Fim

Foram 4 anos. Desde 01º de janeiro de 2009 que o Un Quimera esteve no ar. Mas pensei bastante e acabei resolvendo terminar por aqui o blog. Deixo essa pequena nota a título de informação e o blog ativo pra que todos os 375 posts possa ser revisitados. Valeu por tudo mundo que leu, comentou e divulgou..

Reflexões de fim de ano

Suprassumo do lúdico, dentro da esfera do cotidiano: sentir o cheiro da chuva, dentro da casa onde você nasceu e foi criado, ouvindo sua priminha conjugar os infantis e inconfundíveis verbos “apeitar” e “peider”.

Dá um “apeito” no peito perceber que com o tempo a gente vai “peidendo” toda essa leveza.

Penso que o que dá pra fazer é pelo menos tentar plasticizar toda essa concretude cinza que insiste em nos dominar.

Ah não, melhor não…

… das coisas pequenas e simples nunca se tiram soluções válidas, pra quê ficar se iludindo…

Rogério Arantes

QuimeraTube #72

Descobri esses dias o som desse cara e já tô curtindo pra caramba. De quebra ele ainda fala no blog dele sobre as corridas matinais virarem um lance filosófico… identificação total! haha

Toda Nudez Será Castigada

Nu.
De frente pro absurdo
e às voltas com a poesia
todo mundo é nu.

Nu.
Em pêlo, em casa, em vida
visceral e singularmente
todo mundo é nu.

Nu.
Duas letras: um som e um corpo
na hora da verdade
todo mundo é nu.

Nu.
Com medo e com malícia
na cachoeira da memória
todo mundo é nu.

Nu!

Rogério Arantes

QuimeraTube #71

Quatro meses atrás comecei a fazer aulas de tambor. Daria pra falar muito sobre o assunto, mas citei isso só pra contextualizar o vídeo do QuimeraTube de hoje. É uma canção do ritmo Congo (um dentre os vários ritmos do tambor mineiro), executada por alguns membros do Grupo Tambor Mineiro, de Belo Horizonte. Além do tambor, outros dois instrumentos de percussão são utilizados, o patangome (espécie de chocalo em forma circular) e a gunga (repare nas canelas dos músicos). É um som que carrega consigo toda uma tradição, que é muito visceral.

 

(groove absurdo!)

 

Quase Comentário

Ler é uma atividade muito prazerosa pra mim. Nos últimos anos (em especial nesse 2012), essa atividade foi tomando contornos cada vez mais exacerbados na minha vida. As leituras da faculdade, as leituras por conta própria, as leituras de artigos na internet, as leituras, leituras, leituras…

Dentre os vários “tipos” de leituras, uma para a qual eu tenho um carinho especial é aquela leitura recomendada por amigos. Quando o amigo que recomenda está distante, acho melhor ainda. Porém, como aludi acima, são tantas e tão importantes leituras, que acontece do amigo indicar a leitura, te emprestar o livro, e a leitura não ter tempo pra sair. O livro fica lá esperando, esperando e nada.

Foi mais ou menos isso que aconteceu com o livro Quase Memória, de Carlos Heitor Cony. Estava com ele há alguns meses e ainda não tinha conseguido fazer a leitura. Até que nessa semana resolvi deixar um pouco de lado as outras leituras e em uma semana e um dia, li a obra indicada com entusiasmo por um amigo.

Além de tudo, a leitura dessa obra me fez relembrar uma maneira de se ler que estava há muito esquecida por mim: a leitura sem lápis nem caneta na mão, a leitura deitado na cama, a leitura descompromissada (que não significa, de forma alguma, uma leitura desatenta ou menos criteriosa),  e que leitura boa é essa! E quando ela volta a tona com uma obra tão leve e tão curiosa como essa de Carlos Heitor Cony a coisa fica melhor ainda.

Quando acabei de ler pensei em escrever um breve comentário sobre, que se segue logo abaixo:

O romance Quase Memória, de Carlos Heitor Cony, é caracterizado pelo próprio autor, no subtítulo da obra, como um quase-romance. Talvez seja mesmo um romance que para no quase. A personagem central da obra é o pai do autor, Ernesto Cony Filho. E a indefinição se estamos lendo um romance ou uma biografia desse pai é uma das dicas para o quase-romance.

No entanto, o quase romance ou a quase memória de Cony filho não param em um quase que se mostra incapaz ou impossibilitado de levar ao leitor o todo que parece querer ser transmitido nessa obra.

