Nuit

“Entender de vinhos, de salgadinhos

Esnoberribamente, trazer o país

Sob o requinte intransigente.”

Tom Zé

Rua Santa Clara. 3 da manhã.

Mais um sábado que acorda com sono, se espreguiçando e sem vontade de levantar, sombrio e soturno. As luzes da cidade se confundem com o colorido dos santinhos dos candidatos que poluem ainda mais a simples cidade.

Primeiro turno, segundo turno. As eleições às vezes se parecem com Campeonato Brasileiro: alguns não torcem e não votam, outros torcem e militam, no fim sempre tem reclamação, com o juiz, o partido, o time, o candidato. O apito final e a contagem final dos votos deixam uma sensação parecida: e agora, João?

Alheia a comparações político-futebolísticas, a Rua Santa Clara agora destila seu sereno frio de madrugada, tão característico e tão sugestivo.

Encostado num daqueles antigos e majestosos casarões está mais um cidadão comum, mais um degredado filho de Eva.

A parede do casarão, que um dia já foi alvíssima, hoje é suja e gasta, senhora de lendas, estórias e muitos outros acontecimentos ali da Rua Santa Clara, é manchada agora pelo vômito de nosso cidadão comum.

Ele voltava de um simples bar, mas não teve uma simples noite. Depois de se deixar atingir pela droga alcóolica ele conversou, cantou, dançou.

Agora seus amigos foram embora e ele ficou. Ficou sozinho e vomitou na rua, quis se esconder, quis se matar, mas nem tudo que ele quis ele conseguiu, acabou parado ali mesmo, deitou-se e dormiu. Depois ainda teve tempo de ter muitos sonhos.

E enquanto ele caia no sono, passava ali pela Rua Santa Clara um carro que transportava dois rapazes: Um, sóbrio, que ocupava o banco do passageiro. Dizia coisas lindas, inteligentes, exatas, práticas. Dizia e não dizia, pois falava de experiências não vividas e sensações não sentidas. Achava-se o dono da verdade, mas não sabia que a verdade não tem dono e que quem acha vive se perdendo.

O outro rapaz, que pilotava o carro, tinha bebido uma cervejinha.

Não falava muita coisa, tinha gastado muito dinheiro na sua cervejinha, na sua roupa, no seu cabelo, no seu carro, na festa enfim, que era de onde a “dupla gente boa” voltava.

Um carro passa e se vai da Rua Santa Clara no mesmo momento em que um casal de namorados adentra a mesma.

Não eram necessárias muitas palavras para os dois, os beijos e os carinhos trocados conseguiam dizer quase tudo que era preciso.

Eles voltavam da casa de um amigo, ambos tinham se exaltado alcoolicamente, tranquilos, sossegados, sem fazer mal a ninguém.

E enquanto entre risadas e beijos o casal cruzava a esquina, quem passava agora pela Rua Santa Clara era um poeta.

O poeta vinha de mãos nos bolsos, converpensando com sua lucidez tão louca e observando os detalhes dessa que nada mais é do que uma de tantas outras “ruas santas”.

E em meio as suas reflexões o poeta percebe que não é no álcool, no falso moralismo, na desinteressante rotina dos normais que está o x da questão. Que o primeiro está como um peixe fora d’água no meio de tanta coisa ruim e que os diferentes pontos de vista é que fazem toda diferença. Há ilusões que merecem ser vividas, o engano pode abrir portas outrora fechadas.

E é converpensando e andando que o poeta vê que Santa Clara clareou e que o sábado finalmente toma coragem e se levanta para dali a pouco se tornar novamente palco para as aventuras da vida cotidiana.

Um pensamento sobre “Nuit

  1. Luana disse:

    adorei esse!!

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