A Luz Negra e a Escuridão Brilhante

“O escuro que se vê

Quem sabe pode iluminar”

Lenine

Tenho andado com esperanças. Esperanças que se perdem frente à luminosidade de um sol de verão. Meu mundo cinza se estrutura para ocasiões noturnas e escuras e não consegue viver na luz do astro rei. O sol nascerá, já dizia Cartola, e quando ele nasce milhões de outras pessoas constroem suas vidas e seus mundos. Cada um com suas particularidades, cada um com seus sonhos e ilusões, cada um com uma cabeça pensante que pode ir muito além!

Mas a luz sufoca esse cérebro, a luz penetra nos olhos e parece querer dizer: acorda, vagabundo! Pense nas possibilidades que se abrem a cada momento, pense em tudo que é possível fazer e não é feito, sonhos e ilusões pertencem a quase todos, mas transformá-los em algo maior e mais verdadeiro é algo pra poucos, é uma necessidade, deixar as quimeras despedaçadas no chão e voar mais alto.

Nessa hora eu olho pra luz e digo: não! Sou um cultivador de quimeras. Pretendo andar com elas, e com elas ir além. Essa escuridão dentro de mim é a mais pura luz, é a maior expressão de vida que eu consigo transparecer, é o que eu tenho de melhor.

É porque a luz que chega é constante, tem força, tem brilho, tem tudo! E eu não sou assim. Nos vários tons da minha escuridão, cada dia é um dia, e cada pedacinho da minha imperfeição tem espaço na transitoriedade desse breu. Luz demais cega, luz demais escurece.

Aqui dentro as possibilidades são analisadas e aproveitadas, não há espaço para pratos feitos e conceitos perfeitos, aqui o caos prevalece, a escuridão vai modelando cada coisa, o improviso e a experiência, a margem de erro um tanto quanto grande, um copo cheio de vontade com algumas gotas de razão.

Meu refúgio é meu esquecimento. O dinheiro esquecido no bolso, a comida esquecida na geladeira, a conversa esquecida no bar, o amor de outros tempos esquecido dentro do coração.

E dentro de cada esquecimento está esse escuro incandescente, esse escuro torto e desajeitado, que não liga muito pra certas opiniões alheias, que não quer se mostrar pra ninguém, quer apenas ser. Viver e deixar viver.

Se todo esse escuro vale a pena? Não vou dizer que tudo vale a pena se a alma não é pequena, porque minh’alma ainda está em fase de crescimento e porque Fernando Pessoa possivelmente não se importaria com as linhas tortas deste que vos escreve.

Digo apenas que valendo a pena ou não, essa escuridão aqui dentro brilha. E é um brilho diferente, é um brilho recheado de mistério que eu me considero pronto a desvendar.

Aquele brilho cego e constante me atinge e me queima, me faz perder as esperanças. Aquele brilho negro aqui não tem lugar, aquela luz é negra demais pra minha escuridão brilhante.

Rogério Arantes

Um pensamento sobre “A Luz Negra e a Escuridão Brilhante

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