Em cada um dos vinte e cinco capítulos que a compõem, um leitor mais desapercebido lê e encontra pequenas histórias e memórias de Carlos Heitor Cony, sobre sua própria vida e experiências, mas, em especial, sobre a vida, as peripécias, as particularidades, a incomum idiossincrasia, enfim, de seu pai, o também jornalista Ernesto Cony Filho.

O que o leitor mais desapercebido não deve conseguir captar é que todas essas histórias (desde as mais singelas, que versam sobre uma criação de galinhas de Ernesto Cony Filho, ou ao amigo deste, chamado Absalão, que costumava ir roubar mangas com ele no Cemitério do Caju, até histórias que envolviam todo o país, como a tentativa de articular uma candidatura à presidência, em 1930, do governador de Minas Gerais ou as mudanças em relação ao fazer jornalístico, causadas pela evolução tecnológica e publicitária) são na verdade fragmentos da memória de um jornalista que vê a sua vida repassar por sua mente em um dia.

Esse dia, por sua vez, com todas essas memórias, é contado em um livro. E é aí que se encontra toda a qualidade e leveza do quase-romance de Cony: para uma leitura mais atenta, o autor literalmente conta essas pequenas histórias e lembranças, e aí cada capítulo deixa de ser apenas mais um capítulo e transforma-se em um pequeno “causo”, um dedo de prosa – prática tão cara a um mineiro com eu – que se estende e não se pretende absoluto ou definitivo: quem disse que a memória consegue abarcar todos os acontecimentos de nossa vida? Estamos aqui situados em uma atmosfera de quase memória.

Dentre os vários, curiosos, engraçados e instigantes “causos” contados por Cony, muitos me chamaram a atenção, o principal deles talvez seja o do balão de São João, e de como se dava sua confecção (atividade que unia Cony pai e Cony filho e que despertou nesse uma profunda admiração e carinho por aquele), mas neste pequeno texto, que se pretende um breve comentário sobre a obra, a título de ilustração, quero destacar apenas um: a viagem (ou quase viagem) de Ernesto Cony Filho à Fiuggi, Itália.

Esse “causo” chega a ocupar até mais de um capítulo dentro da obra e fala de como Ernesto Cony Filho foi escolhido para ser o jornalista brasileiro a divulgar e conhecer in loco as milagrosas águas da desconhecida cidade de Fiuggi. O fato é que, na década de 30 do século passado onde o transporte e a tecnologia em geral eram bem diferentes das atuais, o jornalista teria que fazer uma viagem com várias escalas, saindo do Rio de Janeiro, indo à Piracicaba, Santos, Recife, Gênova, Roma e só depois chegar ao seu destino, Fiuggi.

Quando ele sai do Rio, todos a sua volta (família, colegas de trabalho, o Capitão Giordano, de Caporetto, figura especial dentro da obra) ficam meio que extasiados, com aquela admiração: nossa, ele vai mesmo à Itália! Porém, com uma engenhosidade e um humor finos, Carlos Heitor Cony mostra que toda essa animação acabaria dando com os burros n’água: seu pai não chegou sequer a sair do Brasil, no meio do traslado Santos-Recife, Mussolini toma o poder na Itália, várias pequenas tragédias acontecem e o cônsul que havia programado a ida de Ernesto Cony Filho à Fiuggi não manda mais em nada e resta para o jornalista voltar ao Rio de Janeiro.

Interessante é perceber que essa história em particular volta a ser mencionada no livro e com o detalhe de que Ernesto como que criou em sua mente e contou para várias pessoas uma real ida à Itália, o efeito cômico conseguido com isso é muito bacana.

Entre um “causo” e outro como esse a obra vai se desenrolando e passando ao leitor um pouco da trajetória de um dos grandes jornalistas brasileiros do século XX (assim como de tudo ao seu redor).

Uma lição de simplicidade e sagacidade. Injeção de ânimo pra quem, como Ernesto Cony Filho, pretende batalhar por e realizar as coisas grandes.

