando se está na frente do gol, com o zagueiro mordendo sua canela, a bola quicando com insegurança, a grama alta subindo sob seus pés e o goleiro olhando pra bola, o que se escuta é essa frase, as opções que se tem são poucas: ou você perde o momento exato de bater pro gol e escuta outras frases, não tão motivadoras quanto essa, ou você mete o gol e sai de cabeça erguida – seja em silêncio ou comemorando – com serenidade, com o dever cumprido.

Dá pra imaginar essa cena em vários ambientes. Seja nos pomposos gramados do milionário futebol europeu, nos por vezes entediantes gramados do estranho futebol brasileiro ou ainda num campinho qualquer, num bairro qualquer, sem nenhum profissional em campo e sem nenhum empresário fora dele. É só uma simples pelada de fim de semana, com os amigos, quem sabe um alívio da correria do dia-a-dia, quem sabe um mero passatempo.

Só que dentro das quatro linhas, tudo muda, tudo se transforma. Tem gente que diz que é só um jogo, tem gente que odeia, que ridiculariza. Enfim, tem gosto pra tudo, mas as coisas ali dentro, aquela bola velha, aquela grama mal cuidada, aquela rede de gol já arrebentada, tudo tem uma significação, tudo adquire valor e vida, não importa se o moleque que vai meter o gol é um senhor casado e com filhos, ou um adolescente que precisaria estar estudando para a prova de amanhã, o moleque é muito mais do que um moleque.

– Bate, moleque! Bate!

Ao mesmo tempo em que se é só mais um dentro da sociedade, pode-se ser o cara ali dentro. Isso não vale nada, depois da pelada só o que vai ficar vão ser os goles de cerveja no copo e de suor no corpo. Só o que vai ficar vão ser as lembranças daquele gol, daquele drible, daquela furada.

Como ser o herói dentro de campo, fazer o gol da vitória e tudo mais e ao mesmo tempo ser um canalha dentro de casa, esquecer-se da mulher e dos filhos e se embebedar no boteco mais próximo? Como ser o zagueiro perdido dentro de campo, que não ganha uma dividida e ao mesmo tempo ajudar sua vó com os problemas médicos, cuidar das pequenas coisas dela: os artesanatos, as receitas, o terço?

Tudo isso pode acontecer sem fantasia nenhuma, podemos deparar com situações assim em qualquer cidade deste país. Qual a identidade desses milhões de “jogadores” dessa “pátria de chuteiras”?

– Bate, moleque! Bate!

A identidade de qualquer um pode ser multifacetada. Mocinho e bandido? Conversa pra boi dormir. Isso não existe! Dentro do cotidiano das pessoas as múltiplas experiências vão engrandecendo todo mundo, tanto experiências boas quanto más podem ser válidas, eticamente condenáveis talvez, sim, porém válidas.

Seres plurais. Que conseguem se entregar de corpo e alma à batalha física chamada futebol e que com o mesmo corpo e alma também se entregam a experiências intelectuais.

Até quando se é mais um desses “moleques” dentro de campo pode-se aprender e alimentar suas experiências, sua subjetividade, sua hermenêutica.

Complicação do papo, saindo do território do futebol e indo para uma territoriedade acadêmica? Não, não é isso. É apenas uma simples tentativa de união entre coisas para muitos inconciliáveis.

Chega da bitolação, da especialização, do preconceito. Vamos ampliar nossos próprios horizontes, vamos encarar o goleiro de frente, deixar o zagueiro na saudade e meter o gol!

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