Primavera na Mente

As influências que cada um tem, creio eu, podem configurar-se em várias e inesperadas criações. A canção “Primavera nos Dentes” sempre me inspirou muito, desde a primeira vez que a escutei. Por vezes tentei escrever algum poema ou qualquer outra coisa que fizesse alusão à essa canção e toda a inspiração que ela me proporciona. Só o que obtive foram fracassadas e inacabadas tentativas. Eis que num momento de criação, escrevendo um poema que a princípio não era pra ter nada a ver com a canção dos Secos e Molhados, encontrei a possibilidade de colocá-la ali. O resultado disso segue abaixo:

Primavera na Mente

Pra abalar um pensador estático
somente um instante extático.
Pra valorizar a estética
é bom não abrir mão da Estética.
O valor de cada pequena e singela história
não precisa do crivo da História.
Tão distintos, tão distantes
são herois e também errantes.
Conceitos e signos tantos
que aceitam concepções outras.
Concepções tantas que geram
frutos e espinhos
nas mais diversas plantas
do verborrágico jardim intelectual.
Há quem segure a primavera nos dentes
– e pra esses todo respeito e admiração –
nós seguramos a primavera na mente.
Na busca constante por uma
experiência nova, viva e estridente.

Rogério Arantes

QuimeraTube #69

O disco novo do Curumin é uma coisa que eu não paro de escutar. Ele começa com o Afoxoque:

Le Rouge et Le Noir #22

O dono do restaurante do bairro é torcedor do Fluminense e ontem, na hora que eu fui pagar o almoço pra ele, ele logo me falou:

“-Amanhã vamos ganhar, hein!”

Acredito que esse caso particular pode ser universalizado com certa tranquilidade e ilustra bem o clima do jogo de hoje a noite, entre Flamengo x Atlético/MG. A partida, que fechará a 33ª rodada do Campeonato Brasileiro, envolve muita coisa e pode literalmente definir o campeonato.

No último post da série Le Rouge et Le Noir, falei justamente sobre a primeira partida entre Flamengo x Atlético/MG nesse campeonato, que foi adiada disputada um mês atrás. Naquela ocasião, jogando em um Engenhão lotado e inflamado o Flamengo conseguiu vencer o Galo por 2 x 1, e além de ter colocado em si mesmo uma injeção de moral, serviu de ajuda também para o Fluminense, foi nesse momento que o Tricolor carioca abriu a vantagem que tem hoje, e o Atlético/MG ficou para trás na briga pelo título.

Passa-se um mês, e depois do eletrizante duelo entre os líderes, com vitória do Galo por 3 x 2, Flamengo e Atlético/MG voltam a se enfrentar, dessa vez no caldeirão do Independência, e mais uma vez, em caso de vitória rubro-negra, além de um ânimo para o próprio Flamengo (que praticamente se veria livre de uma vez por todas do rebaixamento) o título do Fluminense ficaria incrivelmente próximo.

Portanto, o jogo de hoje a noite mobilizará não só as duas torcidas que verão seus times em campo, mas todas as torcidas do campeonato. Isso dá maior visibilidade para a partida e maior responsabilidade para ambas as equipes.

A tímida, irregular e desinteressante campanha do Flamengo nesse Brasileirão poderia ficar marcada de forma positiva em caso de vitória hoje a noite. O Flamengo ficaria com a fama (e que fama boa seria essa) de ter “tirado”, pelo menos moralmente, o título do Atlético/MG de Ronaldinho Gaúcho. A fila do Galo sem títulos brasileiros chegaria aos 41 anos. Em caso de derrota, o campeonato continuaria aberto, e o Flamengo só confirmaria essa campanha tímida, irregular e desinteressante.

Longe de aceitar isso passivamente, e longe de pensar que esse tipo de campanha condiz com a história do Flamengo, penso que a realidade é essa, a equipe de fato não se acertou em momento algum na competição (no ano, pra ser mais preciso). Esses jogos finais, penso eu, devem ser encarados como testes para jogadores que não foram muito bem aproveitados, as chances de rebaixamento são mínimas, mais duas vitórias, ou até mesmo uma vitória e um empate já devem excluir qualquer possibilidade de queda para a segunda divisão, então agora é experimentar mesmo e já mirar uma reformulação geral, que PRECISA acontecer em 2013.

A última partida verdadeiramente interessante (tem os clássicos nas duas rodadas finais, mas ainda assim…) é a de hoje. A rivalidade com o Galo está cada vez mais acirrada e os rumos do campeonato podem ser alterados dependendo do resultado de hoje. Então pra alegria minha, do dono do restaurante do bairro e de muitos outros torcedores, vai pra cima deles, Mengo!

SRN